A Arte da Omissao

O início da viragem do mundo

A estratégia russa face ao imperialismo anglo-saxónico

The Beginning of World Shift de Thierry Meyssan

A agressão anglo-saxónica contra a Rússia está a tomar forma de guerra económica e financeira. No entanto, Moscovo preparava-se para as hostilidades armadas, com o desenvolvimento da autosuficiência da sua agricultura e com o multiplicar das suas alianças. Para Thierry Meyssan, após a criação do califado no Levante, Washington deverá jogar uma nova cartada em São Petersburgo no próximo mês de Setembro. A capacidade da Rússia em manter a sua estabilidade interna irá determinar o curso dos acontecimentos.

| Damasco (Siria) | 13 De Agosto de 2014

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Organização de cooperação de Xangai representará 40% da população mundial, a partir do seu provável alargamento em Setembro de 2014

A ofensiva liderada pelos Anglo-saxões (EUA, Reino Unido e Israel) para dominar o mundo continua simultaneamente em duas linhas: por um lado a criação do ” Grande Médio Oriente”, com os ataques simultâneos ao Iraque, Síria, Líbano e Palestina, por outro a separação da Rússia da União Europeia através da crise que organizaram na Ucrânia.

Nesta corrida de velocidade, parece que Washington quer impor o dólar como moeda única no mercado do gaz, a fonte de energia do século XXI, do mesmo modo que a impôs no mercado do petróleo[1].

A comunicação ocidental quase que nem noticia a guerra do Donbass (guerra na Ucrânia, NTd), e a sua população ignora a amplitude dos combates, a presença dos militares americanos, o número das vítimas civis, a vaga dos refugiados. No entanto, focam com detalhe, os acontecimentos no Magrebe e no Levante, mas apresentando-os como resultantes de uma pretensa «primavera árabe» (quer dizer, na práctica, de uma tomada de poder pelos Irmãos muçulmanos), ou como o efeito destrutivo de uma civilização violenta em si mesma. Mais do que nunca, é necessário vir em socorro dos árabes incapazes de viver, pacificamente, na ausência dos colonos ocidentais.

A Rússia é agora a principal potência capaz de liderar a resistência ao imperialismo anglo-saxão. Ela tem três ferramentas: BRICS, aliança de rivais económicos que sabem que não podem crescer uns sem os outros, a Shanghai Cooperation Organization ( Organização de Cooperação de Xangai -NdT), aliança estratégica com a China para estabilizar a Ásia Central e, por fim a Organization for Collective Security Treaty ( Organização do Tratado de Segurança Coletiva- Ndt), aliança militar de ex-repúblicas soviéticas.

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Na cimeira da Fortaleza (Brasil), que foi realizada de 14 a 16 de Julho, BRICS anunciou a criação de um fundo monetário de reserva (principalmente chines) e um Banco BRICS como alternativas ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, o sistema de dólar [2].

Mesmo antes deste anúncio, os anglo-saxões tinham posto em acção já resposta: a transformação da rede terrorista Al-Qaeda, a fim de gerar uma inquietação entre todos os povos muçulmanos da Rússia e China. [3]

Continuaram a sua ofensiva na Síria e transbordou as fronteiras, tanto no Iraque como no Líbano. No entanto, falharam na expulsão de parte dos palestinos para o Egipto e desestabilizaram profundamente a região. Finalmente, mantiveram-se longe do Irão para dar ao Presidente Hassan Rohani a chance de enfraquecer o poder dos khomeinistas anti-imperialistas.

Dois dias após o anúncio dos BRICS, os Estados Unidos acusaram a Rússia de destruir o voo MH17 da linhas aéreas da Malásia, onde morreram 298 pessoas. Com base nisso, puramente arbitrário, obrigaram os europeus a entrar em guerra económica contra a Rússia. Agindo como um tribunal, o Conselho da União Europeia, julgou e condenou a Rússia sem provas e sem lhe dar a oportunidade de se defender. O CEU deliberou “sanções” contra o sistema financeiro russo.

Ao reconhecer que os líderes europeus não estão a trabalhar para os interesses dos seus povos, mas para os dos anglo-saxões, a Rússia absteve-se de ir para a guerra, na Ucrânia. Ela suporta os insurgentes com armas e inteligência, e abriga mais de 500 mil refugiados, mas recusa-se a enviar tropas para o terreno. É provável que não intervenha até que a grande maioria dos ucranianos se revolte contra o presidente Poroshenko, mesmo que tal signifique entrar no país só após a queda da República Popular de Donetsk.

Confrontada com a guerra económica, Moscovo optou por responder com medidas semelhantes, mas na área da agricultura, não na financeira. Duas considerações guiaram essa escolha: primeiro, a curto prazo, outros BRICS podem atenuar as consequências das chamadas “sanções”; por outro lado, a médio e longo prazo, a Rússia está a preparar-se para a guerra e pretende reconstruir completamente a sua agricultura e forma a ser auto-suficiente.

Além disso, os anglo-saxões planearam paralisar a Rússia a partir de dentro. Primeiro, activando, através do Emirado Islâmico (EIS), grupos terroristas dentro da sua população muçulmana, e organizar um desafio mediático aquando das eleições municipais de 14 de Setembro. Grandes somas de dinheiro foram distribuídas a todos os candidatos da oposição nas trinta maiores cidades envolvidas, enquanto pelo menos 50 mil agitadores ucranianos, misturados com os refugiados, reagrupam-se em São Petersburgo. A maioria deles tem cidadania russa dupla. Isto é claramente para reproduzir a nível provincial as mesmas manifestações que se seguiram às eleições em Moscovo, em Dezembro de 2011 – com a adição da violência; e envolver o país num processo de revolução colorida, para o qual, certos funcionários da classe dominante são favoráveis.

Para o fazer, Washington nomeou um novo embaixador para a Rússia, John Tefft, que preparou a “Revolução Rosa” na Geórgia e o golpe na Ucrânia.

Será importante para o presidente Vladimir Putin, ser capaz de confiar no seu primeiro-ministro, Dmitry Medvedev, que Washington esperava recrutar para o derrubar.

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Considerando o perigo iminente, Moscovo teria sido capaz de convencer Pequim a aceitar a adesão da Índia  à Organização de Cooperação de Xangai (SCO). Esta decisão deverá ser anunciada na Cimeira de Dushanbe (Tadjiquistão) de 12 a 13 de Setembro. Deverá ser colocado um fim ao conflito que opôs Índia e China durante séculos e envolvê-los a cooperar militarmente. Esta inversão, se confirmada, também acabaria com a lua de mel entre Nova Delhi e Washington, que esperava distanciar a Índia da Rússia em particular, dando-lhe acesso a tecnologias nucleares. A associação com Nova Deli é também uma aposta na sinceridade do novo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, apesar da suspeita de que ele teria encorajado a violência antimuçulmana em 2002 em Gujarat, quando era o principal ministro.

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Além disso, a adesão do Irão, a qual é uma provocação a Washington, deve dar ao SCO, o conhecimento preciso dos movimentos jihadistas e como os combater. Mais uma vez, se confirmada, iria reduzir a disposição do Irão para negociar uma trégua com o ” Great Satan ” que o levou a eleger o Sheik Hassan Rohani para a presidência. Seria uma aposta sobre a autoridade do líder supremo da Revolução Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei.

Na verdade, estas parcerias marcariam o início da mudança do mundo do Ocidente para o Oriente. [4] No entanto, esta tendência tem de ser protegida militarmente. Este, é o papel da Organization for Collective Security Treaty (CSTO), formada em torno da Rússia, mas à qual a China não pertence. Ao contrário da NATO, esta organização é uma aliança clássica, de acordo com a Carta das Nações Unidas, uma vez que cada membro tem a opção de sair se quiser. Por isso, é com base nessa liberdade que Washington tem tentado nos últimos meses comprar alguns membros, incluindo a Arménia. No entanto, a situação caótica na Ucrânia parece ter arrefecido aqueles que sonhava com a “protecção” da US.

A tensão deverá aumentar nas próximas semanas.

[1] “What do wars in Ukraine, Gaza, Syria and Libya have in common ?”, by Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada (Mexico), Voltaire Network, 8 August 2014.

[2] “6th BRICS Summit: the seeds of a new financial architecture”, by Ariel Noyola Rodríguez, Voltaire Network, 3 July 2014. “Sixth BRICS Summit : Fortaleza Declaration and Action Plan”, Voltaire Network, 16 July 2014.

[3] « Un djihad mondial contre les BRICS ? », par Alfredo Jalife-Rahme, Traduction Arnaud Bréart, La Jornada (México), Réseau Voltaire, 18 juillet 2014.

[4] “Russia and China in the Balance of the Middle East : Syria and other countries”, by Imad Fawzi Shueibi, Voltaire Network, 27 January 2012.

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This entry was posted on 14 de Agosto de 2014 by in GEOPOLÍTICA MUNDIAL and tagged , , .

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