A Arte da Omissao

Irão – Ex Inspector da Agência Internacional de Energia Atómica pede transparência

Há provas que o Irão está a construir uma arma nuclear?

Robert Kelley, engenheiro nuclear americano, trabalhou no Department of Energy Complex, durante 30 anos. Sócio do SIPRI desde 2009 e Senior Research Fellow desde 2010, Diiretor do laboratório de sensoriamento remoto em Las Vegas, Nevada. Foi ainda director da IAEA (International Atomic Energy Agency),  em Viena com larga experiência de campo como Inspector-Chefe da IAEA no Iraque, na avaliação de armas nucleares na África do Sul em 1993 e nas inspeções de vestígios do programa de armas nucleares da Líbia em 2004. Levou a cabo inspeções ou visitas da IAEA na Líbia, Iraque, África do Sul, Egipto, Turquia, Coreia do Sul, Taiwan, Síria, Tanzânia, Paquistão, Índia e RD do Congo.

Tradução da entrevista de Paul Jay da TRNN (The Real News Network) a Robert Kelley


Paul: Robert Kelley, engenheiro nuclear e antigo diretor / inspetor da IAEA, escreveu recentemente um artigo no Bloomberg sobre a questão do Irão, armas nucleares …. Aqui está um pouco do que disse:

“Estou a falar agora sobre isto porque, como membro da equipe da IAEA no Iraque em 2003, aprendi como a retenção de fatos pode dar origem a um derramamento de sangue. Ter conhecimento de alguns detalhes na altura e não estar autorizado a falar, fez-me sentir a partilha da responsabilidade pela guerra que matou mais de 4.000 norte-americanos e mais de 100 mil iraquianos. Hoje, como cidadão, espero ajudar a garantir que os fatos sejam claros antes que os EUA tomem novas medidas que poderão, intencionalmente ou não, gerar uma nova conflagração, desta vez no Irão “.

Paul –  Porque sentiu agora esta necessidade  e  urgência em escrever esta espécie de  apelo às evidências?

KELLEY: Bem, eu acho que aqueles de nós que passaram pela experiência do Iraque, particularmente em 2003, só viram um monte de más informações sobre a mesa. E desta vez, estou a reconhecer de novo um pouco disso. Eu apenas gostaria de salientar que não devemos acreditar em tudo o que vemos à primeira vista. Em 2003, não me cabia a mim falar. Tivemos um director geral que falou por nós e fez um bom trabalho. Acho que  falou demasiado baixinho, demasiado timidamente, e assim a informação não saiu. Nós levamos a cabo um grande número de pesquisas no Iraque, entendemos o que realmente estava a acontecer lá, estávamos certos e ninguém nos ouviu.

Paul: Você está a analisar como cientista. Está a procurar saber se existem ou não evidencias, não está a opinar se deve  haver bombardeamentos, sanções ou não. Você está focado na questão: Existem ou não evidências? Vamos então esclarecer então essa questão.

KELLEYEu acho que existem muitas evidências sobre a vontade do Irão em construir armas nucleares, ou não teriam sido construídas essas enormes centrais em Natanz nem o reactor que está quase pronto e que vai ser activado em Arak. Com base em documentos americanos, que eu acho serem bastante bem fundamentados, o Irão tinha um programa há muito tempo. A CIA diz que o programa parou em 2003. Não sei como o sabem mas dizem-no com alguma certeza. E a IAEA traz poucas novidades para cima da mesa.

Quando olhamos para o que há de novo no relatório da  IAEA, a informação resume-se a três parágrafos. E dos 3, um diz respeito a informações claramente contaminadas. Existe um documento que apareceu no The Times de Londres e a IAEA  está a repetir exatamente a informação nele contidas, colocando-se um montão de perguntas acerca dele.

Paul: Sim, esse documento é crucial, porque é suposto ser um dos principais, se não mesmo a principal evidência, em que nos contam que esse programa foi iniciado ou continuado após 2003 ou reiniciado depois de 2003. Então, é através esse documento que agora sabemos como os israelitas cederam em 2009. Se não estou equivocado, ElBaradei, na altura chefe da  IAEA, não lhe reconheceu legitimidade. Não sei bem se usou a expressão de ter sido forjado, mas o que disse estava muito perto desse significado. Conte-nos então a história desse documento e o que sabemos ou não sobre ele.

KELLEYO documento publicado no The Times, tinha problemas linguísticos que nos faziam lembrar as falsificações de 1995, concebidas para parar as inspecções no Iraque e fazerem-nos acreditar que os iraquianos tinham retomado o seu programa de armamento. Foi quando tentei realmente chamar a atenção das pessoas, que a única peça de evidência que podemos julgar no relatório da IAEA, que podemos observar por nós mesmos, está contaminada. A informação parece-se apenas com a que está no The Times de Londres, o que é muito questionável. Este é meu ponto de vista.

Paul: E esse documento, se bem entendi, não está datado nem refere a respectiva fonte. É muito difícil de acreditar. Mas a equipe da IAEA de ElBaradei olhou-o com desconfiança e decidiu não o considerar uma evidência. Esta informação está correta?

KELLEYBem, nós sabemos que a informação recebida na época foi colocada de parte por não poderem validar a sua origem. Lembrem-se que ElBaradei era advogado e queria provas credíveis. Ele queria ter a certeza que a evidência era real. Então, segundo as memórias dele, o documento foi colocado de parte. Quatorze dias depois o mesmo documento aparece em Londres. Temos que nos lembrar que nos disseram que o documento foi reescrito para ocultar alguma informação nele contido. Assim poderia ser explicado o porquê de não ter marcas, data e listas de distribuição. Mas, aparentemente, o documento que ElBaradei rejeitou tinha o mesmo problema de autenticação.

Paul: Então temos um documento duvidoso que só diz que ainda decorre um programa de armamento.  O seu ponto-chave aqui, não é dizer-nos que não há um programa. Na verdade, em alguns dos  seus artigos, acha provável que sim. Mas não existe nenhuma evidência.  Estou  correcto?

KELLEY: Sim. Vamos esclarecer duas coisas. Uma, é eu achar que a intenção existe há muito tempo. O Irão gastou milhões de dólares na construção das instalações para produzir matéria. Esta é a parte mais difícil. O conhecimento que adquiriram até 2003 é muito valioso, caso decidam construir a bomba. Mesmo que tenham parado com o programa em 2003/2004, adquiriram um grande e valioso conhecimento. É difícil acreditar que esse mesmo conhecimento não tenha sido guardado durante esse período.

Mas a pergunta reside no seguinte: estamos perante uma arma fumegante, que afirma existir um programa ativo?  Muitos são os que se referem ao relatório da  IAEA  como a prova de que existe. Mas o relatório não prova. E assim, temos um local nde a IAEA colocou informação, que reconhecemos serem de outras fontes, e isto não é bom. Outra via para verificar a veracidade ou não do programa, seria a imagem de satélite que dizem ter, do cilindro de explosão de ParChin.

Paul: Milhares de vidas poderão estar em jogo se, com base no documento, for desencadeada uma ação militar contra o Irão. Você usou a palavra conflagração. Talvez seja mesmo um eufemismo do que pode vir a ser.

KELLEY: Eu acho que se houver uma acção militar contra o Irão, as consequências são imprevisíveis. A situação poderá  ser muito grave. Eu assisto agora, à desvinculação dos Estados de duas guerras e odeio pensar que vamos entrar noutra.

Paul: No seu artigo no Bloomberg refere que esta situação tem de ser resolvida e que tem algumas sugestões como limpar este cenário. Que sugestões são? O que acha que a IAEA deve fazer para tentar chegar a um acordo?

KELLEY: Eu acho que a situação da IAEA e dos iranianos parece  uma luta no pátio da escola. E seria bom que os dois lados parassem, voltassem atrás e tentassem mostrar  um pouco mais de boa vontade e de alguma transparência.

Eu tenho várias sugestões sobre o que poderiam fazer. Acho que a  IAEA deveria levar os documentos para Teerão no  final do mês, deveria sentar-se com os iranianos e em conjunto verem se é possível entrarem num acordo, sobre o facto dos documentos poderem ser ou não, falsificações. Há dois anos, o subdirector geral foi citado num telegrama da  WikiLeaks que  queria levar os documentos para os iranianos. Não sei se isso já aconteceu. Por isso eu  sugeriria que a IAEA mostrasse um pouco de abertura e levasse os documentos. De acordo com o livro de memórias de ElBaradei, os israelitas disseram que não se importavam; “Sigam em frente e mostrem-lhes os documentos; não temos nenhum problema.”

O Irão precisa de mostrar alguma cooperação. Eu acho que deveria mostrar à IAEA  o local, onde a agência afirma, através das imagens de satélite, existir o tal cilindro que foi usado para as explosões testes com urânio. Segundo o IAEA, o cilindro contem contaminação de urânio. E se tal aconteceu e o cilindro foi aberto, o edifício estará contaminado e a IAEA pode detectá-la mesmo que  p cilindro tenha sido retirado. E não esquecer que a IAEA levou a Síria ao Conselho de Segurança, com base num punhado de partículas microscópicas detectadas um ano depois do bombardeamento Sírio no Rio Eufrates.  Acho que  o Irão poderia dizer, uma vez que  nunca o fizemos, vamos levá-los a essas instalações e mostrar-lhes o que lá está.

Paul:  Vamos apenas lembrar as pessoas que não viram as nossas anteriores entrevistas e que estão agora a seguir esta, que os Iranianos dizem que este cilindro está a ser usado para experiências nano diamantes e a IAEA sugere neste recente relatório, que  pode estar a ser usado para testes de armamento. E numa das nossas anteriores entrevistas, você estava bastante descrente nessa  associação com armas, não estava?

KELLEY: Sim, vi algumas coisas sobre a forma como foi relatado. Por exemplo, a quantidade de explosivo que continha não parecia ser suficiente. Mas não sabemos como a IAEA chegou a esses valores. A IAEA não tem que explicar nada do que diz. Apenas o diz. Mas eu acho que se o urânio nunca foi usado nessas instalações com explosivos, os iranianos têm uma  enorme oportunidade de permitir que a IAEA vá a esse local. Se o fizerem, podem explicar o que realmente estavam a fazer, facto que seria bom para ambos os lados.

Paul: Bem, parece bastante simples. Em algumas das outras coisas que a IAEA diz querer ver, os iranianos têm dito que não vão deixar. O Irão argumenta que o que é realmente pretendido, é descobrir mais sobre o seu programa de mísseis convencionais e de armas convencionais, logo acham-se no direito de protegerem os seus segredos. Considera legítima esta  posição do Irão?

KELLEY: Bem, eu diria que é legítima, se você colocar o sapato no outro pé e dizer que, se alguém quisesse vir aos Estados Unidos visitar as instalações militares, com base num controle de armas que nada têm a ver com essas instalações, os Estados Unidos seriam muito resistentes. E acho que o Irão está resistente porque já permitiu um número de inspecções a Parchin, e a Agência voltou para casa com nada. Eu acho que os iranianos acreditam que isto pode ser uma expedição de pesca.

Paul: Então, existem passos que o Irão poderia tomar para tentar resolver o problema e existem também outros passos que a IAEA poderia tomar para ajudar a resolver este problema?

KELLEY: Eu penso que a IAEA deve ser mais transparente acerca das informações que tem. Este relatório que publicaram, tem uma grande quantidade de “confiem em mim” e algumas das informações que dão são muito interessantes e quase questionáveis.

Por exemplo, a IAEA  diz ter uma imagem de satélite  com  o  cilindro a ser colocado. Porque não nos mostram essa imagem de satélite?  Eles não devem ter medo da avaliação. Há cientistas em todo o mundo que estão interessados nestes problemas. E realmente ajudaria a todos,  se colocassem algumas destas informações com mais clareza sobre a mesa. Por exemplo, as dimensões do cilindro que falámos, permitiriam que outras pessoas calculassem se ele  fará o que eles dizem. Acho que a IAEA deve colocar um pouco mais da informação sobre a mesa.

Paul: Numa entrevista anterior, disse que a  maneira com que estão a apresentar a informação parece concebida para reforçar uma visão mais beligerante.

KELLEY: Acho que a forma usada na apresentação das informações no relatório, tende a apresentar uma imagem mais beligerante, mais nuclear, mais ameaçadora. A colocação de  mais informação sobre a mesa, permitir que outras pessoas a avalie ou comente, considero muito  útil.  Caso contrário, tudo se resume ao “confia em mim”, “confiem no que estou a dizer”, “confiem na minha análise” e” confiem que eu sei o que estou a dizer”.

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Nota: Realces desta cor são da minha responsabilidade

 

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