A Arte da Omissao

O que não sabe sobre os acordos entre os Estados Unidos e o Irão

 Plano a  dez anos de Washington para o futuro do Médio Oriente

Tradução do artigo, What you don’t know about the United States – Iran agreements, de Thierry Meyssan

Durante os últimos dois anos, os Estados Unidos têm secretamente negociado um cessar-fogo regional com o Irão. Tendo agora chegado a um acordo bilateral, anunciaram uma solução para a questão nuclear e para as sanções económicas, no âmbito das negociações multilaterais que se arrastam desde 2003. Uma testemunha privilegiada, Thierry Meyssan, revela o que está em jogo com este imbróglio diplomático, e como Washington pretende organizar o Levante e a região do Golfo para os próximos dez anos.

| Damasco (Síria) | 6 de Abril de 2015

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John Kerry e Mohammad Javad Zarif concluíram um pré-acordo político bilateral secreto. Ao o fazerem, também concluíram um acordo público no âmbito do quadro das negociações multilaterais 5+1.

As conversações bilaterais secretas

Desde Março de 2013 que os Estados Unidos e Irão falam em segredo. Esses contactos não anunciados começaram em Omã. Para os iranianos, sufocados com o cerco económico e monetário sem precedente histórico, não era uma questão de cederem ao imperialismo, mas de chegarem a um cessar de fogo por alguns anos, apenas o tempo suficiente para recuperarem as forças.

Para os Estados Unidos, que esperam ser capazes de mover as suas tropas do Próximo Oriente (refere-se  em particular à Turquia, Líbano, Síria, Iraque, Israel, Jordânia, Arábia Saudita e outras nações da Península Arábica – NdT) para o Extremo Oriente, esta oportunidade deveria ser acompanhada de garantias específicas dadas por Teerão de que esta não se aproveitaria do acordo para estender um pouco mais a sua influência.

A equipe dos EUA foi dirigida por dois negociadores de primeira classe, Jake Sullivan e William Burns. Nós não sabemos quem compôs a delegação iraniana. O Sr. Sullivan foi um dos principais conselheiros da secretária de Estado, Hillary Clinton, mas não compartilhava o apoio cego a Israel nem a fascinação pela Irmandade Muçulmana de Hillary. Sullivan organizou as guerras contra a Líbia e Síria. Quando Hillary foi expulsa pelo presidente Obama, o ele tornou-se conselheiro na Agência de Segurança Nacional do vice-presidente Biden. É sob estes auspícios que se envolveu nas negociações com o Irão. Quanto ao Sr. Burns,  é um diplomata de carreira e diz-se, um dos melhores dos Estados Unidos. Juntou-se às negociações  na  qualidade de  ajudante de Secretário de Estado John Kerry.

Pelo menos duas decisões resultaram destas conversações.

A primeira, diz respeito ao  líder supremo do Irão, Aiatolá (sob as leis do Islão xiita é o mais alto dignitário na hierarquia religiosa-NdT) Ali Khamenei, que concordou em excluir Esfandiar Rahim Mashaie exchefe dos serviços de inteligência da Guarda Revolucionária e Chefe de Gabinete e parente Mahmoud Ahmadinejad da corrida presidencial. Desta forma, o Irão baixaria o seu tom nas instâncias internacionais.

Os EUA teriam que ter o cuidado de reduzir o tom dos seus aliados anti-iranianos e de desbloquear as negociações dos 5 + 1 (grupo de países que  juntaram esforços diplomáticos desde 2006, para a resolução do “alegado” programa nuclear iraniano, NdT) referentes à questão nuclear, de  forma a pôr fim às sanções económicas.

E, de facto e para surpresa de muitos, o Conselho dos Guardiões da Constituição (metade dos membros foram nomeados pelo Aiatolá Khamenei), desqualificaram a candidatura de Esfandiar Rahim Mashaie, quando as projecções lhe davam claramente a victória  na primeira volta. Graças à divisão entre as fileiras dos revolucionários, habilmente cultivadas pelo Líder Supremo, o Cheikh Hassan Rohani (sétimo Presidente iraniano, com mandato iniciado em 2013), foi eleito em seu lugar.

Hassan era o homem da situação, clérigo nacionalista e tinha sido o negociador chefe da questão nuclear 2003-2005. Aceitou todas as exigências europeias antes de ser demitido das suas funções por Mahmoud Ahmadinejad (sexto presidente iraniano, com mandato de 3 de Agosto de 2005 a 3 de Agosto de 2013), ao se tornar presidente. Estudou direito constitucional na Escócia e foi o primeiro iraniano a ser contactado por Israel e  Estados Unidos durante o Irangate. Durante a tentativa da “revolução colorida” de 2009 organizado pela CIA com a ajuda dos aiatolás Rafsanjani e Khatami, Hassan tomou a posição dos pró-ocidentais contra o presidente Ahmadinejad. Ao mesmo tempo, a sua posição de clérigo permitiu que os  mollahs retomassem o Estado aos Guardiões da Revolução.

Por sua vez, os Estados Unidos deram instruções aos seus aliados sauditas para baixarem o tom  e oferecerem uma recepção benevolente ao novo governante iraniano. Por alguns meses, Riade (maior cidade da Arábia Saudita-NdT) e Teerão (capital do Irão – NdT) eram só sorrisos, enquanto o Cheikh Rohani fazia contactos pessoais com o seu homólogo norte-americano.

O plano da Casa Branca

A ideia da Casa Branca era ter em conta os sucessos iranianos na Palestina, Líbano, Síria, Iraque e Bahrein e deixar Teerão desfrutar da sua influência nesses países, querendo em troca a  renuncia do Irão à expansão da sua revolução. Tendo abandonado a ideia de dividir o Médio Oriente com os russos, Washington olhava agora para a possibilidade de o distribuir entre a Arábia Saudita e  Irão, antes de retirarem as suas tropas.

O anúncio dessa possível divisão, reforçou de repente a análise dos eventos regionais como sendo um conflito entre sunitas (sauditas) e xiitas (Irão), o que por si é um absurdo, uma vez que as religiões dos líderes locais muitas vezes não correspondem às religiões dos seus apoiantes.

No entanto, essa divisão mandou o  Médio Oriente de volta para o período do Pacto de Bagdad [1], em outras palavras, à Guerra Fria, só que agora o Irão  faz o papel da URSS, e as zonas de influência eram compartilhadas de forma diferente.

Para além do facto que isto só poderia irritar a actual Federação da Rússia, esta nova distribuição mandou também Israel de volta ao período em que não tinha o guarda-chuva dos Estados Unidos. Do ponto de vista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, partidário da expansão de seu país «do Nilo ao Eufrates», tal é inaceitável. Ele, tentou tudo  ao seu alcance para sabotar a continuação do programa.

É por isso que, apesar de ter sido alcançado em Genebra no início de 2014, um acordo sobre a questão nuclear, a negociadora norte-americana, Wendy Sherman, apoiou-se nas reivindicações israelitas, com a fim de aumentar as apostas. De repente, afirmou que Washington não iria aceitar as garantias de que o Irão não construiria uma bomba atómica, mas também exigiria garantias de que desistiria do seu desenvolvimento em mísseis balísticos. Esta exigência surpreendente foi rejeitada pela China e Rússia, uma vez que tal  não estava abrangida no  Tratado de Não Proliferação ou nas competência dos 5 + 1.

Este novo desenvolvimento mostra que a bomba atómica nunca foi a preocupação dos Estados Unidos,  mesmo que o tenham usado como pretexto para conter o Irão com um cerco económico e monetário terrível. Além disso, o  presidente Obama reconheceu-o implicitamente no seu discurso do 02 de Abril, ao aludir o decreto religioso do Líder Supremo que proíbe este tipo de arma [2]. Na realidade, a República Islâmica do Irão abandonou o seu programa nuclear militar pouco depois da declaração do Aiatolá Khomeiny contra as armas de destruição em massa em 1988. A partir desse momento, Teerão só continuou a investigação para fins civis, embora certos elementos dela possam ter implicações militares, como por exemplo, no uso para abastecer navios de guerra. A posição do I Khomeiny tornou-se lei com o decreto religioso do Aiatolá Khamenei, a 09 de Agosto de 2005 [3].

Em todo o caso, embora Washington considere Benjamin Netanyahu um «fanático histérico», passou o ano de 2014 a tentar o acordo com o Tsahal (Forças de Defesa Israelitas, NdT). Progressivamente foi sendo criada a ideia de que na distribuição regional entre Arábia Saudita e Irão, teria que haver um sistema de protecção para a colónia judaica.

Essa ideia começou a dar forma ao projecto de criação de uma espécie de novo Pacto de Bagdad as instâncias regionais da NATO, oficialmente colocadas sob a presidência da Arábia Saudita só com o fim de que o pacto fosse aceite pelos árabes, eram na realidade presididas por Israel tal como o velho Pacto era na realidade presidido pelos Estados Unidos, que nem membros eram. Este projecto foi tornado público pelo presidente Barack Obama na sua Doutrina de Segurança Nacional, a 06 de Fevereiro de 2015 [4].

O acordo nuclear e o fim das sanções foram assim adiadas. Washington organizou a revolta do Tsahal contra Benjamin Netanyahu, convencida de que o primeiro-ministro não iria ficar no poder por muito tempo. Mas, apesar da criação dos Comandos para a Segurança de Israel e os apelos a quase todos os antigos oficiais superiores para não  votarem em Netanyahu, este conseguiu convencer o eleitorado de que era o único homem para proteger a colónia judaica. Netanyahu foi reeleito.

No que diz respeito à Palestina, Washington e Teerão concordaram em congelar a situação Israelita e criar um Estado palestino em conformidade com os acordos de Oslo. Netanyahu, que espionava não só as negociações dos 5 + 1, mas também as conversações bilaterais secretas, reagiu violentamente, ao anunciar publicamente que, enquanto  fosse vivo, Israel nunca aceitaria o reconhecimento do Estado Palestino. Assim, declarou que Tele Avive não tinha nenhuma intenção de respeitar a sua assinatura nos acordos de Oslo, e que tinha continuado com as negociações com a Autoridade Palestina ao longo dos últimos vinte anos, só para ganhar tempo.

Força Árabe Militar Conjunta

Impacientes para acabarem com isso, Washington e Londres, escolheram finalizar com a rebelião iemenita. Os Houthi Chiites, aliados dos soldados fiéis do expresidente Saleh, exigiram e obtiveram a renúncia do presidente Hadi (presidente do Iémen, NdT),  que de repente mudou de ideias. Na verdade, Hadi há muito tempo que não era legítimo nem legal. Ele tinha estendido o seu poder no final do seu mandato com base em compromissos que nunca tencionou respeitar. Nem os Estados Unidos nem o Reino Unido tinham qualquer simpatia particular a ambos os lados, lados esses que apoiaram alternativamente em diferentes momentos. Eles permitiram que a Arábia Saudita afirmasse que esta revolução foi um golpe de Estado, para mais uma vez tentarem anexar o país. A operação militar para apoiar Aden, foi organizada por Londres a partir do Estado pirata da Somalilândia. Ao mesmo tempo, usando a crise iemenita como pretexto, a Liga Árabe divulgou a parte árabe da nova NATO regional – a Força Árabe Militar Conjunta.

Três dias depois, os acordos  dos 5 + 1, negociados no ano anterior vieram a público [5]. No entanto, nesse meio tempo, o secretário de Estado John Kerry e o seu homólogo iraniano, Mohammad Javad Zarif, passaram um dia inteiro a rever todos os pontos políticos em discussão. Foi decidido que Washington e Teerão reduzirão as tensões na Palestina, Líbano, Síria, Iraque e Bahrein nos próximos três meses, e que o acordo de Genebra será assinado no final de Junho, permanecendo o mesmo válido nos próximos dez anos, se ambas as partes mantiverem as suas palavras.

Consequências

- É provável que ao longo dos próximos três meses, o Sr. Netanyahu leve a cabo outra tentativa para sabotar o plano dos EUA. Não será portanto surpreendente, se viermos a ver mais reclamadas acções terroristas ou assassinatos políticos, cuja responsabilidade poderá ser atribuída a Washington ou ao Teerão, cujo fim a atingir é só sabotar  a assinatura do Acordo de Genebra, programado para  30 de Junho de 2015.

No entanto, será lógico que Washington incentive a evolução política em Israel, a qual poderá limitar os poderes do primeiro-ministro Netanyahu. É nesse sentido que deverá ser lido o discurso muito difícil do presidente Reouven Rivlin (actual presidente de Israel, NdT), quando deu posse a Netanyahu  na formação do próximo governo.

- Iémen nunca foi examinado no âmbito das discussões bilaterais. Se o acordo for assinado, o Iémen pode vir a ser, o ponto único remanescente de conflito na região ao longo dos próximos dez anos.

- Enquanto Washington conclui o acordo com Teerão e promove uma aliança militar em torno da Arábia Saudita, conduz ao mesmo tempo a política inversa com as sociedades destes dois Estados. Por um lado, favorece a divisão da região entre Estados, e, por outro, fragmenta as sociedades através do terrorismo, chegando ao ponto de criar um sub-Estado terrorista, o Emirado Islâmico («Daesh»).

- Inicialmente, os Estados Unidos tinham planeado constituir a Força Árabe Militar Conjunta com os Estados do Golfo e Jordânia, e mais tarde talvez com Marrocos. Há uma coerência entre os regimes em causa. No entanto, o país Omã manteve a sua distância, apesar de ser membro do Conselho da Cooperação do Golfo. A Arábia Saudita está a tentar usar a sua influência para oferecer a adesão ao Egipto e Paquistão, apesar deste último não ser um país árabe.

No que diz respeito ao Egipto, Cairo não tem nenhum espaço de manobra e terá de concordar com todos os pedidos, sem nunca se envolver na acção. O país não tem meios de subsistência, só é capaz de alimentar a sua população com a ajuda internacional, por outras palavras, com a ajuda da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, da Rússia e dos Estados Unidos.

O Egipto viu-se arrastado na operação «Decisive Tempest» no Iémen, mais uma vez ao lado do Sul, tal como foi durante a guerra civil (1962-1970), com a excepção de que desde então, os ex-comunistas tornaram-se membros da Al-Qaida, e Cairo é agora aliado da monarquia saudita. Claramente, o Egipto precisa sair dessa bagunça o mais rapidamente  possível.

- Além do Levante e do Golfo, a evolução da situação regional vai causar problemas à Rússia e China. Para Moscovo, enquanto o cessar fogo de dez anos é uma boa notícia, não é fácil ter que abandonar as suas esperanças no proveito do Irão, simplesmente porque levou muito tempo a reconstruir as suas forças depois da dissolução da URSS. Este é o ponto do acordo com a Síria em desenvolver o porto militar de Tartous. A marinha russa tem de recuperar um lugar durável no Mediterrâneo, tanto na Síria como no Chipre.

Em relação à China, o cessar fogo americano-iraniano vai levar rapidamente à transferência do GI do Golfo para o Extremo Oriente. O Pentágono considera já a construção da maior base militar do mundo em Brunei. Para Pequim, é vital colocar as suas forças armadas ao mesmo nível a China tem de estar pronta para enfrentar o império dos Estados Unidos antes que os  EUA estejam prontos para a atacar.

[1] The Middle East Treaty Organisation (or Central Treaty Organisation – CENTO) or « Bagdad Pact » was a regional alliance, first of all piloted by London, then by Washington, although the United States are not members, in order to contain Soviet influence as well as to secure the pro-Western powers. It was signed in 1955 and ended in 1974 with the Turko-Cypriot war. It was officially dissolved in 1979 by the Iranian Revolution. It concerned Iraq, Iran, Pakistan, Turkey, and the United Kingdom.

[2] “Barack Obama on Framework to Prevent Iran from Obtaining Nuclear Weapons”, by Barack Obama, Voltaire Network, 2 April 2015.

[3] There is an exhaustive study of the Iranian nuclear crisis in – « Who’s afraid of Iran’s civil nuclear programme ? », by Thierry Meyssan, Voltaire Network, 30th June 2010.

[4] “Obama Rearms”, by Thierry Meyssan, Translation Roger Lagassé, Voltaire Network, 10 February 2015.

[5] “Parameters for a Joint Comprehensive Plan of Action regarding the Islamic Republic of Iran’s Nuclear Program (summary)”, Voltaire Network, 2 April 2015.

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Notas:

Links desta cor são da minha responsabilidade

 muitas vozes credíveis se têm levantado ao longos dos anos

Wesley Clark  em 2007 deu uma entrevista onde referiu os planos de ataque dos Estados Unidos  para os 5 anos seguintes (começa no segundo 21). Aqui podemos vê-lo a referir que a desestabilização  do Médio Oriente, já estava planeada em 1991

 


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One comment on “O que não sabe sobre os acordos entre os Estados Unidos e o Irão

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This entry was posted on 29 de Abril de 2015 by in Afinal Quem é Terrorista?, Irão, Israel, Nato, USA and tagged , , , .

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