A Arte da Omissao

Islândia: Uma lição para o Mundo

Desde o deflagrar da crise financeira de 2008 até aos dias de hoje, ninguém se atreveu a dizer “não” aos criminosos banqueiros. Falso. Há uma excepção. A Islândia destaca-se de todo o mundo.

A Islândia antes da crise financeira, era uma democracia estável com um bom padrão de vida e com um nível baixo de desemprego. Tinham energia limpa, uma boa produção interna de alimentos e bons sistemas de saúde e de educação. Mas há sempre um MAS.

Em 2000, o governo iniciou uma politica de desregulação que terminou em bancarrota. Corroborando o que John Perkins relata acerca dos meios que usava quando era um criminoso económico, a Islândia cede a uma desses  acções, e permite que Multinacionais (ex: Alcoa) construíssem fábricas gigantes de fundição de alumínio e que explorassem as suas fontes naturais geotérmicas e hidroeléctricas.

Ao mesmo tempo, o governo privatiza os três maiores bancos – Kaupthing,  Landsbanki e Glitnir. Seus principais clientes eram britânicos e americanos.  A moeda oficial cai, a bolsa suspende a sua actividade após uma queda de 76%. Em 5 anos, estes pequenos bancos, que não operavam no exterior, emprestaram 120 biliões de dólares, (10 vezes o tamanho da economia islandesa).

Os banqueiros “brincavam” com o dinheiro dos depositantes. A Islândia foi à falência e para a salvar, o Fundo Monetário Internacional (FMI) injectou 2.100 milhões de dólares e os países nórdicos ajudaram com mais de 2.500 milhões de euros.

O povo islandês saiu pacificamente para a rua, e através de persistentes manifestações diárias em frente ao parlamento em Reykjavik, força o primeiro-ministro Geir H. Haarde e o governo a renunciarem em bloco. Conseguem igualmente que se realizem eleições antecipadas. Em Abril, a  nova Ministra Johanna Sigurdardottir, passa a chefiar um governo de coligação formado pela Aliança Social Democrata e Movimento Esquerda Verde.

Em 2009, a economia islandesa continuou em situação difícil,  mas apesar disso, o Parlamento propôs pagar a dívida de 3.500 milhões euros à Grã-Bretanha e Holanda, num montante a ser pago mensalmente pelas famílias islandesa durante 15 anos com juros de 5,5%. A  ira dos islandeses surge de novo. Regressam às ruas e  exigiram que essa decisão fosse submetida a um referendo. Mais outra grande vitória dos protestos de rua: em Março de 2010, o referendo dita que 93% da população recusa-se a pagar a dívida, pelo menos naquelas condições.

Esta atitude fez com que credores pensassem duas vezes e apresentaram nova proposta, que consistia em juros de 3% e pagamento a 37 anos. O actual presidente, ao ver que o Parlamento  tinha aprovado o acordo por uma margem estreita, decidiu no mês passado não o aprovar. Os islandeses foram de novo chamados a votar num referendo, para que tivessem a última palavra.

Os islandeses recusam o pagamento da dívida contraída pelos tubarões financeiros sem eles terem sido ouvidos. O governo de coligação por sua vez, lança uma investigação para apurar responsabilidade legais  e coloca na prisão vários banqueiros e altos executivos, directamente ligados às operações de risco. A  Interpol, entretanto  já tinha emitido um mandado internacional de captura contra o residente do Parlamento, Sigurdur . Banqueiros e executivos, assustados, deixam o país em massa.

Uma nova Assembleia é eleita para elaborar a  nova Constituição, na  qual se aplicaram  as lições aprendidas.

A Islândia deu uma lição de cidadania, de justiça e de isenção ao Mundo. Mas foi mais além. As novas leis foram definidas com o apelo directo ao povo soberano. Cerca de 500 islandeses foram candidatos a participar neste exercício de democracia directa de redigir uma Constituição, dos quais foram eleitos 25 cidadãos sem filiação partidária, que incluem advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais …

A nova Constituição protege, como nenhuma outra, a liberdade de informação e expressão, com a chamada “Icelandic Modern Media Initiative, (IMMI)]”. Este  projecto de lei visou tornar o país num porto seguro para o jornalismo de investigação e liberdade de informação, com protecção das  fontes, jornalistas e fornecedores de internet que alojam órgãos de informação.

De referir neste processo a acção importante do Wikileaks. Assim como vários cidadãos islandeses, Hrafnsson, então jornalista empregado da RUV, rádio nacional da Islândia, tomou conhecimento da existência de WikiLeaks quando distribuiu documentos do já defunto Banco Kaupthing,  dez meses antes da sua falência. Os documentos comprovam que o banco emprestara bilhões de dólares aos seus próprios executivos e a empresas acionistas. Imediatamente depois, ainda sob o impacto do escândalo, Hrafnsson ajudou a organizar o movimento que ficou conhecido em português como “A Iniciativa Moderna para a Mídia da Islândia” [Icelandic Modern Media Initiative, (IMMI)].

Passem esta história para ser conhecida em todos os cantos do mundo. Que esta sede de mudança, sem medos, tome conta da Humanidade. Não é demagogia. Na Islândia, não foram os islandeses que tiverem de fugir do seu país. Foram os criminosos.  Isto só pode significar alguma coisa.

 

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This entry was posted on 29 de Março de 2011 by in Islândia and tagged , , , , .

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