A Arte da Omissao

Operação «Northwoods»

Tradução do artigo The Terrorist Attacks Planned by the American Joint Chief of Staff against its Population, de  Thierry Meyssan

Os ataques terroristas planeados pelo Chefe do Estado-Maior americano contra a sua população

Concebida pelo Chefe do Estado-Maior americano em 1962, a operação “Northwoods” previa uma série de ataques que matariam civis e militares norte-americanos, com o fim de mobilizar a opinião pública contra Fidel Castro. Um ataque contra um navio de guerra e um sequestro foram notavelmente bem planejados. Entre os conspiradores estavam pessoas responsáveis ​​do exército dos Estados Unidos da altura. A concretização deste plano de doentes mentais foi impedido, no último minuto, pelo presidente John F. Kennedy.

ligne-rouge

en-northwood390-3b644

Operação Mongoose

Em Cuba de 1958, os rebeldes revolucionários liderados por Fidel e Raul Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, derrubaram o regime de Fulgencio Batista. Batista abandonou a ilha e procurou asilo nos EUA. O novo governo revolucionário, que não era comunista na altura, pôs fim à exploração sistemática da ilha, levada a cabo por um número de empresas multinacionais americanas (Standard Oil, General Motors, ITT, General eléctrica, Sheraton, Hilton, United Fruit, Leste Índico Co) e família Bacardi. Estas, ao perderam a oportunidade de se tornarem milionárias, convenceram o presidente Eisenhower a derrubar os revolucionários cubanos liderados por Fidel Castro.

en-North_Bird-0cdca

A 17 de Março de 1960, Eisenhower aprovou o “Programa de operações encobertas contra  regime de Castro”. A sua finalidade era o de substituir o regime de Fidel Castro e impor um outro mais leal ao real interesse do povo cubano e dos Estados Unidos, através de meios secretos que não revelariam uma intervenção militar norte-americana”. [1].

A 17 de Abril de 1961, uma unidade de exilados cubanos e mercenários, discretamente conduzida pela CIA, tentou desembarcar na Baía dos Porcos. Foi um grande fracasso. Presidente John F. Kennedy, recentemente eleito para a Casa Branca, recusou-se a emitir a ordem para que a Força Aérea dos EUA apoiasse os mercenários.

1500 homens foram capturados pelas autoridades cubanas. Kennedy opôs-se a esta ação e despediu Allen Dulles, director da CIA, Charles Cabell, vice-director da CIA e Richard Bissell, diretor do projeto Stay-Behind. O conselheiro militar de Kennedy, general Maxwell Taylor recebe ordens para realizar uma investigação interna que acabou por ser inútil. Kennedy deu directrizes ao Chefe de Acção Conjunta para que este validasse a operação destinada ao fracasso. [2] Parecia que os generais queriam que os EUA se envolvessem numa guerra declarada contra Cuba.

Mas, apesar da oposição aos métodos e fracassos da CIA, Kennedy não alterou a hostilidade de Washington contra o regime de Havana. Uma “Força Especial” foi encarregada de projectar e dirigir a luta contra Castro. Este grupo foi formado pelo seu irmão, Robert Kennedy (procurador-geral), seu conselheiro militar (General Maxwell Taylor),  Conselheiro de Segurança Nacional (Mc Gorge Bundy), Secretário de Estado (Dean Rusk) assistido pelo consultoe (Alexis Johnson ), secretário de Defesa (Robert McNamara) assistido pelo consultor (Roswell Gilpatric), o novo diretor da CIA (John McCone) e o General Lyman L. Lemnitzer. Este grupo projectou uma série de acções secretas conhecidas pelo código secreto de Operação Mongoose.

Para a implementar, a coordenação operacional entre o Departamento de Estado, o Departamento de Defesa e a CIA foi confiada ao general Edward Lansdale (secretário-assistente de Defesa no comando de operações especiais e, portanto, diretor da NSA (Agência de Segurança Nacional)). Ao mesmo tempo, outra unidade ad hoc (“Grupo W”) dirigida por William Harvey foi formada dentro da CIA.

en-Layman-a9d3d (1)

A crise dentro do Exército

Em Abril de 1961, o exército americano passou por uma grave crise: o major-general Edwin A. Walker que  iniciou os confrontos racistas em Little Rock, antes de ser nomeado Chefe da Infantaria dos EUA na Alemanha, foi demitido pelo presidente Kennedy. [3]. Walker foi acusado de desenvolver partidarismo de extrema direita dentro do exército. Ele era membro da John Birch Society e Ku Klux Klan.

