A Arte da Omissao

Um mundo escondido a crescer fora do controle – Parte 1

Tradução do artigo  A hidden world, growing beyond control 

Projecto Top Secret America de Dana Priest  e William M. Arkin

Descrição do projecto

Top Secret America” é um trabalho de pesquisa jornalística do Washington Post, divulgado em 2010 e que descreve o enorme acúmulo da segurança nacional dos Estados Unidos após o 11 de Setembro de 2001.

Segundo os autores, quando se trata de segurança nacional, é comum não se olhar a despesas, resultando em grandes empreendimentos que ninguém no governo tem a compreensão completa dos mesmos. Foi o que Dana Priest e William M. Arkin encontraram: omnipresente, muitas vezes ineficiente e quase invisível às pessoas, destinatárias de tal protecção..

O projecto é composto por artigos, uma base de dados on-line com mapas interactivosoutros gráficos e descreve o escopo e complexidade do programa de segurança nacional do governo americano.

O mundo ultra-secreto do governo criado em resposta aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, tornou-se tão grande, tão pesado e tão secreto que ninguém sabe quanto dinheiro custa, quantas pessoas emprega, quantos programas contem  e o número exacto de agências que fazem o mesmo trabalho.

day1-lead

Foram algumas das conclusões da investigação de dois anos levada a cabo pelo  The Washington Post,  ao descobrir o que equivale a uma geografia alternativa dos Estados Unidos, um Top Secret America escondido da opinião pública sem qualquer supervisão. Depois de nove anos de gastos e crescimento sem precedentes, o resultado é que o sistema posto em prática para manter os Estados Unidos seguros é tão grande que a sua eficácia é impossível de determinar.

Outras descobertas incluem:

1.271 organizações governamentais e 1.931 empresas privadas trabalham em programas relacionados com contra terrorismo, segurança nacional e espionagem, em cerca de 10.000 locais em todo os Estados Unidos.

Estimam-se cerca de 854 mil pessoas, cerca de 1,5 vezes mais do número de pessoas que vivem em Washington, DC, que detêm habilitação de segurança top-secret.

Desde o 11 de Setembro de 2001, só em Washington e arredores,  33 complexos de edifícios destinados a serviços secretos do nível Top-Secret, estão em construção (2010) ou foram construídos. Juntos, ocupam o equivalente a quase três pentágonos ou a 22 edifícios do Capitólio dos EU – cerca de 17 milhões de metros quadrados.

Muitas agência de segurança e de serviços secretos fazem  o mesmo trabalho, criando redundância e desperdício. Por exemplo, 51 organizações federais e comandos militares, que operam em 15 cidades norte-americanas, controlalam o fluxo de dinheiro de e para as redes terroristas.

Analistas baseados em documentos e conversas obtidas por partes externas e internas do mundo da espionagem, partilham os seus pareceres com a publicação por ano de 50.000 relatórios dos serviços secretos – um volume tão grande que muitos são rotineiramente ignorados.

Não se trata de questões académicas; estamos a falar de falta de concentração, não de recursos, a causa do tiroteio do Fort Hood que originou 13 mortos, assim como a tentativa frustrada do atentado do dia Natal, não pelos milhares de analistas de  empregados cuja função é encontrar  terroristas solitários, mas pelo alerta de um passageiro de uma companhia aérea, sobre fumo a sair do passageiro a seu lado.

th-hiddenplaces (2)

Consulte a geografia alternativa

Desde o 11 de Setembro de 2001, o mundo ultra-secreto criado para responder aos ataques terroristas tornou-se numa empresa de difícil controle, espalhada por 10.000 locais nos EUA. São também questões que preocupam algumas das pessoas responsáveis ​​pela segurança da nação.

“Houve um grande crescimento desde o 9/11, que conseguir circunda-lo – não apenas para a CIA, para o secretário de defesa – é um desafio”.  disse o secretário de Defesa Robert M. Gates, numa entrevista ao The Post.

No Departamento de Defesa, onde mais de dois terços dos programas dos serviços secretos residem, apenas um punhado de altos funcionários – chamados super utilizadores – têm o conhecimento sobre a totalidade das actividades do departamento. Mas, como dois desses super utilizadores indicaram na entrevista, não existe uma forma  simples de tratar o trabalho mais sensível da nação.

“Eu não vou viver o suficiente para ser informado sobre tudo”, referiu um dos dois super utilizadores. O outro contou que na sua primeira recepção de informação, foi escoltado até um quarto minúsculo e escuro, sentou-se ao pé de uma pequena mesa e disseram-lhe que não podia tomar notas. Na tela, começaram a surgir programa após programa. Até que ele gritou frustrado, ” Parem! “. “Eu não estava a conseguir memorizar nada”, disse ele.

O aposentado do Exército,  tenente-general John R. Vines,  salienta a gravidades dessas questões. Foi convidado no ano passado a rever o método de rastreamento dos programas mais sensíveis do Departamento de Defesa. Vines, que já tinha comandado 145.000 tropas no Iraque e está familiarizado com problemas complexos, ficou chocado com o que descobriu.

“Eu não tenho conhecimento de nenhuma agência  com autoridade e responsabilidade, para levar a cabo  um processo para coordenar todas essas actividades interinstitucionais e comerciais”, disse ele numa entrevista. “A complexidade deste sistema desafia a descrição.”

O resultado, acrescentou, é que é impossível dizer se o país é mais seguro com estes gastos enormes e com todas estas actividades. “Porque falta um processo de sincronização, que inevitavelmente resulta numa mensagem dissonante e com reduzida eficácia”, disse Vines. “Nós, consequentemente, não podemos efectivamente avaliar se estamos mais seguros.”

A Investigação do Washington Post é baseado em documentos governamentais e contractos, descrições de trabalho, registros de propriedade, sites de redes sociais e corporativos, registros adicionais, e centenas de entrevistas com funcionários dos serviços secretos, militares, empresários e oficiais reformados. A maioria pediu anonimato ou porque estão proibidos de falar em público ou porque, segundo eles, temiam retaliações no trabalho por  descreverem as suas preocupações.

A criação da base de dados online do Post, com organizações governamentais e empresas privadas, baseou-se totalmente em registros públicos. A investigação focalizou-se  no trabalho ultra-secreto, porque a quantidade de informação classificada no nível secreto é demasiado grande para acompanhar com precisão.

O secretário da Defesa, Gates, na sua entrevista ao The Post, disse não acreditar que o sistema se tenha tornado grande demais para gerir, mas que é difícil por vezes conseguir dados precisos. Sobre o crescimento das unidades de serviços secretos do departamento da defesa, Gates disse que pretende rever estes programas. “Nove anos após 9/11, faz muito sentido olhar para tudo isso e dizer, ‘Ok, nós construímos uma enorme capacidade, mas teremos mais do que precisamos?”, referiu.

O director da CIA, Leon Panetta, que também foi entrevistado pelo The Post, na semana passada, disse começar a traçar um plano de 5 anos para a sua agência, porque os níveis de gastos desde o 9/11 não são sustentáveis. “Especialmente com esses défices, vamos bater na parede. Quero estar preparado para isso”, disse ele. “Francamente, acho que todo mundo dos serviços secretos deveria também estar a fazê-lo.”

Numa entrevista dada antes de ter renunciou ao cargo de director dos serviços secretos nacionais, o almirante aposentado Dennis C. Blair disse não acreditar que haja sobreposição e redundância no mundo das secretas. “Muito do que parece ser a redundante é, de facto, o fornecer de informações à medida para muitos clientes diferentes”, disse ele.

Blair também expressou confiança de que seus subordinados lhe dizem o que precisa de saber. “Eu tenho acesso a todos os programas secretos de toda a comunidade, e existem processos em andamento que garantem que, quando necessário, diferentes capacidades possam trabalhar em conjunto”, disse ele.

Semanas mais tarde, quando se sentou no canto de um salão de baile no Hotel Willard, à espera de discursar, meditou sobre as descobertas do Post. “Depois do 9/11, quando decidimos atacar o extremismo violento, fizemos o que muitas vezes é feito neste país”, disse ele. “A atitude foi, se vale a pena fazer, provavelmente vale a pena exagerar.”

Parte 2

Nota: Links e frases sublinhadas com esta cor, são da minha responsabilidade.

Advertisements

3 comments on “Um mundo escondido a crescer fora do controle – Parte 1

  1. Pingback: Um mundo escondido a crescer fora do controle – Parte 2 « A Arte da Omissao

  2. Pingback: Um mundo escondido a crescer fora do controle – Parte 3 « A Arte da Omissao

  3. Pingback: Um mundo escondido a crescer fora do controle – Parte 4 « A Arte da Omissao

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 28 de Dezembro de 2012 by in DIANTE DOS NOSSOS OLHOS, O mundo visto ao microscópio, USA and tagged , , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: