A Arte da Omissao

Washington em Genebra sempre a manobrar a Síria

Washington forever scheming in Syria and in Geneva, de Thierry Meyssan

Enquanto negoceia com uma mão em Genebra, Washington com a outra prepara uma nova operação militar contra a Síria. Seja qual for a sequência de eventos, é seguro que avançará com os seus peões de uma forma ou de outra. A guerra chega sem nenhum custo a Washington. São os sírios que morrem. Para ganhar tempo, submeteu aos participantes da conferência uma declaração apresentada pela “oposição“. Por trás da retórica conciliatória, há pelo menos três armadilhas que Thierry Meyssan decompõe para nós.

Rede Voltaire | Damasco | 18 de Fevereiro, 2014

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A segunda sessão da Conferência de Genebra 2 abriu com um tom muito diferente da primeira. O embaixador dos EUA, Robert S. Ford já não dirige a delegação da “oposição” e não é claro quem é agora o responsável pela Síria em Washington. Em qualquer caso, os representantes da “oposição” chegaram com uma “Declaração dos Princípios Básicos” [1] projectada para configurar Damasco para a mesma armadilha que Walid Muallem colocou à oposição, na primeira sessão da conferência: forçá-la a responder no seu próprio terreno. Damasco quis abordar a luta contra o terrorismo, mas a “oposição” respondeu com uma descrição detalhada da composição e missão do Orgão da Transição de Administração.

Foi uma boa jogada tendo em consideração que, durante a primeira sessão, Muallem dirigiu-se à opinião pública interna da Síria, às vezes ao mundo árabe, mas nunca aos ocidentais. Se ele queria atingir esse público, deveria ter começado por se concentrar no direito internacional antes de discutir os meios para o aplicar: a luta contra o terrorismo. Mas, primeiro, ao procurou reforçar a legitimidade de Damasco, esforçou-se em expor os crimes perpetrados pela “oposição” – apoiada pelos jihadistas e pelas ambições coloniais de John Kerry.

Ocupando o campo vazio, os Estados Unidos ditaram à “oposição” uma declaração baseada nas resoluções do Conselho de Segurança e no Comunicado Final da Genebra 1,  isto é, nos textos subscritos por todos os Estados que patrocinaram  a conferência de paz.

A Declaração começa por detalhar o que o Orgão da Transição de Administração é suposto ser. Naturalmente será neutro, inclusive – ou seja, compreendendo todos os componentes da sociedade síria, pacificadora – ou seja, seria o fim da guerra-, e o garante da integridade territorial do país. A sua função é criar um ambiente propício ao povo sírio para desenvolver a sua própria constituição e nomear suas instituições. (rectórica demasiado conhecida das “boas intenções” dos EUA, NdT)

O primeiro problema com esta Declaração é que contraria a práctica dos grupos armados. Enquanto a Coligação Nacional se expressa numa linguagem perfeitamente democrática, os grupos que lutam no terreno continuam a brutalizar minorias e a tentar impor uma organização Salafist da sociedade. É reconhecido que a maioria destes grupos não reconhecem a autoridade da Coligação, mas a sua legitimidade depende das suas acções.

Além disso, toda a gente tem conhecimento da hipocrisia desde o início da crise: os melhores alto falantes para a democracia na Síria são os governantes absolutos das ditaduras no Golfo.

O segundo problema na Declaração, é o método para determinar o Corpo Governante. Washington quer impô-lo, como fez em muitos outros países. Por isso, planeou a Genebra 2, como planeou a Conferência de Bona no Afeganistão: as grandes potências negociarão entre si para designar o Karzai sírio. Damasco, no entanto, continua a citar o Comunicado Final da Genebra 1, que refere que “cabe ao povo sírio determinar o futuro do país.” Portanto, não só a nova Constituição tem de ser aprovada por um referendo, como o resultado da Genebra 2 não pode ser implementado a menos que seja ratificado pelo Presidente al-Assad. Assad comprometeu-se  em o submeter a um referendo.

Por outro lado, esta observação retracta a legitimidade da delegação da “oposição”. Como observado por Sergey Lavrov, no seu discurso de abertura da conferência, a sua composição actual vai ao encontro do comunicado da Genebra I, o qual estipula que “as negociações de paz devem ser abertas a todas os segmentos da sociedade Síria, comprometidas com uma solução política, de forma a que tomem uma parte activa no processo e desempenhem o seu papel.” No entanto, a delegação da “oposição” resume-se apenas à Coligação Nacional, não obstante o fato de ela ter sido repudiada pela maioria dos seus membros.

O terceiro problema é que a Declaração de Washington oferece a possibilidade de organizar uma mudança de regime ao estilo sérvio, ao orquestrarem uma “revolução colorida”.

A guerra do Kosovo terminou com um cessar-fogo seguido de eleições na Sérvia. Através de uma campanha psicológica astuta, a CIA elegeu um candidato pró americano. De seguida, prenderam Slobodan Milošević e tentaram julgaram-no em Haia por crimes contra a humanidade. Uma vez que, no final de dois anos, o Tribunal não encontrava provas para suportarem as acusações, Milošević foi assassinado na sua cela. Em última análise, os sérvios lutaram por nada, porque hoje perderam Kosovo e são governados por aqueles que bombardearam o seu país.

A Declaração contém, portanto, uma contradição surpreendente: apela para a implantação das Nações Unidas em todo o país desde o início da transição, mas exclui-as do processo. Em vez disso, afirma que a sua supervisão será confiada a “organizações independentes da sociedade civil internacional“.

Na Europa Central e Oriental, estas organizações são chamadas Freedom House, Open Society Foundation e National Endowment for Democracy (NED).

A primeira está historicamente ligada aos Estados Unidos e Israel, a segunda é encabeçada pelo magnata e especulador George Soros ara além de servir os interesses dos Estados Unidos e Israel, enquanto a terceira não é uma associação, mas sim uma força conjunta americana-inglesa-australiana, criada por iniciativa do presidente Ronald Reagan para estender o trabalho da CIA depois dos escândalos dos anos 70.

Estas organizações distribuem bilhões de dólares em todos os lugares que podem, a elites corruptas  para comprarem Estados. (Nova Ordem Mundial em acção, NdT)

A Julho de 2011, Washington enviou uma delegação oficial do Canadá à Líbia para propor uma solução idêntica à aplicada na Sérvia: um cessar-fogo seguido de um período de transição durante o qual as “organizações independentes da sociedade civil internacional” poderiam implantar-se dentro do país. Confrontado com a recusa de Muammar Gaddafi, a NATO decidiu entrar pela força. (NATO, agente da Nova Ordem Mundial, Ndt)

Além disso, a Declaração estipula que o Orgão de Administração da Transição deve criar mecanismos para responsabilizar “pessoas que cometeram violações dos direitos humanos e das leis internacionais”. Esta frase aponta directamente e durante o período de transição,  para a detenção e transferência do presidente al-Assad para Haia, para ser julgado por crimes contra a humanidade. Um procedimento que se deve concluir, como aconteceu com  Milošević, com a sua morte na cela da prisão. Não há dúvida de que os candidatos de Washington ganhariam as eleições uma vez eliminado Assad do jogo e depois das pseudo associações americanas se implantarem no terreno. (Quando é que a nação mais mercenária que existe ao cimo da terra assenta o seu traseiro em Haia, em vez de mandar para lá quem a atrapalha?, NdT)

Portanto, ainda há muito a ser discutido em Genebra. Enquanto isso, o presidente Barack Obama recebeu o rei da Jordânia, na Califórnia. Os dois homens concordaram na forma como o exército que está a ser formado na Jordânia deve de novo atacar a Síria. A data limite para os planos de guerra de Washington é o dia 30 de Setembro de 2014. Durante os próximos sete meses, a “oposição” deve tentar reverter o equilíbrio do poder militar e, no mínimo, levar o sul a instalar a sede dum governo provisório. É sempre melhor ter dois ferros no fogo. (fonte)

[1] “Statement of Basic Principles by the Geneva 2 Syrian Opposition Delegation”, Voltaire Network, 12 February 2014.

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Nota: Links e realces desta cor são da minha responsabilidade

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