A Arte da Omissao

Depois da Jugoslávia, é a Ucrânia?

Depois da Jugoslávia, é a Ucrânia? por Thierry Meyssan

É errado que a opinião pública da Europa Ocidental observe a crise ucraniana como uma rivalidade entre os ocidentais e russos. Na realidade, Washington não pretende mergulhar o país na União Europeia, mas sim privar a Rússia dos seus parceiros históricos. Para o fazer, os Estados Unidos estão prontos a iniciar uma nova guerra civil no continente.

REDE VOLTAIRE | DAMASCO | 5 Fevereiro 2014

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 15 de Dezembro de 2013, o senador John McCain – que supervisionou a “Revolução Laranja” de 2004 e apoia o jihadismo na Síria – aborda manifestantes na  Maidan Square. Ele reconhece, à sua direita, o líder nazista Oleh Tyahnybok.

Após ter desmembrado a Iugoslávia ao longo de  uma guerra civil de 10 anos (1990-1999), os Estados Unidos decidiram igualmente destruir a Ucrânia? Isto é o que sugerem as manobras que a oposição se prepara para dirigir durante os Jogos Olímpicos de Sochi.

A Ucrânia historicamente está dividida entre o Ocidente, com uma população virada para a União Europeia e o Oriente, cuja população está virada para a Rússia, além de uma pequena minoria muçulmana na Crimeia. Depois da independência, o Estado tem gradualmente entrado em colapso. Aproveitando-se da confusão, os Estados Unidos organizaram a “Revolução Laranja” (2004) [1],que levou ao poder um clã mafioso pró-atlantista. Moscovo reagiu e cancelou as suas concessões sobre os preços do gás, mas o governo laranja não pode contar com os seus aliados ocidentais para o ajudar a pagar o preço de mercado. Em última análise, ele perdeu a eleição presidencial de 2010, em favor de Viktor Yanukovich, um político corrupto, por vezes, pró Rússia.

A 21 de Novembro de 2013, o governo renuncia ao Acordo de Associação com a União Europeia. A oposição responde com protestos em Kiev e na parte ocidental do país, que em breve passaram a ter um aspecto de insurreição. A oposição apela para eleições parlamentares e presidenciais antecipadas, recusa a proposta do presidente Yanukovych de formar governo e o primeiro ministro demite-se. Os eventos são baptizados pela Radio Free Europe (Radio do departamento de Estado dos EUA) de Euromeïdan e depois de  Eurorévolution.

O serviço de segurança das manifestações anti-governamentais é assegurado por Azatlyk, um grupo de jovens tártaros da Crimeia. [2].

A imprensa atlantista assumiu a causa como a “oposição democrática” e denuncia a influência russa. VIPs atlantistas manifestam o seu apoio aos manifestantes, incluindo Victoria Nuland (Secretário de Estado Adjunto e ex-embaixador na NATO) e John McCain (Presidente do Poder republicano da NED). Em vez disso, a imprensa russa denuncia manifestantes que querem derrubar na rua instituições democraticamente eleitas.

1 Janeiro de 2014 – Manifestação com tochas de 15.000 nazistas em Kiev 

Inicialmente, o movimento parecia ser uma tentativa de reeditar a “Revolução Laranja”. Mas no dia 1 de Janeiro de 2014, o poder muda de mãos na rua. O partido nazista “Freedom” organizou uma marcha com tochas de 15 000 pessoas em memória de Stepan Bandera (1909-1959), líder nacionalista que se aliou aos nazistas ficando contra os soviéticos. A partir desta marcha, a capital é coberta com grafites anti-semitas e as pessoas são atacadas na rua por causa judaicas.

A oposição pró-europeia é composta por três partidos políticos:

Batkivshchyna ou (All-Ukrainian Union “Fatherland”, Ndt), da oligarca e ex primeira ministra, Yulia Tymoshenko (actualmente presa devido às suas condenações por peculato), hoje liderado pelo advogado e ex- Presidente do Parlamento, Arseni Iatseniouk. Defende a propriedade privada e o modelo liberal ocidental. Recebeu 25,57 % dos votos nas eleições parlamentares de 2012.

– A Aliança Democrática Ucraniana para a Reforma (UDAR), é liderado pelo ex-campeão mundial de boxe, Vitali Klitschko. Afirma-se Democrata Cristão e obteve 13,98% nas eleições de 2012.

–  (Svoboda), liderado pelo cirurgião Oleh Tyahnybok. Esta formação provém do Partido Nacional Socialista da Ucrânia. É favorável à desnaturalização dos ucranianos judeus. Ganhou 10,45% dos votos nas eleições parlamentares de 2012.

Estes partidos parlamentares são apoiados:

-Pelo Congresso dos Nacionalistas Ucranianos, um grupo nazi, dissidente das antigas redes de retaguarda da NATO no Bloco de Leste [3]. Sionista, defende a desnaturalização e deportação de judeus ucranianos para Israel. Recebeu 1,11% dos votos em 2012.

– pela Autodefesa ucraniana, grupo dissidente nacionalista que enviou seus membros para lutar contra os russos na Chechénia e Ossétia durante o conflito georgiano. Recebeu 0,08% dos votos em 2012.

A oposição recebeu também o apoio da Igreja Ortodoxa Ucraniana, em revolta contra o Patriarcado de Moscovo.

Desde que a rua foi assumida pelo Partido Nazi, os manifestantes, muitos vestidos com capacetes e uniformes paramilitares, levantam barricadas e atacam instalações do governo. Certos elementos da força policial também mostram grande brutalidade, torturando até os detidos. Uma dúzia de manifestantes foram mortos  e cerca de 2.000 ficaram feridos. A agitação propaga-se nas províncias ocidentais.

De acordo com informações que nos chegam, a oposição ucraniana procura colocar no terreno,  material de guerra adquirido em mercados paralelos. Obviamente não é possível comprar armas na Europa Ocidental sem o consentimento da NATO.

A estratégia de Washington parece misturar na Ucrânia, as receitas testadas nas “revoluções coloridas” com outras recentemente desenvolvidas na “Primavera árabe” [4]. Os Estados Unidos também não escondem: Para apoiarem os manifestantes, enviaram Victoria Nuland (adjunta de John Kerry) e John McCain (que além de senador republicano é também presidente do IRI, ramo republicano do NED [5]). Ao contrário da Líbia e Síria, Washington não pode contar no local com jihadistas para semear o caos (excepto os extremistas tártaros, mas estes estão na república Autónoma da Criméia). Assim, foi decidido contar com os nazis, com os que o Departamento de Estado trabalhou contra os soviéticos e que organizou em partidos políticos a seguir à independência.

Um leitor mais novo pode ficar chocado ao ver esta aliança entre o governo Obama e os nazis. No entanto, deve ser lembrado que os ucranianos nazis foram homenageados publicamente na Casa Branca pelo presidente Reagan, que Yaroslav Stetsko, o primeiro-ministro da Ucrânia sob o terceiro Reich,  tornou-se líder do Bloco das Nações anti bolchevique e membro da Liga Anti Comunista Mundial. [6] Um de seus adjuntos, Lev Dobriansky, tornou-se embaixador dos EUA nas Bahamas, enquanto a sua filha Paula Dobriansky foi subsecretário de Estado para a Democracia (sic) na administração de George W. Bush. Esta Sra. Dobriansky financiou durante dez anos estudos históricos para fazer esquecer que Holodomor, a fome que assolou a Ucrânia em 1932-1933, também devastou a Rússia e Cazaquistão, e fazer acreditar que Stalin estava determinado a eliminar o povo ucraniano. [7]

Na verdade, Washington, que havia apoiado o partido nazi alemão até 1939 e continuou a fazer negócios com a Alemanha nazi até o final de 1941, nunca teve problemas morais com o nazismo, nem com o seu actual apoio militar jihadismo na Síria.

As elites da Europa Ocidental, que pegaram no nazismo como pretexto para permitirem a perseguição aos arruaceiros – como se vê com a controvérsia sobre o Dieudonné M’Bala M’Bala [8] – esqueceram quem ele realmente é. Em 2005, elas fecharam os olhos sobre a reabilitação do nazismo pelo Presidente da Letónia, Vaira Vike-Freiberga, como se não tivesse nenhuma importância. [9] Com base nas simples declarações em favor da União Europeia e o seu atlantismo presunçoso, elas agora apoiam o seu pior inimigo. A guerra civil poderá  começar na Ucrânia durante os Jogos Olímpicos de Sochi. (fonte)

[1] « Washington et Moscou se livrent bataille en Ukraine », par Emilia Nazarenko et la rédaction, Réseau Voltaire, 1er novembre 2004.

[2] « Des jihadistes assurent le service d’ordre des manifestations à Kiev »,Réseau Voltaire, 4 décembre 2013.

[3] C’est de ce vivier qu’est également issu le leader de la « révolution orange ». Cf. « La biographie cachée du père du président ukrainien »,Réseau Voltaire, 18 avril 2008.

[4] « Le printemps arabe frappe à la porte de l’Europe », par Andrew Korybko, Traduction Gérard Jeannesson, Oriental ReviewRéseau Voltaire, 3 février 2014,

[5] « La NED, vitrine légale de la CIA », par Thierry Meyssan, Odnako, Réseau Voltaire, 6 octobre 2010.

[6] « La Ligue anti-communiste mondiale, une internationale du crime », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 12 mai 2004.

[7] Voir L’Holodomor, nouvel avatar de l’anticommunisme « européen », par le professeur Annie Lacroix-Riz, 2008.

[8] « La Bête Noire de l’establishment français », par Diana Johnstone, Traduction Djazaïri, Counterpunch, Réseau Voltaire, 5 janvier 2014.

[9] « La présidente de la Lettonie réhabilite le nazisme », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 16 mars 2005.

Nota: links e realces desta cor são da minha responsabilidade

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4 comments on “Depois da Jugoslávia, é a Ucrânia?

  1. voza0db
    13 de Fevereiro de 2014

    Há que incentivar a discórdia entre as MANADAS de ESCRAVOS, infelizmente estúpidos, para se conseguir extrair o máximo em recursos de toda a espécie! É a pirataria à moda do séc XXI!
    Abr

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  2. Octopus
    13 de Fevereiro de 2014

    Tens toda a razão, o objectivo é isolar a Rússia, cercada cada vez mais por países pro-Estados unidos.

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