A Arte da Omissao

Planos globais para substituir o dólar

Tradução do artigo Global Plans to Replace the Dollar, de Bridgette Grillo, Krystal Alexander e Nicole Fletcher – VOLTAIRE NETWORK –  17  de Julho 2012

«As nações já ultrapassaram o limite em subsidiar as aventuras  militares dos Estados Unidos. Durante as reuniões de Junho de 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia, os líderes mundiais, como o Presidente Hu Jintao da China  e na altura o seu homólogo russo Dmitry Medvedev e outros altos funcionários das seis nações da  Shanghai Cooperation Organisation, deram o primeiro passo formal à substituição do dólar como moeda de reserva mundial.»

A admissão às reuniões foi negada aos Estados Unidos. Se os líderes mundiais forem bem sucedidos, o dólar cairá drasticamente em valor; o custo das importações, incluindo o  petróleo, subirão assim como as taxas de juro.

Os estrangeiros vêm o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a organização mundial de comércio (World Trade Organization), como os substitutos de Washington no sistema financeiro apoiado por bases militares e porta-aviões americanos que circulam à volta do globo. Mas esse domínio militar é um vestígio do império americano que não é mais capaz de governar pela força económica.

O poder militar dos EUA é musculoso, embora se baseie mais em armamento atómico e ataques aéreos a longa distância, do que em operações em terra, as quais se tornaram politicamente impopulares para serem montadas  em grande escala.

Em Junho de 2009, Chris Hedges escreveu:

“os arquitectos deste novo intercâmbio global percebem que, ao quebrar o dólar também quebram o domínio militar dos Estados Unidos. Os seus gastos militares não podem ser sustentados sem este ciclo de pesados empréstimos. O orçamento oficial para a defesa dos EUA relativo ao ano fiscal de 2008 foi de $623 biliões. De acordo com a Agência Central de Inteligência, o orçamento mais próximo deste valor foi a da China, com US $65 biliões»

Para financiar a permanente economia de guerra, os EUA inundam o mundo com dólares. Os bancos centrais dos destinatários estrangeiros transformam os dólares em moeda local e ficam com um problema. Se um banco central não gastar o dinheiro nos Estados Unidos, a taxa de câmbio contra o dólar aumenta e os exportadores são penalizados. Isto tem permitido que os EUA imprimam dinheiro sem contenção, comprem produtos importações e empresas estrangeiras, financiem a sua expansão militar e garantam que as nações estrangeiras, como a China continuam a comprar títulos de Tesouro americanos.

Em Julho de 2009, Presidente Medvedev ilustrou o seu apelo à substituição do dólar por uma moeda supranacional, ao sacar do bolso uma amostra da “moeda do futuro.” A moeda, que tem as palavras “Unity in Diversity”, foi cunhada na Bélgica e apresentada aos chefes das delegações do G8.

Em Setembro de 2009, a Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development),  propôs a criação de uma nova moeda que substitua o dólar como moeda de reserva. A ONU quer redesenhar o sistema de intercâmbio internacional,  Bretton WoodsA formação desta moeda será a maior reforma monetária desde a II Guerra Mundial.

A China está envolvida em negócios com o Brasil e Malásia para denominar o seu comércio em yuan, enquanto a Rússia promete começar a operar com o rublo e moedas locais.

Além disso, nove países latino-americanos chegaram a acordo sobre a criação de uma moeda regional, o “sucre”, visando a redução do uso do dólar americano. 

Os países, membros da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), bloco esquerdista idealizado pelo presidente Hugo Chávez da Venezuela, reuniram-se na Bolívia, onde prometeram prosseguir com a nova moeda para o comércio intra-regional. Os países membros do ALBA são a Venezuela, Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua, Dominica, São Vicente e Granadinas e Antígua e Barbuda.

O ciclo do suporte à permanente economia de guerra dos EUA parece estar quase no fim. Logo que o dólar deixe de inundar os bancos centrais e ninguém compre títulos do Tesouro, o império militar global americano colapsa. O impacto na vida diária para a população dos EUA pode vir a ser grave.

Os  nossos autores prevêem que, além do aumento dos custos, os Estados e municípios vejam os seus fundos de pensão a serem drenados. O governo será forçado a vender infra-estruturas, incluindo estradas e transporte para empresas privadas. Imóveis comerciais e privados vão valer menos de metade do seu valor actual. A equidade negativa que já assola 25 por cento dos lares americanos será expandida e  incluirá quase todos os proprietários de imóveis. Vai ser difícil pedir empréstimos e impossível vender imóveis, a menos que sejam aceites perdas maciças. As lojas vazias começarão a aparecer quarteirão em quarteirão. Encerramentos serão epidémicos. Haverá longas filas para comer sopa  e muitos  sem abrigo.

Actualização por Michael Hudson (Global Research)

Alguns países estrangeiros estão actualmente a tentar criar um sistema monetário internacional em que a poupança dos bancos centrais não financie o défice militar dos Estados Unidos.

Actualmente, os haveres em dólares estrangeiros assumem a forma de títulos do Tesouro, usados para financiar o défice orçamental interno americano (principalmente militar) e em grande parte devido aos gastos militares.

A Rússia, China, Índia e Brasil têm assumido a liderança na busca de um sistema alternativo. Mas quase nenhuma informação sobre este sistema esteve disponível nos EUA e mesmo na imprensa europeia, com excepção de uma versão mais curta do meu artigo “Desdolarização” que publiquei no Financial Times de Londres.

As discussões sobre a criação do novo sistema monetário alternativo não vieram a público. Eu fui convidado pela China para discutir as minhas opiniões com os funcionários de lá, para dar aulas em três universidades e posteriormente fui convidado a escrever as minhas propostas para o Premier Wen Jiabao, ficando pendente outra visita antes das reuniões deste ano entre a China, Rússia, Índia e Brasil, com o Irão presente na qualidade de visitante.

Agora que o euro entrou em colapso, existem poucas alternativas ao dólar como moeda de reserva. Isto implica que não há nenhuma moeda nacional, que seja um repositório de valores estável para a economia internacional.

Enquanto isso, gestores norte-americanos do dinheiro, conduzir o voo do dólar para o Brasil, China e outros países com “mercados emergentes” .

Nas circunstâncias actuais, estes países vendem os seus recursos e empresas gratuitamente — enquanto os dólares gastos para os comprar acabam nos bancos centrais, onde são reciclados em títulos de tesouro americanos, ou são usados para comprar divida da Zona Euro.

O resultado deste enigma é a pressão para acabar com a era da “livre circulação de capitais” e a introdução do controlo do capital. 

Não houve quase nenhuma discussão na imprensa da minha história ou do problema em si. Os órgãos de comunicação social dos Estados Unidos e Europa,   ignoraram a  proposta alternativa ao actual estado das coisas.

Actualização de Fred Weir (The Christian Monitor)

Esta história ilustra um aspecto do “post–Soviet Russia’s search for a place in the US-led global order” – posição que reflecte os distintos interesses geopolíticos desse país e como diferem do Ocidente, em termos de história, cultura e nível de desenvolvimento económico. 

A Rússia herdou da antiga União Soviética, relações estreitas com muitos países que os EUA considera como “rogue states“, incluindo o Irão, Cuba e Venezuela. Continua a existir muita simpatia oficial e pública  por esses países e pela oposição ao sistema global dos Estados Unidos, apesar de Moscovo não ver  grande sentido na ideologia anti-ocidental ou mesmo qualquer objectivo prático de mobilização em direcção a uma “Aliança”.

Durante a administração de George W. Bush, Moscovo viu-se sob a pressão do que é visto como as (Invasões ocidentais ao espaço pós-soviético), que os russos chamam de “vizinhança próxima”. Isto assumiu a forma de “revoluções coloridas”, ou o que os mídias ocidentais referiram como ” rebeliões a favor da democracia” na Georgia, Ucrânia, e Quirguistão, as quais removeram regimes corruptos mas amigos de Moscovo e trouxeram para o poder pró-ocidentais mais sinceros e activos. 

O Kremlin, com ou sem razão, interpretou essas convulsões como tentativas promovidas e orquestradas pelos EUA para reconfigurar as lealdades políticas dos estados vizinhos com os quais a Rússia tem profundas ligações históricas. Dois desses novos líderes, Mikheil Saakashvili da Geórgia e Viktor Yushchenko da Ucrânia, tentaram colocar os seus países na via rápida em direcção da NATO, perspectiva que Rússia visualizou com algum alarme.

Outra iniciativa da era Bush e que gerou profunda hostilidade em Moscovo foi o plano para uma estação de intercepção de mísseis na vizinha Polónia, com radares associados na República Checa. 

Em resposta a estas perceptíveis ameaças, a Rússia por vezes, parecia abandonar a sua maneira de cultivar relações com outros países que estavam em desacordo com os EUA, sendo este o assunto desta história. Os russos também realizaram jogos de guerra com a Marinha Venezuelana no Caribe, retomaram as patrulhas da guerra fria, à costa norte-americana e falaram sobre a revitalização de antigas bases aéreas soviéticos em Cuba.

No ano passado, com as alterações substanciais às prioridades políticas estrangeiras, introduzidas pelo presidente Barack Obama, a atitude de Moscovo relaxou um pouco. Obama arquivou o controverso plano para a estação de armas antimísseis na Polónia e implicitamente retirou da agenda qualquer questão de convocar a Ucrânia e  Geórgia para a NATO.

O conhecido “reset” nas relações entre Moscovo e Washington parece  melhorar as perspectivas de cooperação, mesmo sobre questões espinhosas como o Irão, apesar de ser ainda muito cedo para se tirar conclusões firmes.

Fontes;

- Chris Hedges, “The American Empire Is Bankrupt,” Truthdig, June 15, 2009.
- Michael Hudson, “De-Dollarization: Dismantling America’s Financial-Military Empire: The Yekaterinburg Turning Point,”Global Research, June 13, 2009.
- Fred Weir, “Iran and Russia Nip at US Global DominanceChristian Science Monitor, June 16, 2009.
- Lyubov Pronina, “Medvedev Shows Off Sample Coin of New ‘World Currency’ at G-8,” Bloomberg, July 10, 2009.
- Edmund Conway, “UN Wants New Global Currency to Replace Dollar,” Telegraph (UK), September 7, 2009.
- Jose Arturo Cardenas, “Latin American Leftists Tackle Dollar with New Currency,” Agence France-Presse, October 16, 2009.

Comentários e links desta cor, são da minha responsabilidade.

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3 comments on “Planos globais para substituir o dólar

  1. maria celeste ramos
    25 de Julho de 2012

    Muitos impérios caíram mas o império do dollar a cair ?? não sei prever e desejo que o mundo mude e já a muito eu assisti – Mas cair o dollar é cair os USA e mesmo a Nato – se calhar é mais possível cair o euro embora a europa tenha de ganhar outro lugar mas a guerra euro-dollar é o que temos desde 2008 pelo menos – se calhar é equivalente a derrotar a Grécia que sozinha poderá deitar abaixo toda a UE – não sei – este escrito é feito por quem saberá o que está a dizer -mas qual o lugar do petróleo no meio de tudo se petróleo é igual a dollar ? gostava de estar cá para ver

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  2. Guevara
    25 de Julho de 2012

    Pensar sequer que algum dia os EUA deixariam a situação do país atingir o caos descrito é ser ingénuo. Para já a anolgia que faço à reunião de 2009 da China/Russia para a criação da nova moeda, apenas vejo uma vítima: A Europa do Euro. E tudo o que foi descrito poder vir acontecer nos EUA pela perda de influência do Dolar como seja cortes nas pensões, venda de infra-estruturas, aumentos impostos a proprietários de imóveis, dificuldade ou mesmo impossibilidade pedir empréstimos, quarteirões de lojas vazias, filas para a sopa, tudo isto já é o pão nosso de cada dia em Portugal, Grécia e a assentar arrais em Espanha,e Itália. À primeira vista, a Europa e o Euro são os únicos que estão a sofrer as consequências da iniciativa da ideia em substituir o dólar. E como disse atrás, não acredito que jamais os EUA deixassem esta situação atingir o seu território. A Europa é como uma bola de ping-pong que está ser jogada entre estes dois blocos; America do Norte vs China/Russia.

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  3. António de Azevedo
    1 de Agosto de 2012

    Esta nova atitude do bloco China/Rússia, corresponde ao retomar de uma ideia anterior à invasão e anexação do Iraque, a qual pretendia substituir o dólar enquanto moeda de referência internacional para os contratos petrolíferos, significando que deixaria de existir o “petro-dólar”, para existir o “petro-euro”. Os países por detrás da ideia eram a China e o Irão e nunca frutificou tanto pela pressão monumental exercida pelos Estados Unidos sobre a Europa, quanto pela impossibilidade dos europeus de manterem – no interior de uma Zona Euro sem uma autoridade política central – uma moeda que seria, nesse caso, a mais forte do mundo.

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