A Arte da Omissao

Síria: sarin de quem? – 2ª parte

 sarin de quem? por Seymour M. Hersh

Em Agosto-Setembro de 2013, Barack Obama, David Cameron e François Hollande acusaram a Síria de matar 1.400 opositores nos subúrbios de Damasco. Ao denunciarem que a linha vermelha tinha sido atravessada, ameaçaram lançar uma campanha punitiva contra o regime criminoso de Assad. Pouco tempo depois, Londres retirou-se. De seguida Washington e por fim Paris. Seymour Hersh ao comentar estes eventos, pretende demonstrar que o presidente Obama não sabia nada do que realmente tinha acontecido, abusou da ignorância dos seus interlocutores e mentiu quando afirmou ter evidências da culpa da Síria. Esta peça excepcional foi encomendada pelo New Yorker, que  acabou por a recusar, depois foi submetida ao Washington Post que  também a rejeitou, acabando por ser lançada no Reino Unido pela London Review of Books.

VOLTAIRE NETWORK | NOVA IORQUE  (Estados Unidos ) | 13 Fevereiro de 2014

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1ª parte   2ª parte  3ª parte

jornalista muito crítico não foi convidado

 O mesmo ex oficial disse-me que a NSA evidentemente monitorizava o escritório de Assad 24h por dia. Outras comunicações – vindas de várias unidades de combate dentro da Síria – seriam muito menos importantes e não seriam analisadas em tempo real.

“Há milhares de frequências de rádio tácticas utilizadas pelas unidades de campo na Síria, para comunicações rotineiras mundanas”, disse ele, “e seria necessário um grande número de técnicos da NSA especialistas em criptologia para ouvir – e o retorno útil seria zero”. Mas faz parte da rotina armazenar a “conversa” em computadores.

Uma vez entendida a escala dos eventos do dia 21 de Agosto, a NSA desenvolveu um esforço abrangente para procurar quaisquer ligações ao ataque no arquivo das comunicações armazenadas. Uma ou duas palavras-chave foram seleccionadas para as utilizarem como filtro para encontrarem conversas relevantes.

“O que aconteceu aqui é que NSA começou com um evento – a utilização de sarin – e começou a procurar conversas que parecessem ter relação com ele  – disse-me o mesmo ex oficial da inteligência.

“Tal procedimento não conduz a uma avaliação confiável, a menos que se assuma como verdade indiscutível, que Bashar Assad ordenou o ataque,  e saia à procura de qualquer coisa que suporte o pressuposto inicial”.

Essa busca só pelos feijões foi  similar ao processo usado para justificar a guerra do Iraque.

A Casa Branca necessitava de nove dias para montar o seu caso contra o governo sírio. A 30 de Agosto, seleccionou e convidou um grupo de jornalistas de Washington (Jonathan Landay, repórter muito crítico e correspondente para a segurança nacional da rede de jornais McClatchy Newspapers, não foi convidado), e entregou-lhes um documento cuidadosamente rotulado de  “avaliação do governo”, em vez da avaliação da comunidade de inteligência.

O documento expunha, essencialmente o argumento político para reforçar o caso do governo de Obama contra o governo Assad. No entanto foi mais específico do que Obama seria mais tarde, no seu discurso a 10 de Setembro: a inteligência americana, declarou ele, sabia que a Síria havia começado a “preparar munições químicas” três dias antes do ataque.

Mais tarde nesse dia, num discurso agressivo, John Kerry forneceu mais detalhes.

Ele disse que o “pessoal sírio das armas químicas estava no terreno, na área, a tratar dos preparativos”. “Nós sabemos que elementos do regime sírio foram orientados para preparar o ataque, colocando máscaras de gás e tomando as precauções associadas às armas químicas.”

A avaliação do governo e os comentários de Kerry fizeram  parecer que  a administração tinha acompanhado o ataque enquanto o mesmo acontecia. Foi  esta  a versão dos acontecimentos  amplamente divulgada na época, falsa e não desmentida.

 O número de mortes variou muito

Reacções inesperadas surgiram em forma de reclamações de líderes do Exército Livre Sírio e outras sobre a falta de avisos. “É inacreditável que nada foi feito para alertar as pessoas ou tentar parar o regime antes do crime”, disse ao Foreign Policy, Razan Zaitouneh, membro da oposição que morava numa das cidades atingidas pelo sarin. O Daily Mail foi mais directo: “relatórios da inteligência dizem que as autoridades norte-americanas sabiam do ataque com gaz nervoso, três dias antes de ter morto mais de 1400 pessoas – incluindo mais de 400 crianças.” (O número de mortes atribuíveis ao ataque variou muito, de pelo menos 1429, como inicialmente reivindicado pelo governo Obama, até muito menos.)

Um grupo sírio ligado aos direitos humanos informou 502 mortes; médicos sem fronteiras referiram 355 e um relatório francês listou 281 mortes conhecidas. Mais tarde, o número que consta no relatório notavelmente preciso dos EUA divulgado no Wall Street Journal, baseou-se  não numa real contagem dos corpos, mas numa extrapolação levada a cabo por analistas da CIA, que examinaram num sistema informático, mais de uma centena de vídeos do YouTube alegadamente sobre o  Leste Ghouta, à procura de imagens de mortos. Por outras palavras, não passava de um palpite.

Cinco dias depois, um porta-voz do Office of the Director of National Intelligence, (gabinete do Director de Inteligência Nacional:Ndt) respondeu às reclamações. Num comunicado à Associated Press disse que a inteligência na qual as primeiras declarações do governo se basearam, não eram ainda conhecidas no momento do ataque, tendo sido recuperadas apenas mais tarde:

“Sejamos claros, os Estados Unidos não assistiram em tempo real a este ataque horrível. A comunidade da inteligência foi capaz de reunir e analisar informações após o ataque e determinar que elementos do regime de Assad tinham tomado medidas para se prepararem antes do uso das armas químicas”.

Mas, dado que a imprensa escrita norte americana já tinha a sua história à qual se agarrar, a retractação recebeu pouca atenção. No dia 31/8/2013, o Washington Post, repetindo a avaliação do governo, noticiou com destaque na sua primeira página, que a inteligência norte-americana conseguira gravar “cada passo” do ataque e em tempo real, “desde as extensivas preparações do lançamento dos foguetes, até às avaliações posteriores por oficiais sírios”. O Washington Post não publicou a retractação distribuída à  Associated Press e assim, a Casa Branca manteve o controle sobre a sua narrativa.

julgamento apressado de Obama

Então, quando Obama disse a 10 de Setembro que o seu governo soube com antecedência que o pessoal das armas químicas de Assad havia preparara o ataque, baseou-se em informações analisadas depois do dia 21/8 e não em dados da inteligência interceptados enquanto o ataque decorria.

O ex-oficial de inteligência sénior explicou-me que a caça às conversas com interesse já tinha sido usada no exercício militar  sírio detectado em Dezembro de 2012, sobre o qual Obama disse mais tarde publicamente, que o exército sírio tinha mobilizado o pessoal de armas químicas e distribuído máscaras de gás às suas tropas.

A avaliação do governo da Casa Branca e o discurso de Obama nada tinham a ver com os eventos específicos que antecederam o ataque de 21 de Agosto de 2013, mas numa mera reprodução da sequência de acções que os militares sírios seguiriam em qualquer ataque químico.

“Eles montaram uma história já passada”, disse o ex oficial, “e existem muitas peças e partes diferentes. O modelo utilizado foi o modelo que remonta a Dezembro [2012] “.

É possível, é claro, que Obama não tivesse conhecimento que esses relatos tinham sido obtidos a partir de uma análise do protocolo seguido pelo exército sírio na condução de um ataque com gás, e não de provas directas. De qualquer maneira, ele fez um julgamento apressado.

potencial evidência retirada e possivelmente manipulada

 A imprensa iria seguir o mesmo caminho. O relatório da ONU de 16 de Setembro 2013, confirmou o uso de sarin mas foi cauteloso a referir que o acesso dos seus investigadores aos locais do ataque, que só ocorreu cinco dias depois, tinha sido controlado pelas forças rebeldes. “Tal como aconteceu em outros sítios”, consta no relatório, “os locais foram igualmente explorados por outros indivíduos, antes da chegada da nossa missão … durante o tempo que estivemos nesses locais, alguns indivíduos carregavam munições suspeitas que indicavam que a tal potencial evidência estava a ser retirada e possivelmente manipulada.”

Screen Shot 02-19-14 at 03.02 PM(página 22 do relatório, NdT)

Ainda assim, o New York Times avaliou o relatório, assim como as autoridades americanas e britânicas, e alegaram que o mesmo fornecia evidências cruciais que suportavam as afirmações do governo. Um anexo ao relatório da ONU reproduzia fotografias do YouTube de algumas munições recuperadas, incluindo o foguete que “a título indicativo correspondia” às ​​especificidades de um foguete de calibre 330 milímetros. O New York Times escreveu, que a existência do foguete essencialmente provava que o governo sírio era  o responsável pelo ataque “porque a arma em questão não havia sido previamente documentada ou relatada,  como estar na posse da insurgência”.

Theodore Postol, professor de tecnologia e segurança nacional no MIT, analisou as fotos da ONU com um grupo de colegas e concluiu que o foguete de grande calibre era  uma munição improvisada, muito provavelmente fabricada localmente. Ele disse-me que era “algo que se pode fabricar numa oficina de mecânica modesta”.

