A Arte da Omissao

Os exércitos secretos da NATO (2)

PREFÁCIO

“No auge da guerra fria, existiu efectivamente uma linha da frente na Europa. Winston  Churchill uma vez chamou-a de cortina de ferro. Referiu que ia desde Szczecin no mar Báltico até Trieste no mar Adriático. Ambos os lados, implantaram o poder militar ao longo desta linha, na expectativa de um grande combate. As potências ocidentais da Europa, criaram a Nato, precisamente para lutarem na tal esperada guerra. A União Soviética e o  bloco soviético após os anos 50, tinham um maior número de tropas,  de tanques, aviões, armas e outros equipamentos.

Não pretendo tecer análises do equilíbrio militar, nem dissecar questões quantitativos versus qualitativos, ou de tácticas rígidas versus flexíveis. Em vez disso, o ponto que quero salientar, é que durante muitos anos houve uma certa expectativa em que o maior número prevaleceria e que os soviéticos poderiam ser capazes de tomar toda a Europa.

Fazer planos para o dia em que a guerra fria ficasse “quente”, dada à esperada ameaça soviética, originou necessariamente o pensamento de como combater uma ocupação militar russa na Europa Ocidental. A imediata comparação com a segunda guerra mundial foi sugerida, quando movimentos de resistência em muitos países europeus tinham atormentado os ocupantes nazistas. Em 1939-1945 a forças da resistência antinazista tiveram de ser improvisadas.

Os agentes fundadores das redes “stay-behind (1)” foram a Agência Central de inteligência (CIA) dos Estados Unidos e o Serviço de inteligência Secreta (SIS ou MI6) do Reino Unido. Outros actores principais incluíam também os serviços de segurança de vários países europeus. Em todos os casos, foram usadas sempre técnicas idênticas. Os serviços de inteligência fizeram um esforço para estabelecer redes distintas para espionar os ocupantes, ou seja, para espionar,  para sabotar, ou subverter uma ocupação inimiga.

Para estabelecer as redes “stay-behind”, a CIA e outros, recrutaram  indivíduos dispostos a participar nessas actividades perigosas, permitindo-lhes  por muitas vezes que recrutassem  outros subagentes adicionais. Os serviços de Inteligência, forneceram algum treino, munições, equipamentos de rádio e outros itens para suas rede, e estabeleceram canais regulares de contacto.  O grau de cooperação em alguns casos variava na condução de exercícios com unidades militares ou forças paramilitares. O número de recrutas para os XI exércitos secretos, variavam entre dezenas em algumas nações e centenas ou mesmo milhares noutras.

A causa da resistência foi sempre óbvia. Observadores da  Guerra Fria secreta, assumiram a existência  de redes “stay behind”. Existem também referências a redes “stay behind” nas memórias de espiões e mesmo em livros. No Verão de 1990, após o colapso do domínio de regimes Soviéticos na Europa Oriental, mas antes da final desintegração da União Soviética, o Governo italiano tornou público a existência de uma rede desse tipo no país. Ao longo dos anos, foram recorrentes as revelações referentes a redes semelhantes em muitos países europeus, e em alguns países tem havido investigações oficiais.

Pela primeira vez neste livro, Daniele Ganser reúne a história das redes italianas que vieram a chamar-se  de ‘gladio’. É uma história perturbadora. A noção de projecto nos serviços da inteligência, começou sem dúvida, como um esforço para criar forças que permanecessem quietas até que a guerra os colocasse em jogo. País  atrás de país, encontramos os mesmos grupos de indivíduos ou de células, originalmente activados para uma função durante a guerra, a treinar as suas forças em processos políticos  em tempo de paz. Às vezes, esses esforços envolviam violência, até mesmo o terrorismo e, por vezes, os terroristas fizeram uso de equipamentos fornecidos para as suas funções na guerra fria.”

(1) Numa operação  “stay behind”, um país colocou agentes secretos ou organizações no seu próprio território, para serem utilizados no caso de invasão do  território por um inimigo. Se a invasão ocorresse, os agentes secretos formariam de imediato a base de um movimento de resistência, ou poderiam actuar como espiões por trás das linhas inimigas. Operações de pequena escala cobriam apenas pequenas áreas, mas maiores operações “stay behind” levaram,  países inteiros a serem vencidos.

Pior ainda, os serviços de segurança e policiais, em inúmeros casos, escolheram proteger os autores dos crimes para preservarem as suas capacidades  dentro da guerra fria. Estas últimas acções resultaram na efectiva repressão do conhecimento acerca da rede Gladio, muito tempo depois das suas actividades  se tornarem não só contraproducentes  como perigosas.”


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This entry was posted on 19 de Maio de 2011 by in Nato and tagged , , , , .

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