A Arte da Omissao

Jogo obscuro de John Kerry

Enquanto o exército sírio perdeu Rakka, deixando de facto, uma parte do norte do país sob controlo turco, os Estados Unidos enviam sinais contraditórios. Será que escolheram  continuar a guerra por procuração ou estão a preparar-se para imporem aos seus aliados o acordo de paz que negociaram com os russos?

2013_00303_kerry_alfaisal_600_1

John Kerry com o seu homólogo saudita, o ultra-reacionário príncipe Al-Faisal

A implementação do plano de paz para a Síria, negociado entre russos e americanos está num impasse. Primeiro, o atraso na confirmação pelo Senado americano, da nova equipe de segurança dos EUA. Depois, as inconsistentes, se não mesmo contraditórias, declarações por parte do novo secretário de Estado, John Kerry.

De qualquer forma, dois novos elementos podem ser estabelecidos.

O activismo da Arábia Saudita e Qatar foi reforçada com o aparente acordo do Departamento de Estado.

Numa conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo saudita, John Kerry repetiu por duas vezes  o compromisso dos EUA com a “solução pacífica” na Síria. Mas, dois minutos depois, aprovou o envio de armas da Arábia Saudita para a oposição “moderada” Síria. Kerry reiterou essas contradições durante a sua visita ao Qatar.

A nível simbólico, Arábia Saudita e Qatar têm atribuído o assento da Síria na Liga Árabe para a Syrian National Coalition. Além disso, a pedido, a Liga autorizou seus membros a armarem os “rebeldes sírios.” É impossível que os membros da Liga tenham votado  essas acções sem a prévia aprovação do Sr. Kerry.

No direito internacional, alegar ou aprovar o envio unilateral de armas a grupos rebeldes, na ausência de uma resolução do Conselho de Segurança, é um crime. Se a Síria apresentou uma queixa perante ao Tribunal Internacional de Justiça, com certeza  irá receber uma condenação da Arábia Saudita, Qatar e Estados Unidos, a Liga Árabe e vários outros sob o precedente estabelecido no “Nicarágua vs EUA” (1984).

A iniciativa da Liga árabe priva qualquer credibilidade ao representante especial do seu secretário geral, Lakhdar Brahimi. O velho diplomata não pode, mais, esperar jogar o papel de mediador quando, de facto, representa  uma parte do conflito, a Coligação nacional síria, mesmo que  aquela não ocupe ainda o lugar que lhe foi atribuído.

Os israelitas intensificaram os esforços para que fosse esquecida a sua interferência na campanha presidencial dos EUA. O general Ehud Barak, quando foi a Washington para participar da conferência anual da AIPAC, jorrou elogios às autoridades norte-americanas, assegurando-lhes que nunca tinham estado tão perto do Estado de Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, optou por não viajar e participou via vídeo conferência, evitando assim encontrar-se cara à cara com os líderes que lhe iriam pedir contas, pela seu apoio a Mitt Romney. A discussão foi, assim, reduzida a uma questão pessoal, de forma a não afectar as relações entre os Estados.

Ehud Barak foi recebido no Pentágono pelo seu homólogo, Chuck Hagel, com quem, no passado, desenvolveu um bom relacionamento. Israel conseguiu que a ajuda dos EUA (cerca de US $ 3 bilhões anuais) não fosse afectada pelos cortes no orçamento. Em troca, cedeu sobre a Síria. Num comunicado de imprensa do Departamento de Defesa,ficou claro que os dois lados discutiram questões comuns de segurança, “incluindo a necessidade do regime sírio manter o controle sobre o seu armamento químico e biológico; os líderes comprometeram-se a continuar com o plano de medidas de emergência para combater este potencial ameaça.”

Por outras palavras, Washington e Tel Aviv não consideram mais a “mudança de regime” em Damasco, e concordaramem ajudar o exército sírio árabe a manter o controle de suas armas químicas e biológicas em caso de ataques jihadistas.

 Israel está a retirar-se do conflito. A saber: dois dias depois desta reviravolta, na costa da Síria, eles revelaram e desmantelaram um complexo sistema israelita de monitorização electrónica  e de comunicações.

• Como análise final, os Estados Unidos procuram afastar-se militarmente e encorajam os  seus aliados do Golfo a  escalarem um bloqueio militar e diplomático. Ainda é muito cedo para determinar se estão com jogos duplos e se estão a montar uma armadilha para a Rússia, em detrimento do povo sírio, ou se estão a empurrar  os seus aliados do Golfo para um impasse, para imporem a solução negociada com Moscovo (fonte)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 18 de Março de 2013 by in DIANTE DOS NOSSOS OLHOS, Israel, O mundo visto ao microscópio, Russia, Síria, USA and tagged , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: