A Arte da Omissao

ACORDEM

Bolha mundial alimentar a caminho? – (Pt2)

Entre 2007 e 2008 o preço do milho na Etiópia subiu 141%, a farinha de trigo em Peshawar, Paquistão subiu 82 por cento, o arroz na Tailândia 73 por cento, e por aí diante no resto do mundo.

Jayati Ghosh, professora de economia  em Nova Deli, acha que estamos no início de outra onda de  aumento dos preços dos alimentos a nível global  o qual  nada tem a ver com questões de oferta e de procura, mas sim  com a especulação global das companhias de financiamento, e que surpresa, onde se inclui a Goldman Sachs.

Jayati Ghosh é economista e professora, especialista em globalização, finanças internacionais, padrão de emprego nos países em desenvolvimento, política macroeconómica e questões relativas a género e desenvolvimento

 

 

Tradução da 2ª parte da entrevista da  Paul Jay da  The Real News a Jayati Ghosh, em 5 Maio de 2011

 

Links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Paul: Na primeira parte conversamos sobre estarmos, todos nós neste planeta, no início de mais  outra bolha de preços, desta vez  na área alimentar, bolha que está a ser empurrada por companhias financeiras. O que podemos fazer sobre isso?

Javati: Bom, existem vários níveis onde podemos actuar. Em primeiro lugar, regular o sistema financeiro porque grande parte desta recente volatilidade está relacionada com o alto enriquecimento do mesmo sistema financeiro global,  enquanto o resto do mundo sofre. E o que é importante é que essa  regulação  tem que cobrir mais do que o comportamento dos bancos em geral. Terá que regular especificamente os mercado futuros das matérias primas. Temos de vedar a entrada a tais jogadores titulares que na realidade não detêm essas mesmas matérias primas. Temos então de banir os jogadores financeiros de entrarem no mercado verde.

O ponto acerca dos mercados de futuros é que é suposto permitir a cobertura e permitir também que os investidores se protejam contra riscos futuros, tantos os produtores como os consumidores. Mas ao torna-se tão volátil porque os investidores estão lá por motivos especulativos, então não servem para essa função. Por isso temos de trazer de volta os regulamentos que impeçam as empresas, empresas financeiras, de entrarem em negócios de produtos que não têm stock físico. Esta acção vai obrigar uma série de Regulações Financeiras, que infelizmente não são consideradas correctamente pelos EUA.

E quando o governo dos Estados Unidos sugere que pode vir fazer algo nesse sentido,  é porque está ameaçado e o comércio é movido para Londres. Então é necessário um esforço internacional e concertado. Mas este esforço não vai resolver o problema subjacente e também não vai resolver os problemas específicos dos países em desenvolvimento. Portanto, serão necessárias medidas nacionais e internacionais.

Uma, é que países que melhor resistirem a esta subida de preços, são os que  têm uma oferta interna muito maior e internamente também conseguiram manter os estoques e reservas de grãos. Então é muito importante que os países o façam. Países como Índia e China são grandes e podem tentar por conta própria. Podem tentar melhorar a produção interna, tornar a agricultura viável, manter o armazenamento dos grãos  e distribuí-los num sistema público para realmente evitarem o aumento dos preços. Mas os pequenos países também podem experimentar. Têm que ficar unidos. Têm que ter acordos regionais para constituírem reservas de grãos e para evitarem estar à mercê desses movimentos desestabilizadores.”

Paul: Mas há muita pressão sobre os países pequenos para não o fazerem. Os países produtores de alimentos dizem, você sabe, nós vamos produzir o alimento e você pode produzir algum tipo de cultura.

Javati: Absolutamente. Na verdade, o FMI tem liderado essa pressão. O Banco Mundial e o FMI persuadiram o Malawi, país africano muito pequeno, a  largar o  seu programa de contractos públicos de armazenamento e de  distribuição. Passados dois anos, o Malawi passou muita fome.

Nessa altura, o Banco Mundial disse: “Ah, é por causa do capitalismo de compadrio e porque vocês estão todos corruptos… “. Mas se o Malawi tivesse  mantido a  sua exploração das reservas públicas, não teria passado por essa crise de  fome. E agora, o  Malawi decidido a não dar mais ouvidos aos “conselhos” do Banco Mundial foi em frente com a política de subsidio aos agricultores para realmente melhorarem  a produtividade da sua terra  e manterem as reservas  públicas. Assim conseguiram resistir à  mais recente tempestade, melhor do que outros países que ainda estão a ouvir o grupo de Washington.

(A quem  estiver a ler esta tradução,  permita-me uma pergunta. Ainda acredita nestas entidades; FMI, Banco Mundial, Bancos Centrais? Não é fácil constatar onde se inserem e o que pretendem? – Ndt)

PaulEste aumento global dos preços tem afectado as  pessoas e  principais países industrializados, como por exemplo, Estados Unidos , Canadá ou Inglaterra?

Javati: Bem, não tanto, porque por um lado, a comida é uma fracção demasiado pequena em relação ao total do consumo. Mas no período em que o aumento foi rápido, — os preços de massas  dobraram na Itália e começaram a ouvir-se lá muitas vozes  a questionar como pode ter ocorrido este tipo de aumento dos preços. Mas o que é realmente mau é a forma como o aumento  está a afectar o mundo em desenvolvimento. Lembre-se, estamos a falar de uma grande parte da população que já está na margem de subsistência.

Paul: Em 2008, vimos grandes protestos contra o aumento dos preços dos alimentos no mundo em desenvolvimento. Estamos a começar a ver novamente esta situação?

Javati: Está a tornar-se uma questão política muito importante já em vários países. Nos últimos dois anos  na Índia,  houve um  aumento de quase 50% nos preços dos alimentos, quando os salários da maioria das pessoas não acompanhou esse aumento. Desta forma, neste momento na Índia,  esta temática da subidas dos preços da alimentação tornou-se numa questão política muito “quente”.

Paul: Até que ponto  a questão dos biocombustíveis é um problema? Esta especulação nos preços dos alimentos não é realmente sobre a comida mas sim uma especulação virada para o combustível.

Javati: Bem, em certa medida. Mas, a questão dos biocombustíveis é um problema muito mais profundo. Se eu disser que o recente aumento é realmente apenas sobre finanças, eu não quero menosprezar o facto de estarem a ocorrer alterações de abastecimento. Eu mencionei uma cadeia de abastecimento importante que  vai afectar a médio prazo o abandono da agricultura no mundo em desenvolvimento. Mas há outra coisa muito importante, que terá um efeito mais a curto prazo, que é o subsídio para todos os biocombustíveis.

Podemos datar o grande aumento deste subsídio a partir  de 2004 quando se tornou claro para George Bush que não estava a ganhar a guerra no Iraque e que  não poderia controlar o fornecimento de petróleo na medida em que ele esperava. E assim passou a dar esse  grande subsídio para a produção de biocombustíveis nos Estados Unidos,  a qual transformou cerca de um terço da produção de milho e aumentou as  áreas cultivadas para os biocombustíveis.

O mesmo aconteceu na União Europeia: cerca de metade do milho importado e aproximadamente um terço da produção nacional agora é desviado para os biocombustíveis. Todos nós sabemos sobre o etanol de cana no Brasil e como está provocar o desmatamento de grandes partes da Amazónia. Eu acho que este ênfase acerca dos subsídios para biocombustíveis é importante, porque nos conduziu e tudo indica que nos vai levar a um aumento do desvio entre a área cultivada e saída para uso não alimentar. Agora, existe um efeito dominó sobre outros preços dos alimentos. Além disso, enquanto o preço da gasolina sobe — você sabe, gasolina é uma importação muito importante para a produção agrícola, não só porque  ajuda na irrigação como entra em adubo, mas também por causa do transporte das mercadorias agrícolas. Assim os preços dos alimentos estão muitas vezes intimamente relacionados com o preço da gasolina.

Paul: Se fosse um americano ou canadiano vulgar e não visse qualquer acção a nível governamental acerca da regulação e de outras questões, o que faria agora para as exigir dos políticos?

Javati: Bem, eu iria exigir um monte de acções a nível de governo, em termos de, em primeiro lugar, incentivar a agricultura para que realmente se produza mais alimentos através dos vários tipos  de incentivos e subsídios, tornando viável, naturalmente em países em desenvolvimento, mas também nos países desenvolvidos, onde os agricultores não recebem a  maioria dos subsídios— a maioria dos subsídios vão  para o agronegócio. Incentivar  também a criação de reservas de grãos que evite os aumentos muito voláteis dos preços. Portanto, se existirem reservas  suficientes,  a área alimentar não pode ser uma área de especulação, não pode tornar-se neste galopar financeiro desenfreado que todos já vimos. Temos de ter reservas de grãos suficientemente grandes que possam evitar esse tipo de movimento louco dos preços.

—————————————————————————————————

Já originaram a crise financeira global. Segundo esta economista aproxima-se a crise alimentar. Há dúvidas ainda? Vêm os países a implementarem políticas para o incentivo da agricultura? Vêm os países a incentivarem a exploração dos seus recursos locais, para se tornarem o mais auto-suficientes possíveis? Não. Porque não é isso o pretendido. Do caos implantado e com a nossa “bênção” virá a solução.  A NWO.

3 comments on “Bolha mundial alimentar a caminho? – (Pt2)

  1. Pingback: Nova Bolha mundial a caminho? – (PT1) | A Arte da Omissao

  2. Pingback: Itália – Primeira conquista da Goldman Sachs | A Arte da Omissao

  3. Pingback: Bem aventurada seca « A Arte da Omissao

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

This entry was posted on 18 de Julho de 2011 by in Bolha Alimentar and tagged , , .

Navegação

Categorias

Follow A Arte da Omissao on WordPress.com
%d bloggers like this: