A Arte da Omissao

Quem ordenou o ataque contra Charlie Hebdo?

Tradução artigo

Who ordered the attack against Charlie Hebdo?

Enquanto muitos franceses reagem ao ataque contra o Charlie Hebdo,  denunciando o Islão e com demonstrações nas ruas, Thierry Meyssan acha que a interpretação jihadista é impossível. Embora seja tentador para ele, atribuir a operação à Al Qaeda ou ao Daesh, ele prevê uma outra hipótese, bem mais perigosa.

| Damasco (Síria) | 10 de Janeiro de 2015

Nesta reportagem, a France 24 corta o vídeo para que não se veja os atacantes a executarem um policia caído no solo

A  07 de janeiro de 2015, comandos eclodiram em Paris, nas instalações do Charlie Hebdo e assassinaram 12 pessoas. Outras  4 vítimas ainda estão em estado grave.

Nos vídeos, os agressores são ouvidos a gritar “Allah Akbar! e ” vingar Muhammad “. Uma testemunha, desenhador  do Coco, disse que eles proclamaram afiliação com a Al-Qaeda. Foi o suficiente para que muitos franceses denunciassem a operação com sendo um ataque islamita.

No entanto esta hipótese é ilógica.

A missão deste comando não tem nenhuma ligação com a ideologia jihadista

Os membros ou simpatizantes da Irmandade Muçulmana, al-Qaeda ou Daesh não se contentariam em matar apenas cartunistas ateus; eles teriam que destruir primeiro os arquivos do jornal, seguindo o modelo de todas as suas ações na África do Norte e Levante. Para os jihadistas, o primeiro dever é destruir os objetos que eles acreditam que ofendem a Deus, e  punir os “inimigos de Deus”.

Da mesma forma, não teriam saído mediatamente, fugindo da polícia, sem completarem a sua missão. Os jihadistas teriam completado a sua missão, mesmo que tivessem de morrer no local.

Além disso, tanto os vídeos como algumas evidencias  mostram que os atacantes são profissionais. Eles manusearam as suas armas habilmente com tiros certeiros, nem estavam vestidos como jihadistas, mas como comandos militares.

A forma como executarem o policial ferido que não representava nenhum perigo para eles, certifica que a sua missão não era  “vingar Muhammad” por causa do humor grosseiro do Charlie Hebdo.

Esta estratégia visa criar o início de uma guerra civil
O fato dos assaltantes falarem bem francês e serem provavelmente franceses, não indica necessariamente que este ataque seja um episódio franco-francêss. Em vez disso, o facto de serem forças profissionais, devem forçar-nos a  distingui-los dos possíveis patrocinadores. E não há nenhuma evidência de que sejam franceses.

É um reflexo normal, mas intelectualmente errado considerar que quando alguém é vítima de um ataque, outro conhece os seus atacantes. É o mais lógico quando se tratam de crimes normais, mas é errado quando se trata de política internacional.

Os patrocinadores deste ataque sabiam que iriam causar uma divisão entre os muçulmanos franceses e franceses não-muçulmanos. Charlie Hebdo especializou-se em provocação anti-muçulmana e a maioria dos muçulmanos na França têm sido direta ou indiretamente suas vítimas. Embora os muçulmanos franceses vão certamente condenar o ataque, será difícil para eles experienciar a mesma dor pelas vítimas como a sentida pelos leitores do jornal. Tal  será visto por alguns como cumplicidade com os assassinos.

Portanto, ao invés de ver o episódio como um ataque islamita extremamente mortal de vingança contra o jornal que publicou as caricaturas de Maomé, é mais lógico considerar que ele é o primeiro episódio  dum processo para acionar uma guerra civil.
A estratégia do “choque de civilizações” foi projectada em Tel Aviv e Washington

A ideologia e estratégia da Irmandade Muçulmana, Al Qaeda e Daesh não defende a criação de uma guerra civil no “Ocidente”, mas sim no “Oriente” e hermeticamente separar os dois mundos. Nunca Sayyid Qutb, nem nenhum dos seus sucessores, apelaram  a confrontos entre muçulmanos e não-muçulmanos nos territórios destes últimos.

Pelo contrário, a estratégia do “choque de civilizações” foi formulada por Bernard Lewis no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, de seguida, popularizada por Samuel Huntington não como uma estratégia de conquista, mas como uma situação previsível. [1] O objetivo foi convencer as populações dos Estados membros da NATO da inevitabilidade do confronto que preventivamente assumiu a forma da “guerra contra o terrorismo”.

Não é no Cairo, Riyadh ou Cabul que se defende o “choque de civilizações”, mas sim em Washington e Telavive.
Os patrocinadores do ataque contra o Charlie Hebdo não procuraram satisfazer jihadistas ou talibãs, mas neo-conservadores ou falcões liberais.

Não podemos esquecer os precedentes históricos
Devemos lembrar que nos últimos anos temos visto os serviços especiais dos Estados Unidos ou NATO:
– a testarem os efeitos devastadores de certas drogas na população civil em França [2];
– a apoiarem a OAS na tentativa de assassinar o presidente Charles de Gaulle [3];
– a realizarem ataques de falsas bandeiras contra civis em vários países membros da NATO. [4]

Devemos lembrar que, desde o desmembramento da Jugoslávia, o estado maior norte-americano praticou e aperfeiçoou a sua estratégia do “dog fight” em muitos países, que consiste em matar membros da maioria da comunidade e também membros de minorias, de seguida, colocar a culpa em cada um deles até que todos tenham a certeza que estão em perigo mortal. Foi assim que Washington provocou a guerra civil na Iugoslávia, bem como recentemente na Ucrânia. [5]

Faria bem aos franceses lembrar que não foram eles a tomar a iniciativa de lutar contra os jihadistas que regressaram da Síria e do Iraque. Até o momento, nenhum deles tinha cometido qualquer ataque na França, onde o caso de Mehdi Nemmouche não é o de um terrorista solitário, mas de um agente encarregado de executar dois agentes do Mossad em Bruxelas [6] [7].

Foi Washington, que, a 06 de Fevereiro de 2014, convocou os ministros do Interior da Alemanha, EUA, França, Itália, Polónia e Reino Unido, para colocar o regresso dos jihadistas europeus como matéria de segurança nacional. [8] Foi só depois desta reunião que a imprensa francesa abordou a questão e as autoridades começaram a reagir.

John Kerry exprimiu-se, pela primeira vez em francês para enviar uma mensagem aos Franceses. Ele denunciou os acontecimentos como um ataque contra a liberdade de expressão (quando o seu país não parou, desde 1995, de bombardear e destruir as estações televisões que lhe faziam sombra na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia), e proclama a luta contra o obscurantismo.

Não sabemos quem patrocinou esta operação profissional contra Charlie Hebdo, mas não devemos permitir que sejamos arrastados. Devemos considerar todas as hipóteses e admitir que, nesta fase, o objectivo mais provável é o de dividir; e os seus patrocinadores mais prováveis estão em Washington.

Artigos relacionados:According to McClatchy, Mohammed Mehra and the Kouachi brothers are linked to the French secret services“, Voltaire Network, 9 de Janeiro  2015

[1] « La “Guerre des civilisations” », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 4 juin 2004.

[2] « Quand la CIA menait des expériences sur des cobayes français », par Hank P. Albarelli Jr., Réseau Voltaire, 16 mars 2010.

[3] « Quand le stay-behind voulait remplacer De Gaulle », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 10 septembre 2001.

[4] «Les Armées Secrètes de l’OTAN», par Daniele Ganser, éd. Demi-Lune. Disponible par chapitre sur le site du Réseau Voltaire.

[5] « Le représentant adjoint de l’ONU en Afghanistan est relevé de ses fonctions », « Washington peut-il renverser trois gouvernements à la fois ? », par Thierry Meyssan, Al-Watan (Syrie), Réseau Voltaire, 23 février 2014.

[6] « L’affaire Nemmouche et les services secrets atlantistes », par Thierry Meyssan, Al-Watan (Syrie), Réseau Voltaire, 9 juin 2014.

[7] On objectera les affaires Khaled Kelkal (1995) et Mohammed Mehra (2012). Deux cas de «loups solitaires» liés à des jihadistes; mais ni à la Syrie, ni à l’Irak. Malheureusement, tous deux furent exécutés en opération par les Forces de l’ordre de sorte qu’il est impossible de vérifier les théories officielles.

[8] « La Syrie devient “question de sécurité intérieure” aux USA et dans l’UE », Réseau Voltaire, 8 février 2014.

 

ligne-rouge

As operações de espiões fazendo-se passar por agentes de outro país são comuns. Os agentes do país A disfarçam-se de agentes do país B para realizar acções no país C. O objectivo é normalmente que o país visado, o C, acredite que está a ser sabotado pelo país B e eventualmente retalie contra este. Neste caso, a ideia seria apenas que Israel levasse a cabo acções de sabotagem no Irão sem despertar suspeitas do seu envolvimento.->  Mossad recruta em grupo iraniano fazendo-se passar pela CIA

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This entry was posted on 14 de Janeiro de 2015 by in A arte da Guerra, Afinal Quem é Terrorista?, França and tagged , , .

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