A Arte da Omissao

Quem está a lutar na Síria – 2ª Parte

Tradução do artigo Who is fighting in Syria? de Thierry Meyssan – 24 de Julho de 2012

Embora a imprensa ocidental retracte o exército livre da Síria como um grupo revolucionário armado, Thierry Meyssan há mais de um ano que afirma ser um corpo contra-revolucionário. Segundo ele, esta força passou das mãos dos reaccionários das monarquias do Golfo para os da Turquia, actuando para a NATO.

 Tal afirmação precisa de uma prova demonstrativa…

Quem está a lutar na Síria – 1ª Parte

Revolucionários ou contra-revolucionários?

Os grupos armados não nasceram dos protestos pacíficos de Fevereiro de 2011. Estes eventos, de facto denunciaram a corrupção e exigiram mais liberdade, enquanto grupos armados, como vimos acima surgiam do islamismo.

Nos últimos anos, uma terrível crise económica atingiu a zona rural, devido a más colheitas, as quais erradamente foram avaliadas como uma passagem de infortúnios, quando na realidade são consequências das alterações climáticas crónicas.

A isto adicionam-se os erros da aplicação das reformas económicas que têm perturbado o sector primário. Esta crise foi seguida de um enorme êxodo rural, que o governo tem gerido, e de um afastamento sectário de alguns agricultores negligenciados pelos poderosos. Em muitas áreas, a habitação rural não se concentrava nas aldeias, mas sim, dispersas por fazendas isoladas. Ninguém tinha avaliado a extensão deste fenómeno, até que seus seguidores se reuniram.

Em última instância, enquanto a sociedade síria encarna o paradigma da tolerância religiosa, internamente desenvolve-se uma corrente takfirista, que forneceu a base para os grupos armados. Estes, foram ricamente financiadas por monarquias Wahhabi (Arábia Saudita, Catar e Sharjjah).

Esta extraordinária sorte possibilitou a mobilização de novos combatentes, onde se incluem parentes das vítimas da repressão maciça contra o sangrento e fracassado golpe da irmandade muçulmana, em 1982. Sua motivação é frequentemente  mais pessoal do que ideológica. Ela nasce da vingança. Muitos bandidos e criminosos atraídos pelo dinheiro fácil se juntaram: o salário de um revolucionário” é sete vezes o salário médio. 

Finalmente, os profissionais que lutaram no Afeganistão, Bósnia, Chechénia ou Iraque começaram a aparecer. A frente destes homens, estão elementos da Al Qaeda na Líbia, liderados por Abdelhakim Belhaj em pessoa [6]. A comunicação erradamente apresentam-nos como jihadistas, pois o Islão não concebe Guerras Santas contra companheiros muçulmanos. Eles são principalmente mercenários.

Os meios de comunicação ocidentais e a imprensa do Golfo insistem na presença de desertores dentro do FSA (exercito livre da Síria). É correcto. No entanto é falso afirmar-se que desertaram após se recusarem a reprimir manifestações políticas. Os desertores em questão quase sempre vêm de casos semelhantes aos que descrevemos acima. Além disso, qualquer exército de 300.000 homens terá forçosamente dentro das suas fileiras a sua quota de fanáticos religiosos e de bandidos.

Os grupos armados usam uma bandeira com uma faixa verde (em vez da banda vermelha) e três estrelas (em vez de duas). A imprensa ocidental chama-a de “Bandeira da independência“, como a que existiu no momento da independência, em 1946.

Na realidade, esta é a bandeira do mandato francês que vigorou durante a independência formal do país (1932-1958).  As três estrelas representam os três distritos do colonialismo religioso (Alawite, Druze e cristãos). Usar esta bandeira não é certamente o equivalente a acenar um símbolo revolucionário. Pelo contrário, é afirmar a vontade de prolongar o projecto colonial, o acordo Sykes-Picot de 1916 e a remodelação do “Grande Médio Oriente“.

Ao longo destes 18 meses de acções armadas, estes grupos armados estruturados mais ou menos coordenaram-se. Assim, a grande maioria está sob comando Turco, sob o rótulo do exército livre Sírio. Na verdade, eles tornaram-se auxiliares da NATO; sua sede localiza-se mesmo na base aérea da NATO em Incirlik. Islamitas do núcleo duro formaram as suas próprias organizações ou juntaram-se à al-Qaeda. Estão sob o controle do Qatar ou do ramo Sudeiri da família real Saudita [7]. Eles estão de facto ligados à CIA.

O cenário que começa com os agricultores pobres e termina com o influxo de mercenários, é idêntico ao que assistimos na Nicarágua, quando a CIA organizou os Contras para derrubar os Sandinistas, ou o que se sabe ter acontecido em Cuba quando a CIA organizou o desembarque na Bay of Pigs, para derrubar Castro.

É precisamente este o modelo que os grupos armados sírios reivindicam como sendo seu: em Maio de 2012, Contras do Miami cubanos organizaram seminários de treinos de guerra de guerrilha contra-revolucionária para os seus colegas Sírios [8].

Os métodos da CIA são sempre os mesmos em todos os lugares. Os Contras Sírios focaram a sua acção militar em parte na criação de bases permanentes (mas nenhuma  mantida, nem a Emirado Islâmico do Baba Amr), na sabotagem económica (destruição de infra-estruturas e na destruição com fogo de grandes fábricas) e finalmente em tácticas terroristas (descarrilamento de trens de passageiros, ataques com carros bomba assassínios de líderes religiosos, políticos e militares).

Em consequência, a parte da população Síria que poderia ter tido simpatia por grupos armados no início dos eventos, acreditando que eles representariam uma alternativa ao regime actual, têm progressivamente ficado descontentes.

Sem surpresas, a batalha de Damasco consistiu na convergência na capital, de 7.000 combatentes espalhados por todo o país e exércitos de mercenários com sede em países vizinhos. Dezenas de milhares de Contras tentaram entrar no país. Eles moviam-se em várias colunas de pick-up’s, preferindo atravessar desertos do que viajar por auto estradas. Alguns deles foram parados por bombardeios aéreos e tiveram que voltar para trás. Outros, depois de conquistarem os postos fronteiriços, chegaram à capital. Não  encontraram o esperado apoio popular. Pelo contrário, foi o povo que guiou os soldados do exército nacional na sua identificação e eliminação. Eventualmente, foram forçados a recuar e anunciaram que, não tendo tomado Damasco, iriam para Aleppo. Fica claro que não são Damascenos revoltados, nem Aleppians, mas meros combatentes transitórios.

Contra infiltração através do deserto perto de Dera

A impopularidade dos grupos armados deve ser comparada com a popularidade do exército regular e dos milicianos de auto defesa. O exército nacional sírio é um exército conscrito, por isso é um exército popular, e é impensável que ele possa ser usado para fins de repressão política. Recentemente, o governo autorizou a criação de milícias de bairro. Distribuiu armas aos cidadãos que se comprometeram a dedicar 2 horas do seu tempo todos os dias na defesa do seu bairro, sob supervisão militar.

A lua é feita de queijo verde

No seu tempo, o Presidente Reagan encontrou algumas dificuldades a tentar apresentar os Contras como “revolucionários.”  Ele criou uma estrutura para essa propaganda, the Bureau of Public Diplomacy, cuja gestão confiou a Otto Reich [9], jornalistas corruptos, na maioria dos grandes meios de comunicação dos EUA e da Europa Ocidental para envenenarem o poço da opinião pública. Entre outros, ele lançou o boato de que os Sandinistas tinham armas químicas e que poderiam usá-las contra o seu próprio povo.

Hoje, a propaganda é emitida a partir de casa branca pelo conselheiro de segurança nacional adjunto, encarregado de comunicações estratégicas, Ben Rhodes. Ele emprega os métodos antigos e espalhou também boatos de armas químicas contra o Presidente al-Assad.

Em colaboração com o MI6 britânico, Rhodes conseguiu impor uma estrutura fantasma como sendo a principal fonte de informação para as agências de notícias ocidentais: o Observatório Sírio para Direitos Humanos (OSDH). Os meios de comunicação nunca questionaram a credibilidade deste disfarce, apesar das suas alegações terem sido negadas pelos observadores da Liga Árabe e das Nações Unidas. Melhor ainda, essa estrutura fantasma, que não tem escritórios nem pessoal nem experiência, também se tornou a fonte de informação para as chancelarias europeias desde que a Casa Branca os convenceu a retirar seu pessoal diplomático da Síria.

Enquanto aguarda para estar no ar, o correspondente da Al-Jazeera, Khaled Abou Saleh, telefona para o seu editor. Ele afirma que Baba Amr está debaixo de fogo e organiza os respectivos efeitos sonoros. Abou Saleh foi convidado de honra de François Hollande na 3ª Conferência dos Amigos de Síria. 

Ben Rhodes também organizou espectáculos para jornalistas sedentos de sensacionalismo. Duas operações foram estabelecidas, uma no escritório do primeiro-ministro turco Erdogan e a segunda nos escritórios do antigo primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora. Alguns jornalistas foram convidados a entrar ilegalmente na Síria com a ajuda de contrabandistas. Por meses, foram oferecidas viagens desde a fronteira turca até uma aldeia testemunha remota localizada nas montanhas. Eram dadas fotos dos visitantes com os “revolucionários” e era permitido “compartilhar a vida quotidiana dos combatentes.” Os mais desportistas podiam visitar o Emirado Islâmico de Baba Amr na fronteira libanesa.

O vídeo de Homs

Estranhamente, muitos jornalistas observaram enormes falsificações por si mesmos, mas não tiraram conclusões. Assim, um fotojornalista famoso filmou os “revolucionários”  de Amr de Baba a queimar pneus para soltar fumo preto, para fazer acreditar que era um atentado no bairro. Ele transmitiu essas imagens no Channel4 [10], mas continuou a afirmar que tinha testemunhado o bombardeio de Baba Amr, como narrado pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Ou novamente, o New York Times observou que fotografias  e vídeos enviados pelo serviço de imprensa do exército Sírio livre com valentes combatentes eram encenações [11]. As armas de guerra eram na verdade réplicas, brinquedos para as crianças. O jornal no entanto, continuou a acreditar na existência de um exército de quase 100.000 homens desertores.

Leitura de uma declaração do exército livre sírio. Os orgulhosos “desertores” são figurantes que carregam armas falsas.

De acordo com uma ironia clássica, jornalistas preferem mentir do que admitir que foram manipulados. Uma vez enganados, conscientemente participam do desenvolvimento da mentira que descobriram. A questão é se você, leitor deste artigo, também prefer fechar os olhos ou se decide apoiar o povo sírio contra a agressão dos Contras.

 [6] “Free Syrian Army commanded by Military Governor of Tripoli”, by Thierry Meyssan, Voltaire Network, 19 December 2011.

[7] For further details, read “The Middle East counter-revolution”, by Thierry Meyssan, Komsomolskaïa PravdaVoltaire Network, 26 May 2011.

[8] “Syrian opposition sets up summer camp in Miami”, by Jean Guy Allard, Voltaire Network, 29 May 2012.

[9] “Otto Reich and the Counterrevolution”, by Arthur Lepic, Paul Labarique, Voltaire Network, 14 May 2004.

[10] “Syria’s video journalists battle to tell the ’truth’“, Channel4, 27 March 2011.

[11] “Syrian Liberators, Bearing Toy Guns”, by C. J. Chivers, The New York Times, 14 June 2012.

Links desta cor são da minha responsabilidade.

Artigos relacionados: Obama autoriza apoio secreto a rebeldes sírios

Advertisements

One comment on “Quem está a lutar na Síria – 2ª Parte

  1. Pingback: Quem está a lutar na Síria – 1ª Parte | A Arte da Omissao

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 3 de Agosto de 2012 by in Síria and tagged , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: