A Arte da Omissao

Nem para nós somos bons

Antes da “crise”, que tem costas muito largas, Portugal esteve empenhado no equilíbrio do que era economicamente interessante e ambientalmente seguro.

Viriato Soromenho-Marques, entre Março de 2007 e 2010, integrou o Grupo de Alto Nível para a Energia e Alterações Climáticas. Este grupo, composto por 12 indivíduos, tinha como missão aconselhar a Comissão Europeia. Relata Viriato que, no final de 2009,  o economista Nicholas Stern, na conferência deste grupo, relatou ter estado com investidores da City de Londres, representativos de 13 biliões de dólares, interessados em investir nas energias renováveis e na eficiência energética, colocando como condição um acordo em Copenhaga. Mas foi tudo por água abaixo. Será lícito questionar o que falhou, os políticos ou os mercados?

Nos últimos anos, na área de produção ambientalmente sustentável, Portugal equipou-se de empresas devidamente preparadas para concorrerem nos mercados internacionais. Peter Bakker, presidente do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, considerou Portugal com um dos países com mais empresas com capacidade já instalada de tecnologia ambiental. Em relação à mudança das políticas nos transportes e energias renováveis, principal no que refere a expansão deste tipo de mercado, Peter considera ser um passo errado  pois  quando se travam as iniciativas sustentáveis, perde-se o ímpeto, tornando muito mais difícil o recomeçar, quando o dinheiro aparecer de novo.

Em 2010, Portugal chegou a estar na quinta posição mundial no aproveitamento das energias renováveis, ano em que 53.2 % da electricidade produzida foi energia limpa.

“Infelizmente, também aqui este governo parece uma comissão liquidatária. Mesmo abstraindo-se dos benefícios ambientais, a aposta nas renováveis seria indispensável, na óptica da competitividade. São energias endógenas, melhoram a balança comercial, criam mão-de-obra especializada, desenvolvemos patentes e tecnologia própria que podemos exportar. Recusamos a liderança, num dos poucos domínios onde poderíamos lutar por “. – diz Viriato

As renováveis representam parte da factura, 15% dos custos, mas Viriato acha que é um custo que pode ser compensador. Um dos cortes presentes no memorando de entendimento, é nas rendas excessivas pagas pelo Estado às empresas energéticas. O objectivo é acabar com   défice tarifário. Uma das consequências é o corte no apoio às renováveis. No entanto, em Setembro passado a Comissão Europeia pareceu querer dar um passo atrás no modo de resolução: “a eliminação do défice tarifário será alcançada mais pela alocação das receitas das licenças do CO2 (que vão financiar o sistema eléctrico com 1 930 milhões de Euros até 2020) do que pelas medidas de redução dos custos  (cerca de 1 275 milhões de Euros até 2020)” 

As opiniões dispararam. Carlos Pimenta, que foi secretário de Estado do Ambiente num governo PSD, lamenta o que ele considera falta de paciência dos governantes. Nas energias renováveis o que custa é o custo inicial e esse já foi feito. O Sol, vento, ondas, biomassa são de “borla”.

O secretário de Estado da Energia, Artur Trindade, chama a atenção para o facto de o Estado estar a reduzir pela 1ª vez, os custos do sector eléctrico. Artur é um crítico às energias renováveis, no que diz respeito ao seu apoio à custa de subsídios tarifários. “O que os governos anteriores fizeram foi atribuir direitos aos produtores, garantir-lhes remunerações que, por coincidência, não se reflectem no presente, mas apenas no futuro”, refere Artur Trindade.

Mas as opiniões são como as cerejas. Viriato discorda: “há limites para a ignorância e desconhecimento da história. Quem tem os pés assentes na Terra sabe que, nos últimos 200 anos, em todos os ciclos e modos energéticos (do carvão ao petróleo, não esquecendo o gás natural e o próprio nuclear) sempre houve estímulos do Estado. Todas as formas de energia são subsidiadas. Do que as renováveis necessitam é de um apoio inicial para ganharem velocidade de cruzeiro e se sustentarem no mercado. Este governo corre o risco de afogar o nadador quando ele já está a aproximar-se da praia. A estratégia energética, como toda a estratégia, visa sempre o futuro. Isso é política. O resto é mercearia”.

Na prática o governo acabou com os benefícios directos  aos consumidores, na aquisição de energia solar. Parou com a contribuição com metade do valor dos colectores, os quais custam cerca de 1800 Euros para uma família de 4 pessoas e como se não bastasse aumenta o IVA destes equipamentos de 12% para 23%.  

Uma aposta que achou interessante foi na construção de uma frota de automóveis com zero de emissões de CO2. A venda geral de automóveis decaiu quase 50%. Com o fim do estímulo de 5 mil euros,  que o governo anterior tinha aprovado, a quem quisesse comprar um carro eléctrico, deu-se o cancelamento pela Nissan da construção de baterias para estes carros, prevista para Cacia em Aveiro.

Mais números:

*um estudo recente da OIT, que projectou como seria Espanha em 2020, caso seguisse uma politica consistente de medidas ambientais, relata o aumento do emprego. A produção de energias limpas poderia gerar 125 mil novos postos de trabalho. Por arrasto, um aumento de 40%  no nº de empregos nas actividades de serviços e  construção das estruturas. Outro factor positivo seria a regeneração urbana pois poderia gerar até 1,37 milhões de postos de trabalho.  O que é doentio é que a própria Comissão Europeia reconhece o aumento médio anual no emprego da  “Eco indústria”” de quase o triplo em comparação com o que foi criado pela economia tradicional entre 2000 e 2008.

Viriato reconhece que em Portugal a projecção poderia ser semelhante; “mesmo neste contexto de crise, Portugal pode e deve investir nas frentes energéticas, alimentar, na recuperação das malhas urbanas degradadas, na mobilidade sustentável, na economia do mar. A sustentabilidade rima com prosperidade”. Será possível sair deste labirinto? –  “Temos de ser resilientes. Há duas coisas absolutamente certas. Para enfrentarmos os desafios do futuro, (da defesa da energia, da segurança alimentara ao ambiente e clima) e não sermos reduzidos à pobreza e irrelevância, os europeus têm de tornar à União Europeia numa casa política habitável. Numa república federal  e não numa masmorra onde presos e carcereiros, devedores e credores se ameaçam e agridem. A segunda certeza: mesmo que a rota suicidaria  corporizada na chanceler Merkel deite tudo a perder, no dia seguinte teremos de começar tudo, de novo. Temos de saber tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar uma catástrofe absurda” – termina Viriato.

Portugal é rico em recursos energéticos, temos sol, vento, mar  e biomassa. Somos ricos em recursos naturais renováveis. E também temos  recursos humanos na tecnologia. Em 2011, perdemos três dos investigadores doutorados, que faziam parte da equipe de João Peças, membro da direcção do INESC, que trabalhavam nas áreas dos sistema eléctricos e das energias renováveis. Segundo ele,  A Europa e Estados procuram muito por estes cérebros  e alerta para o risco de perdermos equipas inteiras. São cérebros que nunca mais voltam, nem quando a crise terminar. Com este êxodo,  Portugal perde também a capacidade de atrair talentos de fora.

Fonte: Edição Especial  – Visão Verde nº 1025

 

 

#############

Como referi atrás a “crise” tem costas largas. Pergunto eu, os “donos” da energia pela qual se geram guerras, se invadem soberanias,  estarão muito satisfeitos com os cérebros que apostam em energias limpas? Claro que não. E a crise veio mesmo a calhar para os “refrear”. 

Neste site, http://www.rense.com/general72/oinvent.htm, pode consultar a história das supressões a inventores de novas energias. Esta “crise” programada, é para mim, mais um veículo velado de supressão. Só assim se entende o descalabro que os governos, à pala da austeridade, destroem investimentos avultados aplicadas na exploração de energias limpas, as quais em Portugal e em 2011,  originaram que 53.2 % da electricidade produzida viesse dessas fontes. 

É uma acção concertada a todos os níveis. Objectivo imediato : empobrecer, retirar o acesso à cultura, anular o poder de discernimento dos povos, veladamente acabar com as soberanias dos Estados…. Objectivo à vista: dominação global. Só não vê quem não quer ver.

Alinha-se com este plano e deita-se para o lixo o que poderia ser um atractivo de investimento em recursos que a Mãe Natureza nos premiou, e para ajudar a afundar mais depressa o braco, um dos agentes da dominação ataca de novo Portugal:  Fitch acredita que Portugal vai precisar de segundo resgate

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One comment on “Nem para nós somos bons

  1. Padeira D'Aljubarrota
    4 de Novembro de 2012

    É o poder dos lobbies. Só uma revolução na Europa eliminaria este cancro.
    Eu fui um dos que investi no sistema solar subsidiado. Hoje considero ter sido a melhor opção. De um consumo mensal de 50€ em gas, passei par 15 a 20 € no inverno e para 5€ no verão. Se eu tenho esta poupança, é fácil imaginar o que isso representaria para os cofres do Estado se o sistema estiver disseminado de Norte a Sul. Infelizmente parece que os interesses dos lobbies estão acima do Estado.
    Não instalei paineis solares para produção de energia eléctrica por indisponibilidade financeira, mas ainda não desisti. Tal como diz o ex-secretário de Estado do Ambiente Carlos Pimenta, o que custa é o investimento inicial, porque o Sol é de borla, o tempo todo. O actual secretário, curto de vistas, apenas se limita a olhar para o dia de hoje para se manter agarrado ao tacho.

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