A Arte da Omissao

Especulações nos alimentos = bolha alimentar

Subidas vertiginosas nos preços dos alimentos. Não acreditem que  a causa esteja só relacionada com  más colheitas e alterações climáticas, como ao longo destes últimos anos nos impingem. Comecem a pensar noutro agente, internacionalmente conhecido  –  os agentes especuladores. E os mais pobres deste planeta é que pagam.

 À três anos atrás, as pessoas da aldeia de Gumbi no Malawi Ocidental, ficaram inesperadamente com fome. Não aquela fomeca, que sentimos quando falhamos uma refeição ou duas, mas com uma profunda fome, aquela que impede que se durma e que tolda  os sentidos.

Andamos todos e,  com razão, com os sentidos virados para as dividas soberanas nacionais, europeias e americanas e por aí adiante, mas mais uma vez não nos informam de outro tsunami que já está em marcha. Desta vez a bolha não é imobiliária mas sim  alimentar. Não sei se estão a ver o tamanho desta onda.

Mas voltando ao Malawi. Em 2008 não ocorreu nenhuma seca, (a qual ser a causa habitual da desnutrição e da fome na África Austral) e até havia abundância de alimentos nos mercados. Mas,  o preço dos alimentos, como o milho e arroz quase dobraram em poucos meses. Excepcionalmente, também não houve açambarcamento de alimentos. Esta triste história repetiu-se em 100 outros países em desenvolvimento. Houve distúrbios alimentares em mais de 20 países e,  os governos tiveram de proibir as exportações de alimentos e de subsidiar  a alimentação básica. Segundo a ONU,  75 milhões de pessoas ficaram desnutridas por causa dos aumentos dos preços dos alimentos.

Já se levantam muitas vozes, a dizer que os mesmos bancos, fundos de investimento e financeiros, que especulam nos mercados mundiais de dinheiro e que provocaram a crise das hipotecas sub-prime de 2008, poderão estar também na origem do aumento dos preços dos alimentos. A acusação contra eles refere que, ao se aproveitarem da desregulação dos mercados de mercadorias globais, além de ganharem biliões ao especularem sobre alimentos, causam também a miséria em todo o mundo.

Já lá vai o tempo em  que o  preço real dos alimentos, no mercado mundial, era  definido pelas forças da oferta e da procura. (fomos todos enganados com a globalização. Mas ainda somos muitos, os que estão hipnotizados por ela). Mas na década de 1990, com os poderosos lobbies dos bancos, os fundos de investimentos e com as políticas dos mercados livres nos Estados Unidos e  Grã-Bretanha, a regulação dos  mercados de mercadorias foi abolida. Os contratos de compra e venda de alimentos foram transformados em “derivados”, que poderam ser comprados e vendidos entre negociantes que nada têm a ver com a agricultura. Presentemente, o cacau, café, açúcar, carnes e sumos de frutas são todos mercadorias globais, juntamente  com o petróleo, ouro e metais. Em 2006 chegou o tsunami americano dos sub-prime e, os bancos e comerciantes correram de imediato para moverem bilhões de dólares em fundos de pensão e ações para mercadorias seguras,  especialmente em alimentos.

Mike Masters,  gerente da Masters Capital Management, testemunhou em 2008 no Senado dos Estados Unidos, que essa especulação, estava a fazer aumentar os preços dos alimentos a nível global:

“Tivemos conhecimento da presente especulação de alimentos em 2006 e na altura não parecia um grande factor. Mas em 2007/8 realmente agravou-se. Quando se olhou para os fluxos haviam fortes evidências. Eu sei que muitos comerciantes confirmaram o que estava acontecendo. A maioria dos negócios agora são só pura especulação – eu diria mesmo, 70-80 %”.

Masters diz ainda que os mercados estão distorcidos pelos bancos de investimento (agentes especulativos):

“digamos que as notícias falam sobre más colheitas e chuva em algum lugar. Normalmente, o preço subiria cerca de US $1 [por alqueire]. Mas quando você tem um mercado especulativo de 70-80%,  o preço vai até aos US $2-3 para compensar os custos adicionais. É adicionada a volatilidade. Isto vai acabar mal, como todas as modas de Wall Street. Isto vai explodir.

Hilda Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group de Nova York, concorda que o mercado especulativo alimentar é grande. Ela estima que a procura especulativa das mercadorias no futuro, desde 2008, aumentaram entre 40-80%, no que diz respeito só a contratos agrícolas. (1)

Olivier de Schutter, reporter  das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, não tem duvidas, de que os especuladores estão por trás dos aumentos dos preços. Diz ele:

“Os preços do trigo, o milho e arroz aumentaram significativamente, mas não estão relacionados com baixas de  níveis de estoque ou de colheitas, mas sim com os operadores que reagem às informações e às especulações dos mercados”.

Deborah Doane, directora do World Development Movement de Londres diz:

“Pessoas morrem de fome enquanto os bancos fazem a matança com as  apostas sobre os alimentos.”

No ano passado,  a Armajaro de Londres, comprou 240.000 toneladas ou por outras palavras, mais de 7% das reservas mundiais de cacau,  impulsionando o preço do chocolate para o mais alto dos últimos 33 anos. Entretanto, o preço do café subiu 20% em apenas três dias, como resultado directo dos fundos de investimento terem apostado na queda do preço do café.

1) Mercadorias e futuros, ou contratos futuros, são acordos de compra ou de venda de mercadorias, numa data específica no futuro a um preço específico. Se o preço subir, o comprador do contrato futuro faz dinheiro, pois obtém o produto a um preço mais baixo (o acordado no contracto) e, pode vendê-lo a um preço mais elevado no mercado. Se o preço cair, o vendedor faz dinheiro, porque pode comprar a mercadoria a um preço inferior no mercado e vendê-lo para o comprador ao um  preço mais elevado, o acordado no contracto.

 termos

Activos – Bens, direitos, créditos e valores pertencentes a uma empresa ou pessoa.
Bailout – ajuda financeira, em geral dado por governos, a empresas em dificuldades.
Banco comercial – Instituição financeira que recebe depósitos à vista em conta bancária e oferece financiamento a pessoas físicas e empresas.
Banco de investimento – Banco voltado para a administração de recursos de terceiros. É especializado em operações de participação accionária e financiamentos para empresas. Também administra carteiras e fundos de investimentos, assessoria negócios e realiza lançamentos de acções de empresas.
Bolha – Uma bolha é uma alta exagerada na cotação de um activo ou produto, sem fundamentos para isso. Em geral, é provocada pela especulação do mercado e pode “estourar” a qualquer momento, derrubando os preços. No caso da de 2008, a bolha imobiliária foi provocada pela expansão desenfreada do crédito  Circuit breaker – mecanismo de controle da variação dos índices das bolsas. Quando as cotações superam limites estabelecidos de alta ou de baixa, as negociações são interrompidas, para evitar movimentos muito bruscos. Na Bovespa, o “circuit breaker” (pronuncia-se “circuit breiquer”) é disparado quando a baixa do Ibovespa atinge os 10%. Os negócios são então paralisados por trinta minutos e retomados em seguida. Depois da retomada do pregão, se a queda persistir, os negócios são novamente interrompidos quando a baixa chega a 15%. Desta vez, a paralisação será  de uma hora.
Títulos podres – Títulos não pagos pelos tomadores dos empréstimos. Estiveram na base da crise de 2008: 4 milhões de americanos que pediram financiamento para seus imóveis deram ‘calote’ na dívida; quem tinha esses créditos ficou com o prejuízo, que se espalhou pelos mercados.
Derivados financeiros  – Activo cujo valor e características de negociação derivam de outro activo que serve de referência. Referente à crise de 2008, os bancos e financiadoras criaram estes derivados, ao  “empacotaram”  créditos que tinham a receber dos detentores de empréstimos imobiliários, e os  revenderam  a investidores em todo o mundo.
Fed – Federal Reserve System é o banco central dos Estados Unidos. É responsável por formular e executar a política monetária do país e por regular (deveria) o funcionamento dos bancos. É o Fed que determina a taxa básica de juros da economia dos EUA.
Foreclosure – execução da hipoteca, que ocorre quando o cliente não paga o empréstimo recebido pela compra do imóvel. A propriedade é retomada pelo banco e o mutuário é despejado. (A pronúncia é “fórcloujur”)
Hedge fund – Apesar do nome (hedge, em inglês, significa salvaguarda), são fundos de investimento de alto risco operados com agressividade. Nos Estados Unidos, os hedge funds não têm qualquer limitação na selecção dos activos.
Liquidez – capacidade de converter um investimento em dinheiro. Quando mais fácil for a “troca”, mais líquido é o investimento.
Mutuário – É o que recebe o empréstimo.
Recessão – redução da actividade económica de um país. Os economistas consideram uma economia em recessão quando há uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) por dois trimestres consecutivos.
Securitização –  operação de crédito na qual títulos fazem parte da garantia do pagamento. Nesse tipo de operação, os empréstimos e outros activos são convertidos em títulos que podem ser vendidos a investidores. Isto é, o investidor compra um título que está “garantido” com  recebimento (se este ocorrer) da dívida do detentor do empréstimo.
Subprime – Em bom português, “de segunda”. Enquanto as hipotecas prime foram concedidas aos bons pagadores, as subprime foram parar às mãos de clientes de alto risco – aqueles com grandes chances de não efectuarem os pagamentos e que nos Estados Unidos ficam conhecidos como “ninja” (sigla em inglês para “sem renda, sem trabalho, sem bens”).
Venda a descoberto – É uma espécie de “aluguer” de acções. Quando apostam na queda de uma acção, os investidores podem alugar o papel de um outro aplicador e vendê-lo no mercado, com a expectativa de o poder recomprar no futuro a um preço menor, devolvendo a acção alugada e embolsando a diferença.

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Enquanto ainda estamos a “curtir” os efeitos da crise de 2008, já está em crescimento outra, e desta vez mexe com a base da nossa sobrevivência, a  alimentação. Poderemos considerar esta como o  golpe misericordioso.

Destroem o Planeta, com Chemtrails, Haarp, militarização espacial,  manipulação climática, e como se não chegasse, há que destruir o ser humano. Alguém me perguntava – mas então se destroem tudo,  ficam sozinhos? – Esta corja de seres umanos, bilderberg, illuminati…, não pensam como nós. Eles lá querem saber se morremos, se passamos fome… O que interessa é quanto ganham.É quanto basta. Como reverter este sistema, que está à parte de regras e regulações? Miná-lo? E como? Talvez a civilização tenha que cair de novo  civilização, para se começar tudo de novo.

Nota: links, realces e comentários desta cor são da minha responsabilidade

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2 comments on “Especulações nos alimentos = bolha alimentar

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