A Arte da Omissao

2013 – Eleições em Israel (2)

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Quanto mais coisas mudam mais elas permanecem na mesma 

Tradução da entrevista de Paul Jay da The Real News NetworkShir Hever (1) – 25 de Janeiro de 2013

PAUL JAY: Bem-vindo à The Real News Network. Eu sou Paul Jay, em Baltimore. Bem-vindos à edição desta semana do The Hever Report com Shir Hever, que da Alemanha onde está a tratar do seu doutoramento, se  junta agora a nós. Shir é economista e estuda a ocupação dos territórios palestinianos. Trabalha para o Alternative Information Center, organização palestiniana-israelita com sede em Jerusalém. Obrigado Shir, por novamente  se juntar a nós.

SHEVER: Olá Paul.

JAY: Eleições em Israel- algumas surpresas. O que acha que aconteceu?

HEVER: No geral, não ocorreram muitas mudanças e não foram assim tantas as surpresas. O que foi bastante surpreendente, foi a taxa de participação nas eleições ter subido um pouco. Temos presenciado na última década, um declínio constante na participação pública na política, principalmente devido ao desespero e frustração do público em geral.

Interessante é que o tipo de mapa político que agora temos, se olharmos para as opiniões dos principais partidos, é quase idêntico ao que tivemos nas eleições anteriores, contando que metade dos membros do parlamento foram substituídos. Acho que é uma boa indicação de como o sistema político em Israel funciona, porque, embora o público nada tenha feito para mudar a agenda, para alterar a principal ideologia dos grandes partidos e também dos pequenos, é implacável com os líderes que falharam e rapidamente começam a odiar os seus próprios políticos por serem corruptos e ineficazes. Assim, os políticos mudam de lugar, são substituídos, mas os novos são apenas cópias dos anteriores.

JAY: Então está a dizer que tem mais a ver com personalidades do que com políticas. Mas a forma como os meios de comunicação americanos, pelo menos, estão a noticiar as eleições, que ganhou Lapid, o que é isto? 19 assentos que estão a descritos como, e cito, do centro-esquerda, Lapid  está a ser descrito como a voz da classe média e dos trabalhadores. Bem, pergunto, Lapid é visto dessa maneira em Israel, e se assim for, quem na realidade é ele?

HEVER: Bom, Lapid é uma espécie de saco vazio ou é realmente um 

JAY:  um vaso, como dizem.

HEVER: um vaso vazio, sim. Ele é um político. É muito novo na política. Ele era jornalista. E como jornalista, na verdade, o seu principal trabalho era ser a âncora do noticiário da noite, o que significa que ele não expressava as suas próprias opiniões, mas apenas lia no  teleponto. Mas ao ser bonito, bem vestido, bem preparado, apelou ao público como uma espécie de figura de autoridade ou figura paternal.

Ele é também filho de um político famoso que fez a mesma passagem do jornalismo para a política, embora fosse, na verdade, mais um perito com as suas próprias opiniões e Lapid foi sempre muito, muito cuidadoso em não expressar opiniões que pudesse zangar alguém ou criar inimigos. Na verdade ele mal se pronunciou. O que ele se atreveu a opinar é muito idêntico ao que ouvimos de Netanyahu e também dos líderes dos outros partidos.

Os órgãos de comunicação, tentam criar uma espécie de drama para obter audiências. Tentam inventar uma luta entre a esquerda e a direita. Mas quando analisamos mais profundamente as propostas, as ideologias reais promovidas pelos diferentes partidos, não encontramos nenhuma diferença.

JAY: Dê-nos exemplos sobre Lapid, porque nos é dito que ele está à esquerda do centro, que é um cara de classe média a favor da classe trabalhadora. Mas, se não o for,  quem é ele?

HEVER: Lapid  diz ser da classe média profissional. Diz entender o que é ser um membro da classe média. Ele escreveu num jornal um pequeno artigo com  o título, “Nós, os escravos”. Mas, ao mesmo tempo, está no topo de um milésimo da população em termos de rendimentos. Ele costumava trabalhar para promover vendas de um dos maiores e mais ricos bancos de Israel. Então, realmente trabalha para o topo.

Embora tente fazer crer, com este tipo de declarações que sente a dor do público em geral, em termos de situação económica, nada disse de concreto sobre que tipo de reformas quer implementar, excepto que quer privatizar a educação ou aumentar a privatização no sector da educação. Então significa que é um puro neoliberal. Ele acredita no uso do sector privado em detrimento do sector público. Ele acredita que o sistema escolar israelita não está a funcionar correctamente. Nesse ponto, eu concordo com ele. Mas também acredita que a solução passa por levar as empresas a terem interesse em gerar tanto lucro quanto possível, assumir as escolas e torná-las em organizações com fins lucrativos.

E, claro, esse tipo de ideia é o que eu acho que a maioria de seus eleitores realmente não teve em conta nem considerou. Votaram nele porque  prometeu agitar as coisas, porque prometeu fazer mudanças. Ele não disse que mudanças.

JAY: Ok. E sobre a questão de ele querer reabrir as negociações com os palestinianos? A imprensa, sobre este assunto, distingue-o de Netanyahu, ( primeiro-ministro israelita  que saiu vencedor nas eleições legislativas de 2013)

HEVER: Bem, não vamos esquecer que também Netanyahu ao longo do seu anterior mandato, disse repetidamente querer reabrir as negociações com os palestinianos.

JAY: Mas há alguma diferença nesta retórica com a “Não há parceiro para a paz”?

HEVER:  Bem, Netanyahu diz ao mesmo tempo, que não há parceiro para a paz, mas que vai negociar de qualquer maneira, porque as negociações dão a Israel a imagem de querer  a paz, de que está disposto a assumir compromisso, embora o único compromisso que  está realmente disposto a assumir é continuar as negociações. E Lapid, penso eu, entendeu isso. Ele não disse, por exemplo: eu acredito que os palestinianos devem ter o direito a um Estado, Isso ele não disse. Ele nada disse sobre o direito de retorno dos refugiados palestinianos. Ele só sublinha o que está no consenso, que apoia o sionismo, que é um judeu patriota, e que acredita em  tudo que as autoridades de segurança lhe dizem. Então, o que quer que sejam as declarações do exército, ele  leva-as a sério.

JAY: Mesmo nas citações sobre o reiniciar das negociações, é tudo para a aparência internacional de Israel, não que ele queira encontrar algum tipo de solução real. Eu assisti um festival de cinema em Israel em 98. Foi-me dito que um monte de cineastas palestinianos estariam lá. Acabaram por não aparecer. Mas um dos meus filmes foi lá mostrado. Alguém me disse, na altura, que se a questão palestiniana fosse resolvida de alguma forma e se realmente houvesse um plano de paz que resultasse, no dia seguinte seria desencadeada uma grande luta entre os seculares e ortodoxos em Israel. Até que ponto isto terá a ver com os resultados eleitorais de Lapid?

HEVER: Eu acho que é o único ponto onde as eleições têm realmente algum tipo de significado, que não há qualquer tipo de mudança em relação à legislatura anterior, porque o pai de Lapid foi um político muito associado ao ódio entre judeus ultra-ortodoxos e judeus religiosos. Ele apoiou uma espécie de separação entre a Igreja e o Estado em Israel, embora fosse um sionista que acreditava que Israel devia ser um Estado judeu. Assim, a sua ideia era sobre um Estado construído sobre a supremacia étnica de judeus, em vez de uma supremacia religiosa dos judeus.

JAY: Shir, muito rapidamente para as pessoas que não conhecem, fale um pouco sobre a autoridade que os ortodoxos têm sobre a vida social em Israel.

HEVER: há um status quo famoso entre os seculares e os ultra-ortodoxos. Foi um acordo cozinhado ao longo de mais de 65 anos por Ben-Gurion, o primeiro primeiro-ministro de Israel, que entendeu que os ultra-ortodoxos eram muito importantes para atingir o objectivo de ter uma maioria judaica em Israel, porque eles têm mais filhos, a taxa de crescimento natural é grande. E ele fez um acordo com os partidos ultra-ortodoxos que Israel não teria uma Constituição – até hoje, Israel não tem uma Constituição –  de modo que certas coisas podiam permanecer vagas e que haveria uma espécie de isenção do serviço militar para os ultra-ortodoxos que optassem ir para as yeshivas durante os seus anos de recrutamento. E tal incluiu várias centenas de jovens ultra-ortodoxos nos dias de Ben-Gurion. Hoje estamos a falar de mais de 60.000 jovens ultra-ortodoxos, que estão isentos do serviço militar por causa do mesmo acordo.

Ben-Gurion plantou as sementes para uma comunidade ultra-ortodoxa com muita autonomia. Mesmo que os ultra-ortodoxos originalmente suspeitassem do sionismo, viam-no quase como uma blasfémia à religião judaica, foram tentados pela autonomia.

JAY: Isso, porque os ortodoxos acreditam que o Estado de Israel só poderia vir a existir a quando do retorno do Messias, o que não aconteceu, por isso não deve ser o estado de Israel.

HEVER: há também um outro ramo do judaísmo, um novo ramo, conhecido frequentemente como o judaísmo nacional, que acredita que a vinda do Messias não é a vinda de uma pessoa, mas, na verdade, do processo de recolonização da Palestina. Assim, na verdade, através do processo de construção dos colonatos, por exemplo, estão a trazer o Messias.

Os ultra-ortodoxos têm sido muito hostis à ideia de que ao longo dos anos, têm gradualmente vindo para esse lado, principalmente porque o Estado também constrói colónias na Cisjordânia para ultra-ortodoxos, onde recebem moradias baratas e melhores serviços públicos. E as cidades que mais crescem na Cisjordânia, as colónias, na verdade são comunidades de ultra-ortodoxos. Portanto, agora os ultra-ortodoxos têm uma participação na ocupação e movem-se mais para a direita do mapa político israelita.

JAY: Agora, fale sobre outras partes da vida de Israel controlada pelos rabinos.

HEVER: Israel tem leis – por exemplo, é ilegal criar porcos em Israel porque os porcos não são um animal kosher. Mas é possível criá-los se não for em solo Israelita. Por isso, algumas pessoas criam-nos em plataformas. Essa é uma maneira de contornar a lei.

Na maioria das cidades em Israel, no Shabat, não há transporte público ao sábado. Em Israel, é ilegal que as pessoas se casem fora das suas  instituições religiosas Tal significa que os muçulmanos só podem casar com muçulmanos, os cristãos somente com cristãos, judeus só com os judeus e só com um rabino (título do líder espiritual de uma congregação judaica. A palavra hebraica significa meu mestre. Os rabinos conduzem serviços religiosos e são os líderes da vida social e educacional nas comunidades judaicas). E, claro,  o casamento religioso está enraizado na lei, o que significa que em Israel, as mulheres não têm os mesmos direitos dentro do sistema do casamento. Por exemplo, um homem pode obter sempre um divórcio, mas a mulher não pode pedir o divórcio sem o consentimento de um homem. Israel não reconhece o casamento civil de casais que se casaram fora do estado. Mas, novamente, se entrarem em Israel e quiserem obter um divórcio,  têm de o fazer com um rabino. Estes são apenas alguns exemplos.

Existe também uma série de autonomias para a comunidade ultra-ortodoxa na educação. E nos bairros onde os ultra-ortodoxos são maioria, podem por vezes ao sábado,  fechar as ruas e impedir que os carros circulem. E todas essas formas de autonomia foram autorizados pelo Estado, porque era uma espécie de aliança. Os ultra-ortodoxos apoiarão o sionismo e os governos de direita, e em troca o governo ignora ou faz vista grossa perante o facto de estarem a desenvolver a sua própria sociedade dentro da sociedade em Israel, onde a maioria dos seus filhos não estuda matemática nem inglês na escola, e com o tipo de educação que recebem, principalmente a religiosa, não os ajuda a conseguir empregos no mercado em geral.

Eles recebem algum apoio público na forma de bolsas do governo, e esses salários permitem  que esta comunidade se preserve a si mesmo. Mas 45 por cento dos ultra-ortodoxos em Israel vivem abaixo da linha da pobreza. Agora, não tenho a certeza se os devemos qualificar de pobres, porque é uma opção de vida deles. Você pode imaginar um estudante que escolhe ir para a escola todos os dias e não trabalhar. Assim o aluno não é necessariamente ruim, mesmo que o seu rendimento seja baixo.

E os ultra-ortodoxos que de facto obtêm esses salários do governo e tem esse tipo de estilo de vida, tornaram-se em alvos principais das campanhas de ódio. E vemos essas campanhas de ódio em muitos dos partidos políticos em Israel, incluindo partidos da extrema-direita, como Habayit HaYehudi de Bennett, que dizem que essas pessoas vivem à custa do Estado e que devem ir procurar trabalho. Ninguém na realidade, calcula os números. Se você realmente olhar para o peso  financeiro da comunidade ultra-ortodoxa no orçamento israelita, não é grande,  em comparação com o que o governo dá ao Ministério da Defesa. É onde o dinheiro está.

JAY: Então esse ressentimento contra os ultra-ortodoxos não é realmente uma questão de esquerda ou direita. Eu acho que em termos de Israel tem algum significado, mas vemos como muito ressentimento dos ultra-ortodoxos da extrema-direita, incluindo, como o chanceler Lieberman, que também foi muito crítico com os ultra-ortodoxos.

HEVER: Certamente. E averdadeira esquerda em Israel é, naturalmente, muito contra a ideia de demonizar toda uma parte da sociedade. E por vezes vê-se essas alianças aparentemente estranhas entre ultra-ortodoxos e partidos radicais de esquerda. Mas, é claro, os ultra-ortodoxos não são defensores de direitos humanos, da igualdade de género, e assim por diante. Eles são uma parte muito tradicional da sociedade, e estão  muito acostumado a essa autonomia que recebem do estado há tantos anos.

JAY: Mas só para voltarmos ao começo, aos resultados eleitorais de Lapid. Parece que ninguém, realmente previu quantos lugares ele iria obter e esta foi uma das motivações para este ressentimento contra os ultra-ortodoxo. E ele deu voz a isso.

HEVER: Bem, eu acho que muitos em Israel votaram em Lapid por não querem votar em Netanyahu, mas Lapid foi em tudo como Netanyahu, excepto ser Netanyahu. E o que é realmente incrível é que, quando os primeiros resultados foram publicados, houve uma certa e ligeira correcção aos resultados, mas parece que Lapid teve realmente a capacidade de se tornar primeiro-ministro, porque o Partido Trabalhista e alguns desses partidos de centro-esquerda estavam dispostos a apoiá-lo para esse cargo. Ele obteve metade dos assentos no Parlamento, logo poderia tornar-se primeiro-ministro.

E foi o próprio Lapid que imediatamente rejeitou a ideia, porque isso significaria depender dos parlamentares palestinianos em Knesset, que naturalmente, estavam dispostos a tomar o seu partido. Mas Lapid mediatamente disse: não me vou sentar com essas pessoas. E, é claro, foi assim que expôs o quão grande e profundo é o nível de racismo e ódio contra os palestinianos, ao desistir da sua hipótese de ser primeiro-ministro, perdendo assim  o cartão principal da negociação.

Então, agora ele vai sentar-se com Netanyahu na mesma coligação. Parece inevitável. E o ponto onde poderá fazer uma exigência a Netanyahu em troca de se sentar na sua coligação,  é que provavelmente vai forçar os ultra-ortodoxos de  Israel a alistarem-se no exército. Este, não os quer na realidade, porque não estão  motivados a juntarem-se ao exército, não são educados pelos padrões militares, logo não vão ser os melhores soldados que o exército procura. Mas este é o tipo de política do ódio contra as minorias. Eles perguntam porque eles estão isentos. E esta questão pode causar um monte de lutas e conflitos na sociedade israelita nos próximos quatro anos.

JAY: Certo. Então, quando se trata de eleições israelitas, quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem na mesma. Muito obrigado, Shir.

Hever: Obrigado, Paul.

(1) Shir Hever é um investigador económico no the Alternative Information Center, organização palestiniana-israelita activa em Jerusalém e Beit-Sahour. Ao pesquisar o aspecto económico da ocupação de Israel dos territórios da Palestina, alguns dos seus temas de pesquisa incluem a ajuda internacional à Palestina e Israel, os efeitos económicos da ocupação israelita, o boicote, desinvestimento e campanhas de sanções contra Israel. Seu trabalho inclui também palestras e apresentações, sobre a economia da ocupação. Seu primeiro livro: Political Economy of Israel’s Occupation: Repression Beyond Exploitation foi publicado por Pluto Press.

Links desta cor são da minha responsabilidade

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This entry was posted on 27 de Janeiro de 2013 by in Israel and tagged , .

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