A Arte da Omissao

o preço da verdade

Tradução do artigo The price of truth de Thierry Meyssan

 

Enquanto a imprensa internacional fala sobre as informações vazadas por  Edward Snowden,  relacionadas sobre o programa de vigilância PRISM, simulando ter descoberto o que o mundo já deveria saber há muito tempo, Thierry Meyssan está particularmente curioso sobre o significado desta rebelião. A partir desta perspectiva, ele dá mais importância ao caso do general Cartwright, também indiciado por espionagem.

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Ogeneral James Cartwright, ex-comandante do Comando Estratégico dos EUA, ex-vice-presidente da Joint Chiefs of Staff, ex-assessor militar do presidente Obama,  é acusado de espionagem: vazamento de informações para o New York Times sobre a guerra secreta contra o Irão, com o fim de evitar uma guerra desnecessária.

Serão os funcionários americanos, civis ou militares, que enfrentam um período mínimo de 30 anos de prisão por revelar segredos de Estado dos EUA para a imprensa, “delatores” exercendo poder num sistema democrático, ou serão “resistências à opressão” numa ditadura militar e policial? A resposta a esta questão não depende das nossas opiniões políticas, mas na  natureza do governo dos EUA. A resposta muda completamente se nos concentrarmos sobre o caso de Bradley Manning, jovem soldado esquerdista do Wikileaks, ou se considerarmos que o general Cartwright, assessor militar do presidente Obama, foi acusado na quinta-feira, Junho 27, 2013, de espionagem.

É necessário um olhar para trás para se entender como se passa de “espionagem” a favor de uma potência estrangeira para “deslealdade” à organização criminosa empregadora.

Pior que a censura: a criminalização de fontes de informação

Woodrow Wilson, Presidente dos Estados Unidos e Prémio Nobel da Paz, tentou conferir ao Executivo o poder de censurar a imprensa quando a “segurança nacional” ou “a reputação do governo” estivessem em jogo. No seu discurso sobre o Estado da União (a 7 de Dezembro de 1915), disse:

“Existem cidadãos dos Estados Unidos…que despejaram o veneno da deslealdade nas artérias da nossa vida nacional, arrastaram a autoridade e reputação do nosso governo com desprezo… Para destruírem as nossas indústrias… E degradar a nossa política a favor da intriga estrangeira… Estamos sem leis federais adequadas ….Exorto-vos a fazer nada menos do que salvar a honra e a auto estima da nação. Tais criaturas da paixão, deslealdade e anarquia devem ser esmagados.”

No entanto, o Congresso não lhe deu imediata atenção. Após a entrada dos EUA na guerra, passou a Lei da Espionagem, quase uma cópia da  British Official Secrets (Lei do Segredo de Estado britânicoJá não se tratava de censurar a imprensa, mas de cortar o acesso à informação amordaçando os guardiões dos segredos de Estado. Este dispositivo permite que os anglo-saxões se apresentem como “defensores da liberdade de expressão”, apesar de serem os piores violadores do direito democrático à informação, constitucionalmente defendido pelos países escandinavos.

Silêncio, não sigilo

Assim, os anglo-americanos são menos informados sobre o que acontece em casa em comparação com os estrangeiros. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, Reino Unido e Canadá conseguiram manter em segredo algo tão grande como o Projeto Manhattan, que criou a primeira bomba nuclear, enquanto empregou 130.000 pessoas durante 4 anos e foi amplamente penetrado pelos serviços de inteligência estrangeiros.

Por quê? Porque Washington não preparou a arma para a guerra em curso, mas para a próxima, contra a União Soviética. Como demonstrado por historiadores russos, a abdicação do Japão foi adiada para depois da destruição de Hiroshima e Nagasaki terem sido destruídas, como aviso para a URSS. Se os americanos soubessem que o seu país possuía tal arma, os seus líderes teriam que a usar para acabar com a Alemanha e não ameaçar o aliado soviético às custas dos japoneses. Na realidade, a Guerra Fria começou antes do fim da II  Guerra Mundial. [1]

Em termos de secretismo, deve-se realçar que Stalin e Hitler foram informados do Projeto Manhattan desde o início. Em verdade, eles tinham agentes infiltrados. Enquanto isso, Truman foi informado na sua qualidade de vice-presidente, mas apenas no último momento, após a morte do presidente Roosevelt.

A verdadeira utilidade da Lei de Espionagem

Em qualquer caso, a Lei da Espionagem apenas secundariamente lida com espionagem, como mostrado pela sua jurisprudência.

Em tempo de guerra, é usada para punir a dissidência. Assim, em 1919, o Supremo Tribunal reconheceu nas acções judiciais de Schrenck e Abrams contra os Estados Unidos Unidos, que o facto de apelar à insubordinação ou à não-intervenção contra a Revolução Russa caia sob a Lei de Espionagem.

Em tempos de paz, a mesma lei serve para evitar que funcionários públicos exponham um sistema de fraude ou  crimes cometidos pelo Estado, mesmo que suas revelações já sejam  conhecidas, mas ainda não comprovadas.

Sob a administração de Barack Obama, a Lei de Espionagem foi invocada 8 vezes, um recorde em tempo de paz. Vamos colocar de lado o caso de John Kiriakou, agente da CIA que revelou a detenção e tortura de Abu Zubaydah. Longe de ser um herói, Kiriakou é na verdade um agente provocador financiado pela Agência, cujo papel era o de iludir o público sobre pseudo-confissões extorquidas  a Zubaydah para justificar, a posteriori, a “luta contra o terrorismo” [2].

Vamos também eliminar o caso de Shamal Leibowitz, uma vez que as suas revelações não foram liberadas para o público. Restam seis casos que nos instruem sobre o sistema policial-militar dos EUA.

Stephen Jin-Woo Kim confirmou à Fox News que a Coreia do Norte estava a  preparar um teste nuclear, obstante das ameaças dos Estados Unido: uma confirmação que não causou outro  dano aos EUA do que apontar-nos a impossibilidade  de se fazer obedecer pela Coreia do Norte. Noutro contexto, esta informação já tinha sido lançada por Bob Woodward, sem provocar  reações.

Andrew Thomas Drake revelou a gestão fraudulenta do programa The Trailblazer (programa da NSA) a um membro da U.S. House of Representatives Intelligence Committee (Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes). Ele foi acusado de ter informado os parlamentares, encarregados de vigiar as agências de inteligência, que a NSA secretamente deitava biliões pela janela fora. The Trailblazer procurava encontrar uma forma de colocar vírus em qualquer computador ou telefone celular, mas nunca funcionou.

Numa veia similar, Edward Snowden, um funcionário da Booz Allen Hamilton, publicou diversos documentos da NSA que atestam espionagem dos EUA na China, bem como aos convidados do G20 britânico. Acima de tudo, revelou a amplitude do sistema militar de escutas de telefonemas e internet, a que ninguém pode escapar, nem mesmo o presidente dos Estados Unidos. Políticos americanos descrevem  Snowden como “um traidor a matar” só porque os seus documentos impedem a NSA de continuar a negar as suas actividades  perante o Congresso,  atividades há muito conhecida de todos.

Bradley Manning, um simples soldado, enviou vídeos de erros crassos do exército Americano para a Wikileaks, 500 mil relatórios de inteligência sobre bases militares no Afeganistão e no Iraque, e 250 mil telegramas sobre informações recolhidas por diplomatas americanos em conversas com políticos estrangeiros. Nada disso é de suma importância, mas a documentação projeta uma imagem ruim da fofoca recolhida pelo Departamento de Estado para servir como base da sua “diplomacia”.

Jeffrey Alexander Sterling é um funcionário da CIA que revelou a “Operação Merlin” ao New York Times. Mais surpreendentemente, o general James Cartwright que era o militar número dois,  na sua qualidade de vice-presidente do Joint Chiefs of Staff e tão perto do presidente como assessor,  como era apelidado de “general de Obama”. Supostamente no ano passado revelou a “Operation Olympic Games“” ao New York Times e foi colocado sob investigação, segundo a CNN.

Sterling e Cartwright não compraram o mito israelita da “bomba atômica dos mullahs.” Então, tentaram amenizar a guerra em que Tel Aviv tenta mergulhar o seu país. A “Operação Merlin” consistia no envio ao Irão de informações falsas sobre a fabricação da bomba. Na realidade, era para forçar o Irão a envolver-se no programa nuclear militar para justificar à posteriori a acusação de Israel [3]. Quanto à “ Operation Olympic Game“, pretendia-se implantar os vírus Stuxnet e Flame na central nuclear de Natanz, e perturbar o seu funcionamento, nomeadamente as centrífugas [4]. A intenção era o de bloquear o programa nuclear civil do Irão. Nenhuma dessas revelações danificou os interesses dos EUA, mas prejudicou as ambições israelitas,

heróis da resistência

A oposição apresenta os homens indiciados sob a Lei da espionagem como “denunciantes”, como se os Estados Unidos fosse uma democracia real e eles alertassem os cidadãos para a necessidade de corrigir alguns erros. Na verdade, o que eles nos mostram é que, nos Estados Unidos, desde um soldado comum (Bradley Manning) até ao segundo no comando (General Cartwright), os homens estão a tentar da melhor forma possível lutar contra um sistema ditatorial em que se descobrem ser uma roda dentada. Diante do sistema monstruoso, devem ser celebrados como grandes figuras de resistência, como o  Almirante Canaris ou o conde de Stauffenberg.

[1] “La Seconde Guerre mondiale aurait pu prendre fin en 1943” (The Second World War could have ended in 1943), “Si l’Armée rouge n’avait pas pris Berlin…” (If the Red Army had not taken Berlin …) and “La Conférence de Yalta offrait une chance qui n’a pas été saisie” (The Yalta Conference offered an opportunity that was not been seized), Viktor Litovkine interview with Valentin Faline, Ria-Novosti/Réseau Voltaire, 30 March, 1 and 6 April 2005.

[2] “Abu Zubaydah Poses a Real Threat to Al Qaeda” and “Forgetting Torture: Lee Hamilton, John Brennan, and Abu Zubaydah”, by Kevin Ryan,Voltaire Network, 19 January and 13 March 2013.

[3State of War : The Secret History of the CIA and the Bush Administration, by James Risen, Free Press, 2006.

[4] “Obama Order Sped Up Wave of Cyberattacks Against Iran“, by David E. Sanger, The New York Times, 1 June 2012. “Did America’s Cyber Attack on Iran Make Us More Vulnerable?“, by Marc Ambinder, The Atlantic, 5 June 2012. “The rewards (and risks) of cyber war“, by Steve Call, The New Yorker, 7 June 2012. “U.S., Israel developed Flame computer virus to slow Iranian nuclear efforts, officials say“, by Ellen Nakashima, Greg Miller and Julie Tate,The Washington Post, 19 June 2012.

Nota: frases e links desta cor são da minha responsabilidade

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This entry was posted on 3 de Julho de 2013 by in Manipulação, O mundo visto ao microscópio, USA and tagged , .

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