A Arte da Omissao

Será que Washington vai ter sucesso na limpeza étnica no Norte da Síria?

Será que Washington vai ter sucesso na limpeza étnica no Norte da Síria?, de Thierry Meyssan

O Kobané e sua região, onde mais de 300 mil curdos sírios estão ameaçados de extermínio pelo Emirado Islâmico, permite que todos possamos medir a duplicidade da NATO. Enquanto o comandante da coligação dos EUA declara que luta contra o Emirado Islâmico, a Turquia, membro da NATO, fornece-lhe assistência militar e médica, impedindo que os civis possam fugir e que os combatentes do PKK (Partiya Karkerên Kurdistan, em português: Partido dos Trabalhadores do Curdistão- NdT) possam vir em seu auxílio.

| Damasco (Síria) | 19 de Outubro de 2014

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No teatro grego antigo, os espectadores sabiam com antecedência o fim trágico da peça. As personagens, cegas pelos deuses, continuavam a representar o que pretendiam negar com as palavras. Mas o coro acabava por revelar os projectos do Destino aos espectadores.

A tragédia que está a ser representada em Kobané (árabe Ain al-Arab) foi escrita para concluir o genocídio já anunciado de 300 mil curdos sírios. O Emirado Islâmico já controla várias partes da cidade e muitas aldeias vizinhas. Se o Exército Árabe Sírio não romper as linhas do Emirado Islâmico para os salvar, todos serão mortos.

A população curda está a ser defendida pelo PYG (partido autonomista que apoia a Síria), mas a Turquia fechou a sua fronteira para que os civis não possam escapar e os reforços do PKK turco (partido separatista ligado à PYG) não possam entrar.

As forças curdas são controladas por Mahmoud Barkhodan, assistido por Narine Afrin (nome real de Mayssa Abdo). A escolha de uma mulher para comandante-adjunto causou pânico no Emirado Islâmico, uma vez que os jihadistas crêem que não podem entrar no céu, se forem mortos por uma mulher.

Diante da resistência curda, o Emirado Islâmico transferiu a maior parte das suas forças para a Síria e esmagar Kobané.
De acordo com nossa análise, repetidamente afirmada nestas colunas, bem como em muitas estações de rádio e televisão na América Latina, Rússia e no mundo muçulmano, o Emirado Islâmico é uma criação dos Estados Unidos encarregue pela limpeza étnica da região, a fim de ser remodelada. É visível que as declarações suaves dos líderes americanos são desmentidas pela sua acção militar no terreno, não contra, mas a favor do Emirado Islâmico.A coligação realizou seis ondas de atentados em Kobané.
Nunca atacou posições alvo do Emirado, mas mantém mais a sul e oeste, o Exército Árabe Sírio, que não consegue abrir uma brecha para salvar as pessoas. O Governo Regional do Curdistão do Iraque (pró-Israel) recusa-se a ajudar os curdos sírios, com quem têm estado em conflito há muito tempo. Para justificar esta passividade, alega que não tem acesso directo à Síria.
A Turquia, membro da NATO, recusa-se a ajudar os curdos sírios ameaçados de genocídio, enquanto eles não desistirem do seu estado independente na Síria e, enquanto não se juntarem à luta da NATO contra a Síria e seu presidente eleito  Bashar al-Assad. De acordo com combatentes da PYG, a Turquia fornece diariamente armas ao Emirado Islâmico e trata seus feridos nos seus hospitais, enquanto eles próprios enfrentam os maiores desafios para transportar curdos feridos para a Turquia em busca de tratamento médico.
Na Turquia, o grupo curdo islâmico dissidente, Hur Dava Partisi (anteriormente chamado de Hezbollah, a fim de criar confusão com a resistência libanesa), entrou em guerra contra o PKK  (Partido maioria curda no país). O Huda-Par (abreviatura de Hur Dava Partisi) é apoiado secretamente pelo presidente do AKP, Recep Tayyip Erdoğan, para lutar contra o separatismo curdo e apoiar a Irmandade Muçulmana.A 30 de Agosto, Hikmet, um líder do Emirado Islâmico e dois dos seus guarda-costas foram mortos pelo PKK em Istambul, no local onde estavam hospedados  a convite de Huda-By e sob a protecção da polícia turca.

Numa mensagem de texto enviada a todos os seus membros, o PKK deu instruções para eliminar fisicamente todos os membros de Huda-Par, acusados ​​de trabalharem para o governo turco e de auxiliarem o Emirado Islâmico.

A 10 de Outubro, o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan Mistura, ao fazer a comparação com o massacre de Srebrenica (Iugoslávia, 1995), desafiou a Turquia a abrir as suas fronteiras para impedir a queda de Kobané e o genocídio da sua população. Ele pediu em vão que a Turquia abrisse as suas fronteiras.

O chefe da Coligação dos EUA, o general John Allen, também apelou publicamente à Turquia que abrisse a sua fronteira e impedisse o genocídio dos curdos em Kobané. No entanto, não parece que a recusa turca tenha alterado as relações entre Washington e Ancara, bem pelo contrário.

O novo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Cavusoglu, disse que o seu país não iria intervir, enquanto a coligação formada pelos Estados Unidos contra o Emirado Islâmico (da qual a Turquia faz parte) não decidisse impor uma zona de exclusão aérea no norte da Síria e não apresentou como objectivo a derrubada da República Árabe Síria.

Além disso, o parlamento turco autorizou o governo a combater tanto o Emirado Islâmico como o PKK.

O ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, ao receber Mr. Cavusoglu em Paris, apoiou a ideia de criar uma “zona de segurança” no norte da Síria, sem especificar exactamente o que queria dizer com isso, enfatizando o seu acordo com a Turquia.

A França, também membro da NATO, fornece directamente armas ao governo separatista do Curdistão iraquiano sem autorização do governo central iraquiano. O Governo Regional do Curdistão do Iraque expandiu o seu território em 40%, em coordenação com o Emirado Islâmico quando se apoderou da zona árabe sunita iraquiana. Em anos anteriores, a França apoiou politicamente o PKK turco (pró-Síria), agora oferece apoio militar ao (pró-Israel) governo Regional do Curdistão do Iraque.

Actualmente, o espaço aéreo no norte da Síria é controlado pela coligação liderada pelos Estados Unidos. O Emirado Islâmico tem  aviões (MiG roubados à Síria e F-15 roubados ao Iraque), mas tem poucos pilotos e pessoal técnico para os usar. A criação de uma zona de exclusão aérea da NATO na Síria, além de ser uma flagrante violação do direito internacional, não têm impacto sobre os combates em curso.

A ideia de criar uma zona de exclusão aérea na Síria foi promovida por Israel, que a vê como um meio para desmembrar esse país, seguindo o modelo aplicado de 1991 a 2003 no Iraque (em favor do actual Governo Regional do Curdistão). No entanto, a única comparação válida que pode ser feita é com a zona tampão imposta em 1983 durante a guerra civil libanesa. Senti como uma recolonização aberta do Líbano, que se transformou num fiasco após a eliminação de 300 soldados norte-americanos e franceses.

Na Turquia, o PKK multiplica manifestações para forçar o governo Erdoğan a reabrir a fronteira. 31pessoas já foram mortas pela polícia durante a repressão dos protestos.

A única questão que se coloca, é por quanto tempo os curdos sírios vão conseguir resistir sozinhos contra os jihadistas armados e financiados pelos Estados Unidos, autorizado pelos votos do Congresso reunido secretamente em Janeiro de 2014. Por outras palavras: quando é que Washington e seus aliados conseguem etnicamente limpar o norte da Síria através da sua criação, o Emirado Islâmico?

3 comments on “Será que Washington vai ter sucesso na limpeza étnica no Norte da Síria?

  1. voza0db
    25 de Outubro de 2014

    Olá!

    Nada do descrito realmente interessa! Para os EUA e para os Estados Unidos da Europa, a única coisa que REALMENTE interessa são os recursos energéticos e minerais que existem naquelas vastas regiões. Desde o Mali (onde a França continua a assegurar militarmente as minas que abastecem as centrais nucleares, e outras coisas boas!), passando pela Líbia, Sudão, indo até à costa indica à Somália (seus mares territoriais – sé é que existe tal coisa para países de África! – são invadidos por frotas pesqueiras da europa, e não só, e depois o sustento básico do povo de lá vai-se, e o que resta?!?), subindo para as Arábias, cortando pelo Iraque, Síria… Tudo é INTERESSES ENERGÉTICOS E MINERAIS! Tudo o resto NADA NOS IMPORTA! Que nos importa, REALMENTE, a morte dos humanos daquelas regiões?

    Somos todos (EU incluído, evidentemente) RESPONSÁVEIS PELAS MORTES DOS MILHÕES DE PESSOAS que habitam estes países!
    E nem nos importamos MUITO COM ISTO!
    Afinal só queremos é gás natural BARATO, combustíveis BARATOS, energia BARATA (venha ela do nuclear francês ou não), queremos smartphone’s, ipad’s, iphone’s, pc portáteis, e fixos, carros com isto e com aquilo, televisores com ecrãs curvos e óculos 3D, telemóveis com ecrã curvo, óculos com câmeras, e mais uns milhares de TRETAS! Queremos ver filmes de morte e devastação em salas de cinema com IMAX e 3D e ultra-som ambiente, e pipocas (OGM ou nem sabemos se o são) tudo empurrado, claro, com COCA-COLA (ZERO ou nem por isso)…

    E porque QUEREMOS TUDO ISTO, fazemos de conta que NÃO SABEMOS que só temos acesso a TUDO ISTO graças à morte e destruição de pessoas e áreas do planeta! Mas tudo está bem enquanto tudo isto se passa LONGE! Depois lavamos a consciência dando uns donativos para um grupo de organizações que consumem a maior dos recursos na sua sustentação do que efectivamente a “ajudar”!

    Bem tanta letra para NADA! O objectivo dos EUA na Síria é retirar o Assad do poleiro e colocar lá uns macacos bem mandatos e não virados para oriente! E como isso ainda não aconteceu, resta esperar que passe o tempo suficiente para que tal aconteça!

    Para a próxima vou-me tentar conter na SECA!

    Continuemos então a CONSUMIR como se o amanhã não existisse! Afinal sem CONSUMO os nossos pedaços de terra e nossas ilusões não CRESCEM!

    Abr
    😎

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    • urantiapt
      25 de Outubro de 2014

      Permite-me discordar. Poucos param para pensar nos acontecimentos que assolam o Médio Oriente nestes últimos anos, porque uns ainda ACREDITAM nos canais de comunicação que temos, outros, andam como dizes, distraídos com o consumismo, outros demasiado preocupados ou em pânico para consguirem sobreviver. Outros nem sequer questinam.

      Pretendo, que quem leia as traduções destes artigos escritos por conhecedores do terreno em conflito, desperte e comece a ver o mundo real, não o mundo que as televisões mostram. Não pretendo que acreditem logo. Pretendo que sintam necessidade de saber se é verdade ou não. E este exercício, na minha opinião, é a base da saída do estado de letargio que alastra por este mundo fora. Aconteceu a mim, de certo que acontecerá a outros. Ao começar a ter a percepção do mundo real, governado por 100 macacos que nem a cara mostram, mas que felizmente já sabemos quem são, mudei radicalmente e simplesmente nego-me a alimentá-los. Se conseguir que alguém que leia este blog, passe pelo mesmo processo que eu passei, já valeu a pena.

      Abraços

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    • urantiapt
      25 de Outubro de 2014

      Permite-me discordar. Poucos param para pensar nos acontecimentos que assolam o Médio Oriente nestes últimos anos, porque uns ainda ACREDITAM nos canais de comunicação que temos, outros, andam como dizes, distraídos com o consumismo, outros demasiado preocupados ou em pânico para consguirem sobreviver. Outros nem sequer questinam.

      Pretendo, que quem leia as traduções destes artigos escritos por conhecedores do terreno em conflito, desperte e comece a ver o mundo de uma forma bem diferente do que as televisões mostram. Não pretendo que acreditem logo. Pretendo que sintam necessidade de saber se é verdade ou não. E este exercício, na minha opinião, é a base da saída do estado de letargio que alastra por este mundo fora. Aconteceu a mim, de certo que acontecerá a outros. Ao começar a ter a percepção do mundo real, governado por 100 macacos que nem a cara mostram, mas que felizmente já sabemos quem são, mudei radicalmente e simplesmente nego-me a alimentá-los. Se conseguir que alguém que leia este blog, passe pelo mesmo processo que eu passei, já valeu a pena.

      Abraços

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