A Arte da Omissao

As contradições da União Europeia sobre o Hezbolá

Ao designar a ala militar do Hezbollah como uma organização terrorista, a UE manifestou a sua incompreensão da resistência libanesa, que não é nem se tornará num partido político, ainda que participe na política libanesa. Bruxelas manifestou a sua lealdade ao bloco anglo-saxónico (incluindo Israel) à custa de seus próprios princípios.

VOLTAIRE NETWORK | BEIRUT (LEBANON) | 2 AUGUST 2013 

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APphoto_Belgium EU Hezbollah

Durante o Conselho Europeu, o chanceler francês Laurent Fabius congratulou-se pela sua vitória com o seu colega esloveno.

Três dias mais tarde, a Comissão Europeia publicou a sua declaração de decisão sobre a adição da ala militar do Hezbollah à sua lista de organizações terroristas. Ao contrário do costume, a notícia já tinha andado em torno da Terra e Hezbollah respondeu.

O documento oficial foi acompanhado por uma declaração conjunta do Conselho e Comissão, salientando que este “não impede a continuação do diálogo com todos os partidos políticos no Líbano e não afecta a prestação de assistência ao país.” Esta revisão tem como objectivo esclarecer a distinção entre as agências civis e militares do Hezbollah, que permitem à União Europeia discutir com agências civis enquanto condenam as militares.

Na mesma linha, Angelina Eichhorst, embaixadora da União Europeia, foi a Beirute visitar Ammar Moussawi, designado pelo Hezbollah para as relações internacionais, para o informar  que a decisão não afeta o seu relacionamento.

O problema é que esta decisão não faz sentido.

Para ocultar as aspirações místicas do Hezbollah

Na sua essência, o Hezbollah não é um partido político, mas uma rede de resistência à invasão israelita, composta por famílias xiitas, modelada no iraniano Basiji, cuja bandeira (amarela) adotou. Aos poucos, a resistência incorporou não-xiitas numa estrutura ad hoc, substituiu o fracasso do Estado libanês, assim como ajudou as famílias dos mártires e os feridos na reconstrução do sul do país, completamente destruído por aviões israelitas. Esta evolução levou a nomear candidatos para as eleições e a participarem no governo.

Sayyed Hassan Nasrallah, seu secretário-Geral, tem repetidamente manifestado relutância em face da política, que para ele é uma atividade corrupta. Em vez disso, ele tem aproveitado cada oportunidade para reafirmar o seu ideal de morrer como um mártir no campo de batalha, como seu filho mais velho, Muhammad Hadi, seguindo os passos de Hussein,  iman na Batalha de Karbala.

Na essência, o Hezbollah é o resultado de uma abordagem mística e não pode ser comparado a um partido europeu. Os seus soldados nada ganham quando combatem e perdem as suas vidas. Envolve-se na guerra porque a sua causa é justa e é uma oportunidade para o sacrifício, ou seja, o desenvolvimento humano. Este foi o significado da revolução do aiatola Ruhollah Khomeini e é a deles.

Apesar da ambiguidade que dá origem à tradução do seu nome, Hezbollah, como “Partido de Deus”, esta rede não é uma organização política e não tem intenção de se tornar numa. Seu nome, derivado do Alcorão, está na sua bandeira: “Quem é aliado Deus, da Seu Mensagam e das suas crenças [terá sucesso] porque é o partido de Deus que será vitorioso.” Aqui deve-se entender o termo “Partido de Deus”, no seu sentido escatológico: é Deus que acabará por triunfar sobre o mal, no final dos tempos.

Muito estranhamente, os europeus – que na sua maioria vê a separação entre os poderes temporal e religioso como uma conquista democrática – censura a essência espiritual do Hezbollah e quer “normalizá-lo” como um partido político. Nas suas mentes, a resistência libanesa não está relacionada com a colonização da Palestina nem da Síria. Seriam sem dúvida melhores a cuidar das suas carreiras políticas do que arriscar as suas vidas numa batalha.

A decisão do Conselho Europeu tem pouco significado prático. Consiste essencialmente em proibir os membros da “ala militar” de viagens na UE e no congelamento das suas contas bancárias: mas não está claro porque é que a luta clandestina contra poderes coloniais iriam abrir contas bancárias com eles.

Então porquê esta confusão? A inclusão do Hezbollah na lista da EU das organizações terroristas é uma velha reivindicação de Tel Aviv, apoiada pelo império anglo-saxão. Trata-se de um esforço de propaganda em que os “bons” são os israelitas e os “maus” são os que recusam que a sua terra seja roubada. A interdição  apresentado pelo presidente de Israel, Shimon Peres aos governos da UE e Parlamento Europeu a 12 de março passado. Foi levado até ao Conselho  Europeu pelos Ministros dos Negócios Estrangeiros britânico e francês, William Hague  e Laurent Fabius. Estes juntaram-se aos seus colegas holandês s e austríaco, Frans Timmermans e Michael Spindelegger, após uma forte mobilização dos sionistas americanos, incluindo o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger.

Mascarar a fracasso de Israel na Argentina

Os comunicadores de Israel tinham urgência para agir. Desde 1994, eles acusaram o Hezbollah e o Irão de explodir um imóvel da mutualista judia em Buenos Aires, matando 85 pessoas. Esta versão  é apresentada como certa em muitas enciclopédias e livros didáticos. No entanto, a justiça argentina questionou tal durante anos. Em Janeiro de 2013, Argentina e Irão criaram uma comissão de juristas independentes para lançar luz sobre a questão. Já existem indicadores de que o ataque foi idealizada pelo ex-ministro do Interior, Vladimir Corach.

Tel Aviv acusou o Hezbollah e o Irão de explodir um autocarro israelita na Bulgária, matando sete pessoas (incluindo um homem-bomba), em 18 de Julho 2012. Inicialmente, o governo búlgaro da centro direita apoiou a acusação antes de ser contrariada pelo seu sucessor de centro-esquerda. Pouco importa, para o Conselho europeu e na ausência de prova judicial, o Hezbolá é políticamente o autor de um atentado no território da União.

De um modo geral, Israel acusa o Hezbollah de fomentar e por vezes de executar  em 30 anos, cerca de vinte ataques contra civis em todo o mundo, uma acusação que ostraciza da Resistência.

Novamente, muito estranhamente, os europeus – que consideram a presunção de inocência como um dado adquirido numa democracia – condena o suspeito antes que ele seja considerado culpado, ou mesmo indiciado. 

Mascarar o fracasso europeu na Síria

Quanto ao mérito, não escapou a ninguém que a verdadeira novidade, neste caso, não foi reconhecida: a intervenção do Hezbollah na guerra na Síria. Já que traímos o nosso compromisso de derrubar o presidente Bachar el-Assad, levemos ao menos o nosso apoio aos «rebeldes» condenando o Hezbolá: assim se pensa em Bruxelas. Foi esse argumento que, ao que parece, ganhou a decisão do Conselho Europeu. Por outro lado, é evidenciado o fracasso britânico e francês de influenciar seja o que for, num conflito que deliberadamente provocaram, para capturar a Síria enquanto acenam a bandeira da colonização, que se tornou a do Exército Sírio Livre.

É esse argumento que, ao que parece, ganhou a decisão do Conselho Europeu. Por outro lado, é evidenciado o fracasso britânico e francês e influenciar seja o que for, num conflito que provocaram intencionalmente para capturar a Síria, enquanto acenam a bandeira da colonização, que se tornou o do Exército Sírio Livre.

Acima de tudo esta condenação tem o mérito de clarificar os campos: de um lado a resistência à opressão colonial, do outro as potências colonizadoras.

Se a atitude britânica não espanta, o Reino Unido a reivindicar o seu estatuto colonial, o mesmo não já não, no que se refere à França, que alternou na sua história os períodos revolucionários e os imperiais.

Assim, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, adoptada em 1789, enuncia no seu 2º artigo, quatro direitos fundamentais, um deles refere a «resistência à opressão». Foi com esta base que em 1940, Charles De Gaulle se opôs ao armistício entre a França e o Reich nazi, ao tomar o comando da Resistência.

Ao contrário, no decurso dos anos 1880, Jules Ferry incarnou a expansão francesa de uma facção de patrões, apregoando uma maior rentabilidade para os seus investimentos, do que em França, na medida em que era o contribuinte que pagaria o exército colonial. Para arregimentar o país, Ferry tornou a escola pública gratuita e obrigatória. Os professores, chamados «black hussars of the Republic » deviam convencer os jovens a alistar-se nas tropas coloniais. E, foi sob os auspícios de Jules Ferry que o actual presidente francês, François Hollande, consagrou o seu mandato.

Se a França moderna é Charles De Gaulle, ele teria podido ser Philippe Pétain, um marechal razoável, que considerou a submissão ao vitorioso Reich tanto mais desejável quanto ele aí via um meio de acabar com a herança de 1789. É, certamente, muito cedo para que as elites francesas o reabilitem, mas condenar a resistência libanesa, é condenar pela  segunda vez Charles De Gaulle à morte por terrorismo.

Definitivamente, os ideais que fizeram a glória da França são actualmente melhor defendidos em Beirute do que em Paris.

Thierry Meyssan (fonte)

ligne-rougeNota: realces com esta cor. são da minha responsabilidade

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This entry was posted on 11 de Agosto de 2013 by in DIANTE DOS NOSSOS OLHOS and tagged , .

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