A Arte da Omissao

G-20 a caminho da desintragação

As cimeiras têm ocorrido a alta velocidade para os líderes mundiais. Após a cimeira da NATO e do G8 em Chicago, um pouco antes da Cimeira da Terra no Rio e depois da Cimeira UE em Bruxelas no final de Junho,  Alfredo Jalife analisa a reunião do G20 que teve lugar no México em 18 e 19 de Junho. Para ele, 2012 é um ano de transição e as contradições dentro deste governo económico mundial são muito grandes para que se  possa tomar qualquer decisão importante. Alfredo convida a dar-mos atenção às reuniões bilaterais mantidas à sombra nas pirâmides mexicanas.

Tivemos as agendas eleitorais dos EUA e da China a colidir com a crise da zona Euro, a espalhar a in

fecção para o coração da reunião do G20 que decorreu em Los Cabos.

Obama, (cuja reeleição não está garantida) e o anfitrião Mexicano (que já não comanda a iniciativa localmente, nem regionalmente ou globalmente), tiveram uma crise forte de acefalia crónica, que os paralisou e os impossibilitou de tomar decisões fortes na reunião.

Para o actual Presidente da China, Hu Jintao, a cimeira foi apenas uma formalidade, e será o seu sucessor, Xi Jinping, que irá adoptar as decisões relevantes do G-20 no próximo ano em Moscovo. Não é a China que vai salvar os Estados Unidos e Europa das suas graves crises financeiras. Das três superpotências, a única que chegou a Los Cabos com ambas as mãos livres, foi o Presidente da Rússia, Vlady Putin.

A França definiu a sua nova direcção com o socialista François Hollande e o seu atraente novo slogan, “growth without austerity  /crescimento sem austeridade“, enquanto a Chanceler Angela Merkel tenta, contra todas as probabilidades, manter a disciplina fiscal e a austeridade, da qual se desvia o próprio presidente Obama.

O G-20 é um grupo heterogéneo dos melhores 20 PIB’s mundias, com duas excepções gritantes, a Espanha e o Irão. A ideia é a de, a partir de uma perspectiva economista, combinar o G-7 em declínio, aleijado e com dívidas, com os países do BRIC, economias altas mas com dívidas baixas. Em termos geopolíticos, o G-20 seria uma fractura “G-12” (G-7 + cinco BRICS) mais os seus aliados periféricos. Apenas três países da América Latina estão incluídos no grupo: Brasil, México (país anfitrião) e a Argentina.

A posição violenta e hostil do presidente mexicano Calderon – que aparentemente pretendia tornar-se  o chefe da companhia petrolífera espanhola predatória, Repsol – à nacionalização dessa empresa pela Argentina, destacou a subserviência do seu país aos EUA, em uníssono com o seu antagonismo explícito aos  BRICS. A sombra de fracturas persegue Calderon em todos os níveis.

A anatomia do G-20 revela várias outras fracturas: entre o G-7 e os BRICS, cujos interesses colidem com a Síria e o Irão; entre a América do Sul (Argentina e Brasil) e Calderon do México, dócil para com a Espanha e EUA.

Os meios de comunicação ocidentais estiveram bastante cépticos sobre os resultados desta cimeira, cuja agenda foi interrompida pela crise na Europa. Angela Merkel, esteve sob a pressão combinada dos EUA,  Grã-Bretanha e a nova Presidência Socialista da França. Esta crise tem muita importância para o resto do mundo e não deixa de ser um assunto relevante para o Eurocentrismo de um ou outro; e agora todo mundo sabe o veredicto grego sobre o dra(ch)ma  do seu destino.

Não há coesão na zona euro, Angela Merkel criticou a linha económica francesa num confronto verbal incomum com François Hollande [1]. O governo francês negou-se à criação de uma frente comum com a Itália e a Espanha contra a Alemanha, mas o que irritou supremamente Angela foi a reunião do Presidente francês com a oposição alemã centro-esquerda, relativamente tentada pelo projecto “crescimento sem austeridade”.

China foi alertada para a possibilidade da Grécia sair da zona do euro [2].  Os G-20 encontram-se num estado catatónico, e na melhor das hipóteses, ou pior, apressa-se para a fatal balcanização.

Em qualquer caso, o mais importante – na minha opinião – foi o que aconteceu, bilateral por natureza e à margem da Cimeira: as trocas entre Obama e Putin e Obama e Hu Jintao.

A agência Xinhua (15/06/12) revelou que Putin tinha planificado encontrar-se com Obama: foi o primeiro encontro desde o retorno ao Kremlin no mês passado, e “é provável que envolvam a assinatura de importantes acordos. “

Na verdade, The Economist (16/6/12), que sofre de Putinophobia e é porta-voz dos globalistas neoliberais, não parou de escrever contra este encontro. Alguém poderia pensar que gostaria de uma guerra mundial, supostamente para limpar as suas finanças.

Esta reunião foi o destaque da Cimeira. Apesar da grave colisão entre EUA e Rússia sobre o conflito interno sírio, a disputa nuclear iraniana e a implantação de uma alegada “defesa de mísseis” nas fronteiras da Rússia, não é improvável que ambos os países estejam em processo de delimitação de suas respectivas esferas de influência no Grande Médio Oriente.

Alemanha está na defensiva em face da pressão E.U. e  de acordo com Xinhua, querendo a Cimeira “ir além da questão da dívida Europeia e considerando o problema de recuperação e crescimento económico à escala global, o que significa remediar também o “péssimo estado das Finanças de U.S.”. Os Estados Unidos estão a tentar impor o tema da crise europeia, talvez para evitar serem publicamente envergonhados pela não execução da reforma abrangente do sistema financeiro global,  defendido pela  Rússia e que tinha sido decidido na cimeira anterior em Cannes.

Dilma Deilma, advertiu que “o mundo não deve esperar que as economias emergentes sozinhas resolvam o problema da crise global”. Será  que vai convencer Calderon?

Um dos arquitectos do “modelo G-20”, o antigo primeiro-ministro britânico Gordon Brown argumentou que “a crise europeia não a crise de um, é a crise de todos” [3] e acrescentou que, se os G-20 falharem na coordenação de um plano global de acção concertada, em breve “estaremos diante de uma desaceleração global, que terá impacto nas eleições presidências americanas e veremos a transição do papel de liderança global para a China”. Concluiu: “Esta é a última oportunidade.”

Certamente, uma crise global vai “aleijar” Obama, mas parece exagerado mencionar a China neste contexto, a menos que a pérfida Albion tenha uma carta escondida na manga. Gordon Brown acha que os membros do G-20 não devem “deixar o México sem concordarem em suportar um grande projecto de resgate à Europa, para parar o contágio.”

O drama das suas declarações reflecte o fato de que a situação é difícil para a Grã-Bretanha, porque na sua semiótica desconstrutiva, “resgate” da economia mundial provavelmente significará simplesmente o da Grã-Bretanha.

Na verdade, David Cameron tem uma infecção grave, derivada das suas ligações obscenas com a oligarca pestilencial Murdoch, e está tão abalado que recentemente se esqueceu de sua menina de oito anos num pub. 

Assim a insolvente “Anglosfera” dramatiza a situação.

James Haley, gerente do programa de economia global da CIGI (um grupo de reflexão do Canadá) acrescenta que os desafios a curto prazo dos G-20 são imensos e que “preservar o sistema de comércio internacional e os pagamentos dos últimos 65 anos” é uma obrigação. A situação será realmente tão trágica?

A data e local para a reunião dos G-20 não poderiam ter sido piores: um dia depois das eleições gregas, com o catatónico Obama e um país de acolhimento impotente. Que decisões podem ser tomadas com este nível de fractura dentro dos G-20?

O China Daily de 16/06/12, refere a cimeira nos seguintes termos: “é necessário apagar as chamas da economia global.” O problema é que alguns do G-20 são mais incendiários  (você sabe quem) do que bombeiros”. 

 [1] Reuters/Global Times, 16/6/12.

[2] China Daily, 15/6/12.

[3] Reuters, 15/6/12

Fonte:  http://www.voltairenet.org/A-G-20-en-route-to-balkanization#nh1   (Traduzido de inglês para português)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 6 de Julho de 2012 by in O mundo visto ao microscópio and tagged , , , , , , , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: