A Arte da Omissao

O Curdistão e o Califado

Kurdistan and the Caliphate

Em poucas semanas, duas entidades às quais poucos garantiam futuro, estão a tomar forma: o Curdistão e o Califado. A análise de Thierry Meyssan que indica que elas estão a ser impulsionadas por Washington, é confirmada com os acontecimentos. Ele analisa os últimos desenvolvimentos.

| Damasco |8 de Julho de 2014

1-4574-62388-bd9f5

Desde a queda da cidade iraquina Mosul, afirmei que a actual guerra no Iraque não deveria ser interpretada como uma acção do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, mas como uma ofensiva do governo curdo local e jihadistas, com o fim de implementar o mapa americano de remodelação do país. [1] Eu estava sozinho e esta visão foi contra a maré. Três semanas mais tarde, tornou-se evidente.

A criação do Curdistão

A 20 de Junho, Israel comprou o petróleo que o governo curdo local havia roubado em Kirkuk, apesar da opinião internacional manifestada pelo governo federal iraquiano. [2] O trânsito do petróleo tinha sido facilitado pela ISIL que controla o oleoduto e pela Turquia, que permitiu que as mercadorias fossem carregadas em navios tanques no porto de Ceyhan.

No dia 25 de Junho, os partidos políticos curdos no Iraque colocaram de lado as suas diferenças e formaram um governo de união local. Até então, eles estavam divididos entre duas grandes coligações, uma pró-turca e pró-Israelita liderada pelo Partido Democrático do Curdistão (KDP) de Barzani e o outro, pró-Irão e pró-Síria, liderada pela União Patriótica do Curdistão (PUK) de Talabani. A união entre estas duas facções não teria sido possível sem um acordo prévio entre Tel Aviv, Washington e Teerão.

Mendi Safadi, um político druso que faz a ligação entre Israel e os Contras na Síria, transmitiu uma carta do Partido de Esquerda curdo na Síria a Reuven Rivlin, a dar-lhe os parabéns pela sua eleição para o Knesset e a invocá-lo a apoiar a criação de um Estado independente Curdistão, abrangendo a Síria e o Iraque.

Nos dias 26 e 27 de Junho, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, visitou Bagadá e Erbil. Conforme acordado, apelou ao primeiro-ministro Nouri al-Maliki para formar um governo inclusivo, sabendo que ele não o iria fazer. Este exercício estilístico trouxe um sorriso aos lábios da imprensa de Londres para os quais o seu conselho veio “um pouco tarde”. [3] Em seguida, ele discutiu o futuro da independência do Curdistão com Massoud Barzani (atual presidente da região do Curdistão iraquiano). Como de costume, a passagem dos britânicos foi um momento decisivo.

No dia 29 de Junho, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu quebrou o tabu: num discurso no Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Tel Aviv, anunciou que Israel apoiou a criação de um Estado Curdo independente. Cautelosamente, absteve-se de especificar os limites que podem evoluir ao longo do tempo [4].

No dia 3 de Julho, o presidente do governo local do Curdistão, Massoud Barzani, apelava ao seu parlamento para organizar um referendo sobre a autodeterminação. Nada que nos surpreendesse, a Casa Branca respondeu publicamente que reiterava o seu apoio a “um Iraque democrático, pluralista e solidário”, enquanto o vice-presidente Joe Biden, recebia, em privado, o chefe de gabinete de M. Barzani, Fouad Hussein, para afinar os detalhes do referendo.

Não parece que o PDK (são maioria no Iraque, mas uma minoria na Síria) seja capaz de realizar o referendo em simultâneo nos dois países. Washington ficará satisfeito com um Iraque e Curdistão modernos e separados, adiando para uma data posterior a divisão da Síria e Turquia. Por enquanto, os EUA reproduzem mensagens reconfortantes para Damasco (com o qual voltou de novo a falar) e para Ancara, que não acredita numa só palavra.

Todos perguntam, qual será a política externa do novo Estado? Até agora, o Barzani tinha conseguido criar uma ilha de prosperidade, mas estavam alinhados com Israel. Se esta opção se mantiver, mudarão completamente os relacionamentos estratégicos da região.

O Espectro do Califado

Enquanto isso, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (rebaptizado de Emirado Islâmico) proclamou o Califado. Num longo texto lírico, salpicado com citações do Alcorão, anunciou que, dada a sua capacidade de impor a Sharia no vasto território sob seu controle na Síria e Iraque, o tempo para o califado tinha chegado. Anunciou que o seu chefe eleito califa, Abu Bakr al-Baghdadi, e todos os crentes, onde quer que estejam, têm o dever de se submeter. [5] Nenhuma fotografia do novo chefe de Estado foi difundida, ninguém sabe se al-Bagdhadi realmente existe ou se o nome de “Califa Ibrahim” é apenas um espantalho.

A Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI) tem apoiado “os heróis do Emirado Islâmico”. Enquanto a Al-Qaeda da Península Arábica (AQAP) enviou os seus melhores votos de sucesso e vitória. Outros filiados a grupos da Al-Qaeda, como o Boko Haram na Nigéria e a Shabaab na Somália, deverão em breve demonstrar a sua fidelidade. Assim, estaremos a testemunhar uma mutação do status da Al Qaeda de rede terrorista internacional para um Estado não reconhecido.

Seja como for, o IE (Islamic Emirate, NdT) continua a sua progressão com cautela. Ele sabe como lutar dentro de certos limites e é cuidadoso para não ofender os interesses de Washington e seus aliados. Assim, em Samarra, cuidadosamente evitou atacar os mausoléus dos imãs xiitas de forma a não provocar o Irão.

Desde já, muitas vozes em Washington se levantam para confirmar a remodelação do Iraque. Assim, Michael Hayden, ex-director da NSA e CIA, presta o seguinte veredicto na Fox News: “Com a conquista dos insurgentes da maior parte do território sunita, o Iraque praticamente deixa de existir, a divisão é inevitável.” As suas declarações são acompanhadas de pedidos de intervenção. O ex-assessor de George Bush,  embaixador de Barack Obama para o Iraque, James Jeffrey, disse: “[os jihadistas] nunca desistiram, mesmo quando eu lá estava em 2010 e 2011. Foram totalmente derrotados e perderam a sua população. Nós estávamos nos seus calcanhares e não conseguiram aguentar-se. Não há como argumentar com eles, não há maneira de contê-los, têm de ser eliminados”.

 A imprensa atlantista interpreta estas posições como um debate entre os partidários da divisão do Iraque e os simpatizantes da sua unidade pela força. Na verdade, o programa de Washington não poderia ser mais claro: primeiro deixar que os jihadistas dividam o Iraque (e, possivelmente, a Arábia Saudita), e em seguida, logo que esse trabalho esteja feito, esmagá-los.
Nesta perspectiva o presidente Obama ouve os conselheiros e arrasta o assunto ao máximo. Enviou para o local 800 homens, violando os acordos de Defesa entre o Iraque e a América, dos quais apenas 300 são para orientar as forças iraquianas, e os restantes para defender a sua embaixada.

 

[1] “Washington Relaunches its Iraq Partition Project”; “Jihadism and the Petroleum Industry”, Translation Roger Lagassé; « ÉIIL : Quelle cible après l’Irak ? », Thierry Meyssan, Voltaire Network, 16, 23, 30 June 2014.

[2] “Israel accepts first delivery of disputed Kurdish pipeline oil”, Julia Payne, Reuters, June 20, 2014.

[3] « William Hague flies in to Baghdadwith an appeal for unity – but it’s a bit late for that », Patrick Cockburn, The Independent, June 26, 2014.

[4] « Address by PM Netanyahu at the Institute for National Security Studies », PM’s Office, June 29, 2014.

[5] “Proclamation of the Caliphate”, Voltaire Network, 1 July 2014.

 

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 2 de Agosto de 2014 by in GEOPOLÍTICA MUNDIAL and tagged , , , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: