A Arte da Omissao

O que não vos informaram sobre a Grécia

That which you were never told about Greece

Carta aberta, publicada pelo diário alemão Handelsblatt a 13 de Janeiro de 2015, 12 dias antes das eleições legislativas que levou ao poder Aléxis Tsípras e onde este explica o seu ponto de vista sobre a crise da dívida: o problema é a doutrina da troika que empurra tanto a UE como a Grécia para o abismo.

| Atenas (Grécia) | 23 de Fevereiro de 2015

A maioria de vós, caros leitores, terá já uma ideia preconcebida acerca deste artigo, mesmo antes de o lerem. Peço-vos que não o façam. O preconceito nunca foi um bom guia, especialmente durante períodos em que uma crise económica reforça estereótipos, fanatismos raciais,  nacionalismo e até violência.

Em 2010, o Estado grego deixou de ser capaz de pagar a sua dívida. Infelizmente, as  autoridades europeias decidiram fingir que este problema poderia ser superado com o maior empréstimo da história debaixo de uma austeridade fiscal que, com precisão matemática, diminuiu o rendimento nacional a partir do qual os dois novos e antigos empréstimos deveriam ser pagos. Um problema de falência foi assim tratado como se tratasse de falta de liquidez.

Por outras palavras, a Europa adotou a táctica dos banqueiros menos respeitáveis que se recusam a reconhecer os seus maus empréstimos, preferindo conceder outros novos à entidade insolvente, de modo a fingir que o empréstimo original está a resultar, adiando deste modo a bancarrota. Nada mais do que o senso comum se exigia para ver que a aplicação da tática do prolongar e fingirlevaria o meu país a um estado trágico. Em vez da estabilização da Grécia, a Europa criava as circunstâncias para uma crise de auto-reforço que mina os alicerces da própria Europa.
O meu partido e eu, pessoalmente, discordamos ferozmente com o acordo do empréstimo de Maio de 2010, não porque vocês, cidadãos da Alemanha, não nos deram bastante dinheiro, mas porque nos deram demasiado, muito mais do que deveriam ter dado  e do que o nosso governo deveria ter aceite, muito mais do que ele tinha direito. Dinheiro que, em qualquer caso, nem ajudou o povo da Grécia (que estava a ser empurrado para o buraco negro da dívida insustentável), nem impediu que balão de dívida do governo grego aumentasse, com grandes despesas para o contribuinte grego e alemão.
Na verdade, passado menos de um ano, a partir de 2011, as nossas previsões foram confirmadas. A combinação dos novos e gigantescos empréstimos com os cortes rigorosos na nossa despesa pública, originou uma diminuição de rendimentos, não falhando só o controlo da divida, como os cidadãos mais fracos foram punidos, transformando pessoas que até então tinham vivido uma vida modesta,  em indigentes e mendigos, negando-lhes acima de tudo, as suas dignidades.

O colapso dos rendimentos empurrou milhares de empresas para a falência, aumentando o poder oligopolista das grandes empresas sobreviventes. Assim, os preços têm caindo, mas mais lentamente que os salários, reduzindo a procura global por bens e serviços, esmagando os rendimentos nominais, enquanto as dívidas continuam a sua ascensão inexorável. Neste cenário, o déficit de esperança acelerou descontroladamente e, antes que o soubéssemos, o“ovo da serpenteeclodiu o resultado foi que os neo-nazis começaram a patrulhar a vizinhança, disseminando a sua mensagem de ódio.

Apesar do evidente fracasso da lógica do “prolongar e fingir“, esta continua a ser aplicada nos dias de hoje. O segundo resgate grego, promulgado na Primavera de 2012, colocou um outro enorme empréstimo em cima dos ombrosenfraquecidos dos contribuintes gregos, cortes nos nossos fundos de segurança social, e financiou uma nova e implacável cleptocracia.

Comentadores respeitados referem a recente estabilização da Grécia e dos sinais de crescimento. Infelizmente, a ‘recuperação grega’ é tão somente uma miragem que devemos ignorar o mais rapidamente possível. O recente e modesto aumento do PIB real, na ordem dos 0,7%, não sinaliza o fim da recessão (como foi já proclamado), mas, em vez disso, a sua continuação.Vejam o seguinte: As mesmas fontes oficiais reportam, no mesmo trimestre, uma taxa de inflação de -1,80%, ou seja, deflação. O que significa que o aumento de 0,7% no PIB real foi devido a uma taxa de crescimento negativa do PIB nominal! Por outras palavras, tudo o que aconteceu é que os preços caíram mais rapidamente que o rendimento nominal nacional. Não é exatamente a causa para proclamar o fim de seis anos de recessão!
Esta lamentável tentativa de apresentar uma nova versão das “estatísticas gregas”, com o fim de declarar que a crise grega acabou, é um insulto a todos os europeus que, merecem conhecer a verdade sobre a Grécia e sobre a Europa. Então, deixem-me ser franco: a dívida da Grécia é actualmente insustentáveis e nunca será paga, especialmente enquanto a Grécia for submetida ao contínuo afogamento orçamental. A insistência nestas políticas sem saída, e na negação da aritmética simples, fica caro ao contribuinte alemão, enquanto, ao mesmo tempo, condena uma orgulhosa nação europeia à indignidade permanente. O que é ainda pior: Desta forma, em pouco tempo, os alemães voltam-se contra os gregos, os gregos contra os alemães e, sem surpresa, o ideal Europeu sofre perdas catastróficas.
A Alemanha, e em particular os trabalhadores alemães que trabalham no duro, nada têm temer de uma vitória do SYRIZA. O oposto já devem temer. A nossa tarefa não é confrontar os nossos parceiros. Não é para garantir empréstimos maiores ou, de forma equivalente, o direito a défices mais elevados. A nossa meta é, ao invés, a estabilização do país, orçamentos equilibrados e, claro, o fim do grande aperto dos contribuintes gregos mais fracos no âmbito de um acordo de empréstimo que é simplesmente inexequível. Estamos empenhados em acabar com a lógica do ‘prolongar e fingirnão para os cidadãos alemães, mas para todos os europeus, tendo em vista as vantagens mútuas.
Caros leitores, eu entendo que, por trás da vossa “exigência” de que o nosso governo cumpra todas as suasobrigações contratuaisesconde-se o medo de que, se nos derem espaço para respirar, voltarGemos aos nossos maus e velhos hábitos. Eu reconheço essa ansiedade. No entanto, deixem-me dizer que não foi o SYRIZA que incubou a cleptocracia que hoje finge lutar por “reformas”, desde que essas “reformas” não afectem os seus privilégios ilícitos. Estamos prontos e dispostos a introduzir reformas importantes para as quais, procuramos agora por um mandato para as implementar, a partir do eleitorado grego, naturalmente, em colaboração com os nossos parceiros europeus.
A nossa tarefa é trazer um novo contracto Europeu, no qual o nosso povo possa respirar, criar e viver com dignidade.Uma grande oportunidade para a Europa está prestes a nascer na Grécia a 25 de Janeiro. Uma oportunidade que a Europa não se pode dar ao luxo de perder.

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This entry was posted on 11 de Março de 2015 by in Europa, Grécia, Resgates, União Europeia, zona euro and tagged , , , .

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