O foguete das fotos, acrescentou Theodore, falha na correspondência com as especificações de um foguete semelhante, ainda que menor, que se sabe existir no arsenal sírio. O The New York Times, mais uma vez com base nos dados do relatório da ONU, analisou também a trajectória de voo dos dois foguetes que se acreditava terem carregado sarin, e concluiu que o ângulo de descida “apontava directamente” para terem sido disparados de uma base do exército sírio,  a mais de nove quilómetros da zona de aterragem. Postol, que serviu como conselheiro científico para o chefe de operações navais do Pentágono, disse que as afirmações do Times e de outros “não foram baseadas em observações reais.”

Theodore concluiu que a análise das trajectórias de voo, era, como ele mesmo referiu num e-mail, “totalmente louca”, porque um estudo aprofundado demonstrou ser “pouco provável” que o alcance dos foguetes improvisados ​​fosse superior a dois quilómetros. Postol e seu colega, Richard M. Lloyd, publicaram uma análise duas semanas depois de 21 de Agosto 2013, em que avaliaram correctamente que os foguetes envolvidos carregavam uma carga muito maior de sarin do que anteriormente estimada. O Times noticiou extensamente essa análise, apresentando Postol e Lloyd como “importantes especialistas em armas”. Um estudo posterior dos dois cientistas sobre o alcance e rotas de voo dos foguetes, o qual contradiz relatórios anteriores do Time, foi enviado para o jornal, por e-mail na semana passada, mas até agora nada foi declarado. (link a seguir, NdT)

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A Casa Branca não tinha nenhuma evidência directa do envolvimento de exército ou governo sírio

A deturpação da Casa Branca do que afirmava saber sobre o ataque equiparou-se à sua disponibilidade em ignorar que a inteligência poderia minar a sua narrativa; a informação relacionada com a frente al-Nusra, grupo rebelde islamita designado como uma organização terrorista, pelos EUA e ONU.

É sabido que a Al-Nusra realizou dezenas de atentados suicidas contra  cristãos e outras seitas muçulmanas não sunitas no interior da Síria, e que atacou o seu aliado nominal na guerra civil, o Free Syrian Army (FSA) (secular Exército Sírio Livre,NdT). O seu objetivo declarado é o de derrubar o regime de Assad e o de estabelecer a lei sharia. (A 25 de Setembro a frente al-Nusra juntou-se a vários outros grupos rebeldes islâmicos em repúdio à FSA e a outra facção secular, a Syrian National Coalition (Coligação Nacional da Síria, NdT.)

A onda de interesse americano sobre os assuntos relacionados com a al-Nusra e o gás sarin decorre de uma série de pequenos ataques com armas químicas em Março e Abril de 2013: na altura, o governo sírio e os rebeldes insistiam cada um, que o outro era o responsável. Por fim, a ONU concluiu que foram realizados quatro ataques químicos, mas não atribuiu responsabilidades.

Um oficial da Casa Branca disse à imprensa no final de Abril de 2013, que a comunidade da inteligência tinha avaliado “com variados graus de confiança” que o governo sírio foi o responsável pelos ataques. Assad havia cruzado a “linha vermelha” de Obama. A apreciação de Abril de 2013 ganhou manchetes, mas algumas ressalvas importantes foram perdidas no processo.

Entre essas ressalvas, encontra-se o facto do funcionário não identificado que coordenava o briefing, ter reconhecido que as avaliações da comunidade de inteligência “por si não são suficientes”. “Nós queremos “, disse ele, ” investigar acima e além dessas avaliações da inteligência para reunir fatos, de modo a que possamos estabelecer um conjunto credível e comprovável de informações, e então, informar a nossa tomada de decisão.” Por outras palavras, a Casa Branca não tinha nenhuma evidência directa do envolvimento do exército ou governo sírios, facto que ocasionalmente foi registado pela imprensa. E o discurso duro de Obama jogou bem com o público e Congresso, que consideravam Assad um assassino cruel.

Dois meses mais tarde, um comunicado da Casa Branca anunciou uma mudança na avaliação da culpabilidade síria e declarou que a comunidade de inteligência agora tinha “alta confiança” de que o governo Assad foi o responsável por cerca de 150 mortes com origem nos ataques com gás sarin.

Mais manchetes surgiram e a imprensa informou que Obama, em resposta aos novos dados da inteligência, ordenou um aumento da ajuda não-letal à oposição síria. Mas mais uma vez existiam ressalvas importantes. Nesses novos dados, incluia-se um relatório em que as autoridades sírias haviam planeado e executado os ataques. Não foram fornecidos detalhes, nem se identificavam os que deram origem à matéria. O comunicado da Casa Branca referia  que a análise laboratorial confirmou o uso de sarin, mas que a prova positiva  da presença desse gás “nada nos disse sobre como as pessoas foram expostas  ou quem foi o responsável pela disseminação”. A Casa Branca declarou ainda: “Nós não temos nenhuma informação corroborada e confiável que indique que a oposição na Síria adquiriu ou usou armas químicas”. A declaração contradiz a evidência de que na altura, fluía para as agências de inteligência dos Estados Unidos.

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 Nota: Links, frases e realces desta cor são da minha responsabilidade

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