A Arte da Omissao

A CIA, 9/11, Afeganistão e a Ásia Central – 2ª Parte

Tradução do artigo The CIA, 9/11, Afghanistan, and Central Asia 

Para marcar o lançamento da versão francesa do último livro de Peter Dale Scott (A), “The US War Machine”, publicamos um estudo detalhado realizado por este diplomata canadense sobre os ataques de 11 de Setembro. Ele traz à luz evidências de premeditação, por parte de uma facção interna do complexo militar industrial dos U.S.

VOLTAIRE NETWORK | 24 de Setembro de 2012 

“Engendrar uma série de provocações para justificar a intervenção militar é viável e poderia ser feita com os recursos disponíveis.” Relatório de Maio de 1963 ao Joint Chiefs of Staff [1]

[1Joint Chiefs oarf Staff, “Courses of Action Related to Cuba (Case II),” Report of the J-5 to the Joint Chiefs of Staff, May 1, 1963, NARA #202-10002-10018, 21,; discussion in Scott, American War Machine, 193, 196.

A CIA, 9/11, Afeganistão e Ásia Central – 1 ª Parte

A Guerra do terror e o projecto Rumsfeld-Cheney-Wolfowitz de dominação global

Mas, no curso deste ensaio, vou debruçar-me sobre as actividades no Usbequistão e Afeganistão,  do chefe da Unidade Bin Laden da CIA, Richard Blee. O Uzbequistão era uma área de preocupação não só para Blee e seu superior Cofer Black; era também uma área de grande interesse para Richard Cheney, cuja corporação Halliburton estava activa desde 1997, ou mesmo antes, no desenvolvimento das reservas de petróleo da Ásia Central. O próprio Cheney em 1998, num discurso a empresários do petróleo disse: “Eu não consigo pensar num momento em tenhamos visto emergir  uma região tão rapidamente e tornar-se estrategicamente tão importante, como o Cáspio”. [15]

[15]Lutz Kleverman, “The new Great Game,” Guardian (London), October 19, 2003,

Irei sugerir que a finalidade, bem como o resultado da protecção dos dois sauditas, pode ter sido para cumprir os objectivos de Cheney, Rumsfeld e do Projecto para o Novo Século Americano (PNAC): o estabelecimento de “forças avançadas” na  Ásia Central. [16]

[16] Rebuilding America’s Defenses: Strategy, Forces and Resources For a New Century: A Report of the Project for the New American Century, September 2000,, 17, 27.

Veremos que uma chamada telefónica em 9/11 de Tenet,  director da CIA,  a Stephen Cambone, figura-chave do PNAC do Pentágono, onde aparentemente se transmitiram  algumas das informações privilegiadas que nunca chegaram ao FBI.

Esta agenda neoconservadora, foi parcialmente para manter a dominação americana e israelita na região, para fins de segurança, e (como veremos) para criar as condições para futuras acções unilaterais preventivas contra estados hostis como o Iraque. Em particular, foi concebida para estabelecer novas bases de segurança no Oriente Médio, antecipando o anúncio previsível de Donald Rumsfeld de 2003, em que os EUA iriam retirar “praticamente todos os seus soldados, com excepção de algumas formadores de pessoal,” para fora da Arábia Saudita.[17]

[17“US Pulls out of Saudi Arabia,” BBC News, April 29, 2003,

Mas foi em parte,  também para reforçar a influência americana,  em particular sobre os estados recém-libertados da Ásia Central, com as suas consideráveis reservas de gás e petróleo não comprovadas. A conclusão alarmante de Fenton sobre as acções da CIA que antecederam os ataques de 9/11, faz mais sentido no contexto dessa agenda e também no contexto de três outras anomalias reveladas sobre a guerra de terror de Bush.

A  primeira anomalia é o paradoxo de que a suposta busca da al-Qaeda foi conduzida em aliança com duas nações, Arábia Saudita e Paquistão, que foram mais activas no apoio à Al Qaeda noutras partes do mundo. Neste ensaio veremos a inteligência americana e da Arábia Saudita,  a cooperar  na protecção,  em vez de neutralizar, os agentes sauditas da al-Qaeda.

A segunda anomalia é que, embora a CIA se tenha focado em esmagar a Al-Qaeda, Rumsfeld e Cheney tinham a intenção desde o início, numa guerra muito mais ampla. Em Setembro de 2001 não havia inteligência que ligasse o 9/11 aos ataques ao Iraque, mas o secretário de Defesa Donald  Rumsfeld, apoiado pelo seu vice, Paul Wolfowitz, já observava a  12 de Setembro:  “que não havia alvos decentes para bombardear no Afeganistão e que devemos considerar bombardear o Iraque, que, segundo ele, tinha alvos melhores “. [18]

[18] Richard A. Clarke, Against All Enemies: inside America’s war on terror (New York: Free Press, 2004), 31.

O argumento de Rumsfeld foi apoiado por um documento do Departamento de Defesa, preparado para as reuniões em Camp David, nos dias 15-16 de Setembro, onde “propôs que ‘ as metas imediatas e prioritárias da acção inicial’, deve ser a Al Qaeda, os Talibãs e o Iraque”. [19]

[19] Bradley Graham, By His Own Rules: The Ambitions, Successes, and Ultimate Failures of Donald Rumsfeld (New York: Public Affairs, 2009), 290.

O Iraque foi o alvo de Rumsfeld e Wolfowitz, pelo menos desde 1998, quando os dois homens co-assinaram uma carta do PNAC ao presidente Clinton, pedindo “a retirada do regime de Saddam Hussein do poder”. [20]

[20] PNAC, Letter to President Clinton on Iraq, January 26, 1998,http://www.newamericancentury.org/i….

Mas o Iraque não foi o único alvo da agenda de Cheney-Rumsfeld-Wolfowitz, que, pelo menos desde 1992, passava pelo domínio global dos EUA, ou o que o ex-coronel americano Andrew Bacevich EUA,  chamou de “hegemonia americana permanente e global”. [21] 

[21] Gary Dorrien, Imperial Designs: Neoconservatism and the New Pax Americana (New York: Routledge, 2004). Bacevich falava de um memorando de 1992, elaborado por Wolfowitz para o então secretário de Defesa, Cheney, apelando a  América a manter o poder de agir unilateralmente. Consultar Lewis D. Solomon, Paul D. Wolfowitz: visionary intellectual, policymaker, and strategist (New York: Praeger, 2007), 52; Andrew Bacevich, American Empire: The Realities and Consequences of U.S. Diplomacy (Cambridge MA: Harvard UP, 2002), 44.

Para os neoconservadores foi a grande prioridade. Ainda antes de Bush ser  eleito pelo Supremo Tribunal Federal em Dezembro de 2000, Cheney  trabalhava  já em garantir  postos-chave aos co-signatários da carta de 1998 (incluindo Richard Armitage, John Bolton, Perle Richard, juntamente com outros funcionários do PNAC como Stephen Cambone).

A guerra do terror desde o seu início, foi concebida como instrumento para a concretização deste objectivo. O conselheiro de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, em 24 de Setembro “levantou a questão do patrocínio estatal do terrorismo: ’Qual é a nossa estratégia em relação aos países que apoiam o terrorismo, como o Irão, Iraque, Líbia, Síria e Sudão? ‘”[22] 

[22] Bob Woodward, Bush at War (New York: Simon & Schuster, 2002), 131. Much earlier, on the afternoon of September 11, DOD official Stephen Cambone recorded notes from his conversation with Rumsfeld : “Near term target need — Go massive Sweep it all up thing related and not”.

No seu livro de memórias, general Wesley Clark relata que a questão tinha evoluído em Novembro,  para  um plano de cinco anos do Pentágono: A Novembro de 2001, visitei o Pentágono e um dos altos oficiais militares teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos no trilho para ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto estava a ser discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, começando com o Iraque, depois Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão. [23]

[23] Wesley Clark, Winning Modern Wars (New York: PublicAffairs, 2003), 130.

Wes Clark – America’s Foreign Policy “Coup”

Nessa época, o ex-CIA, Reuel Marc Gerecht publicou um artigo no The Weekly Standard, sobre a necessidade da mudança de regime no Irão e Síria. [24] (Gerecht ainda hoje, continua a advertir no The Weekly Standard da ameaça dessas duas nações)

[24] Nicholas Lemann, “The Next World Order,” New Yorker, April 1, 2002,.

Na era Clinton, Gerecht, Cheney e Rumsfeld, fizeram parte do projecto para o Novo Século Americano, um grupo beligerante que apelou à acção contra o Iraque em particular, e ao aumento do orçamento de defesa que permitisse “aumentar significativamente os gastos com a defesa ”  na “causa da liderança americana.”

O relatório do PNAC de Setembro de 2000 – Rebuilding America’s Defenses, muito referiu o petróleo do Golfo e a importância em manter e fortalecer  “as forças da linha da frente na região. “[25]

[25] Rebuilding America’s Defenses — Strategy, Forces and Resources For a New Century: A Report of the Project for the New American Century, September 2000,, 17, 27.

É relevante que, no final de 2001, na esteira do 11/9 e da guerra do terror, os Estados Unidos já tinham estabelecido novas bases no Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, estando assim em melhor posição para influenciar o comportamento dos recém governos.

No decorrer deste ensaio, veremos que o acordo de 2001, para utilizar a primeira e uma das mais importantes dessas bases, Karshi-Khanabad ou K-2 no Uzbequistão, nasceu de um anterior acordo do Pentágono, complementado com um outro da CIA negociado em 1999 por Richard Blee do Alec Station Group, figura central neste ensaio.

A maioria dos americanos não sabe que a 11/9, forças especiais dos EUA já estavam no K-2 numa missão de treino no Uzbequistão, e por volta de 22 de Setembro, duas semanas antes do acordo militar formal EUA-uzbeque, “a CIA já voava suas equipes para o maciço Karshi-Khanabad, ou K2, base aérea no sul do Uzbequistão, onde engenheiros do exército dos EUA repararam a pista “. [26]

[26] Ahmed Rashid, Descent into chaos: the United States and the failure of nation building in Pakistan, Afghanistan, and Central Asia (New York: Viking, 2008), 70, 69; citing Ahmed Rashid, “US Builds Alliances in Central Asia,” Far Eastern Economic Review, May 1, 2000: “The CIA and the Pentagon had been closely collaborating with the Uzbek army and secret services since 1997, providing training, equipment, and mentoring in the hope of using Uzbek Special Forces to snatch Osama bin Laden from Afghanistan, a fact I discovered on a trip to Washington in 2000.”

A terceira anomalia foi que a guerra do terror levou os próprios Estados Unidos a um aumento dramático do uso do terror, até mesmo da tortura, contra os seus próprios cidadãos. Neste contexto, é relevante que Cheney e Rumsfeld, através da participação no projecto super secreto do Departamento de Defesa, tenham feito parte do plano Continuity of Government (COG), onde minaram  a Declaração dos Direitos americanos, com a vigilância e prisão de dissidentes, sem mandado judicial.[27]

[27Peter Dale Scott, “The Doomsday Project and Deep Events: JFK, Watergate, Iran-Contra, and 9/11,” Asia-Pacific Journal: Japan Focus, November 21, 2011

Esses planos, que datam do medo aos comunistas na década de 1950, têm sido as bases para os planos elaborados no Pentágono e noutros lugares, para lidar com os protestos contra a guerra e contra os planos do Pentágono na dominação global.

Como já afirmei noutro lugar, os EUA estão as gastar bilhões por ano na Segurança Interna, em grande parte devida à crença, articulada pelo coronel Oliver North, que a Guerra do Vietname tinha sido perdida nas ruas da América, e que o impedimento para as operações militares dos EUA precisava de ser tratada. [28]

[28] Scott, The Road to 9/11: wealth, empire, and the future of America (Berkeley: University of California Press, 2007), 9.

Cheney e Rumsfeld, fazendo parte do projecto conhecido como Doomsday Project for Continuity of Government (COG), também participaram desse esforço. [29]

[29] Estimates of annual spending on Homeland Security range up to a trillion dollars. See Stephan Salisbury, “Weaponizing the Body Politic,” TomDispatch.com, March 4, 2012

Em suma, o 9/11 preencheu longas agendas contempladas por um pequeno grupo de funcionários, para novas políticas radicais, tanto na Ásia Central como também no interior da América.

O crime homicida sugerido pela pesquisa meticulosa de Fenton,  é um tanto difícil e doloroso de contemplar. Hoje, a  América está em crise, por causa das actividades dos bancos grandes demais para falir, o que, como já foi apontado, também são bancos grandes demais para serem punidos como criminosos, e que colocaria em risco a estrutura financeira americana já ameaçada. [30]

[30] Cf. Simon Johnson, “Too Big to Jail,” Slate, February 24, 2012,A principal motivação por detrás da indulgência do governo sobre crimes graves, é o medo das consequências de tomar medidas duras sobre banqueiros individuais. E talvez tenham  direito a ter medo, dado o enorme tamanho dos bancos em questão. Na verdade, os bancos são maiores agora do que eram antes da crise, e, como James Kwak e eu documentámos em detalhes no nosso livro 13 Bankers, eles são muito maiores do que eram há 20 anos.

Este ensaio, porém detalhado, lida com algo análogo, talvez um crime grande demais de punir. O 9/11, como será visto, tem outros pontos em comum com o assassinato de John F. Kennedy.

(A) Ex diplomata Canadiano  e Professor de inglês na Universidade , Berkeley da Califórnia, Peter Dale Scott é o autor de  Drugs Oil and War, The Road to 9/11, The War Conspiracy: JFK, 9/11, and the Deep Politics of War

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 Nota : Links desta cor, são da minha responsabilidade.

A CIA, 9/11, Afeganistão e Ásia Central – 3 ª Parte

 

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This entry was posted on 14 de Outubro de 2012 by in 11 de Setembro and tagged , , , , , , , , .

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