A Arte da Omissao

Líbia : “Operação Líbia” e a batalha pelo petróleo: o redesenhar do mapa da África

Nota do tradutor: links indicados dentro de « » e  realces desta cor, são da minha responsabilidade

Tradução do artigoOperation Libya” and the Battle for Oil: Redrawing the Map of Africa

de Prof Michel Chossudovsky

de  9 de Março de 2011

 Nota do autor: Michel Chossudovsky, a 9 de Março de 2013

O seguinte artigo foi publicado há dois anos, a 9 de Março de 2011, no início da intervenção dos EUA/NATO na Líbia. As reservas de petróleo da Líbia são duas vezes maiores que as dos Estados Unidos.

Em retrospectiva. A guerra liderada pelos EUA e NATO na Líbia em 2011,  foi um troféu de vários triliões de dólares para os Estados Unidos. Também foi, conforme descrito no artigo, um meio para estabelecer a hegemonia dos EUA no norte da África, região historicamente dominada pela França e, em menor escala, pela Itália e  Espanha.

A intervenção dos EUA e da NATO também teve a intenção de excluir a China da região e afastar a National Petroleum Corp da China (CNPC), a qual foi uma peça importante na Líbia.

A Líbia é a porta de entrada para a região africana Sahel (faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5 400 km de extensão, entre o deserto do Saara, ao norte, a savana do Sudão, ao sul; e entre o oceano Atlântico, a oeste, e o mar Vermelho, a leste – Ndt) e África Central. O que está em jogo é a redesenho do mapa da África à custa das esferas de influência da França, nomeadamente o processo de divisão neocolonial.

As implicações geopolíticas e económicas da intervenção militar dos EUA/NATO, dirigida contra a Líbia serão profundas. A Líbia está posicionada entre as maiores economias de petróleo,  com cerca de 3,5% das reservas mundiais, mais do dobro comparadas com as dos Estados Unidos.

A “Operação Líbia“ faz parte de uma agenda militar abrangente dos USA para o Médio Oriente e Ásia Central,  e que  consiste em ganhar o controlo e propriedade corporativa de mais de sessenta por cento das reservas mundiais de petróleo e gás natural, incluindo as rotas dos gasodutos e oleodutos.

“Países muçulmanos, incluindo a Arábia Saudita, Iraque, Irão, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar, Iémen, Líbia, Egipto, Nigéria, Argélia, Cazaquistão, Azerbaijão, Malásia, Indonésia, Brunei, possuem entre 66,2 a 75,9% das reservas de petróleo total, dependendo da fonte e metodologia da estimativa.“ (Consultar Michel Chossudovsky, The “Demonization” of Muslims and the Battle for Oil, Global Research, 4 de Dezembro de 2007).

Com 46,5 biliões de barris de reservas confirmadas, (10 vezes mais que as do Egipto), a Líbia é a maior economia de petróleo no continente africano, seguida pela Nigéria e Argélia (é só ver o que se passa também nestes dois países – Ndt). Em contraste, as reservas confirmadas de petróleo dos USA são cerca de  20,6 biliões de barris (em Dezembro de 2008) de acordo com a Energy Information Administration.  U.S. Crude Oil, Natural Gas, and Natural Gas Liquids Reserves

 

As estimativas mais recentes colocam as reservas de petróleo da Líbia em 60 biliões de barris. Suas reservas de gás em 1500 biliões de metros cúbicos. A sua produção tem sido entre os 1,3 e 1,7 milhões de barris por dia, bem abaixo da sua capacidade produtiva. O seu objectivo a longo prazo é de três milhões de barris por dia  e uma produção de gás de 2600 milhões de metros cúbicos por dia, de acordo com números da National Oil Corporation (NOC).

Uma  pesquisa estatística de energia  (alternativa) da BP (em 2008), colocou as reservas de petróleo comprovadas da Líbia em 41,464 biliões de barris no final de 2007, o que representa 3,34% das reservas comprovadas do mundo. (Mbendi Oil and Gas in Libya – Overview).

