A Arte da Omissao

Ex agent da CIA revela a estratégia da agência nas universidades venezuelanas para criar o movimento estudantil destabilizador

Raúl Capote, ex-colaborador cubano da CIA, revelou recentemente numa entrevista, a estratégia da CIA nas universidades venezuelanas para criar o movimento estudantil destabilizador  que o país actualmente enfrenta. Também discutiu a manipulação da comunicação social, e alega que um dos diplomatas norte-americanos que o presidente Maduro expulsou da Venezuela em Setembro passado era na verdade um agente da CIA.

 

 

 

feria-enemigo-21019

Raúl Capote é cubano. Mas não é um cubano qualquer. Na sua juventude, foi apanhado pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA). Ofereceram-lhe uma quantidade infinita de dinheiro para conspirar contra Cuba. Mas então algo inesperado para os EUA aconteceu. Capote, na realidade, trabalhava para a segurança nacional cubana. A partir de então, passou a actuar como agente duplo. Saiba a sua história, através da uma entrevista exclusiva à  revista Chávez Vive, que deu em Havana:

P. Fale-nos sobre o processo pelo qual você foi apanhado?

Tudo começou com um processo de muitos anos, de vários anos de preparação e captura. Eu era líder de um movimento estudantil cubano, que, na época, deu origem a uma organização, a Saiz Brothers Cultural Association, um grupo de jovens criadores, pintores, escritores e artistas. Na época trabalhava numa cidade no sul,  Cienfuegos, cujas características eram de grande interesse para o inimigo, por ser uma cidade onde um importante pólo industrial estava a ser construído. Estava a ser construída uma central eléctrica, única em Cuba, e nela trabalhava uma grande quantidade de jovens. Por esse motivo, Cienfuegos também tinha um monte de jovens engenheiros formados na União Soviética. Estamos a falar dos últimos anos da década de 1980, época do processo chamado Perestroik. E muitos engenheiros cubanos, que chegaram a Cuba na época, foram considerados como as pessoas que tinham chegado com essa ideia da Perestroika. Por essa razão, era um território interessante, com uma grande quantidade de jovens. E o fato de eu ser um jovem líder de uma organização cultural, que lidava com um sector importante dos engenheiros que estavam interessados ​​em artes, os norte-americanos começaram a estar muito interessados, de tal forma que passram a frequentar as reuniões em que eu participava. Nunca se identificaram como inimigos ou funcionários da CIA.

P. Eram muitos ou sempre a mesma pessoa?

Eram vários. Eles nunca se apresentaram como CIA, nem como pessoas quezilentas.

P. E quem você achava que eram?

Eles se apresentavam como pessoas que vinham ajudar-nos no nosso projecto, e que tinham a capacidade de o financiar. E tiveram a oportunidade de o tornar real. A proposta, pareceu interessante, porque, bem, um projecto no mundo literário exige que se  conheça uma editora e que se tenha relações com editores. É um mercado muito complexo. E eles vieram em nome de editoras. O que aconteceu é que, durante o processo do contacto com o grupo, tornou-se evidente o que realmente pretendiam. Uma vez feito o contacto, logo que começaram a frequentar as nossas reuniões e quando começaram a prometer o financiamento, de imediato vieram as condições dele.

P. Que condições exigiram?

Eles disseram-nos: Nós temos a capacidade de colocar o mercado à vossa disposição, de vos colocar no mercado de livros, da escultura, filmes ou qualquer outra coisa, mas precisamos da verdade, porque o que vamos vender no mercado, é a imagem de Cuba. A imagem de Cuba tem de ser realista, que retracte as dificuldades que estão a viver no país. Eles queriam manchar a realidade de Cuba. O que nos pediam era que criticássemos a revolução, com base nas linhas de propaganda anti Cuba, que eles forneceriam.

P. Qual o tamanho do orçamento dessas pessoas?

Eles vieram com uma infinita quantidade de dinheiro. É obvio que descobrimos ao longo do tempo, a sua proveniência. Por exemplo, existia a USAID, que era um grande fornecedor, era o empreiteiro geral deste orçamento, o qual canalizava o dinheiro através de ONGs, muitas delas inventadas só para Cuba. Eram ONGs que não existiam, criadas exclusivamente para este tipo de trabalho em Cuba, e estamos a falar de milhares e milhares de dólares. Eles não trabalhavam com pequenos orçamentos. Para vos dar um exemplo, numa determinada altura, ofereceram-me dez mil dólares, apenas para eu incluir elementos de propaganda anti-Cuba, no romance que estava a escrever.

P. De que ano estamos falando?

Por volta de 1988-1989.

P. Quantas pessoas poderiam ter sido contactadas ou capturadas por essas pessoas?

Na realidade, o seu sucesso não durou muito tempo, porque em Cuba havia uma cultura de confronto total  com este tipo de coisas, e as pessoas sabiam muito bem que havia algo por trás da história de nos quererem “ajudar”. Não era nada novo na história da terra, e por isso, foi muito difícil para eles chegarem aonde estávamos. Num determinado momento, por volta de 1992, fizemos uma reunião, todos os membros da organização, e decidimos expulsá-los. Foi-lhes vedado participar nas nossas reuniões. O que aconteceu é que no momento em que os rejeitámos, que os expulsámos da sede da associação, eles começaram a particularizar. Eles começaram a conversar comigo em particular, assim como a outros companheiros também, os mais jovens. Com alguns tiveram sucesso, ou devo dizer, até conseguiram com que alguns saíssem do país.

P. Que tipo de perfil eles procuravam?

Eles queriam, acima de tudo e nesse momento, apresentar Cuba como uma terra num caos. Que o socialismo em Cuba não conseguiu satisfazer as necessidades da população, e que Cuba era um país onde o socialismo tinha aterrado numa pobreza absoluta, e que, como modelo, ninguém gostava. Naquela altura, essa era a chave que  perseguiam.

P. Quanto tempo foi agente da CIA?

Estivemos no início da história até 1994. Porque, em 1994, eu fui a Havana, voltei para a capital e aqui, na capital, comecei a trabalhar para o Sindicato dos Trabalhadores Culturais, sindicato que representava os trabalhadores da cultura na capital, e assim me tornei ainda mais interessante para eles, porque eu passei directo – de líder de uma organização de jovens, com 4.000 membros, para dirigir um sindicato com 40.000 membros, apenas na cidade de Havana. Assim tornava-se muito mais interessante. Seguiram-se muitos contactos. Nesse período, apareceu uma professora de uma nova universidade, cuja missão era  dar o pontapé inicial na produção do meu trabalho literário, para ser minha representante e organizar eventos.

P. Pode dar o nome dela?

Não, porque eles usavam pseudónimos. Eles nunca usaram nomes reais. E esse tipo de trabalho, de me promoverem como escritor, era o que lhes interessava mais, pois queriam converter–me numa personalidade nesse mundo. Promoviam-me de forma a comprometer-me com eles indirectamente. E então, em 2004, chegou a Havana uma pessoa bem conhecida na Venezuela, Kelly Keiderling. Kelly chegou a Havana para trabalhar como chefe do Gabinete da Imprensa e Cultura. Eles organizaram uma reunião e uma festa, e foi nessa festa que eu conheci 12 funcionários norte-americanos e europeus. Todos eles com experiência, alguns também do interior da União Soviética, outros que participaram em treinos e preparação de agentes na Iugoslávia, nas revoluções coloridas, e todos muito interessados ​​em me conhecer. Kelly ficou muito perto de mim. Começou a preparar-me e a instruir-me. Comecei a receber uma formação muito sólida: criação de grupos alternativos, grupos independentes, a organizar formação de líderes jovens, que não participavam nos trabalhos das nossas instituições culturais. E assim foi em 2004 e 2005. Kelly praticamente desapareceu de cena em 2005-2006. E quando eu comecei a trabalhar, ela colocou-me em contacto directo com funcionários da CIA. Supostamente, eu já estava comprometido com eles, estava pronto para a próxima missão. Colocaram-me em contacto com Renee Greenwald, oficial da CIA que passou a trabalhar directamente comigo, e com Mark Waterhein, que na época, era o chefe do Projecto de Cuba, da Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento.

Mark, para além de dirigir o Projecto Cuba e ter um link directo a Cuba em termos de financiamento do projecto anti-revolucionário, também se  tinha envolvido no trabalho contra a Venezuela. Ou seja, ele era o homem que, juntamente com uma grande parte da sua equipe de funcionários nesse projecto famoso, também na época trabalhou contra a Venezuela. Eles estavam intimamente ligados. Por vezes ele tinha dificuldade em dizer uem estava ou não a trabalhar com Cuba,porque muitas vezes eles estavam interligados. Por exemplo, havia venezuelanos que vieram trabalhar comigo que, estavam em Washington e eram subalternos da Fundação Pan-Americana e da CIA. Também me treinaram e traziam mantimentos. A partir daí surgiu a ideia de criar uma fundação, um projecto chamado de Génesis.

Genesis é talvez o modelo, uma idéia, de muitas das coisas que estão a acontercer hoje pelo  mundo, porque Genesis é um projecto destinado à juventude universitária cubana. Eles estavam a fazer algo semelhante na Venezuela. Por quê? A ideia era transformar as universidades – que sempre foram revolucionárias e produziram revolucionários – e convertê-las em fábricas de reaccionários. Então, como se faz isso? Criando líderes. O que eles começaram a fazer na Venezuela? Eles mandaram alunos em grupos de 10 com os seus professores para a Jugoslávia, financiados pelo Instituto Republicano Internacional (IRI), que por sua vez era financiado pela USAID e pelo Instituto Albert Einstein.

P. Você tem os nomes de venezuelanos?

Não, estamos a falar de centenas que foram enviados. Falei com um professor, vi um grupo e segui outro. O mesmo plano também já estava em acção contra Cuba. Genesis promoveu com a universidade, um plano de bolsas de formação de líderes estudantis e professores cubanos. O plano era muito similar. Além disso, em 2003, eles prepararam aqui em Havana, um curso na US Interests Section, que foi chamado de “depor um líder, depor um ditador”, baseado na experiência da OTPOR remoção Slobodan Milosevic do poder. E essa era a ideia, dentro da universidade cubana, para trabalhar a longo prazo, porque esses projectos, levam sempre muito tempo, até se colher resultados. Por essa razão, eles também começaram cedo na Venezuela. Eu acredito – não tenho provas, mas acredito que, na Venezuela, começou antes do governo de Chávez, porque o plano de conversão das universidades latino-americanas, que foram sempre fontes de processos revolucionários, em universidades reaccionárias, é mais velho que o processo da Venezuela [ Bolivariana].

P. A CIA só trabalhou em Caracas?

Não, trabalhou em toda a Venezuela. O Genesis tinha um plano de bolsas de estudos para criar líderes em Cuba. Eles forneciam bolsas de estudo para alunos em grandes universidades norte-americanas, onde serem treinados pra serem líderes, com todas as despesas pagas. Eles pagavam todas as despesas e forneciam bolsas de estudo completas. Estamos a falar de 2004, 2005. Era muito óbvio. De seguida, esses líderes regressariam às universidades. Sendo ainda estudantes, iriam finalizar as suas carreiras. Quando terminassem as suas carreiras de estudante, iriam para vários empregos, como engenheiros, os porta graduações em diferentes sectores da sociedade cubana, mas outros permaneceriam nas universidades para formarem mais líderes. Uma das missões mais importantes dos dirigentes universitários era a de ocupar a liderança das principais organizações de jovens da universidade. No caso de Cuba, nós estamos a falar sobre a União da Juventude Comunista e a Federação de Estudantes da Universidade. Ou seja, não se tratava de criar grupos paralelos na época, mas sim para se tornarem líderes das organizações já existentes em Cuba. Sintetisando, a formação geraria  grupos de líderes para as estratégias dos golpes “soft”, ou seja, formar pessoas para que no momento oportuno comecem as famosas “revoluções coloridas” ou as “guerras não-violentas”, que, como você bem sabe, nada têm a ver com a não-violência.

P. O que procuravam eles nos  professores?

Com professores é muito fácil. Basta identificar professores universitários descontentes e frustados com a instituição, por consideram que a instituição não lhes garantiu nada ou não reconheceu os seus méritos. Quanto mais velhos, melhor. Eles não especificavam.A ordem é procurar pessoas idosas, para que possam ser apanhadas. Ao enviar um plano de bolsa de estudos, eles recebem um convite para participar num grande congresso internacional de uma determinada ciência, e desta forma ficarão eternamente, porque fomos os únicos a descobrir o seu talento, uma vez que nunca foi reconhecido pela universidade. Ao regressar a Cuba, viria acompanhado com um currículo enorme, pois já tinha participado num evento científico de primeira ordem, já tinha passado vários cursos em grandes universidades, o seu currículo chegaria ao telhado, logo a influência que poderia ter numa universidade seria maior, agora poderia ser reconhecido como uma figura de liderança na sua especialidade, embora na prática o homem até poderia ser um ignorante.

P. Foram eficazes esses tipos de capturas, esses tipos de missões que vieram fazer aqui?

No caso de Cuba, não tiveram grandes resultados. Primeiro, porque havia uma razão mais importante, eu era o único a dirigir o projecto, e na realidade, eu não era um agente da CIA mas sim um agente de segurança cubano. Assim, todo o projecto passou pelas minhas mãos, e eles achavam que eu seria a pessoa que o iria executár. O que fizemos foi torna-lo o mais lento possível, embora sabendo o que estava a ser planeado. Mas pensem sobre o objectivo do seu plano, eles calculavam o momento em que as figuras históricas da Revolução desapareceriam. Eles pensavam num período de cinco ou dez anos, em que Fidel iria desaparecer da cena política, bem como Raúl e os líderes históricos da terra. Esse era o momento esperado por eles, e quando isso aconteceu, eu estava a sair da universidade, com todo o apoio da imprensa internacional e com as ONGs, USAID, e todas as pessoas que trabalham em torno do dinheiro da CIA, e que iria surgir uma organização que se apresentaria diante do público, como uma alternativa para o que a Revolução estava a fazer. Isso era o que deveria ter acontecido com a Fundação Genesis para a Liberdade.

P. Que fundação é essa?

A Fundação Genesis para a Liberdade era ter um discurso, aparentemente revolucionário, mas a ideia era mesmo confundir as pessoas. A ideia é que eles iriam dizer que eram revolucionários, que o que eles queriam era fazer mudanças no governo, mas quando se chega à essência do projecto e se perguntava “Qual projecto? “, o discurso era exactamente o mesmo que o da extrema-direita tradicional. Porque as mudanças que eles promoviam eram as mesmas que a direita durante muito tempo promoveu no país. Na prática, quase tiveram a sua grande oportunidade em 2006, de acordo com os seus critérios, quando a notícia saiu na TV a noticiar que Fidel, por motivos de saúde estava a abandonar o cargo de governante. Eles sempre disseram que a Revolução Cubana iria morrer quando Fidel morresse. Porque a Revolução era Fidel, e no dia em que Fidel não estivesse mais lá, fosse por morte ou por deixar o governo, no dia seguinte à Revolução cairia. E eles calcularam que haveriam confrontos internos, de que haveria descontentamento com isto ou aquilo. Eu não sei onde eles foram tirar essa ideia, mas eles acreditavam mesmo nela. E nesse momento, eles acreditaram que tinha chegado a hora de agir.

P. Estamos a falar de 2006. Qual era o plano?

Chamaram-me de imediato. Encontrei-me com o chefe da CIA, aqui em Havana. Funcionários diplomáticos também apareceram, e um deles disse-me: vamos organizar uma provocação. Vamos organizar uma revolta popular num bairro central em Havana. Haverá uma pessoa que vai lá para proclamar a democracia, e nós vamos executar um grupo de provocações, em locais diferentes, de tal modo que as forças de segurança cubanas sejam forçadas a agir contra essas pessoas, e mais tarde ‘iniciaremos uma grande campanha de imprensa onde explicaremos como tudo funcionará. A parte interessante que realmente me chamou a atenção, foi o seguinte: como era possível que um funcionário da US Interests Section tivesse o poder de convocar os principais meios de comunicação, e que essas pessoas iriam obedecer com tanta subserviência? Isto, realmente chamou-me a atenção. A ideia era – e eu até lhes disse – que era uma loucura. O homem que mencionaram, Darcy Ferrer – o homem  que eles escolheram, um jovem agente, um médico – para ser o líder da insurreição. Eu disse-lhes, que ele não convenceria ninguém.

Ninguém se vai insurgir no centro de Havana. A data que eles escolheram não foi outra senão o aniversário de Fidel. Eu disse-lhes: olha, amigo, se esse homem decidir nesse dia fazer proclamações, ou iniciar algum tipo de revolta no meio de Havana, as pessoas vão responder duramente. E até é possível que eles o matem. Como pode você colocar o homem a iniciar tais acções, num bairro de classe trabalhadora humilde, os moradores … E reponderam-me que a melhor coisa que poderia acontecer para nós era se o matassem, seria perfeito, e explicaram-me o que iria acontecer. Tudo o que ele tinha de fazer era provocar. Eles iriam para a rua, e haveria um conflito lá. Se isso acontecesse, a imprensa faria o resto. Disseram-me ainda que iriam iniciar uma grande campanha para a comunicação social, para demonstrar o caos existente em Cuba, que Cuba era ingovernável, que em Cuba, Raúl era incapaz de manter as rédeas do governo, que a população civil estava a ser morta, que os estudantes estavam a ser reprimidos na rua, e que a polícia estava a cometer crimes. Que semelhança com a Venezuela ! Não é uma coincidência.

P: Então, o que deveria ter acontecido em tais circunstâncias?

Uma vez que todas as matrizes de opinião estavam criadas, e todas as matrizes da comunicação social construíram essa imagem, o mundo inteiro deveria ter uma imagem de Cuba como um grande desastre, e que se estava a matar pessoas. Então, o papel da minha organização seria o de completar a tarefa final.

P. Qual era a tarefa final?

Bem, era a de reunir a imprensa internacional, na qualidade de professor universitário e escritor, na qualidade de líder dessa organização, e teria que publicamente pedir uma intervenção em cuba ao governo dos Estados Unidos, de forma a garantir as vidas dos civis e trazer paz e tranquilidade ao povo cubano. Eu teria que falar ao país em nome do povo cubano. Imaginem isso!

Mas esse plano desfez-se sobre eles. Não deu resultado, mas podemos ver, mais tarde, a forma como fabricaram a guerra na Líbia. Mais de 80% das informações que vimos, foram fabricadas. Eles estão a fazer o mesmo na Síria e agora na Ucrânia. Eu tive a oportunidade de conversar com muitos ucranianos, uma vez que eles estavam nas bases. Pessoas a favor da união com a Europa. Eu tentei falar com eles nestes dias. Para tentar ver como eram esses processos. E eles ficaram surpresos com as imagens que foram transmitidas ao redor do mundo. O que aconteceu em Miami, e foram eles próprios que o disseram, que têm protestado por lá, mas que essas coisas que aparecem na TV, que se tratava de um grupo, ou melhor, de sectores, que haviam lugares onde haviam grupos de direita, muito mais à direita, lugares onde ocorriam incidentes, lugares onde eles queimaram coisas, e afinal a maior parte das manifestações não tiveram essas características. Ou será que este é, mais uma vez, a repetição do esquema, usando para tal todos os meios de comunicação.

P.  Então a relação que existe entre a CIA e as embaixadas, nas respectivas terras, são directas?

Sim, totalmente directas. Em todas as embaixadas na América Latina, em todas as embaixadas dos EUA há funcionários da CIA a trabalharem com eles, usando a fachada de funcionários diplomáticos.

P. Do que sabe, há uma maior presença da CIA na região?

Bem, num determinado momento, o Equador foi um grande poder em que tiveram uma forte concentração deles, e está claro a Venezuela, porque em 2012, quando participei da Feira do Livro de Caracas, todas as pessoas que trabalharam comigo contra Cuba, todos os funcionários da CIA, incluindo a Kelly Keiderling, estavam naquele momento em Caracas.

E eu estava num programa de TV, na VTV, onde falamos sobre este assunto, com muito cuidado, porque nós estávamos a falar sobre dois países que têm relações. Não é o caso de Cuba, Cuba não tem relações com os Estados Unidos. São o inimigo declarado. Mas estávamos a falar sobre funcionários que tinham relações diplomáticas, e foi muito estranho fazê-lo, sem ter provas concretas para apresentar. No entanto, a entrevista aconteceu, e a denúncia foi feita do que estava a acontecer. Kelly Keiderling é uma especialista neste tipo de guerra. Eu não tenho a menor dúvida. Basta seguir o seu percurso pelos países por tem andado e pela minha experiência quando estive nesse tipo de conflito.

Ela visitou uma série de países onde situações muito semelhantes ocorreram, como o que ela tentou fazer na Venezuela. E quando se analisa a Venezuela, no que acontece nos dias de hoje, na forma como ela agiu, eu acho que, na Venezuela, eles são tremendamente agressivos com a manipulação da informação. Tremendamente agressivos. Até o ponto em que você diz que é um erro, porque há imagens que não são obviamente da Venezuela. Eu vi uma muito famosa, em que um soldado aparece com um jornalista, com um camara. Eles são coreanos. É uma imagem da Coreia. Eles são asiáticos. Eles não se parecem em nada com os venezuelanos. Além disso, os uniformes que vestem. Eles têm sido muito agressivos com essa imagem que projectaram ao mundo sobre o que está a acontecer na Venezuela.

P. Eles controlam a mídia. Você conhece algum jornalista, conhecido ou desconhecido que tenha visto, como você viu, o processo de formação?

Não.

P. A CNN, por exemplo?

Não. Havia uma pessoa, que na altura, tinha muitos laços comigo e que serviu como link para um encontro com um oficial da CIA, Antony Ouro da Reuters. Mas, tudo bem, ele era um elemento independente da Reuters. A CNN sempre esteve intimamente ligada a todas estas coisas. A CNN, desde os seus primeiros momentos de operação e acima de tudo, a CNN em Espanhol, têm sido uma ferramenta indispensável para estas pessoas, mas o problema é que tem de se entender uma coisa: para se compreender o que está a acontecer e ser capaz de montar uma campanha, há que entender que hoje em dia, não há nenhuma estação de TV que actue por conta própria. Há os conglomerados e os conglomerados de comunicação – quem os dirige? Porque, por exemplo, no final quem é o chefe da Time Warner e AOL e de todas essas grandes empresas de comunicação – TV a cabo, Movie TV, TV em geral? Aqui é a Westinghouse, lá é a General Electric. A mesms que construiu aviões de guerra, a mesma indústria de armas dos EUA, as mesmas pessoas que são os donos das redes de TV, estúdios de cinema, publicações, editoras de livros. Assim, as mesmas pessoas que produzem aviões de guerra, a comida que vai comer à noite, que apresenta um artista para você, são as mesmas que governam os jornais do mundo inteiro. A quem essas pessoas respondem?

P. Quando viu o que estava a acontecer na Venezuela, e você compara-a com o que fez aqui [em Cuba], a que conclusão chega?

É uma nova estratégia, que têm vindo a desenvolver com base na experiência que tiveram em todo o mundo, mas eu vejo, estou convencido, que só obtêm resultados quando as pessoas nesses lugares não suportam uma revolução. Eles conseguiram isso com Milosevic, porque Milosevic era um líder jugoslavo, cuja imagem havia caído muito, graças às coisas que aconteceram na Iugoslávia. O mesmo aconteceu na Ucrânia, porque Yanukovych era um homem com muito pouco apoio popular, e tem dado resultados em outros lugares onde os governos têm pouco apoio do povo. Onde quer que eles encontrem um governo legítimo, um governo sólido e o povo disposto a defender a revolução, o plano falha.

P. E em que fase eles entram quando o plano falha?

Eles vão continuar a fazê-lo, eles vão continuar a aperfeiçoá-lo. Nós somos o inimigo. Isto é, Venezuela, Cuba, tudo o que acontece na América Latina como uma alternativa. Nós somos os dissidentes do mundo. Vivemos num mundo dominado pelo capitalismo. Quando esse novo modo de ser capitalista domina, de modo que agora não se pode mesmo chamar-lhe de imperialista, é algo novo, algo que vai muito além do que os alunos do marxismo escreveram na história há anos atrás. É algo novo, romance. É um poder, praticamente global, das grandes multinacionais, dessas megalópoles que criaram. Portanto, nós somos o inimigo. Estamos a apresentar um projecto alternativo. A solução que o mundo nos propõe, não é isso. Sabemos como fazê-lo, e Cuba, Venezuela, os países da ALBA , têm demonstrado que tal pode ser feito, de que um ou dois dias a mais não são nada. A revolução cubana já existe há 55 anos e, com vontade política, tem conseguido coisas que o governo dos EUA, com todo o dinheiro do mundo, tem sido incapaz de fazer. Então, isso é um mau exemplo.

Eu disse aos meus alunos: Vocês imaginam que os indignados na Espanha, os milhares e milhões de trabalhadores sem trabalho na Espanha, os gregos, todas as pessoas em todo o mundo, sabem o que estamos a fazer? Vocês imaginam que essas pessoas sabem quem é Chávez? Ou Fidel? Ou das coisas que estamos aqui  a fazer? Ou as coisas que estamos a fazer com tão poucos recursos, apenas com a vontade de fazer a revolução e compartilhar a riqueza? O que vai acontecer com o capitalismo? Quanto tempo mais durará, quando tem de gastar bilhões de dólares, a cada dia, para construir a sua imagem e enganar o povo? O que aconteceria se as pessoas soubessem quem realmente quem somos? O que é a Revolução Cubana de verdade, e a revolução venezuelana? Porque, se você falar com um espanhol e lhe perguntar sobre Chávez, ele dá-lhe um parecer terrível, porque é o que tem sido construído na sua mente. E você conhece uma pessoa desempregada que lhe diz que Chávez é uma má pessoas, porque a mídia o convenceu disso, mas se essas pessoas soubessem como as coisas realmente eram! Então, eles não podem permitir que tais inimigos formidáveis ​​como nós, estejam aqui à porta.

P. Do ponto de vista da soberania nacional do nosso povo, como podemos parar a CIA? Nós já falamos sobre a consciência das pessoas, a qual é fundamental neste tipo de acções, mas, no concreto, como prever o trabalho da CIA? O que pode ser feito? Que recomendações você tem?

Eu acho que uma coisa que Chávez disse, e que Fidel sempre disse, é que a chave para derrotar o império, é a unidade. Não é um slogan, é uma realidade. É a única maneira que você tem de derrotar um projecto como esse. Um projecto que vem dos Serviços Especiais e do capitalismo. Só o podemos fazer com a unidade do povo.

P. Estamos a falar de civis e militares?

Sim, a unidade em todos os sentidos. Unidade baseada na diversidade, nos povos, unidade como uma nação, unidade como um projecto. Onde quer que as pessoas estejam dividadas há sempre uma outra realidade.

P. Onde é que eles têm de se concentrar? Em que área eles devem concentrar forças para nos defenderem deste tipo de acções, deste tipo de ataques?

O exército a derrotar é o povo. Acredito que a experiência cubana nos ensinou isso muito bem. Há experiências no mundo que nos marcam muito claramente. O que tem acontecido no mundo, quando o povo não é protagonistas na defesa da Revolução? E quando o povo é protagonista, o que aconteceu? E há o caso de Cuba. Conseguimos derrotar a CIA e o império milhões de vezes, porque o povo têm sido o protagonista.

P. A CIA usa as bases de dados das redes sociais, e esse tipo de coisa, para definir os seus planos?

Eles são mestres. Eles são os mestres nisso. Tudo bem, há as denúncias de Snowden, tudo o que saiu do Wikileaks, e todas essas coisas que não são segredo para ninguém, porque nós suspeitávamos, e têm sido demonstradas. Tem sido demonstrado que os servidores, a Internet, são deles. No fim, todos os servidores do mundo morrem nos servidores norte-americanos. Eles são a mãe da Internet e de todas as redes e serviços são controlados por eles. Eles têm acesso a toda a informação. E não hesitam em a gravar. Facebook é um banco de dados extraordinário. As pessoas colocam tudo no Facebook. Quem são seus amigos? Quais são os seus gostos, que filmes viram? O que consomem? É uma fonte de informação em primeira mão.

P. Já esteve em contacto com Kelly Keiderling, depois do que aconteceu na Venezuela?

Não, não tive contacto com ela. Eu não sei qual era o seu destino final, depois do que aconteceu (ela foi expulsa da Venezuela por se reunir com os terroristas e por os financiar).

P. Com a experiência que ela teve, quanto é que ela foi capaz de penetrar na Venezuela, nas universidades da Venezuela?

Tenho certeza de que ela ficou bastante longe. Ela é uma agente muito inteligente, muito bem preparada, muito capaz e muito convencida de que faz. Kelly é uma pessoa convencida do trabalho que faz. Ela está convencida da justiça, de seu ponto de vista, do que faz. Porque ela é uma representante incondicional do capitalismo. Porque ela vem da elite do capitalismo. Não há contradição de qualquer tipo. E, com base na experiência do seu trabalho, da sua capacidade, tenho certeza de que conseguirá ir muito longe. Deu continuidade a um trabalho que não é só para agora, é um trabalho que vai continuar por muito tempo, o de reverter o processo nas universidades venezuelanas. Seja qual for o ponto a que cheguem, a longo prazo, conta o que vai mostrar o processo bolivariano, na medida em que as pessoas estão cientes do que poderia acontecer. Se essa direita fascista se torna incontrolável, pode chegar ao poder novamente.

P. Que tipo de pessoa que tenha contactos, que poderia chegar ao povo, por exemplo um activista de um movimento, poderia ser capturada pela CIA?

Eles vão encontrá-los, eles vão tentar fazê-lo. Se são jovens e líderes, eles vão tentar capturá-los para os seus interesses. Temos que treinar os nossos líderes. Não podemos deixar que a espontaneidade vá para o inimigo. Então, se nós os deixamos para o inimigo, são espaços que o inimigo vai ocupar. Qualquer projecto alternativo que deixamos autónomo, qualquer projecto alternativo que não percebamos a necessidade de ficarmos por perto, é um projecto que o inimigo vai tentar, por todos os meios, tirar vantagens. Em termos de recursos a serem utilizados e uma vez que eles jogam com o futuro, o seu alvo é sobretudo os mais jovens, ao usarem a enorme quantidade de dinheiro que eles têm para isso e a qual não tem limites.

A coisa boa é que os jovens são o presente da América Latina. A revolução latino-americana que está lá, que está em toda parte, é dos jovens. Se não, ok, nunca vai ter resultados, e se você conseguir fazer os jovens pensar de forma diferente, se você conseguir que estes jovens acreditem que o capitalismo selvagem é a solução para todos os seus problemas, então não haverá nenhuma revolução para a América Latina América. É tão simples como isto.

Origem: http://venezuelanalysis.com/analysi…
entervista  em espanhol: http://www.aporrea.org/actualidad/n…
entervista em fancês: http://www.legrandsoir.info/raul-ca..

Nota: links desta cor são da minha responsabilidade

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: