A Arte da Omissao

2) Somália – A pirataria da pesca ilegal

Mohamed Abshir Waldo, jornalista proeminente somali e activista político, publicou em Janeiro de 2009 o

THE TWO PIRACIES IN SOMALIA: WHY THE WORLD IGNORES THE OTHER?

Dois terroristas na Somália: Porque  é que o mundo ignora o outro?

 

A pirataria da pesca ilegal

O outro estrago  em termos económico, ambiental e de segurança, é a enorme pirataria de pesca estrangeira ilegal que furtivamente tem destruindo os recursos marinhos somalis nos últimos 18 anos, após o colapso do regime Somali em 1991. A “comunidade internacional”, com os seus habituais padrões duplos quando tais questões dizem respeito a África, sai em força para condenar e declarar guerra contra os piratas pescadores somalis, enquanto discretamente protege as numerosos  frotas  de pesca Ilegal, Não Declarada e Não regulada (Illegal, Unreported and Unregulated (IUU)), vindas da Europa, Arábia e Extremo Oriente.

As tendenciosas resoluções da ONU, as ordens das grandes potências e novos relatórios, continuam a condenar os sequestros de navios comerciais por piratas somalis no Oceano Índico e no Golfo de Aden. Se a resposta às duas ameaças de pirataria, fosse equilibrada e justa, estas condenações teriam sido justificadas. A União Europeia (UE), Rússia, Japão, Índia, Egipto e Iémene estão todos envolvidos nesta campanha de pirataria, principalmente para encobrirem e protegerem as suas frotas de pesca ilegal em águas somalis.

Nestas campanhas de propaganda barulhentas sobre pirataria, porque é que a pirataria da pesca IUU é ignorada? Por que é que as resoluções da ONU, as ordens da Nato e os decretos da UE sobre a invasão dos mares Somali falham ao não incluírem a protecção dos recursos marinhos Somali das violações IUU nas mesmas águas? Não é só esta pirataria de pesca ultrajante que é desconsiderada, os caçadores marinhos estrangeiros ilegais, estão a ser encorajados a continuarem o seu saque, porque  nenhuma das actuais resoluções, ordens e decretos se aplicam à pesca IUU,  podendo livremente pescar e violar os mares Somali. Os pescadores somalis já não podem espantar os IUUs, com medo de serem rotulados de piratas e serem atacarem pelos navios estrangeiros,  que ilegalmente controlam as águas da Somália. Até mesmo o comércio tradicional, “dhows”, está em pânico, por poder ser confundido com os piratas.

a) A ameça IUU  e a práctica do branqueamento da pesca

Não existem dúvidas que a pesca IUU é um problema global grave. De acordo com a High Seas Task Force (HSTF), a pesca IUU não respeita fronteiras nacionais nem soberanias, aplica uma pressão insustentável sobre os stocks da vida marinha e habitats, subverte padrões de trabalho e, distorce os mercados.

A HSTF refere:

“A pesca IUU é prejudicial para os ecossistemas marinhos, porque ignora as regras destinadas a proteger o ambiente marinho, como as restrições a colheita juvenis e a modificação da arte da pesca projectada para minimizar as capturas de espécies não alvo dela … Ao perpetuar a pesca IUU, estão a roubar uma fonte de proteína inestimável a algumas das pessoas mais pobres do mundo e arruínam a subsistência de pescadores legítimos: as incursões dos arrastões nas zonas costeiras reservadas à pesca artesanal, podem resultar em colisões com os barcos da pesca local, na destruição dos equipamentos de pesca e na morte de pescadores”

No seu relatório, «Closing the Net: Stopping Illegal Fishing on the High Seas» (fechar a rede: parar a pesca ilegal no alto mar -Ndt), a HSTF regista o valor da pesca IUU em todo o mundo, entre os US $4 e  US $9 biliões, grande parte oriunda da África abaixo do Sara  e em particular da Somália.

Escreve HSTF:

A prática da pesca IUU permite o branqueamento através dos navios fábricas, dos navios de transbordo e dos navios de reabastecimento no mar. “Isso significa que os navios podem permanecer no mar por meses, reabastecendo e  rodando às tripulações. Os navios da pesca IUU nunca precisam de entrar nos portos,  porque eles transferem o seu pescado para os navios de transporte. Peixe ilegalmente capturado é  misturado com peixe capturado legalmente nos navios de transporte”.

Aparentemente, o branqueamento  da pesca, que  gera centenas de milhões de dólares no mercado negro não é tão criminoso como a lavagem de dinheiro! Nos países usados para a lavagem da pesca Somali, podemos encontrar  Seychelles, Maurícia e Maldivas.

Como a UE fechou grande parte de suas águas de pesca,   entre 5 a 15 anos,  para a regeneração de peixes, assim como Ásia o fez sobre os pescados nos seus mares, aumentou a procura internacional por produtos marinhos nutritivos e devido ao medo que a escassez de alimentos em todo o mundo cresça, ao mares ricos, descontroladas e desprotegidos da Somália, tornaram-se  alvo das frotas de pesca de muitas nações.

Inquéritos levados a cabo pela Nações Unidas, assessores russos e espanhóis, pouco antes do colapso do Barre Regime em 1991, estimaram que 200 000 toneladas de peixe por ano poderiam ser capturadas tanto pela pesca artesanal como pela  industrial, e este é o objectivo da pesca internacional.

Não há dúvidas que as acções dos piratas dos navios são condenáveis e este livro não procura justificar ou explicar as suas acções. A pirataria tem de ser parada. Mas será improvável a sua resolução, sem pararem igualmente com a pirataria fraudulenta da pesca IUU.

Parte 1   Parte 2   Parte 3  Parte 4

4 comments on “2) Somália – A pirataria da pesca ilegal

  1. Elias
    9 de Setembro de 2011

    O ser humano, é a única falha do criador!

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    • urantiapt
      10 de Setembro de 2011

      Efectivamente é o paradoxo do Ser tecnicamente evoluído mas humanamente pior que o homem das cavernas.

      Gostar

  2. Pingback: 3) Somália – A origem da guerra à pirataria Somali « A Arte da Omissao

  3. Pingback: 4) Somália – Reclamações da Somália e Recursos sobre pesca ilegal « A Arte da Omissao

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This entry was posted on 5 de Maio de 2011 by in Afinal Quem é Terrorista?, Pesca IUU, Somália and tagged , .

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