A Arte da Omissao

Mais uma folha de excel errada

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Em 2010, dois economistas  norte-americanos, Kenneth Rogoff (ex chefe do FMI) e Carmen Reinhart, publicaram um estudo chamado de Growth in a Time of Debt (o crescimento em tempos de dívida),  baseado em dados históricos de 20 países avançados, concluíram que em  economias com dívidas públicas superiores a 90% do PIB, a taxa de crescimento média é só de 0,1%. Em países com dividas inferiores a 90% do PIB,  os crescimentos situar-se-iam entre os 3% e 4%. Estes “visionários” encontraram assim, uma ligação entre dívidas públicas altas e crescimentos económicos baixos. Até aqui nada de mais, mais dois visionários da ciência financeira.

Mas, a sua “descoberta” tem ecoado pela zona euro e não só, como argumento de  responsáveis políticos. na  aplicação de medidas apertadas nas consolidações orçamentais. Mas como em tudo há quem não concorde, justificando que essa   relação entre  dívidas e baixo crescimento pode não ser assim tão óbvia, pois pode não ser a dívida  elevada que gera pouco crescimento das economias, mas sim o fraco crescimento que poderá provocar um aumento a dívida.

Neste momento de forte aplicação da austeridade como solução para todos os males, mais outros três  economistas norte-americanos, Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin,  com base nas mesmas fontes usadas por Rogoff e Reinhart, fazem outra investigação mas obtêm resultados completamente diferentes. Desta vez, encontraram uma variação do PIB para países com dívida acima de 90% de 2,2% e, concluíram que a relação entre o crescimento e dívida pública pode variar e muito de acordo com a época e país.

 O trio reclama ter descoberto no anterior estudo:

1) a não inclusão de 3 países com grandes dívidas e com  crescimentos equilibrados, Austrália, Nova Zelândia e Canadá

2) os cálculos foram feitos com uma forma considerada pouco convencional e que originou que a taxa de crescimento média em períodos de dívida elevada, baixasse.

3) Não incluíram cinco países da análise na folha de cálculo do Excel.

Paul Krugman, já tinha referido que os principais culpados são todas as pessoas que aproveitaram os resultados de um estudo polémico, sem terem conhecimento suficiente sobre ele, “apenas porque este dizia aquilo que queriam ouvir”.

Esta história faz-me lembrar o documentário Inside job, que analisa a bolha imobiliária de 2008 nos Estados Unidos e  expõe um outro “casamento”  do sistema financeiro, desta vez com as universidades. 

Frederic Mishkin, economista e professor da “Columbia Business School”, foi membro do Conselho de Governadores da  Reserva Federal (FED) de 2006 a 2008. Em 2006 a Câmara de Comércio da Islândia pagou-lhe $124000, para escrever um relatório louvando o sector financeiro da Islândia. 

Glenn Hubbard – Foi chefe da Assessoria Económica durante a administração Bush e actual (à data do documentário) reitor da Universidade Columbia Business. Um economista da oferta, Hubbard foi fundamental para a concepção dos cortes fiscais de Bush 2003. Foi  consultor de muitas empresas de serviços financeiros e enquanto a crise era “cozinhada”, escreveu  muitos artigos defendendo a desregulamentação dos serviços financeiros.

Raghuram Rajan – Economista e Professor distinguido da School of Business, Universidade de Chicago. Em 2005, enquanto servia como economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), entregou um documento controverso onde criticou o sector financeiro,  intitulado de ” Has Financial Development Made the World Riskier / Terá o desenvolvimento Financeiro colocado o Mundo mais em risco” e onde referiu que o desastre se aproximava. O livro, que se revelou preciso, foi agressivamente criticado por Larry Summers, (um dos criminosos responsáveis pela desgraça que o Mundo está a viver) , na altura Presidente de Harvard.

Lawrence Summers desempenhou um papel chave ao fazer lobby junto do Congresso para o repúdio do Glass Steagall Act. A sua conveniente nomeação pelo presidente Clinton em 1999 como secretário do Tesouro lançou as bases para a adopção do Acto de Modernização dos Serviços Financeiros em Novembro de 1999. Ao completar o seu mandato ao leme do Tesouro dos EUA, tornou-se presidente da Universidade de Harvard (2001-2006). 

Vale tudo, na implementação da escravidão da era moderna.

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One comment on “Mais uma folha de excel errada

  1. Chatice
    18 de Abril de 2013

    Glass Steagall Act (iniciativas nos Estados)


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