A Comissão das Relações Exteriores do Senado levou a cabo uma investigação sobre a ramificação de grupos da extrema-direita dentro do exército. A audiência foi presidida pelo senador Albert Gore (D-Tennessee), pai do futuro vice-presidente americano. Os Senadores suspeitavam que o Chefe do Estado Maior, General Lyman L. Lemnitzer, estivava envolvido também nos movimentos de extrema-direita de Walker.

Gore sabia que Lemnitzer era um ás em operações secretas: em 1943, tinha estado encarregado das negociações com o fim de causar uma fenda entre a Itália e o Terceiro Reich de Adolf Hitler, e em 1944, juntamente com Allan Dulles, conduziu as negociações secretas com os Nazis em Ascona, Suíça, para preparar a capitulação da Alemanha (Operação Sunrise). [4]

Lemnitzer esteve também envolvido na criação da rede dos Aliados «stay-behind», recrutando agentes nazis para lutarem contra a USRR e ajudou criminosos de guerra e pessoas acusadas de crimes contra a humanidade a fugir para a América Latina. No entanto, Gore não foi capaz de provar o envolvimento de Lemnitzer em tais fatos.

A recente publicação secreta do General Lemnitzer mostrou que ele mais o comandante das forças americanas na Europa (General Lauris Norstad), e outros oficiais de altas patente conspiravam contra a política democrata do presidente John F. Kennedy. Oficiais da direita estavam contra a recusa de Kennedy em envolver o Exército americano numa intervenção militar em Cuba. Eles culparam civis da CIA pelo mau planeamento do desembarque na Baía dos Porcos e acusaram o presidente Kennedy de ser um covarde, por este se opor ao uso da Força Aérea dos EUA no apoio dos contra revolucionários cubanos.

A reunião foi realizada no Pentágono, no escritório do Secretário da Defesa, das 14:30 às 17:30. Não teve um final feliz. Robert McNamara rejeitou todo o plano e o General Lemnitzer tornou-se mais ameaçador. Isto gerou uma hostilidade que durou seis meses entre a Administração Kennedy e o Chefe do Estado-Maior Conjunto. Lemnitzer foi enviado para a Europa como chefe das forças americanas. No entanto, antes de sair, o general ordenou que todos os documentos secretos da Operação Northwood fossem destruídos, mas Robert McNamara, secretário de Defesa de Kennedy na altura, manteve em segredo uma cópia do projecto. [5].

en-Etat_Major-331bd

Membros do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos envolvidos na Operação Northwood

Da esquerda para a direita: Almirante George W. Anderson Jr. (Chefe de Operações da Marinha), general George H. Decker (Chefe da seção de Forças Terrestres), General Leyyman L. Leymnintzer (Chefe doa Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos), General Curtis E. LeMay (Chefe da Força Aérea), General David M. Shoup (Comandante da Marinha)

Ataques terroristas

A Operação Northwood visava convencer a opinião pública internacional de que Fidel Castro era um homem irresponsável e representava uma ameaça para o mundo e paz ocidental. Assim, os mentores desta operação planejaram lançar ataques terroristas contra os EUA e seus interesses para depois poderem culpar Cuba pelos danos sofridos. Algumas das ações previstas eram as seguintes:

< Atacar a base militar americana em Guantánamo. A operação seria realizada por mercenários cubanos vestindo o uniforme das forças de Fidel Castro. Várias sabotagens seriam levadas a cabo e o depósito de munição teria que explodir. Tais ataque, obviamente, provocariam danos materiais e muitas mortes entre as tropas americanas.

en-Watika-509b9 (1)

< Fazer explodir um navio de guerra dos EUA em águas territoriais cubanas para reviver a destruição do US Main em 1898 (266 mortos), que deu origem à intervenção norte-americana contra a Espanha. [6].

< Na verdade, o navio estaria vazio e seria tele comandado. A sua explosão teria de ser vista  de Havana e Santiago de  Cuba para que potenciais testemunhas oculares a pudessem relatar. Então, seria organizada uma operação de resgate, para tornar  a cena ainda mais real, uma lista de passageiros seria publicada e seriam organizadas falsos funerais para provocar mais indignação da opinião pública americana e mundial. Toda a operação seria realizada quando os aviões e navios cubanos estivessem na área para puderem ser à posterior responsabilizados pelo ataque

< Aterrorizar exilados cubanos que viviam nos EUA, com explosões em algumas das suas  instalações em Miami, Florida e mesmo em Washington. Em seguida, falsos agentes cubanos seriam presos para que confessassem. Comprometedores documentos falsos seriam então confiscados e entregues à imprensa para provar o envolvimento terrorista de Fidel Castro nos ataques.

< Mobilização dos países que fazem fronteira com a Cuba para que  pudessem provar a ameaça da invasão. Um falso avião cubano iria bombardear a República Dominicana ou qualquer outro estado da região durante a noite. Por razões óbvias, as bombas seriam Soviéticas.

Mobilização da opinião pública internacional. Para o conseguirem, foi planeada a destruição de um voo espacial. Com o objetivo de realmente tocarem os sentimentos das pessoas, a vítima escolhida seria o famoso astronauta John Glenn, o primeiro americano a executar uma órbita completa em torno da Terra (o voo Mercury).

Se tudo isto não fosse suficiente para mobilizarem a opinião pública internacional e esta acabar por apoiar a invasão militar contra Cuba, a última provocação foi adicionada à lista:

“Fabricaram um incidente que demonstraria de forma convincente que um avião de combate cubano teria atacado e derrubado um voo charter civil que partiria dos EUA com destino à Jamaica, Guatemala, Panamá e Venezuela”.

Um grupo de passageiros conspiratórios que poderiam ser estudantes, por exemplo, estaria a bordo de voo charter fantasma sob o controle da CIA. Quando este tivesse em espaço aéreo da Flórida, um avião idêntico, vazio e tele comandado seguiria então rota. Os passageiros conspiratórios seriam então levados para uma base secreta da CIA. O avião clone iria pedir ajuda, pois estaria a ser atacado por um avião de combate cubano. Em seguida, remotamente seria despoletada a sua explosão.

A implementação das referidas ações custariam a vida de muitos cidadãos americanos, civis e militares, o que na verdade, era o elemento chave das acções de manipulação.

O regresso de Layman L. Lemnitzer

Para John F. Kennedy, Lemnitzer era um extremista histérico e anti comunista apoiado por empresas multinacionais sem escrúpulos. Foi então que o presidente Kennedy entendeu o verdadeiro significado do aviso do seu antecessor, Eisenhower, um ano antes, a quando do seu discurso de despedida: «O responsável do governo deve estar ciente da influência ilegítima quer venha ou não do complexo militar-industrial. O risco de  um poder usurpador se desenvolver é real e continuará presente. Não podemos permitir que esta ameaça limite as nossas liberdades e processos democráticos. Nada deve ser considerado completamente alcançado. Somente a vigilância e conscientização adequadas podem garantir o equilíbrio entre o lobby da grande maquinaria industrial e militar que temos desenvolvido e os nossos métodos e objetivos pacíficos para que a segurança e a liberdade possam trabalhar em conjunto». [7].

John F. Kennedy opôs-se aos generais Walker, Lemnitzer e seus amigos, recusou-se a envolver os EUA numa guerra aberta contra o comunismo em Cuba, Laos, Vietname, ou em qualquer outro país. John Kennedy foi assassinado a 22 de Novembro de 1963. [8].

O General Lemnitzer aposentou-se em 1969, mas em 1975, enquanto o Senado investigava o papel da CIA na administração de Nixon, o General Ford, que assumiu a presidência após o escândalo de Watergate, pediu-lhe para participar da referida investigação.

Após isso, Ford solicitou novamente os seus serviços para auxiliar o Committee on the Present Danger (CPD). Este grupo foi criado pela CIA e dirigido directamente por Bush pai. Lemnitzer  fez ainda campanha contra o comunismo e fomentou as suas ameaças. Entre os seus líderes, encontravam-se vários agentes da CIA e Paul D. Wolfowitz. Ao mesmo tempo, Gerald Ford promoveu o General William H. Craig a Major General. Craig tinha dirigido a análise preliminar da Operação Northwoods como director da Agência de Segurança Nacional (NSA).

General Layman Geral L. Lemnitzer morreu a 12 de Novembro de 1988.

Em 1992, a opinião pública americana questionava o assassinato do presidente Kennedy após a transmissão do filme do cineasta Oliver Stone, onde foram apresentadas inconsistências na versão oficial.

O presidente Clinton ordenou que os arquivos da presidência Kennedy fossem desclassificados. O projeto secreto «Northwoods» foi encontrado no meio dos arquivos de Robert McNamara, secretário de Defesa de Kennedy. 

Nota: Links desta cor são da minha responsabilidade.

ligne-rouge

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: