A Arte da Omissao

2010: Revelações sobre o assasinato de Rafik Hariri

Revelações sobre o assassinato de Rafik Hariri

de Thierry Meyssan

Enquanto a comunicação social ocidental anunciava que as acusações contra o Hezbollah serão emitidas em breve pelo Tribunal Especial para o Líbano (TSL), é a investigação da ONU que a revista russa Odnako coloca em causa. Thierry Meyssan afirma que a arma usada para assassinar o ex-primeiro-ministro Rafik Hairiri foi fornecida pela Alemanha. O ex-promotor alemão e primeiro comissário encarregado da investigação da ONU, Detlev Mehlis, apresenta evidências aparentemente adulteradas para encobrir o envolvimento do seu país. Estas revelações constrangem o tribunal e invertem a tendência  no Líbano.

VOLTAIRE NETWORK | MOSCOVO (RUSSIA) | 29 NOVEMBRO 2010

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Todos os conflitos relacionados com Oriente Médio, cristalizam hoje em torno do Tribunal Especial para o Líbano (TSL). A paz e a guerra dependem dele. Para alguns, o TSL deve revelar a dissolução do Hezbollah, acabar com a resistência e estabelecer uma Pax Americana. Outros consideram que o TSL desrespeita a lei ao subverter a verdade para garantir a aquisição de uma nova ordem colonial na região.

O Tribunal foi criado a 30 de Maio de 2007, nos termos da resolução 1757 do Conselho de Segurança da ONU, para julgar os supostos patrocinadores do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri. No contexto político da época, isto implicava nada mais do que levar a tribunal, os presidentes Bashar el-Assad da Síria e Emile Lahoud do Líbano, não propriamente  favoritos dos neo conservadores. No entanto, as acusações não prosseguiram, uma vez que se baseavam em provas frágeis de falsas testemunhas. Sem acusação, o Tribunal poderia ter desaparecido nos meandros da burocracia, não fosse uma sucessão de eventos que o catapultou de volta para o epicentro da cena política turbulenta do Oriente Médio.  

A 23 de Maio de 2009, o jornalista Erick Follath divulgou no Der Spiegel Online, que o Ministério Público estava prestes a indiciar novos suspeitos: alguns líderes militares do Hezbollah. Nos últimos 18 meses, Hassan Nasrallah, secretário geral do Hezbollah, proclamou a inocência do seu partido. Ele sustentou que o verdadeiro objectivo do processo é o de decapitar a resistência e limpar a região para o exército israelita. Por sua parte, o governo dos EUA, numa súbita onda de justiça garantiu que não seria permitido a ninguém evitar a Justiça internacional. 

Em qualquer caso, a acusação – que todos crêem estar iminente – contra os líderes xiitas pelo assassinato de um líder sunita é de tal natureza, como o desencadear da Fitna, nome dado à guerra civil muçulmana, caindo a região em novos derramamento de sangue e violência.

Durante a visita oficial a Moscovo a 15 e 16 de Novembro, Saad Hariri – actual primeiro ministro libanês e filho do falecido – reiterou que a exploração política pelo Tribunal TSL expõe o seu país ao risco de uma nova conflagração. O Presidente Medvedev respondeu que a Rússia quer que a justiça seja feita e reprova qualquer tentativa de desacreditar, debilitar ou atrasar os trabalhos do Tribunal. Esta posição de princípio, decorre da confiança que o Kremlin decidiu colocar no TSL. Mas corre o risco de ser severamente desgastada pelas revelações de Odnako.

De facto, achamos desejável que se aprofunde as circunstâncias do assassinato de Rafik Hariri. As evidencias que encontrámos mostram uma nova avenida, e estranhamos nunca ter sido explorada anteriormente. No decorrer da nossa longa investigação, conhecemos muitos dos actores, de tal forma que a notícia do nosso trabalho, que se espalhou rapidamente, perturbou aqueles para quem a trilha do Exército de Resistência libanesa, representa um bom negócio. Com o objectivo de nos intimidar, o Jerusalem Post, lançou em 18 de Outubro um ataque preventivo através de uma peça sobre o nosso trabalho. Numa veia puramente caluniosa, acusa o autor deste artigo de ter recebido 1 milhão de dólares do Irão para exonerar o Hezbollah.

Vamos então aos factos. O comboio de Rafik Hariri foi atacado em Beirute a 14 de Fevereiro de 2005. Vinte e três pessoas foram mortas e uma centena ficou ferida. Num relatório preliminar encomendado pelo Conselho de Segurança, chama atenção para a conduta não profissional dos magistrados libaneses e da polícia. Para corrigir tal situação, o Conselho de Segurança designou os seus próprios investigadores, fornecendo-lhes os meios necessários que o Líbano não foi capaz de oferecer. Desde o início da investigação, era globalmente aceite que o ataque tinha sido executado por um bombista suicida que conduzia uma carrinha cheia de explosivos.

Tendo sido criada para compensar a falta de profissionalismo do Líbano, seria de  esperar que a missão das Nações Unidas observasse escrupulosamente os clássicos procedimentos. Não foi assim! A cena do crime – com base na topografia ainda intacta, bem como as fotos e imagens de vídeo tiradas e gravadas nesse dia – não foi examinada com detalhe. As vítimas não foram exumadas e nem foram realizadas autópsias. Durante muito tempo, nenhuma tentativa foi feita para determinar o modus operandi. Após descartarem a hipótese de uma bomba enterrada no solo, os investigadores defenderam a que envolve a carrinha sem se preocuparem a verificá-la.

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No entanto, esta versão não é plausível: olhando para a cena do crime, qualquer pessoa pode facilmente observar que a cratera larga e profunda não poderia ter sido gerada por uma explosão de superfície. Diante a inflexibilidade dos peritos suíços que se recusaram a endossar a versão oficial, no dia 19 de Outubro, o Tribunal Especial para o Líbano (TSL) recriou a cena do crime atrás de umas portas fechadas. A cena não foi reconstruída no Líbano nem na Holanda, sede do TSL, mas na França, um dos países que financia o Tribunal. Os edifícios que iriam cercar a cena do crime foram reconstruídos e até terra foi trazida de Beirute. O comboio foi reconstituído, incluindo o veículo blindado. O objectivo era o de demonstrar que a altura dos edifícios de betão tinha limitado a explosão, tornando possível que a explosão originasse tal cratera. Os resultados desta experiência nunca foram divulgados.

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Ao olhar para as fotos e vídeos realizados imediatamente após o ataque, a característica mais marcante é o incêndio. Peças de carro e vários tipos de objectos ficaram a arder por todo o lado. Os corpos das vítimas: estão carbonizados de um lado e do outro estão intactos. Um fenómeno surpreendente que não tem qualquer semelhança com o que normalmente causam os explosivos convencionais. A teoria de que a carrinha transportava uma mistura de RDX, PETN e TNT não explica os danos ocorridos.

Mais, a partir das fotos que mostram o corpo de Rafik Hariri, pode observar-se que o relógio de pulso de ouro maciço derreteu, enquanto o colarinho da sua camisa ainda abraça o pescoço em bom estado.

Então, o que aconteceu realmente? A explosão gerou uma onda de calor excepcionalmente intensa e excepcionalmente de curta duração. Assim, a pele exposta à explosão foi instantaneamente carbonizada, enquanto o corpo por baixo não foi queimado.

Objectos de alta densidade (como o relógio de ouro) absorveram o calor e foram destruídos. Por outro lado, objectos de baixa densidade (como o delicado tecido de colarinho de Hariri) não tiveram tempo suficiente para absorver o calor e não foram afectados.

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Além disso, os vídeos mostram vários membros que foram separados dos respectivos corpos pela explosão. Estranhamente, os cortes estão limpos, como se fossem feitos em estátuas de barro. Não há nenhum sinal de ossos quebrados ou salientes, nem de carne rasgada. A razão é que a explosão sugou todo o oxigénio e desidratou os corpos, tornando-os quebradiços. Nas horas que se seguiram, várias testemunhas,  queixaram-se de doenças respiratórias. As autoridades interpretaram-nas como uma reacção psicossomática depois do trauma psicológico.

Tais observações constituem o abc de qualquer investigação criminal. Elas devem ter um ponto de partida, mas tal não figura em nenhum dos relatórios apresentados pelos “profissionais especialistas” ao Conselho de Segurança.

Quando perguntámos a uma série de especialistas militares que tipo de explosivos seriam capazes de gerar tais danos, eles mencionaram um novo tipo de arma desenvolvida ao longo de várias décadas e que tem sido destacada em relatórios que aparecem nas revistas científicas. A combinação da ciência nuclear com a nanotécnologia pode provocar uma explosão com um teor exacto que pode ser regulado e controlado. A arma está configurada para destruir tudo dentro de um determinado perímetro.

Sempre de acordo com os mesmos especialistas militares, esta arma pode também produzir outros tipos de efeitos: exerce uma forte pressão sobre a área da explosão. No minuto em que pára, os objectos mais pesados ​​são projectados. Assim, os carros foram projectados para o ar, voando.

Há um fato inequívoco: esta arma é equipada com uma nano-quantidade de urânio enriquecido, que emana radiações que são quantificáveis. Ora, acontece que um dos passageiros que ia no carro blindado de Rafik Hariri sobreviveu à explosão. O ex-ministro Bassel Fleyhan foi levado para um hospital militar francês de primeira linha. Os médicos ficaram espantados ao descobrir que ele tinha estado em contacto com urânio enriquecido. Mas ninguém ligou esta facto ao ataque.

Tecnicamente falando, a arma tem a forma de um pequeno míssil com algumas dezenas de centímetros de comprimento. Deve ter sido disparada de um drone. Na verdade, várias testemunhas garantiram ter ouvido um avião a voar a cena do crime. Os investigadores pediram aos Estados Unidos e Israel, cujos satélites de vigilância estão permanentemente ligados, para lhes facultarem as pertinentes imagens. No dia do ataque, os Estados Unidos tinham colocado um avião AWACS sobre o Líbano. As transmissões ao vivo poderiam ajudar a estabelecer a presença do drone e até mesmo a determinar a sua trajectória de voo. Mas Washington e Tele Aviv – que incansavelmente instigavam todas as partes a cooperarem com o TSL – recusaram o pedido.

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Hezbollah interceptou e lançou vídeos de drones israelitas a inspeccionarem os movimentos de Rafik Hariri e a cena do crime

Numa conferência de imprensa realizada a 10 de Agosto de 2010, Hassan Nasrallah (Secretário Geral do Hizbollah- Ndt), mostrou um vídeo que, segundo ele, foi realizado por drones militares israelitas, interceptados pela sua organização. Todos os movimentos de Rafik Hariri tinham sido registados durante meses, até o último dia em que toda a vigilância convergiu para a curva da estrada onde o ataque foi encenado. Assim, Tel-Aviv tinha levado a cabo levantamentos aéreos da área antes do assassinato. Não quero dizer que isto, como o próprio Nasrallah aponta, prove que  foram  os autores do crime.

Então, quem disparou o míssil? É aqui que as coisas ficam complicadas. De acordo com os peritos militares, em 2005 a Alemanha era o único país que lidava com esta nova tecnologia. Então, só Berlim, poderia ter fornecido e montado  a arma do crime.

Por isso, é fácil entender porque o ex-procurador geral de Berlim, Detlev Mehlis – uma figura muito controversa dentro da sua própria profissão – estava ansioso para presidir a Comissão de Investigação da ONU. Ele está, de facto, notoriamente ligado aos serviços secretos alemães e norte-americanos. Designado em 1986, para clarificar o atentado contra a discoteca La Belle, em Berlim, diligentemente encobriu todas as impressões digitais de Israel e Estados Unidos, para falsamente acusar a Líbia e justificar assim o bombardeamento pela Força Aérea dos EUA, ao palácio de Muammar Kadafi. No início de 2000, o Sr. Mehlis foi ricamente pago pelo período em que foi investigador no Washington Institute for Near East Policy, (Instituto para a Política do Médio Oriente em Washington,  (grupo de reflexão ligado ao AIPAC, lobi pró-Israel) e no Rand Corporation (grupo de reflexão ligado ao complexo militar industrial dos EUA). Todos estes antecedente que lançavam uma sombra sobre a sua imparcialidade no caso Rafik Hariri, deveriam ter sido suficientes para o retirar do caso.

Mehlis foi apoiado pelo Comissário Gerhard Lehmann,  conhecido também como agente secreto alemão e dos EUA. Ele foi formalmente identificado por uma testemunha, como tendo participado no programa executado pela administração Bush na Europa, envolvendo o sequestro, detenção e tortura de prisioneiros em “buracos negros”. Seu nome é mencionado no relatório ad hoc do Conselho da Europa. Não obstante, conseguiu desviar todos os processos judiciais com base num forte álibi, embora improvável, fornecido por  colegas da polícia alemã.

Várias amostras de terra foram colhidas no local do crime. Primeiro foram misturadas e depois divididas por três frascos, os quais  foram enviadas para três laboratórios diferentes. Em dois não foram encontrados vestígios de explosivos. No terceiro frasco, mantido por Mehlis e Lehmann e que pessoalmente o enviaram para o terceiro laboratório, foram encontrados restos de explosivos. Em princípio, se for tomada a decisão de recorrer a três peritos judiciais, em caso de desacordo é a maioria que prevalece. Nada disso. De jeito nenhum! Mehlis e Lehmann violaram os protocolos. Consideraram que a deles era a única amostra confiável e o Conselho de Segurança embarcou sobre uma pista falsa.

O falso carácter das investigações de  Mehlis e Lehmann, foi amplamente comprovado. Os seus sucessores reconheceram-no e declararam secções inteiras de processos nulos e sem efeito.

Entre as suas manipulações, a mais famosa está relacionada com falsas testemunhas. Cinco indivíduos supostamente viram os preparativos do atentado a Rafik Hariri e incriminaram os presidentes Bashar el-Assad e Emile Lahoud (presidentes da Síria e Líbano-NdT). Enquanto estas alegações alimentavam os tambores da guerra, os seus advogados expuseram as mentiras e o Ministério Público teve que recuar.

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Com base nesses falsos testemunhos, Detlev Mehlis prendeuem nome da comunidade internacional – quatro generais libaneses, encarcerado por quatro anos. Usando ainda os seus cowboys, invadiu sem mandato casas particulares e de autoridades libanesas, deteve ainda para interrogatório membros da sua comitiva. Com os seus assistentes – que falavam hebraico – manipulou famílias. Assim e em nome da comunidade internacional, mostrou a imagem adulterada à esposa de um dos generais, para provar que o seu marido não tinha só obscurecido a sua implicação no assassinato, como  tinha também sido  infiel.

Detlev Mehlis, presidente da Comissão de Investigação da ONU violou todas as regras do procedimento criminal, fabricou provas e utilizou  falsas testemunhas para exonerar a Alemanha e acusar a Síria. (ONU,  cujo objectivo declarado é o de facilitar a cooperação em matéria de direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento económico, progresso social, direitos humanos e a realização da paz mundial)

Ao mesmo tempo, tentou a mesma manobra com um filho de outro “suspeito”, mas neste caso, para o convencer que a sua mãe era uma mulher de moral duvidosa, situação que fez que seu pai desesperado mergulhasse nem estado de loucura assassina. O objectivo era o de induzir um crime de honra na família, manchando assim a imagem de pessoas respeitadas e respeitáveis​​.

Ainda mais incrível, é a proposta de Lehmann para libertar um dos quatro generais presos em troca do seu falso testemunho contra o líder sírio.

Para ajudar, o jornalista alemão Jürgen Cain Külbel, destacou um detalhe perturbador: teria sido impossível desencadear a explosão por controle remoto ou marcar o alvo sem antes desactivar o poderoso sistema de interferência construído no comboio de Rafik Hariri. Um sistema entre os mais sofisticados do mundo, fabricado em … Israel.

Külbel foi abordado por um advogado pró-palestino bem conhecido, o professor Said Dudin, para promover o seu livro. No entanto, as declarações ultrajantes frequentemente feitas por Dudin não abonaram a seu favor. Külbel, ex-oficial de polícia criminal da Alemanha Oriental, foi rápido a descobrir que Dudin tinha a reputação de longa data, de ser uma toupeira da CIA dentro da ala esquerda alemã. O jornalista publicou uma série de relatórios antigos da Alemanha do Leste que atestavam esse facto e rapidamente  foi preso e condenado por divulgação ilegal de documentos. Enquanto isso, Dudin instalava-se na embaixada alemã em Beirute com o objectivo de se infiltrar nas famílias dos quatro generais.

Negligenciado o Oriente Médio, vale a pena destacar o papel da Alemanha nesta região. Após a guerra de agressão por parte de Israel ao Líbano no verão de 2006,a chanceler Angela Merkel destacou um grande contingente para se juntar à Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). Os 2.400 soldados da Alemanha iam controlar infra-estruturas marítimas para impedir o fornecimento de armas à resistência através do Mediterrâneo. Nessa ocasião, Merkel declarou que a missão militar do exército alemão era o de proteger Israel. Uma onda de revolta surgiu entre os oficiais. Às centenas, enviaram cartas a lembrá-la que eles tinham sido convocados para defender a pátria e não um país estrangeiro, mesmo  sendo um aliado.

Um desenvolvimento sem precedentes ocorre a 17 de Março de 2008 e a 18 Janeiro de 2010, quando os governos alemão e israelita se reuniram num Conselho Conjunto de Ministros, onde vários programas foram adoptados, especialmente no sector da defesa. Nesta fase, não devem ter sido deixados muitos segredos entre a Tsahal e a Bundeswehr.

A investigação conduzida por Detlev Mehlis, caiu no ridículo no que diz respeito às falsas testemunhas e está contaminada com a detenção ilegal dos quatro generais. De tal forma que o Human Rights Council’s Working Group on Arbitrary Detention formalmente e firmemente condenou este excesso de poder.

Quero referir, que a vergonha que se abate sobre o trabalho do Sr. Mehlis, não deve reflectir -se no Tribunal Especial para o Líbano, o qual não é de forma alguma responsável pelas suas manipulações. Mas, mais uma vez, as coisas ficam complicadas. A credibilidade do TSL,  depende da  sua capacidade em refrear todos os que tentaram mascarar a verdade e falsamente acusar os presidentes Bashar el-Assad e Emile Lahoud, com a intenção de provocar uma guerra.

Agora, verifica-se que o Tribunal se recusa a usar as falsas testemunhas, dando a impressão de estar a encobrir as manipulações de Mehlis e que de facto está a ir atrás doutros objectivos políticos como (desta vez contra o Hezbollah, e no futuro atrás de outros). Pior ainda, o Tribunal não vai entregar a Jamil Sayyed (um dos quatro generais detidos ilegalmente) a ata da audiência dos seus acusadores, impedindo-o de exigir compensações e fazer parecer que ele perdoa 4 anos de prisão arbitrária.

Em termos mais prosaicos, o Tribunal está a esquivar-se das suas responsabilidades. Por um lado, deve julgar as falsas testemunhas para impedir novas manipulações e deixar claro a sua imparcialidade, por outro lado, recusa-se a proceder a uma operação de “limpeza” que poderia forçá-lo a prender o Procurador Mehlis. No entanto, as revelações de Odnako sobre a liderança alemã tornam esta postura insustentável. Mais uma vez já é tarde demais: o General Jamil Sayyed apresentou uma queixa na Síria e um juiz de instrução sírio já indiciou Detlev Mehlis, o comissário Gerahrd Lehmann e as cinco testemunhas falsas. Pode-se supor que o tumulto no TSL, fará com a Síria decida chamar a Interpol para esta os prender.

Assim como era suposto que a comissão Mehlis compensasse os erros da falta de profissionalismo por parte das forças de lei e ordem libanesas, o TSL deveria igualmente garantir a imparcialidade dos tribunais libaneses. Mas as coisas estão longe desse objectivo, o que faz que se levante a questão da legitimidade do Tribunal.

Kofi Annan não queria que o TSL exercesse jurisdição internacional, mas sim, que funcionasse como um tribunal libanês com carácter internacional. Seria submetido à lei libanesa, enquanto metade dos seus membros seriam estrangeiros. O plano não se concretizou porque as negociações chegaram a um fim súbito. Mais precisamente, um acordo foi alcançado com o governo libanês, presidido na época por Fouad Siniora, ex-advogado das empresas de Hariri, mas nunca foi ratificado pelo Parlamento nem pelo presidente da República. Assim, o acordo foi aprovado unilateralmente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (Resolução 1757 de 30 de Maio 2007). O resultado final é uma entidade híbrida  e frágil.

Como apontado por Kofi Annan, este Tribunal não é análogo a qualquer outro até agora criado dentro do âmbito das Nações Unidas. “Não é nem um órgão subsidiário da ONU, nem um componente do sistema judiciário libanês”, é simplesmente “um órgão convencional” sentado entre a autoridade executiva do governo libanês e a ONU. A julgar pela regra internacional da separação de poderes e da independência do poder judiciário, o TSL não pode ser considerado como um verdadeiro tribunal, mas sim como uma comissão conjunta disciplinar, no âmbito dos quadros da ONU e do Governo libanês. Qualquer decisão que tome vai ser inevitavelmente revestida de desconfiança.

Pior ainda, qualquer governo libanês pode terminá-lo uma vez que, não tendo sido ratificado, o relacionado acordo vincula apenas o governo anterior. Como resultado, o actual governo de coligação libanês tornou-se um campo de batalha entre partidários e adversários do Tribunal. Numa tentativa de manter a estabilidade governamental, semana após semana, o presidente libanês, Michel Sleiman tem dissuadido o Conselho de Ministros de votarem sobre qualquer questão relacionada com o TSL Porém, este embargo não pode durar para sempre.

As más notícias vêm aos pares, as suspeitas agora estendem-se ao presidente do TSL, Antonio Cassese. Este jurista internacional respeitável foi presidente do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (ICTY). Acontece que é um ardente defensor da colonização judaica da Palestina. Amigo pessoal de Elie Wiesel, Cassese recebeu e aceitou um prémio honorário, apresentado pelo próprio Wiesel. Ele deveria ter-se retirado e resignado, quando Hassan Nasrallah divulgou que drones israelitas tinham andado a sobrevoar a cena do crime, bem como a vigiar durante meses os movimentos da vítima.

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O pior de tudo é que o juiz Cassese personifica uma interpretação do direito internacional que causa divisão no Oriente Médio. Apesar do seu currículo oficial o obscureça, tomou parte nas negociações de 2005 entre os Estados membros da União Europeia e os que fazem fronteira com o Mar Mediterrâneo (“Processo de Barcelona: União para o Mediterrâneo”). A sua definição de terrorismo bloqueou as discussões. De acordo com ele, o terrorismo é um ato exclusivo de indivíduos ou grupos particulares, nunca de Estados. Para ele, uma luta contra um exército de ocupação não seria considerado como “resistência”, mas como “terrorismo”. No contexto local, esta visão jurídica é consistente com um quadro colonial e desqualifica o TSL.

De acordo com o presidente do Tribunal Especial para o Líbano, Antonio Cassese, a resistência armada na Palestina, Líbano, Iraque e Afeganistão deveria ser julgada como  “terrorismo”.

Os métodos do Tribunal Especial não diferem dos usados pela Comissão Mehlis. Os investigadores do TSL recolheram arquivos em massa sobre os estudantes libaneses, beneficiários da segurança social e assinantes de serviços de utilidade pública. A 27 de Outubro, na ausência dos juízes libaneses, tentaram roubar os registos médicos de uma clínica ginecológica frequentada por esposas de membros do Hezbollah. É óbvio que nada se liga com o assassinato de Rafik Hariri. Tudo parece fazer com que os libaneses acreditem que a informação  é, na verdade, destinada a Israel, e que, a seus olhos, o TSL é apenas uma ramificação.

Todos estes problemas tinham claramente sido previstos pelo presidente Putin, quando, em 2007, fez um discurso em vão por uma formulação diferente da resolução de fundação do TSL. O embaixador Vitaly Churkin denunciou as “brechas jurídicas” do sistema. Ele  lamentou que o Conselho de Segurança ameaçasse recorrer à força (capítulo VII) para alcançar unilateralmente a criação deste “órgão convencional”. Salientou, qualquer Tribunal de Justiça deve trabalhar para a reconciliação do povo libanês, mas este foi concebido de tal forma que  os vai dividir ainda mais. Por fim, a Rússia – como a China – recusaram-se a endossar a resolução 1757.

Em última análise, a verdade infiltra-se. O vídeo do drone israelita divulgado pelo Hezbollah, expõe o envolvimento de Israel na preparação do crime. Os factos revelados por Odnako apontam para o uso de uma arma alemã sofisticada. O quebra-cabeça está quase completo.

Nota: frases sublinhas e links com esta cor são da minha responsabilidade

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