A Arte da Omissao

Monólogos da ONU

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U.N. Monologues

de  Thierry Meyssan
 
Rede Voltaire| Damasco (Síria | 1 de Outubro de 2012 

Todos os anos e durante uma semana, os chefes de estado do mundo reúnem-se em Nova Iorque para participarem na sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. A reunião tem, no entanto, perdido a sua dimensão funcional e construtiva para se tornar num espectáculo televisivo cujos momentos mais significativos são vistos por um público superado em tamanho, apenas pelas Olimpíadas ou pela Copa do mundo.

O discurso mais esperado foi o do presidente dos EUA, convidado a usar da palavra após o aquecimento da sala, levado a cabo pelo Presidente brasileiro. Sempre cordial, «Barack» fez a sua entrada com o estender do seu braço para o Secretário-geral Ban Ki-moon, sentado mais acima na plataforma. O secretário levantou-se e, de seguida, quase se dobrou para agarrar a sua mão.

Obama foi o único chefe de estado, que tomou a liberdade de fazer este gesto. O seu discurso, à moda de Hollywood, retractou a vida do embaixador Chris Stevens, morto duas semanas antes em Benghazi. Obama observou que a América não é um Império, mas sim um conjunto de homens e mulheres livres que trabalham e lutam para que o resto da humanidade possa desfrutar dessa mesma liberdade.

Este “momento emotivo” continuou até ao  “final feliz”, ao afirmar que “…  a história está do nosso lado e a crescente onda de liberdade nunca será revertida. ” Os seus slogans publicitários pareceram ser a  resposta directa ao artigo do Ministro dos negócios estrangeiros russo, Sergei Lavrov,  que afirmou não reconhecer nem a História nem a Liberdade do lado dos que destruíram  a Líbia e atacam a Síria[1]

O debate que se seguiu a este espectáculo foi intitulado de “Ajuste ou resolução de litígios internacionais por meios pacíficos.” Ao contrário do que o título parece indicar, o discurso  focou-se principalmente na guerra que a NATO e o Conselho de Cooperação do Golfo negam ter na Síria, na guerra que a França quer levar a cabo no  Mali e na guerra que Israel quer ter contra o Irão, com o apoio americano. 

As declarações a favor da intervenção militar na Síria, baseiam-se na tese da “primavera árabe”: as ondas sucessivas dos acontecimentos ocorridos nos últimos dois anos no mundo árabe têm as mesmas causas, expressam as mesmas aspirações e, por conseguinte, devem culminar com o triunfo da democracia e da economia de mercado. No entanto, os campeões desta teoria não são exactamente neutros e desinteressados.

O primeiro-ministro britânico David Cameron sublinhou a compatibilidade do Islão com a democracia e a economia de mercado, ao apontar a Turquia como um bom exemplo: (com mais de uma centena de jornalistas e outra de oficiais de altas patentes na prisão, as minorias oprimidas curdas e arménias, mas que possui “uma economia aberta e uma atitude responsável ao apoiar a mudança na Líbia, Síria e noutros lugares da região.“)

Após a comparação da agitação no mundo árabe com as lutas épicas nas Américas e  Europa, a favor da liberdade e unidade, o Emir do Catar defendeu o derrube das ditaduras e o estabelecimento da liberdade de expressão … ele, Sheik Hamad,, o golpista  que amordaçou toda a oposição e meios de comunicação no seu país. Referindo-se implicitamente sobre as lições extraídas do fracasso dos seus mercenários ao longo de mais de dezoito meses, apelou a outros Estados árabes o apoio militar para acabar com a Síria.

Por sua parte, o Presidente da França solicitou que a ONU estabelecesse um mandato sobre “as zonas libertadas”, como a Liga das Nações fez no passado ao dar à França um mandato sobre toda a Síria e o Líbano.

O primeiro-ministro Modibo Diarra do Mali, lembrou os ouvintes que o terror imposto pelos islamitas e a secessão do Norte do seu país, são a consequência directa da intervenção militar na Líbia, autorizada pelo Conselho de Segurança. Por sua vez, pediu que a ONU autorize uma intervenção militar internacional para ajudar o seu pequeno exército a reconquistar o território perdido. A França, que se irrita com impaciência desde a sua intervenção na Costa do Marfim, prontamente adiantou-se na esperança da reconstituição da sua zona de influência na África Ocidental. Se o fizer, terá que entrar em guerra contra muitos fanáticos que Paris armou e treinou  para derrubar a Jamahiriya líbia.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, descreveu um Irão agressivo e obscurantista, que representa um perigo imediato e será uma ameaça global, se possuir uma bomba atómica. Para justificar as suas afirmações, fez várias referências a temas questionáveis, como os ataques cometidos na Tailândia e na Bulgária e a trama contra o embaixador saudita em Washington. “Bibi” também insistiu que o mundo tem de  escolher entre a modernidade, exemplificada pelo povo judeu e seus vencedores do Prémio Nobel em ciência,  e o obscurantismo medieval representado pelo Irão (embora tenha reconhecido a sofisticação do país em matéria de tecnologia nuclear).

O mais ridículo, no entanto, foi o uso de um diagrama com o objectivo de costurar a confusão do público em geral, ao afirmar que o Irão já tinha alcançado 70% de um programa nuclear militar, embora Teerão use apenas 20% de urânio enriquecido para uso civil, quando qualquer programa militar exige 85% ou mais de urânio enriquecido.

Outros oradores provocaram surpresa. O Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad desconcertou os membros da Assembleia, quando inesperadamente regressa ao assunto do debate, esquecido por todos os outros: o “ajuste ou resolução dos litígios internacionais ou situações por meios pacíficos.”  A delegação dos Estados Unidos  abandonou a sala, enquanto o orador, entrelaçou versos do poeta clássico Saadi e  sublinhou que a paz  não se obtém nem pela lei nem à força, mas com compaixão para com os outros e auto-sacrifício. A provocação suprema: reafirmou a sua fé num futuro perfeito, governado por profetas e não por aqueles que usurparam os seus lugares.

Um outro exemplo, o presidente do Afeganistão designado pelos Estados Unidos, Hamid Karzai, exigiu o levantamento das sanções que afectam os líderes talibãs, não porque se tenham tornado modelos de tolerância, mas porque até gostaria de os ter no seu próprio governo. Então, qual foi o motivo para a guerra, em primeiro lugar?

O primeiro-ministro japonês, Yoshihko Noda, em análise à catástrofe de Fukushima, observou que as instituições que representam um povo podem ser ilegítimas quando privam as gerações futuras dos seus direitos fundamentais. São essas instituições, portanto, mais legítimas quando abusivamente privam os outros povos dos seus direitos fundamentais?

Enquanto escrevo esta coluna, os chefes de Estado continuam a sua marcha em direcção ao pódio. A resposta dos representantes russos e chineses, agendada para falar mais tarde, é ansiosamente aguardada.

[1] “On the Right Side of History”, by Sergey Lavrov, Voltaire Network, 16 June 2012.

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