A Arte da Omissao

A guerra civil árabe

Tradução do artigo, The Arab Civil War, de Thierry Meyssan

Retomando um tema por ele já investigado, Thierry Meyssan demonstra que, para além das estratégias dos Estados, os povos do mundo árabe dividem-se agora em dois campos, os quais são definidos nem pela luta de classes, nem pela resistência ao sionismo nem pelo conflito religioso. O confronto, que está actualmente a ser generalizado, com o bombardeamento do Iémen pela Arábia Saudita, revela uma divisão social nunca esperada – surgem dois novos campos em torno da questão dos direitos das mulheres.

| Damasco (Síria) | 30 de Março de 2015

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Símbolos da resistência de Mouamar el-Kadhafi para os islâmicos, o líderbio cercou-se de guarda-costas do sexo feminino. No entanto, depois de o terem linchado e sepultado, a NATO justificou o seu crime para a opinião pública ocidental,  ao «revelar» que as amazonas não eram mais do que prostitutas nas mãos de um predador sexual. Esta propaganda foi espalhada através de um livro, baseado apenas num único testemunho, o da «jornalista» do Le Monde, Annick Coljean.

O Ocidente aplaude o bombardeamento ao Iémen pela Arábia Saudita e a tomada de Ileb pela al-Qaeda. E, no entanto, oficialmente, a Al Qaeda é suposta ser uma organização terrorista anti-saudita,  responsável pelos ataques do 11 de Setembro. Então, o que aconteceu, para que os discípulos de Oussama Ben Laden pudessem estar entre os «combatentes da liberdade», como foram uma vez considerados ao lutarem contra os soviéticos no Afeganistão, só porque tomaram Idleb a Bachar el-Assad da Síria?

A verdade no terreno, infelizmente, reforça o que eu escrevi nestas colunas há duas semanas a loucura assassina que tomou conta do mundo árabe não tem nada a ver com as classes sociais, nem com as diferenças ideológicas, nem mesmo com as crenças religiosas. Ao longo dos últimos quatro anos, um grande número de pessoas  reposicionaram-se e mudaram de campo. Pouco a pouco, a situação é cada vez mais clara e uma nova linha divisória está a aparecer sem que as populações estejam cientes dela.

Durante a década de 1950, o mundo árabe foi dividido entre o campo pró-EUA  e o campo pró-russo. Durante a década de 1990, foi dividido entre os pró-israelitas e os da Resistência. Mas a lógica dos interesses dos Estados foi destruída por George W. Bush e Dick Cheney em proveito do lucro e interesses das empresas petrolíferas. E hoje estamos a colher os frutos da política de Barack Obama.

Assistimos a uma explosão de violência por parte dos partidários da poligamia contra os partidários dos direitos das mulheres. As monarquias árabes e a Irmandade Muçulmana defendem uma sociedade dominada por homens, enquanto o Irão e seus aliados defendem uma nova sociedade, em que os homens e as mulheres controlem a sua própria fertilidade e desfrutem da igualdade de direitos. Podemos olhar para a situação de qualquer ângulo, e descobrir que quase não há nenhuma outra diferença entre os dois campos.

Existem duas visões opostas do mundo.

O que têm o alvos das potências ocidentais  em comum Zinedine Ben Ali (Tunísia), Hosni Moubarak (Egipto), Mouamar el-Kadhafi (Líbia), Bachar el-Assad (Síria), Nouri al-Maliki (Iraque), Sheikh Ali Salman (Bahrein), e Abdul-Malik al-Houthi (Iémen)? Nada, excepto que todos lutam contra a poligamia. O que têm os adeptos do Ocidente em comum os Estados Membros do Conselho de Cooperação do Golfo e Irmandade Muçulmana? Estão todos a favor da poligamia.

Esta é a  única linha divisória que separa o mundo árabe de hoje, com excepção do Iraque e Egipto. No primeiro país, os Estados Unidos ainda não definiram claramente os seus parceiros. Oficialmente, eles apoiam Haider al-Abadi contra o Daesh, mas a imprensa iraniana e iraquiana têm demonstrado que os EUA estão a jogar um jogo duplo, e que deliberadamente entregaram armas ao Daesh e mataram soldados iraquianos. Em relação ao Egipto, o presidente al-Sissi ainda hesita entre a sua concepção pessoal a favor dos direitos das mulheres e a do seu patrocinador saudita, cujo dinheiro é indispensável para a economia do seu país a caminho da falência.

Anos de propaganda cegaram-nos.

Pensámos, erradamente, que os códigos de vestuário do Irão eram equivalente aos dos sauditas. No entanto no Irão, as mulheres tomaram o controle da sua fertilidade nos primeiros anos da Revolução por outras palavras, antes mesmo das  mulheres da maioria dos Estados da Europa. Elas superam fortemente os homens nas universidades e também exercitam as mais altas responsabilidades. Por outro lado, na Arábia Saudita, não têm direitos pessoais.

Nós pensámos, erradamente, que o mundo muçulmano estava dividido entre sunitas e Chiites que estão trancados numa guerra impiedosa e permanente. Mas no Iémen, os Houthis, que são a grande maioria a nível nacional, teriam sido incapazes de tomar  Sanaa ou Aden sem o apoio de uma poderosa força sunita, a qual estava em maioria nessas duas cidades. E aqui, na Síria, o Exército Árabe da Síria, apoiado pelo Irão contra os Takfiristas, é composto por mais de 70% sunitas.

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Youssef al-Qaradawi, líder da Irmandade Muçulmana e conselheiro espiritual no canal televisivo Al-Jazeera no Qatar, tornou-se especialista na defesa da poligamia e do direito de bater na mulher. Durante a campanha eleitoral de Mohamed Morsi, no Egipto, ele falou na praça Tahrir, no Cairo, onde  pregou que a sua prioridade política, não era resistir a Israel, mas sim matar homossexuais. Na foto, podemos vê-lo como “convidado de honra” numa reunião da «Oposição Síria moderada».

Podemos estar compreensivelmente chocados ao notar que a primeira acção da «revolução» tunisina – antes da tomada de qualquer decisão legislativa – foi a de organizar o retorno de Rached Ghannouchi, um irmão da Irmandade Muçulmana, que, logo que chegou, propôs reestabelecer a poligamia.

Ficamos surpreendidos ao ver membros do Baas sírio (partido laico de índole socialista -N.d.T) a voltaram-se contra o Estado ou a comunistas iemenitas a voltarem-se contra o seu próprio partido, e todos eles se juntam à al-Qaeda. Basta observar as suas famílias para entender o porquê de mudaram de campo.

E o que pode ser dito sobre os vencedores da Líbia ao anunciarem o restabelecimento da charia?

Estes exemplos surpreendentes são frequentes, mas as oscilações entre os campos pró e contra  Ocidente, são cada vez ainda mais numerosos.

Como sempre, as potências coloniais estão aliadas com as forças locais, que não poderiam vencer sem a sua ajuda, particularmente os partidários da velha ordem mundial. É claro que os Estados Unidos não anteciparam as consequências das suas escolhas. Os estrategas norte-americanos pensam apenas nos seus próprios interesses imperialistas a curto prazo. Hoje surfam sobre a violência que provocaram mas  ultrapassam-na, da mesma forma que ultrapassam as populações envolvidas.

Ninguém pode apagar o fogo que está a consumir o mundo árabe, porque a mudança foi muito rápida. Ninguém pode escapar à questão dos direitos das mulheres.

O Ocidente começou a sua produção industrial de contraceptivos em 1844, mas só com a epidemia da AIDS, um século e meio mais tarde, é que os Estados ocidentais autorizaram a sua publicidade. O diafragma foi inventado em 1880, mas só em 1930 é que o DIU começou a ser amplamente utilizado,  e  a pílula contraceptiva aparecia em 1950.

O controle da fertilidade mudou profundamente a vida dos casais heterossexuais. O casamento arranjado, que era a norma ocidental até à Primeira Guerra Mundial, deu lugar a casamentos por amor após a Segunda Guerra Mundial. Como resultado, a sociedade aceitou a homossexualidade, que até então tinha sido definida como «anti natural», apesar do facto da mesma ter sido observada em todos os mamíferos e em algumas espécies de aves [1].

