A Arte da Omissao

Serviços secretos paralelos – 2ª Parte

Para marcar o lançamento da versão francesa do último livro de Peter Dale Scott, “The US War Machine”, publicamos um estudo detalhado realizado por este diplomata canadense sobre os ataques de 11 de Setembro. Ele traz à luz, evidências da premeditação por parte de uma facção interna do complexo militar industrial dos U.S.

Tradução do artigo Parallel secret services

 de  Peter Dale Scott

Peter Dale Scott com a continuação da sua análise, mostra como os mecanismos de ligação entre as agências dos serviços secretos dos países aliados, deram origem a outros serviços secretos paralelos e a operações encobertas. Este ex-diplomata canadiano, revela desta forma, o método que permitiu aos conspiradores do 11 de Setembro de 2001, utilizar os  meios do aparelho de Estado dos EUA, sem o conhecimento dos de dentro.

VOLTAIRE NETWORK | 29 de Setembro de 2012 

Serviços secretos paralelos -1ª Parte

Antecedentes: o clube Safari e William Casey

Esses arranjos podem ser rastreados de uma forma ou de outra, pelo menos durante a década de 1970. Em seguida, oficiais superiores da CIA e ex-oficiais (nomeadamente Richard Helms), que estavam insatisfeitos com os cortes, instituídos pelo director da CIA, Stansfield Turner , no tempo de Jimmy Carter, organizaram uma rede alternativa, chamada de  Club Safari. Subordinada a chefes das secretas da França, Egipto, Arábia Saudita, Marrocos e Irão, o Safari Club, forneceu uma casa para os agentes da CIA, como Theodore Shackley e Thomas  Clines Thomas, os quais tinham sido marginalizados ou demitidos por Turner. Como o príncipe Turki explicou mais tarde, o propósito do Safari Club não era apenas para trocar informações, mas para realizar operações secretas que a CIA não poderia mais realizar directamente, na esteira do escândalo Watergate  e das reformas subsequentes. [18]

Na década de 1980, o director da CIA, William Casey tomou decisões chaves na condução da guerra encoberta no Afeganistão, não através da sua burocracia da CIA, mas com chefias das secretas sauditas, primeiro Kamal Adham e depois Turki Prince. Entre essas decisões, destaca-se a criação de uma legião estrangeira para ajudar os mujahideen afegãos na sua guerra contra os soviéticos – em outras palavras, a criação dessa rede de apoio que, desde o final da guerra,é conhecida como al-Qaeda. [19] Casey trabalhou os detalhes com os dois chefes de inteligência saudita, com o presidente do Banco de Crédito e Comércio Internacional (BCCI) e com um banco paquistanes, no qual Adham e Turki eram accionistas.

Ao fazê-lo, William Casey estava efectivamente a executar um segundo canal da CIA e a construir o futuro da Al-Qaeda no Paquistão com os sauditas, embora um oficial da CIA, hierarquicamente abaixo dele, tenha achado “insensato”.  [20] Na máquina de guerra americana, eu situaria o Clube Safari e o BCCI numa sucessão de preparativos para uma “segunda CIA ” ou “alternativa CIA”, que remonta à criação do Escritório de Coordenação Política (OPC), em 1948. Assim, é relevante que o director da CIA, George Tenet, seguindo o precedente de Casey, se tenha reunido com o embaixador saudita Bandar,  uma vez por mês,  e não tenha relatado os assuntos discutidos, aos agentes da CIA que lidavam com as questões sauditas. [21]

O próprio Kevin Fenton, invoca o exemplo do Safari Club ao sugerir a possível explicação de que Blee e Wilshire tenham usado a “rede paralela” para controlar al-Mihdhar e al-Hazmi, dentro dos Estados Unidos. Fenton refere, “sonegar as informações sobre Almihdhar e Alhazmi, só faz sentido se a CIA estivesse a monitorizar os dois homens nos EUA,  oficialmente ou fora dos livros”. [22] Mas uma terceira opção, seria a de que o GID estava a monitorizar os seus movimentos, situação bastante compatível com a afirmação de príncipe saudita Bandar, de que a segurança Saudita tinha “activamente acompanhado com precisão os movimentos da maioria dos terroristas”. [23]

Joseph and Susan Trento, ouviram de um antigo oficial da CIA que estava na Arábia Saudita, que “tanto  Hazmi como Mihdhar eram agentes sauditas”. [24] Se sim, eram sem dúvidas  agentes duplos,  agindo como (ou faziam-se passar por) terroristas, ao mesmo tempo que agiam como (ou faziam-se passar por) informantes. Em espionagem, os agentes duplos são valorizados e muitas vezes valiosos, mas confiar neles (como o exemplo  de Ali Mohamed ilustra) também pode ser perigoso.

Este foi especialmente o caso da CIA em relação à Arábia Saudita, onde o GID (The Jordanian General Intelligence Department), mais energicamente apoiou Al Qaeda em países como a Bósnia, em troca de uma promessa (negociada pelo ministro do Interior saudia, Naif bin Abdul Aziz com Osama bin Laden) que a Al Qaeda “não interferiria com a política da Arábia Saudita ou de outro país árabe”. [25] O ISI do Paquistão estava mais activamente envolvida com a Al Qaeda, e alguns dos seus elementos, estavam provavelmente mais perto dos objectivos ideológicos da Al Qaeda, do que o governo secular do Paquistão.

Mas em todos os casos, lidar com informadores ilegais além de perigoso é imprevisível e pode degenerar em corrupção. Para agirem, os informadores têm de infringir a lei, e os seus conselheiros por o saberem, além de terem de os proteger, por vezes têm de interceder para evitar que sejam detidos, e desta forma tornam-se cúmplices dos crimes dos seus informadores. [26]

Mesmo na melhor das circunstâncias, há decisões que têm de tomar para permitir que o crime de um informador seja executado, ou para o impedir, terminando a utilidade dele. Em tais momentos, as agências são todas demasiado susceptíveis em fazerem a escolha que não é do interesse público.

Um exemplo bem relevante, foi o primeiro ataque ao World Trade Center em 1993. Khalid Sheikh Mohammed, o suposto mentor do 11/9, foi também um dos conspiradores desse atentado. Entre os conspiradores, o FBI tinha um informador, Emad Salem. Salem, mais tarde revindicou, apresentado como provas as gravações das suas sessões com o FBI, que esta agência deliberadamente optou por não evitar o atentado. Eis  o relato cuidado de Ralph Blumenthal, no  The New York Times, deste precursor do mistério do 9/11:

Os oficiais da lei [isto é, do FBI] foram informados que uma bomba estava a ser construída por terroristas e que eventualmente seria usada para explodir o World Trade Center. Secretamente planearam frustrar os conspiradores, colocando pó inofensivo nos explosivos – disse um informador após a explosão.

O relato dado na transcrição de centenas de horas de gravações, que Salem fez secretamente, das suas conversas com os agentes da lei, retracta as autoridades numa posição melhor da anteriormente conhecida, quando impedirem o sucesso do atentado de 26 de Fevereiro às  torres mais altas de Nova Iorque. A explosão deixou seis pessoas mortas, mais de 1.000 feridos e danos superiores de meio bilhão de dólares. Quatro homens, estão agora em julgamento no Tribunal Federal de Manhattan, por esse ataque. [27]

O que torna o enredo de 1993 ainda mais relevante é que Salem, de acordo com várias fontes, era um agente dos serviços secrectos egípcios, enviado para os Estados Unidos para espiar as acções do egípcio “Blind Sheikh”, Omar Abdel Rahman. [28] Este facto, levanta a possibilidade de que o supervisor do F.B.I., que tinha “outras ideias” de como usar  Emad Salem, era um membro de uma equipa de ligação, com conhecimento especial que não podia compartilhar com outros agentes do FBI. Os serviços secretos egípcios podem, por exemplo, ter recusado expor a identidade de Salem. Esta sugestão é tanto especulativa como problemática, mas tem a vantagem de oferecer uma explicação relativamente coerente para o comportamento, que  de outra forma , seria desconcertante.

Esta explicação não exclui a possibilidade de que, alguns oficiais pudessem ter motivos mais sinistros, ao permitirem que o atentado ocorresse e depois o encobrissem. Sheikh Omar Abdel Rahman era na altura, uma figura-chave num programa sensível Saudita assinado também por oficiais norte-americanos, e também fornecedor de guerreiros mujahideen na Bósnia contra a Sérvia (incluindo alguns, como Ayman al-Zawahiri, mais tarde acusado ​​no enredo do 9/11). [29] Está claro que tanto o comportamento dos investigadores como o do Ministério Público, apontam que um número de diferentes agências norte-americanas não queriam perturbar as actividades de Rahman. Mesmo depois de ter sido indiciado no caso da conspiração de 1995, por explodir marcos de Nova York, o governo dos EUA continuou a proteger Mohamed Ali, uma figura chave na conspiração.

Pior ainda, o desempenho do FBI em permitir que o atentado continuasse, foi apenas uma de uma série de falhas de desempenho e de oportunidades perdidas e interligadas, que culminaram no  9/11.

A primeira foi a ligação com o assassinato em Nova York do judeu extremista, Meir  Kahane. Neste caso, o FBI e a polícia de Nova Iorque, na verdade, detiveram dois dos assassinos,  mas  depois  soltou-os, permitindo-lhes tomar parte no atentado do WTC de 1993. O instrutor  dos dois homens era Ali Mohamed, ainda nas Forças Especiais dos EUA, cujo nome foi sistematicamente protegido e não divulgado por parte do promotor, Patrick Fitzgerald. Então, em 1994, quando Ali Mohamed foi detido em Vancouver pela RCMP (Polícia montada Real) do  Canadá, o FBI interveio para providenciar a sua libertação. Mohamed uma vez liberto, prosseguiu então  para o Quénia, onde se tornou o principal organizador do atentado de 1998, à Embaixada dos EUA em Nairobi [30]

Ali Mohamed foi finalmente detido pelos americanos em 1998, mas não foi preso. Aparentemente, era ainda um homem livre, quando prontamente confessou ao seu conselheiro do FBI, Jack Cloonan, que não só conhecia, pelo menos, três dos alegados sequestradores do 9/11, como os ajudou no ensino de sequestro de aviões. [31] De acordo com Ali Soufan, num livro lançado em Setembro de 2011, Ali Mohamed em 2011, ainda aguardava pela sentença,  12 anos da sua confissão de culpa, em Maio de 1999. [32]

Temos que concluir que algo profundamente disfuncional está a acontecer, e já vinha a acontecer mesmo antes do 9/11. As condições de sigilo geradas por autorizações especiais, não apenas mascararam esta disfuncionalidade, como até diria, a judaram a criar. A história da espionagem demonstra que o poder secreto, quando opera na esfera das actividades ilegais, torna-se, hora após hora, antitético ao poder público democrático. [33] Quanto mais restrito é o grupo de planificadores especiais com autorizações especiais, menos provável  que as  suas decisões estejam em conformidade com os ditames da lei nacional e internacional e ainda com a moralidade e senso comum.

Juntemos a essas condições insalubres de sigilo do fundamentalmente insalubre, o relacionamento corrupto, de agências de inteligência dos Estados Unidos com as da Arábia Saudita e Paquistão. Esta atitude foi profundamente antidemocrática, tanto internamente como na Ásia. A dependência dos EUA do petróleo saudita, tem com efeito, gerado um aumento do fundamentalismo islâmico em todo o mundo, enquanto os 99,9 por cento dos americanos comuns que pagam o petróleo e gás, geram grandes somas, que os sauditas então reciclam nas instituições financeiras do Wall Street.

Da mesma forma, o grande relacionamento da América com o ISI do Paquistão, resultou no aumento significativo do tráfico internacional de heroína por clientes das duas agências afegãs. [34] Em suma, a disfunção burocrática que falamos sobre o 9/11 é o sintoma de uma maior disfunção,  no relacionamento dos Estados Unidos com a Arábia Saudita e Paquistão, e, através delas,  com o resto do mundo.

[18] Scott, American War Machine, 161; Scott, Road to 9/11, 62-63.

[19] Ahmed Rashid, Taliban: Militant Islam, oil, and fundamentalism in Central Asia (New Haven CT: Yale UP, 2000), 129.

[20] John Prados, Safe for Democracy, 489; discussion in Scott, American War Machine, 12-13.

[21] James Risen, State of War: the secret history of the CIA and the Bush administration (New York: Free Press, 2006), 188-89.

[22] Fenton, Disconnecting the Dots, 104.

[23] Summers, Eleventh Day, 397.

[24Joseph J. and Susan B. Trento, in Summers, Eleventh Day, 399. Since I presented this paper at a conference in Toronto on September 11, 2011, “Bob Kerrey of Nebraska, a Democrat who served on the … 9/11 Commission, [has] said in a sworn affidavit … that ‘significant questions remain unanswered’ about the role of Saudi institutions. ‘Evidence relating to the plausible involvement of possible Saudi government agents in the September 11th attacks has never been fully pursued,’ Mr. Kerrey said” (“Saudi Arabia May Be Tied to 9/11, 2 Ex-Senators Say,” New York Times, February 29, 2001, ).

[25] Wright, Looming Tower, 161; in Summers, Eleventh Day, 216.

[26] Such corruption is predictable and very widespread. In the notorious cases of Gregory Scarpa and Whitey Bulger, FBI agents in the New York and Boston offices were accused of giving their mob informants information that led to the murder of witnesses and other opponents. Agents in the New York office of the old Federal Bureau of Narcotics became so implicated in the trafficking of their informants that the FBN had to be shut down and reorganized.

[27] Ralph Blumenthal, “Tapes Depict Proposal to Thwart Bomb Used in Trade Center Blast,” New York Times, October 28, 1993, emphasis added. The next day, the Times published a modest correction: “Transcripts of tapes made secretly by an informant, Emad A. Salem, quote him as saying he warned the Government that a bomb was being built. But the transcripts do not make clear the extent to which the Federal authorities knew that the target was the World Trade Center.

[28] Scott, Road to 9/11, 145.

[29Peter Dale Scott, “Bosnia, Kosovo, and Now Libya: The Human Costs of Washington’s On-Going Collusion with Terrorists,” Asia-Pacific Journal: Japan Focus, July 29, 2011, http://japanfocus.org/-Peter_Dale-S…. Evan Kohlmann has described how a Zagreb office in support of the Saudi-backed jihad in Bosnia received “all orders and funding directly from the main United States office of Al-Kifah on Atlantic Avenue controlled by Shaykh Omar Abdel Rahman” (Evan Kohlmann, Al-Qaida’s Jihad in Europe, 39-41; citing Steve Coll and Steve LeVine, “Global Network Provides Money, Haven,” Washington Post, August 3, 1993).

[30Scott, Road to 9/11, 153, 347; citing “Canada freed top al-Qaeda operative,” Toronto Globe and Mail, November 22, 2001,

[31] Scott, Road to 9/11, 151-59.

[32] Ali Soufan, The Black Banners, 94-95, 561.

[33] The corruption appears to be inevitable in superpowers – states which have accumulated power in access of what is needed for their own defense. The pattern is less discernible in less powerful states like Canada.

[34“America’s Afghanistan: The National Security and a Heroin-Ravaged State,” Asia-Pacific Journal: Japan Focus, #20, 2009, May 18, 2009,Cf. “U.S. looks into Afghan air force drug allegations,” CNN, March 8, 2012,: “The United States is investigating allegations that some members of the Afghan air force have used their planes to transport drugs, a U.S. military spokesman said Thursday.

Investigators want to know whether the drug-running allegations, first reported in the Wall Street Journal, are linked to the shooting deaths last year of eight U.S. Air Force officers at the airport in the Afghan capital, Kabul. ‘The allegations of improper use of AAF aircraft is being looked into,’ said Lt. Col. Tim Stauffer, referring to the allegations that Afghan air force equipment has been used to illegally ferry drugs and arms.”

Serviços secretos paralelos – 2ª Parte

 

 Notas : frases, links desta cor, são da minha responsabilidade.

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This entry was posted on 14 de Novembro de 2012 by in 11 de Setembro and tagged , , , , , , , , .

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