A Arte da Omissao

Líbia – o emergir da verdade – 2ª parte

Lizzie Phelan, é uma jornalista irlandesa  independente. Foi correspondente da Press Tv  em Trípoli durante o ataque da NATO

Lizzie Phelan, jornalista e freelancer irlandesa,  reverte para a sua recente entrevista pelo repórter do New York Times, Robert Mackey. Neste artigo, Lizzie desenvolve com grande detalhe os três temas abordados nessa entrevista. Argumenta que, apesar de rotulados de “activistas”, os jornalistas que expressam opiniões contrárias à corrente e que envolvem países que estão na linha de fogo da NATO, estão numa melhor posição para fornecerem informações fiáveis do que os média  corporativos. Se hoje, alguns jornalistas ocidentais se dão ao luxo de serem mais imparciais sobre a Líbia, é só e porque os objectivos militares já foram atingidos. A cobertura grotesca da situação na Síria, pelos meios de comunicação ocidentais é mais uma confirmação desta realidade. Segurar uma realidade complexa, não depende da quantidade de informação acumulada a favor de qualquer dos lados, mas da diversidade dos pontos de vista que reflectem uma determinada situação. Enquanto as condições políticas e económicas da multiplicidade de pontos de vista não forem encontradas, amanhã, como ontem, a primeira baixa da guerra será sempre verdade.

Rede Voltaire | 4 de Fevereiro de 2012

Tradução do artigo “In Lybia now the truth is coming out” de Lizzie Phelan

1ª Questão

Robert Mackey: Uma vez que as suas impressões do que está a acontecer na Síria, parecerem ser muito diferentes das dos muitos repórteres estrangeiros que lá trabalharam recentemente, queria perguntar-lhe como encontrou as suas fontes e o que representa para si, a imagem diferente dada por outros jornalistas.

Lizzie Phelan: Em primeiro lugar, espero que me dê a oportunidade de responder a todas as  perguntas na íntegra, para que o contexto que está sempre em falta, possa ser fornecido. Espero também que coloque todas as questões que propôs quando eu concordei em dar esta entrevista. Se não, eu mesmo as publicarei na integra assim como as perguntas.

Essa questão está defeituosa, porque o que realmente pretende dizer é que as minhas impressões do que acontece na Síria,  parecem ser surpreendentemente diferentes das dos repórteres dos países da NATO e do GCC (Gulf Cooperation Council – Ndt), que têm grande interesse em desestabilizar a Síria. É óbvio que actualmente, as minhas impressões são partilhados pela maioria das pessoas deste mundo, por pessoas oriundas desses países externos à NATO e do GCC e particularmente pelos que são vítimas destes poderes. Mas por não possuírem uma média poderosa, suas vozes são abafadas pelas impressões duma minoria, reflectidas pelos meios de comunicação dos países da NATO e do GCC.

Em relação às minhas fontes, encontro-as através de diferentes meios, mas o  principal é que sempre que vou à Síria, falo com pessoas vulgares. Isto não é difícil, porque as pessoas estão realmente a necessitar de falar sobre a crise do seu país, especialmente a estrangeiros, que acham que têm uma forte e falsa impressão da crise e dos actuais acontecimentos. Este é o esmagador  ponto de vista que encontrei, mas  claro que não é exclusivo. E isto reflecte-se na minha reportagem.

De facto, como na Líbia, eu estava tão impressionada com o número de pessoas que queriam falar sobre a  sua raiva, sobre as fabricações dos média dos países da NATO e do GCC, que eu e o meu colega Mostafa Afzalzadeh, decidimos fazer um documentário no qual  pudéssemos reflectir  o que os cidadãos comuns sírios estão realmente a  dizer. Este documentário irá expor que se não fossem esses meios de comunicação,  a crise na Síria teria terminado  antes de começar e o povo da Síria estaria a viver agora em paz. 

A diferença com os jornalistas da grande comunicação social dos países da NATO e do GCC, é que eles têm uma agenda para cobrirem o que chamam de “revolução” que está a acontecer dentro da Síria e para darem substância à falsa alegação de que o governo sírio é uma ameaça para o seu povo.

Se por exemplo eles seguirem numa rua e encontrarem 10 pessoas a dizer que não há nenhuma revolução a acontecer na Síria e que, na verdade  o povo sírio até quer que o exército o proteja dos  terroristas que estão a inundar o país e, de seguida, terem uma outra pessoa que lhes diz que não há democracia na Síria, eles descartam os 10 como espiões do governo e correm atrás da pessoa que lhes disse algo diferente. Eu própria testemunhei este comportamento.

Se o inverso fosse feito e reflectissem a visão maioritária da rua, iria prejudicar a cobertura das suas organizações de notícias dos últimos 10 meses, onde pintaram o retrato do governo odiado pelo seu povo, e por sua vez, a sua própria credibilidade seria minada, como jornalistas que trabalham para essas organizações.

Mas no momento certo, eles não serão capazes de suprimir a verdade. No entanto, tal como na Líbia, o perigo é que a verdade só surja quando foi tarde demais, quando o país for destruído com êxito pela NATO e pelo GCC, com a ajuda vital dos seus médias. De seguida, a comunicação ocidental já pode dar-se ao luxo de ser mais honesta, embora nunca inteiramente, porque os objectivos (por exemplo a mudança do regime), dos seus financiadores foram atingidos.

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This entry was posted on 13 de Fevereiro de 2012 by in Líbia, Síria and tagged , , , , , , .

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