Petróleo é o “troféu” das guerras lideradas pelos EUA/NATO

A invasão da Líbia sob um mandato humanitário, serve os mesmos interesses corporativos que a invasão e ocupação do Iraque em 2003. O objectivo subjacente é tomar posse das reservas de petróleo da Líbia, desestabilizar a National Oil Corporation (NOC) e eventualmente privatizar a indústria de petróleo do país, ou seja, transferir o controlo e a propriedade da riqueza em petróleo da Líbia para mãos estrangeiras(Consultar «John Perkins». Ele, na qualidade de ex assassínio económico explica como esta operação de “roubar” os recursos de outras nações é desencadeada – Ndt)

National Oil Corporation (NOC) ocupa o 25º lugar entre as 100 empresas top de petróleo do mundo. (The Energy Intelligence ranks NOC 25 among the world’s Top 100 companies. – Libyaonline.com)

A planeada invasão da Líbia, a qual já está em andamento faz parte da ampla “batalha pelo petróleo“. Perto de 80% das reservas de  petróleo da Líbia estão localizadas no Golfo de Sirte. (Ver mapa abaixo)

Concessões de petróleo da Líbia

A Líbia é uma economia rica. “A guerra é boa para os negócios”. Petróleo é o “troféu” das guerras lideradas pelos EUA/NATO. Wall Street, os gigantes do petróleo anglo americanos, os produtores de armas dos EUA-UE serão os beneficiários  não mencionados da campanha militar  EUA/NATO dirigida contra a Líbia.

O petróleo líbio é uma pechincha para os gigantes do petróleo anglo americanos. Enquanto o valor de mercado do crude está actualmente bem acima dos 100 dólares por barril, o custo do petróleo líbio é extremamente baixo, tão baixo quanto o $ 1.00 por  barril (de acordo com uma estimativa). Tal como um especialista deste mercado comentou:

A $110 no mercado mundial, a matemática simples dá à Líbia uma margem de lucro de US $109.” (Libya Oil, Libya Oil One Country’s $109 Profit on $110 Oil, EnergyandCapital.com 12 Março de 2008)

Interesses petrolíferos estrangeiros na Líbia

Nas empresas petrolíferas estrangeiras que já operavam antes da insurreição incluem-se as: France’s Total, Italy’s ENI, The China National Petroleum Corp (CNPC), British Petroleum, the Spanish Oil consortium REPSOL, ExxonMobil, Chevron, Occidental Petroleum, Hess, Conoco Phillips. A China desempenha um papel central na indústria do petróleo líbio. A China National Petroleum Corp (CNPC), tem uma força de trabalho que ronda os 400 funcionários. O total de trabalhadores chineses na Líbia ronda os 30000.

Onze por cento (11%) das exportações de petróleo da Líbia são canalizadas para a China. Embora não se conheçam ainda os valores sobre a importância das actividades de exploração e a produção da CNPC, há indícios de serem consideráveis.

Washington considera a presença da China no norte de África como uma intrusão. Do ponto de vista geopolítico, a China é um invasor. A campanha militar contra a Líbia mascara a intenção de excluir a China do Norte da África.

Também é importante o papel da Itália. ENI, o consórcio de petróleo italiano exporta 244,000 barris de gás e petróleo, que representam quase 25% das exportações totais da Líbia. (Sky News: Foreign oil firms halt Libyan operations, 23 de Fevereiro de 2011).

Entre as empresas Americanas na Líbia, as Chevron e Occidental Petroleum (Oxy) decidiram à cerca de 6 meses (Outubro de 2010) não renovar as suas licenças de exploração de petróleo e gás na Líbia. (Why are Chevron and Oxy leaving Libya?: Voice of Russia, 6 de Outubro de 2010)

A contrastar, em Novembro de 2010, uma empresa de petróleo da Alemanha, R.W.DIA E, assinou um acordo com a Líbia National Oil Corporation (NOC), que envolve a partilha da exploração e produção. AfricaNews – Libya: German oil firm signs prospecting deal – The AfricaNews, 

As apostas financeiras, bem como “os despojos da guerra” são extremamente elevados. A intenção da operação militar é desmantelar as instituições financeiras da Líbia, bem como confiscar biliões de dólares em activos financeiros líbios depositados em bancos ocidentais.É de salientar também que as capacidades militares da Líbia, incluindo o seu sistema de defesa aérea são fracas.

Redesenhar o mapa da África

A Líbia tem a maior reserva de petróleo na África. O objectivo da interferência da U.S.A/NATO é estratégico: consiste em roubar a totalidade da riqueza em petróleo de um  país, sob o disfarce de uma intervenção humanitária.

A operação militar pretende o estabelecimento de hegemonia da U.S.A na África do Norte, região historicamente dominada pela França e em menor escala pela Itália e Espanha.

No que diz respeito à Tunísia, Marrocos e Argélia, o desejo de Washington é enfraquecer as relações políticas destes países com a França, e empurrar a implantação de novos regimes políticos que tenham uma relação estreita com os Estados Unidos. O enfraquecimento da França faz parte do desejo imperial da USA. É um processo histórico que remonta às guerras da Indochina.

A Intervenção EUA/NATO, que pode levar à eventual formação de um regime de marionetas dos EUA, pretende também tirar a China da região e afastar a China’s National Petroleum Corp (CNPC). As gigantes petrolíferas anglo-americanas, incluindo a British Petroleum, que assinaram um contrato de exploração em 2007 com o governo de Ghadaffi, estão entre os potenciais “beneficiários” da operação militar proposta pelos EUA e NATO.

Mais genericamente, o que está em jogo é o redesenhar do mapa da África, um processo de divisão neocolonial, a demolição das delimitações da Conferência de Berlim de 1884, a conquista da África pelos Estados Unidos em aliança com o Reino Unido, numa operação liderada pelos EUA e NATO.

A divisão colonial da África. 1913

Líbia: porta saariana estratégica para a África Central

Líbia tem fronteiras com vários países que se encontram na esfera de influência da França, incluindo a Argélia, Tunísia, Níger e Chade. Chade é potencialmente uma economia rica em petróleo. As ExxonMobil e Chevron têm interesses no sul do Chade, onde incluem um projecto de oleoduto. O sul do Chade é uma porta de entrada para a região de Darfur, região do Sudão, que também é estratégica em virtude da sua riqueza em petróleo.

A China tem interesses petrolíferos no Chade e Sudão. A China National Petroleum Corp (CNPC) assinou um acordo  com o governo do Chade em 2007.

O Níger é estratégico para os Estados Unidos devido às suas extensas reservas de urânio. Neste momento, a França domina a indústria de urânio no Níger, através do conglomerado nuclear francês Areva, anteriormente conhecido como Cogema. A China também tem uma participação na indústria de urânio do Níger.

A fronteira sul da Líbia é estratégica para os Estados Unidos na sua busca de estender a sua esfera de influência na África francófona, vasto território que se estende do norte da África à África central e ocidental. Historicamente esta região fez parte dos impérios coloniais da França e da Bélgica, e as fronteiras foram estabelecidas na Conferência de Berlim de 1884.

Os Estados Unidos desempenharam um papel passivo na Conferência de Berlim de 1884. Esta nova divisão do continente africano no século XXI, pressupõe o controlo do petróleo, gás natural e minerais estratégicos (cobalto, urânio, cromo, manganésio, platina e urânio), e em grande escala suporta os interesses das corporações dominantes anglo-americanas.

A interferência americana no norte de África, redefine a geopolítica de toda a região. Mina a China e ofusca a influência da União Europeia.

Esta nova divisão da África não só enfraquece o papel das antigas potências coloniais (incluindo França e Itália) no norte de África, como também faz parte de um processo mais amplo de deslocar e enfraquecer a França (e Bélgica) numa grande parte do continente africano.

Os regimes fantoches americanos, foram instalados já em vários países africanos que historicamente eram da esfera de influência da França (Bélgica), incluindo a República do Congo e Ruanda. Vários países da África Ocidental (incluindo a Costa do Marfim) estão programados para se tornarem agentes dos Estados Unidos.

A União Europeia está fortemente dependente do fluxo de petróleo líbio. 85% do seu petróleo é vendido a países europeus. No caso de uma guerra contra a Líbia, o fornecimento de petróleo à Europa Ocidental poderá ser perturbado, afectando principalmente a  Itália, França e Alemanha. Trinta por cento do petróleo da Itália e 10% do seu gás são importados da Líbia, que é alimentado através do gasoduto Greenstream no Mediterrâneo. (veja mapa em baixo)

As implicações destas possíveis interrupções são profundas e também terão um impacto directo sobre a relação entre os EUA e a União Europeia. (sinceramente não creio!- Ndt)

Observações finais

Os media convencionais, através da maciça desinformação é cúmplice da justificação da agenda militar que, se realizada, terá consequências devastadoras não só para o povo líbio: os impactos sociais e económicos serão sentidos em todo o mundo.

