A Arte da Omissao

2013 – Eleições em Israel (1)

shever0121-240Porque é que as eleições em Israel são uma luta entre a direita e a extrema-direita?

Tradução da entrevista de Paul Jay da The Real News NetworkShir Hever (1) – 21 de Janeiro de 2013

PAUL JAY: Bem-vindo à The Real News Network. Eu sou Paul Jay, em Baltimore. Os resultados das eleições em Israel em breve serão conhecidos. Espera-se que o primeiro-ministro Netanyahu seja reeleito. A batalha principal parece estar à direita, entre um partido da direita e  da extrema-direita. Shir Hever, que neste momento está na Alemanha a terminar o seu doutoramento, junta-se a nós para dar a sua opinião. Shir é economista e estuda a ocupação dos territórios palestinianos. Trabalha para o Alternative Information Center, organização palestiniana-israelita destinada a fornecer  informação e análise alternativas. Obrigado por se juntar a nós, Shir.

SHEVER: Olá Paul.

JAY: como explica esta situação,  a batalha é entre a direita e a extrema-direita?

HEVER: O mapa político em Israel não se insere nos mais comuns. Parece faltar-lhe um papel fundamental e básico. O conjunto da esquerda, a esquerda progressista é muito pequena. E uma das principais razões é a forma estrutural em que o sistema político israelita assenta.

Hoje, o sistema político de Israel controla uma população de 12 milhões de pessoas. Entre esses 12 milhões de pessoas, apenas cerca de 7 milhões são cidadãos israelitas. O resto não o são, a maioria deles são palestinianos que estão nos territórios ocupados e, portanto, não têm direito a voto.

Entre esses 7 milhões de cidadãos israelitas, há cerca de 1,5 milhões que também são palestinianos, mas muitos deles estão completamente desiludidos, e têm taxas muito baixas de voto. Em média, apenas cerca de 50% das pessoas com direito a voto, na verdade o usam.

Então, basicamente, significa que os partidos sionistas têm um tipo de maioria automática, que não é contestada desde a fundação do Estado de Israel. Mas, é claro, mesmo dentro do movimento sionista, os diferentes partidos costumavam ter opiniões mais divergentes sobre a melhor maneira de promover a agenda sionista, a melhor maneira de promover a ideia de um Estado judeu.

Eu diria que, se as pessoas pensam num Estado judeu no sentido de um estado onde os judeus tenham direitos extras e todos os que não o forem sejam cidadãos de segunda classe, sem poderem ter uma participação plena e igualitária do poder, então todos esses partidos são iguais aos demais partidos de extrema-direita do resto do mundo. Então, estaremos a falar num tipo muito restrito de discussão ou debate público entre as partes que estão em total consenso sobre a ideia de que o Estado deve pertencer apenas a um grupo nacional étnico, religioso ou mesmo racial.

JAY: Então como é que Israel chega à situação em que nem sequer há uma força esquerda de centro, que está em contenção significativa em termos de eleições? E o que chamaria você a uma força mais à esquerda ou algo social-democrata, ou mais equivalente aos sociais-democratas que podemos encontrar na Europa e que não têm posição em termos de competição?

HEVER: Bem, isso é a outra vertente muito interessante da esfera política israelita. As questões económicas e as questões sociais, são separadas através de uma forma muito artificial, a partir das questões nacionais ou de segurança.

Então, você pode colocar-se à esquerda ou à direita sobre questões nacionais e da segurança, o que não equivale necessariamente a pontos de vista mais socialmente progressistas ou não. Isto gera situações muito estranhas, nas quais membros da extrema-direita, partidos racistas cooperam com membros do parlamento palestiniano sobre questões de interesse social, coisas como o salário mínimo ou subsídio de desemprego. Mas quando se trata da questão da criação do Estado palestiniano, igualdade de direitos para as pessoas que não são judeus, eles ocupariam os lados mais extremos do mesmo mapa.

Mas o que Israel costumava ter é uma espécie de centro – centro em termos de Israel – que abrangia a ideia que Israel poderia ser uma espécie social-democracia moderada ou um Estado Social moderado segundo os padrões europeus, e ao mesmo tempo promover uma versão do sionismo, que muitas vezes é chamado de sionismo pragmático, a  forma mais inteligente e a mais subtil de controlar a população palestiniana, e de certificar de que Israel além de continuar a ser um estado judeu, mantém a sua maioria demográfica como um Estado judeu sem tomar medidas que, – você pode imaginar que tipo de medidas poderia tomar com o fim de manter sua maioria demográfica, mas sem tomarem os passos que banissem Israel da comunidade mundial.

Então, sim, continuem a ocupação, mas mantenham as aparências de que Israel gosta que a ocupação termine e que gosta de continuar as negociações com os palestinianos. Esta foi a principal plataforma do Partido Trabalhista. Estas foram as principais políticas dos primeiros-ministros israelitas Yitzhak Rabin e Ehud Barak. E tal redundou na crise que dura há dez anos, 12 anos na verdade, com o início da Segunda Intifada. Ehud Barak levou a  ideia do sionismo pragmático ao extremo, e ao fazê-lo, expôs as contradições nela inerentes,  de que Israel pudesse de alguma forma manipular os palestinianos no desempenho do seu papel nesta farsa de falsas negociações, falsos processos de paz, quando na realidade é Israel que continua a dar as cartas.

E por trás desse tipo de percepção de que há uma maneira pragmática ou iluminada de ser sionista e manter a maioria judaica de Israel,  é uma abordagem muito paternalista. E Barak, é realmente a personificação desta abordagem. Ele disse basicamente, – eu vou ofertar aos palestinianos algo que não podem recusar, a melhor oferta que alguma vez tiveram. Colocou essa oferta nas negociações e basicamente disse, é pegar ou largar, não há qualquer tipo de negociação, vocês têm que a aceitar. E essa oferta não dá qualquer soberania aos palestinianos. Dá-lhes algum tipo de autonomia dentro dos territórios ocupados, uma espécie de estado desmilitarizado cercado por território israelita.

E, claro, os palestinianos rejeitaram o plano, porque nem Yasser Arafat, que chefiava  a Autoridade Palestina no momento acreditou como Barak, que nenhum outro primeiro-ministro israelita  fosse  fazer uma oferta melhor. Mas isso não vem ao caso. Foi uma oferta que não pode ser aceite. E quando a rejeitaram, Ehud Barak, disse, bem, nesse caso, não há parceiro para a paz. E esta frase, “Não há parceiro para a paz”, tornou-se o slogan da direita israelita e tornou-se a peça central da ideologia política israelita, desde o colapso das negociações. Basicamente, toda a ideia sobre o centro do mapa político israelita, a chamada esquerda sionista ou o centro sionista, era a que Israel poderia continuar a fingir ser uma democracia e fingir ser parte da Europa, enquanto, ao mesmo tempo mantem a colonização dos territórios palestinianos ocupados, desde o século 19.

JAY: A outra parte da narrativa oficial israelita sobre “Não há parceiro para a paz” é Gaza, que Sharon deu de volta aos palestinianos e olha o que aconteceu.

HEVER: Bem, na verdade, Barak já tinha começado a adoptar um tipo diferente de estratégia. Em vez de negociações, adoptou a  ideia da gestão do conflito. Isto significa como usar os meios tecnológicos, a superioridade militar, e o investimento em coisas como o muro de separação, que Barak começou a construir na Cisjordânia, para tentar criar a ideia que, mesmo que o conflito dure para sempre, Israel será capaz de viver com ele.

Sharon pegou nela e levou-a para outro nível. Sharon substituiu Barak, porque este, basicamente perdeu a sua base eleitoral. Ele disse aos seus próprios eleitores: a nossa análise da situação estava errada, não pode haver negociações. Bem, é claro, porquê votar nele de novo?

Em vez disso, Sharon diz que não é preciso negociar; não precisam de qualquer tipo de conversação de paz ou de qualquer outro tipo de acordo com os palestinianos, porque para começar, vamos começar a gerir o conflito enquanto os colonatos se expandem, enquanto expandimos o controle sobre os territórios palestinianos.

Sharon fez um discurso muito importante no Parlamento israelita em 2004, no qual referiu: “se contarmos todos os que estão sob o controle de Israel, os judeus deixam de ser a maioria”. Quando fez esse discurso, os judeus eram um pouco mais de 50% da população. Agora estão nos 49%, então já são uma minoria. E mais disse: “bem, nesse caso, temos que nos  livrar de alguns dos palestinianos de forma a manter a nossa maioria”. Em vez de os tentar expulsar, decidiu retirar apenas a Faixa de Gaza e criar a aparência de que Israel já não a ocupa.

JAY: A posição do Partido Trabalhista sobre como lidar com os palestinianos, não é muito diferente de Netanyahu. São praticamente indistinguíveis. Mas em termos de política económica, pelo menos, defendem algo que se parece um pouco mais social-democrata, um pouco mais reformista, em alguns aspectos. Nesta campanha eleitoral, eles tentaram um tipo de salto sobre o entusiasmo ou momento, resultante  dessas manifestações em  massa contra as políticas económicas de Netanyahu. Mas não parece terem resultado em termos de resultados eleitorais.

HEVER: Eu acho que muitos em Israel estão desiludidos e deprimidos no que toca a questões económicas. Eles sabem que, na verdade, tal como você referiu, não há diferença real entre a esquerda e direita, em relação às questões das negociações com os palestinianos, ao processo de paz e à ocupação. Na verdade, também não há diferenças reais quanto às políticas económicas. E o Partido Trabalhista, quando estava no poder, não foi menos neoliberal que Partido Likud. As maiores privatizações foram feitas pelo Partido Trabalhista.

Agora, o actual líder do Partido Trabalhista, regista de facto, algum apoio à democracia social e pronuncia-se sobre isso. Mas, por outro lado, também sabe que pode não obter financiamento para o seu partido nem apoio dos homens dos negócios de Israel, que, são quem controla a economia, a menos que evite certas questões sensíveis. Mas, basicamente, ela continua a prometer que não aumentará os impostos.

Na sua campanha, Shelly Yachimovich, líder do Partido Trabalhista, oferece-se para aumentar o orçamento do governo em cerca de 130.000 milhões ILS (que é mais que 30 biliões US $) e usar esse dinheiro para fins sociais. Mas como diz que não aumentará os impostos, não quer falar sobre o défice. A única forma que ela tem de gerar esse tipo de renda é reformar o sistema fiscal existente de tal forma que as pessoas que estão a evitar o pagamento de impostos que já tem de pagar sob as leis existentes, terão de os que pagar de qualquer maneira, basicamente, para fechar brechas.

JAY: Certo. Então deixe-me colocar uma última questão. Assumindo, como a maioria das pessoas está a prever, que o governo vai ser formado pelo Likud de Netanyahu e pela extrema-direita nacionalista, iremos ver mudanças na governação de Israel?

HEVER: Eu acho que do ponto de vista de Netanyahu, acredito que se oporá a qualquer tipo de mudança. Ele não gostará de ver Israel à deriva, ainda mais na direcção da direita extremista, porque sabe que isso iria isolar ainda mais Israel na comunidade internacional. E, claro, não quer ir noutra direcção, porque também é ideologicamente contrário a qualquer tipo de concessões à democracia social ou aos direitos palestinianos.

Mas também sabemos que Netanyahu não é um líder muito forte, apesar de se vender como tal. Ele molda-se às pressões políticas que o rodeiam e, eventualmente, torna-se numa espécie de figura para os grupos de pressão política que são capazes de o influenciar. Um fortalecimento da extrema-direita indica uma certa mudança nas políticas de Israel, especialmente no sentido de não se preocuparem mais com o tipo de resposta internacional sobre as políticas de Israel. E Netanyahu já sinalizou essa direcção ao decidir construir uma nova colónia na área E1, que ameaça dividir a Cisjordânia em duas partes, norte e sul. E por causa deste tipo de política, severamente criticada por países europeus, ameaça enterrar de vez a solução para os dois Estados.

Mas os países europeus também têm bastante cuidado nas críticas antes das eleições. Eles não querem ser vistos como se estivessem a interferir no processo político israelita, mas depois das eleições, não terão mais motivos para não se pronunciarem. E se Israel basicamente tornar claro que não têm intenções de achar uma solução para os dois Estados, não tem intenção de acabar com a ocupação, eu acho, que existem grandes hipóteses de duras sanções internacionais contra Israel e de um isolamento muito grave, isolamento diplomático.

JAY: Acho que ainda é preciso ver se isso vai mudar também a política dos EUA. Muito obrigado por se juntar a nós, Shir.

Hever: Obrigado, Paul.

(1) Shir Hever é um investigador económico no the Alternative Information Center, organização palestiniana-israelita activa em Jerusalém e Beit-Sahour. Ao pesquisar o aspecto económico da ocupação de Israel dos territórios da Palestina, alguns dos seus temas de pesquisa incluem a ajuda internacional à Palestina e Israel, os efeitos económicos da ocupação israelita, o boicote, desinvestimento e campanhas de sanções contra Israel. Seu trabalho inclui também palestras e apresentações, sobre a economia da ocupação. Seu primeiro livro: Political Economy of Israel’s Occupation: Repression Beyond Exploitation foi publicado por Pluto Press.

Links desta cor são da minha responsabilidade

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This entry was posted on 27 de Janeiro de 2013 by in Israel and tagged , .

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