Olhando para trás, desde Maio ​​de 1968, as sociedades ocidentais – sob a influência da «sociedade de consumo» – estão agora repletas de múltiplos divórcios. Já não é só a mulher, mas ambos os sexos, que são considerados produtos de consumo descartáveis. Pela primeira vez na história da humanidade, a poligamia tornou-se num facto social. Podemos ter tantos maridos e esposas que quisermos, desde que eles se sucedam uns aos outros.

Ao mesmo tempo, as feministas, que uma vez lutaram pela libertação das mulheres, lutam agora muitas vezes para as prender, mas desta vez em papéis masculinos. Elas afirmam que ambos os sexos, embora diferentes, são absolutamente idênticos e negam a existência de pessoas inter-sexuais. (num caso em 700, pessoas com órgãos genitais femininos não carregam cromossomos XX, mas cromossomos XXY, e num caso em 20.000, carregam cromossomos XY, que são, no entanto, considerados masculinos).

É esta a visão do mundo, que nos EUA a advogada feminista Hillary Clinton encarna, tornada Secretário de Estado e principal comandante das «primaveras árabes». Esta ideologia também triunfa na França, com o Partido Socialista e os seus conceitos de «casamento para todos» e «paridade» – durante as últimas eleições, nenhum cidadão tinha permissão para concorrer sozinho. Tornou-se obrigatória a formação de um «binómio» com outro cidadão do sexo oposto legal.

O que o Ocidente tem experimentado com dificuldade ao longo de quase dois séculos, o mundo árabe viveu numa geração.

Se, de um modo geral, os partidários da Arábia Saudita são muçulmanos sunitas, enquanto os partidários do Irão pertencem a todas as comunidades religiosas, existem numerosas excepções que só podem ser explicadas pelas suas atitudes em relação à contracepção.

No século 19, as igrejas cristãs foram violentamente contra a contracepção. Em 1958 o Papa Pio XII condenou a pílula, enquanto em 2015, o Papa Francisco elogiou «a paternidade responsável» e denunciou os cristãos que «se reproduzem como coelhos». Não faz muito tempo, que a Igreja Católica ensinava que a homossexualidade era um pecado contra «o plano de Deus», enquanto hoje, o Papa Francisco declara que Deus seria incapaz de os julgar.

No entanto, a evolução das mentalidades ainda não está completa, uma vez que muitos cristãos ainda consideram que o aborto durante as primeiras semanas de gravidez é um assassinato, quando São Tomás de Aquino, no século 13, demonstrou que um feto de poucas semanas de idade não poderia ser considerado como um ser humano. E o apoio oferecido ao Daesh por alguns jovens muçulmanos ocidentais prova que a batalha para a «paternidade responsável» ainda não está ganha na Europa.

Nos últimos quatro anos, tenho vindo a analisar as estratégias dos diferentes Estados relativas às «primaveras árabes», mas hoje noto que as populações já não obedecem aos que os manipulam. As pessoas são movidas por outra e mais forte força, que toma conta  deles sem se aperceberem, e que os leva à rebelião.

Desde 1936, o IIIº Reich abriu os Lebensborn, estabelecimentos pendentes do ministério da Agricultura, encarregados de produzir e de criar jovens «arianos» por conta das SS.

Talvez possamos voltar a ler a nossa própria história a partir do ponto de vista do que está a acontecer actualmente no mundo árabe. Gostaríamos de ler, com o mesmo espanto, que durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados (Reino Unido, França Livre, União Soviética e Estados Unidos) foram abalados por movimentos feministas, e ofereceram cargos de responsabilidade a mulheres que perderam os seus maridos nos combate. Enquanto isso, as potências do Eixo (Alemanha, Itália, França ocupada e Japão) proibiram a contracepção e persistiram em manter as mulheres longe de toda a responsabilidade, apesar da necessidade.

[1] Biological Exuberance : Animal Homosexuality and Natural Diversity, Bruce Bagemihl, St. Martin’s Press (1999). Against Nature ? – an exhibition on animal homosexuality, University of Oslo (2006).

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