Existem no presente, três distintos teatros de guerra na região mais ampla  do Médio Oriente e Ásia Central: Palestina, Afeganistão, Iraque. No caso de um ataque à Líbia, um quarto teatro de guerra no norte de África, surgirá  com o risco de uma escalada militar.

A opinião pública deve ter em conta a agenda escondida por trás desse alegado empreendimento humanitário, anunciado pelos chefes de Estado e chefes de governo dos países da NATO como uma “Guerra Justa”.

A teoria da Guerra Justa nas suas versões clássicas e contemporâneas, é  sustentada como uma “operação humanitária”. Exige a intervenção militar com bases éticas e morais contra “Estados desonesto” e “terroristas islâmicos”. A teoria da Guerra Justa demoniza o regime de Gaddafi enquanto fornece um mandato humanitário à intervenção militar norte-americana/NATO.

Os chefes de Estado e chefes de governo dos países da NATO são os arquitectos da guerra e destruição no Iraque e Afeganistão. Numa lógica totalmente torcida, são anunciados como as vozes da razão, como representantes da “comunidade internacional”.

As realidades estão viradas de cabeça para baixo. Uma intervenção humanitária é lançada por criminosos de guerra em altos cargos, que são os guardiões incontestados da teoria da Guerra Justa.

Abu Ghraib, Guantánamo, … As vítimas civis no Paquistão, resultantes dos ataques com drones ordenados pelo presidente  a cidades e aldeias, não são notícias de primeira página, nem os 2 milhões de mortes de civis no Iraque.

Não existe tal coisa como uma “guerra justa”. A história do imperialismo norte-americano tem de ser entendido. O Relatório de 2000 do Project of the New American Century entitled “Rebuilding Americas’ Defenses”, apela à implementação de uma longa guerra, uma guerra de conquista. Um dos principais componentes desta agenda militar é:Combater e ganhar decisivamente em múltiplos e simultâneos teatros de guerra“.

A “Operação Líbia” faz parte desse processo. É outro teatro na lógica do Pentágono relativa aos  “simultâneos teatros de guerras”.

O documento do PNAC (Project for the New American Century / projecto para  o novo século americano – Ndt), reflecte fielmente a evolução da doutrina militar dos EUA desde 2001. Os EUA planeiam envolver-se simultaneamente em vários teatros de guerra em diferentes regiões do mundo. (hoje, Agosto de 2017, ao reler este artigo, verifico o quão verdade é o que Prof Michel Chossudovsky escreveu em 2011 – Ndt)

Ao anunciar a necessidade de proteger os Estados Unidos (ou seja, a “Segurança Nacional”), o relatório do PNAC explica o porquê desses múltiplos teatros de guerra serem necessárias. Qual a sua finalidade? Elas são um instrumento de paz? A justificativa humanitária usual nem sequer é mencionada.

Qual é o propósito do roteiro militar dos Estados Unidos?

A Líbia é uma alvo  porque é  um dos vários países  que estão fora da esfera de influência dos Estados Unidos e que não se conforma com as demandas dos EUA. A Líbia é um país que foi seleccionado como parte de um “mapa rodoviário” militar que consiste em “múltiplos e simultâneos teatros de guerra”. Nas palavras do ex-comandante da NATO, o general Wesley Clark:

No Pentágono, em Novembro de 2001, um dos altos funcionários da equipe militar teve tempo para conversar. Sim, ainda estávamos a caminho de irmos contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isso estava a ser discutido como parte de um plano de campanha a cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, começando pelo Iraque, depois  Síria,  Líbano,  Líbia,  Irão,  Somália e  Sudão …. (Wesley Clark, Winning Modern Wars, p. 130). (reveja-o «numa entrevista» que concedeu à Democracy Now em 2007 -Ndt)

parte 1

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