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ACORDEM

A sociedade do consumo ou do desperdício?

Por vir ao encontro do que penso, relativamente à nossa mudança obrigatória contra o traiçoeiro consumismo, transcrevo um artigo do grupo “O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente”, relativo ao dia 15 de Março, dia Dia Mundial dos Direitos do Consumido.

A sociedade do consumo ou do desperdício?

Lisboa, 14 de Março de 2011

O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, como organização dedicada ao ambiente, mas também à sua interacção com o homem e com a sociedade, vem no Dia Mundial dos Direitos do Consumidor (15 de Março) alertar para o rumo errado seguido pela sociedade actual: em direcção a um consumo cada vez mais veloz, insatisfeito, injusto, insustentável e que não pesa as consequências sociais e ambientais na voracidade com que são gastos os recursos ambientais, territoriais e humanos que suportam este estado de coisas.

Os cidadãos são diariamente encurralados entre as exigências do mercado de trabalho e os ditames da publicidade e do mercado de consumo, nalguns casos, com preços artificialmente baixos, deslumbrados com bens e serviços que não precisam e que deixam uma pequena margem para a identidade, felicidade e realização pessoal, na busca incessante por objectos caros e não essenciais — brinquedos, gadgets, bugigangas — obrigando a um gasto excessivo para manter a aparência da modernidade, da juventude, da novidade e da pertença ao grupo. Rapidamente, estes objectos vão engrossar a quantidade de lixo existente. Apesar de todas as políticas de gestão de resíduos, não reduzimos a taxa de produção de lixo, o qual é cada vez mais difícil de eliminar de forma sustentável.

O actual sistema de crescimento económico constante, vendido como um imperativo que advém da estrutura das instituições basilares das sociedades ocidentais, cria chagas económicas crescentes: activos “tóxicos”, dívidas crónicas, créditos para além da capacidade de endividamento dos cidadãos, dívida externa ultrapassando a capacidade de produção de riqueza, tendência de concentração entre empresas privadas. Todos estes fenómenos reduzem as opções dos cidadãos e dos governos e promovem padrões de consumo insustentáveis.

O que acontece quando o crescimento pára? Não conseguimos pagar as dívidas, o crédito torna-se insustentável e o desemprego cresce. Mas todo o lixo que foi produzido, todos os impactes e passivos que alimentaram esses mercados, todos os problemas ambientais gerados pelas más opções económicas, pela visão de curto prazo, pelos “elefantes brancos” dos grandiosos empreendimentos públicos ou em parcerias público-privadas, permanecem.

O Estado tem o dever de ajudar a formar o cidadão consciente diminuindo a assimetria da informação deste. Deve informar o consumidor de todas as implicações do consumo, e divulgar como este nível de consumo excessivo está a afectar o planeta e a ameaçar a sociedade. E, no mesmo sentido, deve auxiliar na autonomia da decisão face aos ditames da moda e do mercado. Cada gesto de consumo tem implicações sociais, económicas e ambientais.

O papel das empresas é igualmente importante: devem ser responsáveis e desenvolver campanhas éticas que respeitem os consumidores através da transparência, sustentabilidade, rigor e sentido cívico dos bens que promovem. O comportamento ético na actividade publicitária, se não se impuser pela auto-regulação, deverá ser imposto por institutos reguladores, para que essa actividade, se não promover estilos de vida sustentáveis, pelo menos não promova práticas insustentáveis. O papel do ICAP – Instituto Civil da Autodisciplina da Comunicação Comercial deverá ser reforçado, para o tornar mais presente e útil à sociedade na via do desenvolvimento sustentável, ou então extinto na contribuição para a redução do défice das finanças públicas.

Os consumidores têm de conhecer o seu poder e saber que todos juntos e individualmente podem e devem fazer a diferença, conduzindo a uma economia mais saudável. Bastam algumas alterações no estilo de vida e opções de compra. Reclamar, exigir do Estado e das instituições públicas mais informação e transparência, exigir que dêem também o exemplo nas compras públicas, é uma tarefa do cidadão consciente. Exigir um maior rigor na regulação da publicidade, deverá ser também uma das suas premissas.

Os consumidores têm que saber as consequências das suas escolhas de consumo, mobilidade e território. O civismo e o comportamento ético na estrada, no estacionamento, no uso de transportes públicos, na compra de equipamentos energicamente eficientes, na escolha de produtos locais, na redução dos consumos insanos de produtos importados, na preferência de produtos de base local e da época, com pouca embalagem e transporte, são paradigmas do cidadão consumidor consciente. Estes comportamentos contribuem positivamente para a sociedade também do ponto de vista económico, poupando os seus próprios recursos financeiros e o Ambiente, ao mesmo tempo que promove a dinamização das economias locais, fazendo capitalizar os recursos endógenos, os valores ambientais, a identidade das cidades e do território de modo sustentável. As escolhas conscientes contribuem também para sociedades energicamente mais independentes de combustíveis fósseis, importados e poluidores.

A solução para a(s) crise(s) passa também pelos cidadãos e pelas suas escolhas, de uma forma muito mais abrangente que o voto nos períodos eleitorais ou a assinatura de uma ou outra petição à Assembleia da República (não menosprezando estes instrumentos essenciais). A solução passa acima de tudo pelas escolhas de estilo de vida e de consumo, pelo comportamento e pelo exemplo.

Assim, aos cidadãos consumidores, pergunta-se: querem fazer parte da crise ou da sua solução?

GEOTA, Lisboa, 14 de Março de 2011

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This entry was posted on 17 de Março de 2011 by in Portugal and tagged .

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