A Arte da Omissao

Aviso de Tempestade no Irão

Aviso de Tempestade no Irão, de Thierry Meyssan

As iniciativas do novo presidente iraniano, xeque Hassan Rohani, em grande parte desviaram-se da linha anti-imperialista do Imã Khomeini. Parece que o líder supremo, o aiatola Ali Khamenei, que tinha favoreceu a eleição de Rohani, decidiu agora, sabotar o acordo Rohani secretamente negociado com os Estados Unidos e União Europeia. Washington não vai nisso e prepara o seu “Plano B”.

| Teerão (Irão) | 13 de utubro de 2014

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De acordo com Ali Shariati, o pensador da Revolução Iraniana, todo o muçulmano deve ser revolucionário e todos os verdadeiros revolucionários devem ser considerados muçulmanos, independentemente das suas religiões. Portanto, o termo “República Islâmica do Irão” pode ser entendido como “República Revolucionária do Irão”; interpretação contra a qual luta o representante da facção pró-USA do clero xiita, o xeque Hassan Rohani.

O projecto do xeque Hassan Rohani

Desde a revolução de Khomeini, o Irão apoiou todos os movimentos anti-imperialistas no Oriente Médio, independentemente da religião dos seus membros. No entanto, esta política foi fortemente contestada pela “Revolução Verde” de 2009. Na época, o candidato “modernista” Mirhossein Moussaoui, disse durante a sua campanha eleitoral, que o facto de se congratular com a resistência do Hamas e Hezbollah, não significava  que seriam os iranianos a pagar os seus equipamentos nem a reconstrução da Palestina e do Líbano. Uma vez eleito em 2013, o novo presidente, o xeque Hassan Rohani intrigava os comentaristas brandindo uma chave e insinuando que iria colocar o Tesouro iraniano ao serviço do seu povo, em vez de financiar movimentos arriscados da resistência, dos quais alguns não eram sequer xiitas. No entanto, o povo iraniano prestou pouca atenção a esta controvérsia, erroneamente considerando-a como politiquice.

Após a sua eleição, o xeque Rohani levantou grande esperança no seu país, os eleitores convenceram-se de  iria chegar a um acordo com os Estados Unidos e União Europeia, para terminar com as “sanções” e melhorar o seu poder de compra. Hoje, o Irão recuperou a capacidade de vender o seu petróleo no mercado internacional e por isso tem moeda estrangeira à sua disposição. A moeda nacional, o rial, está agora estabilizada.

Chegamos agora ao desfecho: o xeque Rohani secretamente negociou um acordo com Washington e Bruxelas o qual em breve o tornará público [1]. E este acordo vai muito mais longe do que a proposta de Hossein Moussaoui há cinco anos atrás. É, nem mais nem menos, que a viragem do Irão para o campo ocidental, apesar da sua recente entrada na Organização de Cooperação de Xangai.

Sob este acordo, o Irão fornece o seu gás á União Europeia. Desta forma, esta última poderá libertar-se da dependência da Rússia e lançar uma nova Guerra Fria. Além disso, este gás iria faltar na China. [2]

A 24 de Setembro, o xeque Rohani falou sobre isto com o seu homólogo austríaco, Hans Fisher, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas; A Áustria assegura a gestão do projecto do gasoduto Nabucco. Os dois homens discutiram o financiamento para ligar os campos de gás e petróleo iranianos, cujo custo poderá chegar aos US $ 8,5 bilhões. Um mega projecto que deve gerar muita corrupção.

Espera-se que o acordo termine com a polémica sobre a alegada bomba que, desde a eleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2005, o Irão deveria ter tido em “algumas semanas”. [3]

O conflito entre os anti-imperialistas e pró-USA

Ao contrário da ideia simplista espalhada pela propaganda atlantista, a Revolução Islâmica não foi feita com o clero xiita, mas contra ele e o Xá. Até mesmo o clero descreveu o aiatola Khomeini como “cismático” até ele seguir o movimento popular e acabar por ir com o imã. As relações entre os revolucionários e o clero azedaram novamente, durante a guerra na época imposta pelo Iraque, os Guardiães da Revolução – inclusive Mahmoud Ahmadinejad (presidente entre 2005 e 2013, Ndt) – perceberam que as crianças do clero estavam ausentes da frente.

Durante séculos, o clero xiita usou e abusou do seu poder no Irão. A revolução do aiatola Ruhollah Khomeini era tanto uma reforma do xiismo como uma luta de libertação nacional. Antes dele, o xiita iraniano chorou muito com a morte de Imã Ali, com ele, tentou imitá-lo e lutar contra a injustiça.

Em termos de costumes, se todos defendem os mesmos princípios, não o fazem da mesma forma: tanto o clero (incluindo o xeque Hassan Rohani, que é agora o seu representante) como as “Forças da Revolução” (representadas, em especial, pelos irmãos Larijani) são a favor de coerção, enquanto os anti-imperialistas (liderados por Mahmoud Ahmadinejad) defendem o valor de serem um exemplo. Assim, Ahmadinejad entrou em confronto com a polícia durante os seus mandatos, e publicamente assumiu a posição contra o uso obrigatório do véu para as mulheres e a forte recomendação de barbas para os homens. O conflito tornou-se tão agudo que os funcionários do gabinete do presidente foram detidos e presos por vários meses por “feitiçaria” .

O líder supremo, o aiatola Ali Khamenei, discípulo nobre do aiatola Ruhollah Khomeini, tem mais poderes que o presidente, mas só raramente pode intervir. Nos últimos anos, tentou limitar as iniciativas do turbulento Mahmoud Ahmadinejad e forçá-lo a manter a sua aliança com os irmãos Larijani. Ahmadinejad, em seguida, entrou em choque com ele, especialmente com a escolha do seu vice-presidente Esfandiar Rahim Mashaei, no final remetido ao posto de Chefe de Gabinete do Presidente. Em última análise, a aliança entre Larijani e Ahmadinejad rompeu numa atmosfera de acusações de corrupção [4].

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O Líder Supremo favoreceu a eleição do xeque Hassan Rohani na esperança por uma pausa no confronto com Washington. Considera agora que o novo presidente cruzou a linha amarela e ameaça o ideal revolucionário.

Reacções ao projecto do xeque Hassan Rohani

Mais de um ano após a sua eleição, a popularidade de Rohani está em queda lvre, a opinião pública divide-se entre os que o acusam de não ter mudado quase nada e os que o acusam de promover uma classe social em detrimento da maioria. Mediante as evidência, se Mahmoud Ahmadinejad fosse autorizado a apresentar-se à próxima eleição, ele seria eleito na primeira volta. No entanto, é duvidoso que a oportunidade se apresente. Em 2013, o seu candidato, Esfandiar Rahim Mashaei, foi proibido de competir, embora as pesquisas lhe dessem a vitória na segunda volta. Tudo será feito para afastar Ahmadinejad das eleições de 2017.

De qualquer forma, o ex-presidente nunca esteve tão activo como hoje. Ele está a mobilizar o seu acampamento e parece estar convicto em evitar a inclinação do Irão para o acampamento atlantista. Como sinal da sua provável vitória, o Líder Supremo permitiu aos seus apoiantes que organizassem uma conferência internacional anti-imperialista à qual se tinha oposto no ano passado [5]. Até o aiatola Ali Khamenei se fez representar. Mas, ele deve vetar o projecto de Rohani.

Para os seguidores de Khomeini, o projecto seria a destruição da Revolução e o regresso aos dias do Xá. O Irão abandonaria a sua influência política e passaria a dedicar-se ao comércio internacional. Internamente, voltaria a significar opulência para os líderes, mas não necessariamente para o povo. O povo do Oriente Médio que tiveram ganhos com Washington, Londres e Telavive, principalmente no Líbano, Gaza, Síria e Iémen, voltariam gradualmente à forma de órfãos e desamparados.

O “plano B” dos EUA

No provável evento – salvo a morte prematura do Guia Supremo – do fracasso do plano de Rohani, Washington continua a preparar o seu “Plano B”: uma vasta desestabilização do país, muito mais poderosa que a de 2009. Na época, a ideia era levar as pessoas a acreditar numa truncagem da eleição presidencial, que de outra forma teria sido ganho pelo lado pró-EUA. [6] Desta vez, deve ser a cópia da pseudo revolução síria de 2011.

Ao longo dos últimos cinco anos, Washington criou e continua a criar mais de 70 estações de televisão por satélite na língua Farsi, apesar da linguagem ter apenas cerca de 100 milhões de falantes em todo o mundo e dos quais 80 milhões estão no Irão. Cada aliado dos Estados Unidos, foi solicitado, desde a União Europeia à Coreia do Sul, a transmitir programas para iranianos. Se todos esses meios de comunicação transmitirem uma notícia falsa ao mesmo tempo, ela será aceite como verdadeira pelos iranianos, quando muitos dos quais se afastaram da televisão nacional, por ser demasiado militante ou muito puritana.

Além disso, ninguém sabe quem está no comando da censura da Internet no Irão. Para evitar a propagação da pornografia, todos os vídeos estão inacessíveis bem como uma grande quantidade de sites. No entanto, cada iraniano adoptou um proxy que lhe permite ultrapassar a censura. O único resultado dessa prática é desacreditar o Estado; situação que os Estados Unidos não deixarão de explorar.

Portanto, pode-se prever que, no caso da queda do xeque Hassan Rohani, Washington lançará falsas notícias. Com as técnicas digitais, é possível transmitir eventos “atuais” fictícios, como foi experimentado na Líbia (com a queda dela a ser transmitida quatro dias antes para desmoralizar a população) e na Síria (com as numerosas manifestações de protesto que todo mundo já viu mas que nunca existiram).

A rejeição do projecto Rohani será o sinal para um novo confronto.

[1] “The Abdication of Iran”, by Thierry Meyssan, Translation Roger Lagassé, Voltaire Network, 2 December 2013.

[2] “Pipeline Geopolitics Major Turnaround: Russia, China, Iran Redraw Energy Map”, by Melkulangara K. Bhadrakumar; “Iran, the gas pipeline battle”, by Manlio Dinucci, Voltaire Network, 16 January 2010 and 27 March 2012.

[3] “Who’s afraid of Iran’s civil nuclear programme?”, by Thierry Meyssan, Voltaire Network, 27 July 2010.

[4] “Ahmadinejad, the Unsinkable”, by Thierry Meyssan, Translation Roger Lagassé, Al-Watan (Syria), Voltaire Network, 21 February 2013.

[5] The New Horizons conference was held from 29 September to 1 October 2014 in Tehran in an atmosphere of national unity. Ayatollah Abbas Hosseini Qaem-Maqami, Saeed Jalili (which stood for president against Hassan Rohani) and Mohammad-Javad Larijani attending its opening.

[6] “The CIA and the Iranian experiment”, “Why should I look down on the Iranian people’s choice?”, “« Color revolution » fails in Iran”, by Thierry Meyssan, translation J.C., Voltaire Network, 19, 23 and 27 June 2009. “Iranian Elections: The ‘Stolen Elections’ Hoax”, by James Petras, Voltaire Network, 19 June 2009.

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Nota: Links desta cor são da minha responsabilidde

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This entry was posted on 16 de Outubro de 2014 by in GEOPOLÍTICA MUNDIAL and tagged , , , .

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