A Arte da Omissao

Mali: Nova guerra da AFRICOM?

Rick Rozoff,  é graduado em Literatura Europeia e  jornalista de investigação. É também  Gerente da organização Stop NATO international

Presidente Obama na Declaração sobre a estratégia da defesa, anunciou a forte presença dos Estados Unidos na Ásia-Pacífico, enquanto mantém África debaixo de olho. No entanto, recentes desenvolvimentos sugerem inequivocamente que o continente negro se tornou o novo parque de recreio para a conquista militar americana. Mali é o país que actualmente está no meio do olho da tempestade. Neste artigo, escrito em Fevereiro de 2012, quando a última “rebelião tuaregue” eclodiu no norte do Mali, Rick Rozoff relaciona os pontos entre esses eventos e o papel central do Mali na estratégia da U.S. para a África, conjeturando que, depois de Líbia, um outro palco esteja possivelmente a ser definido para outra intervenção a ela semelhante.

Rebeldes Touareg no norte do Mali declararam a independência a 6 de Abril de 2012, anunciando a sua intenção de formar o Estado democrático de Azawad.

A imprensa está a relatar um combate intenso no Mali entre militares e rebeldes étnicos Tuareg do movimento nacional de libertação de Azawad, no norte da nação.

Como as únicas agências de notícias com visibilidade global, com fundos e infraestrutura para manterem escritórios e correspondentes em todo o mundo são as dos membros do North Atlantic Treaty Organization (NATO) – Associated Press, Reuters, Agencia France-Presse, BBC News e Deutsche Presse-Agentur – a cobertura dos desenvolvimentos em curso no Mali, como as de outros países, refletem o preconceito e agenda Ocidental.

Manchetes típicas como as seguintes:

Arms and men out of Libya fortify Mali rebellion” –ReutersPresident: Tuareg fighters from Libya stoke violence in Mali” – CNNColonel Gaddafi armed Tuaregs pound Mali” – The ScotsmanFrance denounces killings in Mali rebel offensive” –Agence France-PresseMali, France Condemn Alleged Tuareg Rebel Atrocities” – Voice of America

Para chegar ao Mali saindo da Líbia são, pelo menos 500 milhas pela Argélia e/ou Níger.

Como normalmente os rebeldes não têm uma força aérea, não têm aviões de transporte militar, as manchetes acima referenciadas e a propaganda que elas resumem, implicam que os rebeldes do Tuareg tenham percorrido todo o percurso desde a Líbia até a sua terra natal, em comboios com armas pesadas através de pelo menos uma outra nação sem serem detectados ou desencorajados pelas autoridades locais. Para não mencionar o facto de lançarem uma ofensiva três meses após o assassinato do líder líbio Muammar Gaddafi, quando o seu comboio foi atingido por bombas francesas e por um míssil Hellfire em Outubro do ano passado. Mas a implicação de que a Argélia e Níger, especialmente a Argélia, sejam cúmplices pelo trânsito dos combatentes Tuaregues e armas da Líbia para o Mali é nefasto em termos da expansão das acusações ocidentais – e acções – na região.

Rebeliões armadas são tratadas de formas diferentes pela imprensa dominante ocidental – a emissão das notícias dependem de como os rebeldes e os governos a que estes se opõem são vistos pelos principais membros da NATO.

Nos últimos anos a NATO tem fornecido apoio militar e logístico a rebeldes armados – na maioria dos casos envolvidos em ataques cruzados e em agendas separatistas e irredentistas –  Kosovo, Macedónia, Libéria, Costa do Marfim, Líbia e Síria e nas frentes “diplomáticas” na Rússia, China, Paquistão, Sudão, Irã, Indonésia, Congo, Myanmar, Laos e Bolívia.

No entanto, as grandes potências da NATO adoptaram um rumo oposto com a Turquia, Marrocos (com os seus 37 anos de ocupação do Sara Ocidental), Colômbia, Filipinas, República Centro-Africana, Chade e outras nações que são seus clientes militares ou território por eles controlados, onde os Estados Unidos e seus aliados ocidentais fornecem armas, conselheiros, forças especiais e as tão conhecidas forças de manutenção da paz.

A batida das notícias alarmistas sobre o Mali é um sinal de que o ocidente pretende abrir outra frente militar no continente africano, seguindo os sete meses do ano passado de campanhas de operações especiais aéreas e navais contra a Líbia, de operações em curso na Somália e África Central e a recente implantação de forças especiais americanas no Uganda, Congo, a República Centro-Africana e Sudão do Sul. Em Fevereiro deste ano, na Costa do Marfim, tropas militares francesas e soldados da “paz” das Nações Unidas, dispararam foguetes para a residência presidencial e sequestraram violentamente o Presidente Laurent Gbagbo.

U.S. Africa Command (AFRICOM), tornou-se pela 1ª vez operacional como força combatente prevista  para actuar desde o início, nas primeiras duas semanas na guerra contra a Líbia, com a Operação  Odyssey Dawn, antes da campanha ser continuada pela  NATO, por mais sete meses de durante mais sete meses de bombardeios implacáveis e ataques de mísseis.

Mali pode vir a ser a segunda operação militar conduzida pela  AFRICOM. O país sem litoral faz fronteira com Burkina Faso, Guiné (Conakry), Costa do Marfim, Mauritânia, Níger e Senegal. Também compartilha uma fronteira com a Argélia, outra antiga colónia francesa.

Mali é o terceiro maior produtor africano de ouro depois da África do Sul e Gana. Possui depósitos consideráveis de urânio geridos por concessões francesas no norte do país, local actual do combate em curso. As exigências de Tuareg incluem a concessão de algum controle sobre as minas de urânio e as receitas que elas geram. Também nos últimos anos  se realizaram a norte grandes explorações de petróleo e gás natural.

Em Maio de 2005, a U.S. Special Operations Command Europe inaugurou a Trans-Saharan Counter-Terrorrism Iniciativ (TSCTI), ao distribuírem 1.000 soldados de forças especiais pelo noroeste da África, para a Operation Flintlock, com o fim de treinarem forças armadas do Mali, Argélia, Chade, Mauritânia, Níger, Senegal e Tunísia, os sete originais membros africanos da iniciativa contra o terrorismo Trans-saariana, que, no seu formato atual, inclui também Burkina Faso, Marrocos e Nigéria. Líbia em breve entrará para esta formação.

As forças especiais americanas levaram a cabo a primeira do que hoje se tornou na anual  operação  Flintlock  (exercícios contra insurgências) com as Nações acima do Sahel e do Magreb. No ano seguinte (2006) a NATO conduziu os jogos de guerra Steadfast Jaguar em Cabo Verde, para lançar a NATO Response Force (NFR) , após o qual a African Standby Force foi modelada.

Flintlock  07 e 08 foram realizadas em Mali.  Flintlock 10 realizou-se em várias nações africanas, incluindo também o Mali.

A 7 de Fevereiro de 2012 os Estados Unidos e o Mali começaram o exercício Atlas Accord 12, mas a Flintlock  12, agendada para mais tarde foi adiada por causa dos combates a norte. As operações Flintlock do ano passado incluíram  unidades militares dos Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Holanda, Espanha, Mali, Burkina Faso, Chade, Mauritânia, Nigéria e Senegal.

Em 2010 a AFRICOM anunciou que o Special Operations Command Africa (SOCAFRICA) “ganhará o controlo sobre a Special Operations Task Force-Trans Sahara (JSOTF-TS)  e da Special Operations Command e Control Element–Horn of Africa (SOCCE-HOA).

Embora a proposta da parceria com a Trans-Saharan na luta contra o terrorismo e dos seus multinacionais exercícios  vão no sentido de treinar as forças armadas das Nações do Sahel e Magreb no combate aos grupos extremistas islâmicos na região, na verdade, os EUA e seu aliados empreenderam uma guerra contra o governo da Líbia no ano passado, no apoio a elementos semelhantes e na aplicação prática de treino militar do Pentágono no noroeste da África, tem sido no combate às milícias Tuareg ao invés da al-Qaeda no Magreb Islâmico ou a Boko Haram da Nigéria.

Os Estados Unidos e seus aliados da NATO têm também conduzido e apoiado outros exercícios militares na área para os mesmos fins. Em 2008 a Economic Community of West African States (ECOWAS), grupo económico regional, a partir do qual foi “cozinhada” a West African Standby Force, realizou um exercício militar conhecido por Jigui 2008 no Mali, o qual  foi “apoiado por governos anfitriões como a França, Dinamarca, Canadá, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido, Estados Unidos da América e União Europeia”como noticiado na altura pela Ghana News.

AFRICOM também executa os exercícios Africa Endeavor multinacional communications interoperability,  inicialmente na África Ocidental. Na conferência de planeamento do ano passado em Bamako,  capital de Mali e, de acordo com a U.S. Army Africa, “reuniu mais de 180 participantes de 41 nações Africanas, Europeias e norte-americanas, bem como observadores da Economic Community of West African States (ECOWAS), Economic Community of Central African States (ECCAS), Eastern African Standby Force e a NATO para planearem os testes de interoperabilidade das comunicações e sistemas de informação das Nações participantes.” O exercício principal também foi realizado em Mali.

Os militares americanos têm-se instalado nesta nação, pelo menos desde 2005. A Voz da América revelou nesse ano que o Pentágono “estabeleceu  um centro de operações temporário numa base aérea perto de Bamako em Mali” . Estas instalações  fornecem  apoio logístico e serviços de emergência para tropas americanas  que treinam as forças locais em cinco países da região.

No ano seguinte, o U.S. European Command e o general James Jones (chefe da Marinha do Supreme Allied Command Europe, mais tarde Primeiro Conselheiro da Segurança Nacional de Obama, “divulgaram que o Pentágono procurava adquirir acesso às…bases no Senegal, Gana, Mali, Quénia e em outros países africanos,” de acordo com o noticiado na Web de Gana.

Em 2007, um soldado do 1º Batalhão, 10 ° grupo de forças especiais, com sede em Stuttgart, na Alemanha, onde está a sede da AFRICOM, morreu em Kidal no Mali, onde a luta está a ocorrer no momento. Sua morte foi atribuída a um “incidente não relacionado com o combate”. No ano seguinte um soldado com o programa de assistência do treinamento militar do Canadian Forces Military Training Assistance Programme  também perdeu a vida no Mali.

No ano passado, o Regimento de operações especiais do Canadá, colocaram tropas a norte da zona de conflito de Mali, o qual foi descrito “uma missão em curso.” Este regimento participou no exercício Flintlock 11 no Senegal.

Em Setembro de 2007 um avião de transporte militar americano Hercules C-130 Hercules foi atingido pelo fogo de fuzil  enquanto soltava suprimentos para tropas do Mali, cercadas  por forças Tuareg. De acordo com Stars and Stripes:

“o avião e tripulação, que pertenciam ao 67º Esquadrão de operações especiais, foram no Mali fazendo parte de um exercício anteriormente agendado e chamado de Flintlock 2007…Tropas do Mali tinham ficado cercadas na sua base, na região de Tin-Zaouatene perto da fronteira Argelina, por combatentes armados e não conseguiam arranjar suprimentos…[T] o governo de Mali pediu aos Estado Unidos para realizar as descargas aéreas…”

Em 2009 os Estados Unidos anunciaram que estavam a fornecer ao governo de Mali, mais de US $5 milhões em novos veículos e outros equipamentos. No final desse ano, no site das Forças aéreas Americanas na Europa, estava noticiado:

“A primeira missão do Super Hercules C-130  no apoio da força aérea americana em Áfricaaérea, abriu as portas a uma futura parceria de apoio entre a 86ª aérea transportadora e futuras missões em África.

“O comandante da missão, Major Robert May do 37º Esquadrão de Transporte Aéreo e tripulação foram encarregues de voar para Mali em 19 de Dezembro e trazerem para casa 17 soldados que estavam a ajudar ao treino das forças militares do Mali.”

Os Estados Unidos têm estado envolvidos na guerra no Mali por quase doze anos. As histórias recentes das atrocidades pela imprensa ocidental, irão alimentar a “necessidade” de uma intervenção de “protecção”, e irão fornecer o pretexto para o envolvimento militar americano e da NATO no país.

AFRICOM pode estar a planear a sua próxima guerra.

Nota: frases a negrito e sublinhadas são da minha responsabilidade

Advertisements

2 comments on “Mali: Nova guerra da AFRICOM?

  1. maria celeste ramos
    11 de Abril de 2012

    com os USA + NATO + UE a “tomar conta do mundo” – ai – esqueci a troika – Já chegava os Bilderberg – os 7 magnificos e agora os USA papam todos e tudo ??
    E o senhor que dá pelo nome de 1º ministro onde encaixa ???
    Vou ouvir mais uma vez o estado da economia – com o jornalista Luis Pais Antunes juriata + AnTº Ornelas eis secret estado Trabalho – são toddos eis grandes desenvolvicioniostas – tema – segurança social – vamos ver se dizem algo novo – não creio – afinam todos pelo mesmo diapasão – acho que é de ouvir pois ele até fala do colapso do sistema de pensões – ai ai

    Gostar

  2. Pingback: Mali – EUA cada vez mais envolvidos « A Arte da Omissao

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 11 de Abril de 2012 by in Mali and tagged , , , , , , , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: