A Arte da Omissao

Quem está a lutar na Síria – 1ª Parte

Tradução do artigo Who is fighting in Syria? de Thierry Meyssan – 24 de Julho de 2012

Embora a imprensa ocidental retracte o exército livre da Síria como um grupo revolucionário armado, Thierry Meyssan há mais de um ano que afirma ser um corpo contra-revolucionário. Segundo ele, esta força passou das mãos dos reaccionários das monarquias do Golfo para os da Turquia, actuando para a NATO.

 Tal afirmação precisa de uma prova demonstrativa…

Nos últimos 18 meses, a Síria tem estado presa a problemas que têm vindo a aumentar e que derivaram num vasto conflito armado, o qual  já matou cerca de 20.000 pessoas. Se há consenso nesta observação, variam no entanto as narrativas e as interpretações.

Para os Estados Ocidentais e respectivas imprensas, os sírios aspiram viver em  democracias de mercado ocidentais. Seguindo os modelos das “Primaveras árabes” da Tunísia, Egipto e Líbia, os sírios levantaram-se para derrubar o ditador Bashar al-Assad.  Enquanto os ocidentais teriam gostado de intervir para parar o massacre, os russos e chineses, sem interesse próprio ou desprezo pela vida humana, opuseram-se à  intervenção.

Para os outros Estados que não são vassalos dos Estados Unidos nem dos seus meios de comunicação, os EUA lançaram uma operação planeada há muito tempo atrás contra a Síria. Primeiro, através dos seus aliados regionais, e de seguida, com a introdução directa de grupos armados, inspirados nos Contras da Nicarágua, os quais têm desestabilizado o país. Internamente, encontraram fraco apoio e foram desbaratados, enquanto a Rússia e China impediram a NATO de destruir o exército sírio e inverter a equação regional.

Quem está a dizer a verdade? Quem está enganado?

Grupos armados na Síria não defendem a democracia,  lutam contra ela

Em primeiro lugar, a interpretação dos eventos sírios como um episódio da “Primavera árabe” é uma ilusão, porque essa “Primavera” não tem base real.  Essa frase não passou de um slogan publicitário para apresentar positivamente fatos não relacionados. Embora tenha havido uma revolta popular na Tunísia, Iémen e Bahrein, não houve nenhuma no Egipto nem na Líbia.

No Egipto, as manifestações de rua limitaram-se à capital e a partes da classe média; nunca, absolutamente nunca, o povo egípcio se identificou com o espectáculo de Tahrir Square [1].

Na Líbia, não houve nenhuma revolta política, mas um movimento separatista contra o poder de Trípoli e a intervenção militar da NATO, que custou a vida a cerca de 160.000 pessoas em Cirenaica.

A estação libanesa NourTV tem tido grande sucesso com a transmissão da série  de Hassan Hamade intitulada “a primavera árabe, de Lawrence da Arábia até Bernard-Henri Levy.” Os autores desenvolvem a ideia de que a “Primavera árabe” é um remake da “Revolta árabe“, que ocorreu entre 1916 a 1918, orquestrada pelos britânicos contra os otomanos.

Neste momento, os ocidentais manipulam situações para perturbar uma geração de líderes e impor a irmandade muçulmana. Na verdade, a “Primavera árabe” é publicidade falsa. Agora, Marrocos, Tunísia, Líbia, Egipto e Gaza são governados por uma fraternidade; por um lado impõem uma ordem moral e por outro apoiam o sionismo e o capitalismo pseudo-liberal, ou seja os interesses de Israel e dos anglo-americanos.

A ilusão foi dissipada. Alguns autores, como  Said Alcharifi  Hilal da Síria,  ridicularizam a  “Primavera da NATO”.

Em segundo lugar, os líderes do Conselho Nacional Sírio (SNC), bem como os comandantes do exército sírio livre (FSA) não são democráticos, no sentido de serem favoráveis a “um governo do povo, pelo povo e para o povo“,  de acordo com a fórmula de Abraham Lincoln, tomada a partir da Constituição francesa.

Assim, o primeiro presidente do SNC foi Burhan Ghalioun, um académico de Paris. Não foi de forma alguma “um opositor sírio perseguido pelo regime“, pois sempre circulou livremente dentro e fora de seu país. Nem era um “intelectual secular” como afirmava, era conselheiro político do argelino Abbassi Madani, Presidente da Frente de Salvação Islâmica (ISF), agora refugiado no Qatar.

O seu sucessor, Abdel Basset Syda [2] entrou para a política só nos últimos meses e de imediato se estabeleceu como mero executor dos desejos americanos. Após a sua eleição como chefe do SNC, comprometeu-se a não defender a vontade do seu povo, mas a implementar o “roteiro” que Washington elaborou para a Síria: “The Day After.”

Nem os lutadores do exército Sírio livre (Free Syrian Army– FSA) são os campeões da defesa da democracia. Eles reconhecem a autoridade espiritual do xeque Adnan Alrour (vídeo mais abaixo), pregador takfirist, o qual apela a derrubada e morte de Assad, não por razões políticas mas simplesmente porque Assad é da fé Alawite, que aos olhos do pregador é um herege.

Todos os oficiais identificados do FSA são sunitas e todas as brigadas FSA são nomeadas com figuras históricas sunitas. Os “tribunais revolucionários” da FSA sentenciam os  seus opositores políticos à morte (não apenas os apoiantes de Bashar al-Assad) e abatem  os incrédulos em público.

O programa do FSA  pretende acabar com o regime secular instalado pelo  Baath, pelo SSNP e pelo partido comunista,  em favor de um regime religioso sunita puro.

O conflito Sírio foi premeditado pelo oeste

A vontade ocidental em acabar com a Síria é conhecida e é suficiente para explicar os acontecimentos actuais. Vamos relembrar alguns factos que não deixam dúvidas quanto à premeditação destes eventos.[3]

A decisão de promover uma guerra com a Síria foi da responsabilidade do Presidente George W. Bush numa reunião em Camp David, no dia 15 de Setembro de 2001, logo após os ataques em Nova York e Washington.

Foram planeados ataques simultâneos na Líbia para se demonstrar a capacidade de reacção em dois teatros ao mesmo tempo. Esta decisão foi corroborada pelo depoimento do General Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, que se opôs a ele.

Na sequência da queda de Bagdá em 2003, o Congresso aprovou duas leis que instruindo o Presidente dos Estados Unidos à preparação de  guerras contra a Líbia e Síria (Syria Accountability Act).

Em 2004, Washington acusou a Síria de abrigar armas de destruição em massa, acusação também feita ao Iraque. Esta última fracassou quando foi admitido que as armas nunca existiram e que se tratava de um pretexto para invadir o Iraque.

Em 2005, após o assassinato de Rafik Hariri, Washington tentou entrar em guerra contra a Síria, mas não o pode levar adiante pois a Síria retirou o seu exército do Líbano. De seguida, os Estados Unidos, suscitaram falsos testemunhos para acusar o Presidente al-Assad de ter ordenado o ataque e criaram um Tribunal Internacional especial para o julgar. Mas, finalmente, foram forçados a retirar as suas acusações falsas quando as manipulações foram trazidas à luz do dia.

Em 2006, os Estados Unidos começaram a preparar a “Revolução Síria“, com a criação do Programa da Democracia da Síria. A ideia era criar um fundo e financiar grupos de oposição pró-ocidental  (tal como o Movement for Justice and Development). O financiamento oficial do departamento de estado foi completado em segredo com um fundo da CIA, através de uma associação da Califórnia, the Democracy Council (o Conselho de democracia.)

Ainda em 2006, os Estados Unidos “subcontratam” Israel para uma guerra contra o Líbano, na esperança de a envolver e assim justificar a intervenção. Mas a vitória de rápida do Hezbollah, frustrou o plano.

Em 2007, Israel atacou a Síria e bombardeou uma instalação militar na (Operation Orchard). Mas, novamente, Damasco manteve a calma e não se deixou envolver. Auditorias subsequentes levadas a cabo pela Agência Internacional da Energia Atómica mostraram que o destino não era um local nuclear, ao contrário do que tinha sido reivindicado pelos israelitas.

Em 2008, durante a reunião anual do grupo Bilderberg da NATO, o Director da Arab Reform Initiative, Bassma Kodmani e o director da Stiftung Wissenschaft und Politik, Volker Perthes, demonstraram ao Euro-American Gotha, os benefícios económicos, políticos e militares de uma eventual intervenção da Aliança, na Síria.

Em 2009, a CIA criou ferramentas de propaganda destinadas à Síria como o canal BaradaTV , com sede em Londres e com base na OrientTV do Dubai.

Aos elementos históricos relatados atrás, vamos adicionar a reunião realizada no Cairo, na segunda semana de Fevereiro de 2011, com Joe Lieberman, John McCain e Bernard-Henry Levy, Mahmoud Jibril (na altura, número dois do governo Líbio) e personalidades sírias como Malik al-Abdeh e Ammar Qurabi. Foi esta reunião que deu o sinal de início das operações encobertas que começaram na Líbia e Síria (15 de Fevereiro em Benghazi) e em 17 de Fevereiro em Damasco).

Em Janeiro de 2012, os departamentos do Estado e Defesa dos EUA formaram a força operacional chamada “The Day After Tomorrow. Supporting a democratic transition in Syria” /”o dia depois de amanhã. O apoio à transição democrática na Síria“.[4].

Em Maio de 2012, a NATO e o GCC (Gulf Cooperation Council / Conselho de Cooperação do Golfo), configuraram o Working Group on Economic Recovery and Development of the Friends of the Syrian People /  Grupo de trabalho para a Recuperação económica e desenvolvimento dos amigos do povo sírio, com  presidência conjunta alemã e dos Emirados. Nele, o economista Ossam el-Kadi elaborou um plano para dividir a riqueza Síria  entre os Estados-Membros da coligação, a aplicar no  “day after /no dia depois” (ou seja, a seguir ao  derrube do regime pela NATO e GCC) [5].

[1] Tahrir Square is not the largest in Cairo. It was chosen for marketing reasons, the word Tahrir translates in European languages as “Liberty”. This symbol was obviously not chosen by Egyptians, for there are several Arab words signifying liberty. Moreover, “Tahrir” indicates the liberty that is given to one, not the liberty that one acquires.

[2] The Western press has made a habit of adding an “a” to Mr. Syda’s name, changing it to “Saida” to avoid confusion with the disease of the same name. 

[3] The term “premeditation” is used normally in criminal law. In politics, the correct term is “conspiracy”, but the author abstained from using it because it creates a hysterical reaction from those who insist on making believe that Western policy is transparent and democratic. 

[4] “Washington drafted new constitution for Syria”, Voltaire Network, 22 July 2012. Tradução em “Washington elaborou nova Constituição para a Síria“.

Quem está a lutar na Síria – 2ª Parte

Links desta cor são da minha responsabilidade.

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7 comments on “Quem está a lutar na Síria – 1ª Parte

  1. maria celeste ramos
    1 de Agosto de 2012

    E o Iraque não foi ?? e afeganistão não é ?? e o Bangladesh não é ??
    Até Angola foi mas lixaram-se embora angola seja ??? seja o quê ??
    E não se fala em Israel ??
    esses santinhos da Estrela de David na “testa” ??
    perfiro ir ver a 2ª jorna dos olimpicos – já estava farta de futebol em todos os canais e de publicidade pornográfica – coitadinha da menina de 16 anos que não pode ser a melhor nadadora do mundo e logo o ferrete de dopping
    se calhar – há muitos doppings

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    • António de Azevedo
      2 de Agosto de 2012

      O seu de certeza! Deixe as “duras” e fique-se pelo “polen”!

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  2. maria celeste ramos
    1 de Agosto de 2012

    E o americano o mais medalado do mundo tem mesmo aqule arcaboiço sem doping mesmo que tenha sido (e ainda é) super.activo ?? 14 medalhas ?? igualando quem ??

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  3. maria celeste ramos
    1 de Agosto de 2012

    há sempre gente mais inteligente que – há sempre mais ricos do que – mas esta crescente super-tudo é mesmo de pensar que — há gato

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  4. António de Azevedo
    2 de Agosto de 2012

    Finalmente! Alguém que chama aos bois pelos nomes.

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This entry was posted on 1 de Agosto de 2012 by in Síria and tagged .

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