A Arte da Omissao

Síria – O que realmente está a acontecer?

Boris Dolgov, membro da Academia Russa de Ciências e do Instituto de Estudos Orientais em Moscovo, relata neste artigo, a sua recente viagem à Síria. A sua investigação de campo é particularmente valiosa, uma vez que a maioria das informações sobre a Síria nos últimos meses vem de Beirute, Paris ou Londres. O Professor Dolgov confirma que, longe de um cenário artificial da “primavera árabe”, a Síria está inegavelmente a braços com a ameaça de uma ocupação estrangeira. Ele observa que, enquanto a ofensiva é extremamente violenta, a população não se deixa intimidar. Cientes das catástrofes causadas pelas operações “humanitárias” da NATO na Jugoslávia e Líbia, os sírios recusam-se a ser arrastados para uma emboscada sectária. Um processo de reforma e desenvolvimento está no bom caminho, mas não vai ser ditado do exterior. Na Síria, um pode opor-se ao Presidente, mas não ao nacional (…)

Tradução do artigoWhat Is Really Going On In Syria: Insider Update, de Boris Dolgov

30 de Janeiro de 2012

A situação actual na Síria continua a ser um dos componentes mais importantes das políticas do médio oriente e internacionais. Ao tirarem partido da crise interna da Síria e seguindo os seus próprios objectivos, a NATO, Israel, Turquia e as monarquias do Golfo Pérsico estão a tentar minar o regime sírio.

Em Agosto de 2011 e em Janeiro de 2012, fui duas vezes à Síria, desde o início da crise, como membro das delegações internacionais. Se por um lado, olharmos a dinâmica do desenvolvimento da situação ao longo desse período, podemos verificar a intensificação dos grupos terroristas na Síria, mas por outro lado assiste-se a um amplo apoio popular ao Presidente Bashar Assad assim como uma demarcação clara das posições das forças políticas

Dois carros bombas explodiram no exterior das instalações fortemente vigiados das agências de inteligência Síria, matando pelo menos 44 pessoas e ferindo dezenas de outras num descarado ataque a 23 de Dezembro de 2011.

Nos últimos dois meses a Síria tem vivido uma série de ataques terroristas. Os terroristas atacaram militares, instalações militares, instituições de agências de execução de lei, oleodutos, caminhos de ferro, assassinam e fazem reféns cidadãos pacíficos (na cidade de Homs, insurgentes mataram cinco cientistas bem conhecidos), queimam escolas e matam os professores (desde Março de 2011, 900 escolas foram incendiadas e 30 professores mortos).

Os ataques terroristas a Damasco tornaram-se os mais sangrentos. Dois deles ocorreram a  23 de Dezembro de 2011, quando carros carregados com explosivos explodiram à frente do edifícios do Serviço de Segurança de Estado, matando 44 e ferindo cerca de 150 pessoas. A 6 de Janeiro de 2012, numa rua movimentada, um ataque de um homem-bomba suicida matou 26 e feriu 60. Entre as vítimas, encontravam-se oficiais de policiais, mas a maioria das vítimas foram pessoas que estavam a passar.

Em Janeiro de 2012, Damasco tem um olhar mais severo em comparação com o do Verão de 2011. Agentes de segurança verificam os passaportes a caminho do aeroporto, perguntando às pessoas de que países provêm. As entradas de muitas instituições estatais, estão protegidas com blocos de cimento. Existem pontos de verificação com sacos de areia perto das delegacias de polícia, protegidas por soldados com coletes à prova de bala. Portões que fecham entradas para algumas das ruas são também guardadas por soldados e jovens portadores de metralhadoras – estes são voluntários dos movimentos juvenis pró-governamentais. Mas a vida quotidiana não mudou drasticamente. Na cidade, não há militares, nem veículos armados ou pontos de verificação de documentos. Damasco é ainda uma cidade movimentada, sem lugares vagos nos cafés com internet e nos fins de semana as ruas estão lotadas com famílias, casais e pessoas jovens.

Após os ataques terroristas em Damasco, foram realizadas manifestações com slogans a apoiar Bashar Assad e a condenar os terroristas. Manifestações semelhantes foram organizadas noutras grandes cidades como Alepo, Homs, Hama, Dara, Dayr az Zor. Estas  foram cobertas pela TV síria. Durante a nossa estadia na Síria, podemos andar livremente em torno da cidade e falar com as pessoas, e não vimos um só comício antigovernamental. As maiorias dos participantes dos comícios eram jovens.

O Presidente sírio Bashar al-Assad acenou a seus adeptos, durante uma aparição pública em Damasco a 11 de Janeiro de 2012 e prometeu derrotar a “conspiração” contra a Síria. 

Uma manifestação que reuniu dezenas milhares de pessoas, realizou-se a 1 de Janeiro, no centro de Damasco. Nesse comício, Bashar Assad, dirigiu-se à nação e iniciou o seu discurso com as seguintes palavras: “Irmãos e irmãs”! Falou dos longos milhares de anos da história da Síria, da necessidade de lutar contra o terrorismo e do suporte que eles recebem do exterior. O discurso de Assad foi recebido com real entusiasmo e não vi  indicadores que esta reacção fosse encenada.

Na praça inteira (dezenas de milhares de pessoas) gritou-se um slogan popular “Allah, Síria, Bashar”! (“Allah, Syria va Bashar bas!”). A 8 de Janeiro, em memória das vítimas dos atentados terroristas em Damasco, realizou-se uma cerimónia na Catedral de Santa Cruz. O Mufti da Síria, Ahmad Badr Al-Din Hassoun, o metropolita da Igreja Ortodoxa Síria e o prior  do mosteiro católico, falaram na cerimónia. Nos seus discursos, condenaram “tanto os assassinos como os  que colocaram as armas nas suas mãos e os enviaram para a Síria”. A tragédia do mufti da Síria, cujo filho foi morto pelos membros do grupo terrorista islâmico, depois do Mufti  se recusar a agir do lado da oposição estrangeira que tem como  objectivo  derrubar Bashar Assad, é por si um exemplo revelador.

Depois da adopção da nova lei sobre os partidos políticos, um processo activo da sua criação tem sido realizado na Síria. Embora formalmente a Constituição previsse um sistema pluripartidário e sete partidos eram representados no Parlamento, em conformidade com o disposto na cláusula 8, o papel de liderança pertencia ao Partido Baath no poder. Actualmente há uma grande discussão na Síria sobre esta cláusula. Um funcionário e o Ministro das Relações Externas sírio disseram-nos que, na nova Constituição (sobre a qual um referendo nacional vai ter lugar em Fevereiro), esta cláusula será abolida se a maioria das forças públicas e políticas falarem nela.

No seu discurso à nação, Bashar Assad disse que a nova Constituição será  aprovada em Março de 2012. As eleições parlamentares serão realizadas em Maio-Junho de 2012. Em conformidade com a nova lei, em Dezembro de 2011, realizaram-se eleições para os governos locais. Mas por causa da ameaça de ataques terroristas a participação foi apenas de 42%, o que foi confirmado pelos funcionários da Baath. No entanto, as novas administrações locais foram eleitas e começaram a trabalhar. Nos termos da legislação recentemente adoptada, novos meios de comunicação social estão a ser formados para complementar os actuais 20 canais de TV, 15 estações de rádio e 30 jornais.

Existem actualmente três tendências principais na oposição patriótica síria – democrática, liberal e à esquerda, que é principalmente comunista. O partido nacionalista Social sírio é o partido mais influente entre as forças democráticas. Também é o partido mais antigo, criado em 1932. Como Iliah Saman, membro do gabinete político do Partido Social-Nacionalista Sírio disse, o programa dos partidos é mais conservador comparando com o programa do Baath. No entanto, não há nenhuma diferença no princípio, entre as duas partes. Segundo ele, a política dos EUA, França e Inglaterra é o principal factor desestabilizador na Síria. Disse ainda que esses países estavam a agir no interesse de Israel e tinham como objetivo dividir Síria em cinco formações de Estado, com base nas diferenças étnicos e religiosas.

A tendência liberal da oposição é representada pelo recém-registado Movimento Democrático Social Secular, liderado por Nabil Feysal, intelectual sírio, escritor e tradutor. Grande oponente do fundamentalismo islâmico e defensor da democracia liberal. Seu objectivo é transformar a Síria numa “Dinamarca do Médio Oriente”.

Qadri Jamil, chefe do partido será Popular.

O Comité Nacional para a Unidade dos Comunistas sírios, é o componente mais influente da esquerda (comunista), tendência da oposição dentro do país. Recentemente  mudou seu nome para Partido Popular e será encabeçado por Qadri Jamil, um proeminente economista sírio e professor da Universidade de Damasco. Ele é o único representante da oposição, que esteve  na Comissão da  Concepção da nova Constituição. Jamil acredita que o diálogo nacional e a criação de um governo de unidade nacional (que incluiria representantes da oposição Patriótica) é a única maneira de sair da crise. Ao mesmo tempo pensa ser necessário remover todos os políticos que não estão interessados na condução das reformas do governo, e  suprimir seus membros radicais que tendem a usar a violência.

Os comités de coordenação são também uma força política significativa, e  têm contactos com o partido Popular Will. Estes comités por um lado organizam manifestações exigindo reformas concretas e melhores condições de vida,  em contrapartida agem como unidades de autodefesa onde pessoas armadas protegem os seus distritos dos ataques de grupos terroristas, nomeadamente do exército chamado Free Syrian. Deve-se realçar que, embora no início dos protestos na Síria, parte da população, incluindo intelectuais que compartilhavam o descontentamento com o regime  e que apoiavam os pedidos para a democratização, tendem agora, após a intensificação de grupos terroristas, a apoiar o regime e as reformas propostas pelo governo.

Elementos do exercito sírio “Free”

Um exemplo revelador dos crimes terroristas, foi o bombardeamento de um quarto em Homs a 11 de Janeiro, que matou oito moradores locais. Giles Jacquier, um repórter de TV France-2, foi mais uma vítima do ataque. Falámos com Jacquier, pouco antes da sua morte trágica, e ele estava convencido de que os protestos do povo eram suprimidos pelo regime autoritário da Síria. Ele procurava a  oposição por toda parte, na tentativa  de fazer uma reportagem. Como não a encontrou em Damasco,  mudou-se com um grupo de colegas suíços e dos Países Baixos para Homs. Mas em Homs, ele também conheceu pessoas que apoiavam  Bashar Assad e exigiam que fossem protegidos dos terroristas. Um grupo de moradores locais e Giles Jacquier, que por acaso estavam juntos, ficaram debaixo de fogo de uma lança-granadas, que era uma coisa comum naquele distrito. Comentando a trágica morte do repórter francês,  Agnes Mariam,  prior da catedral católica de St James, disse não haver oposição na Síria, mas sim  bandidos que estão a matar pessoas.

Contactamos muitas pessoas na Síria,  incluindo jornalistas estrangeiros independentes, que nos falaram sobre a guerra de informação contra a Síria. De acordo com eles, o canal Al Jazeera do Catar, por exemplo, para transmitir uma reportagem  sobre os comícios anti governamentais na Síria,  fez uma falsa filmagem com a ajuda do computador.

No que diz respeito à oposição Síria no estrangeiro, o seu papel político é representada pelo Conselho Nacional Sírio com sede em Istambul. É dirigido por Burhan Ghalioun, um cientista político sírio-francês da Universidade Sorbonne, em Paris. É uma formação bastante heterogénea que compreende grupos com objectivos diferentes, e representam a Irmandade Muçulmana e outras organizações Sunnitas, separatistas curdos, dissidentes Liberais-democráticos  que geralmente residem na Europa e nos Estados Unidos.

Abdel Hakim Belhaj, chefe da Al-Qaeda na Líbia é o comandante do exercito sírio Free”

A oposição armada que conduziu ataques terroristas na Síria é representada por um número de grupos da ala militar da Irmandade Muçulmana, islamistas radicais da Líbia e da Al Qaeda. De acordo com as informações que recebemos dos  nossos colegas sírios, existem campos de treino para insurgentes no Líbano e na Turquia. Os agentes dos serviços de segurança da NATO, Turquia e alguns Estados árabes são os responsáveis pelos treinos e armamento dos rebeldes, enquanto as monarquias do Golfo Pérsico financiam.

A evolução futura da situação na Síria depende da capacidade do regime em  consolidar as forças públicas e conduzir as reformas anunciadas. Outras prioridades são a liquidação dos grupos terroristas e a estabilização da situação no mercado interno. Por sua vez, esta questão está directamente relacionada com o desenvolvimento de políticas globais e vai depender das actividades dos principais países da NATO, Turquia e Liga Árabe que enviaram os seus monitores para a Síria, Rússia e China.

A Rússia declara com firmeza que a repetição do “cenário líbio” na Síria é inadmissível.

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This entry was posted on 31 de Janeiro de 2012 by in Afinal Quem é Terrorista?, GEOPOLÍTICA MUNDIAL, Síria and tagged , , , , .

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