A Arte da Omissao

A Turquia de hoje continua o genocídio arménio

O mundo acaba de comemorar o centenário do genocídio dos não-muçulmanos na Turquia. No entanto, ao contrário da crença popular, este crime começou com os massacres Hamidianos de 1894-1895, ordenados pelo Sultão Abdulhamid II, continuou com os massacres de 1915-1923, planeados pelos Jovens Turcos, e continua hoje com os massacres de Deir ez-Zor e Kessab,  organizados por Recep Tayyip Erdoğan (presidente da Turquia-NdT). Durante 120 anos, sucessivos governos turcos massacraram os não-muçulmanos  para formarem uma nação homogénea.

| Damasco (Síria) | 26 de Abril de 2015
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Neste artigo, não tratarei das questão das reparações porque poluem o debate, apenas unicamente a forma com a qual nos devemos opor contra crimes contra a humanidade. Eu uso o termo genocídio no seu significado original, dado por Raphael Lemkin: “destruição de uma nação ou de um grupo étnico. [1]

O centenário do genocídio dos não-muçulmanos na Turquia resultou num festival de hipocrisia. Enquanto alguns Estados celebraram a memória das vítimas em Erevan (capital da Arménia-NdT), outros revelaram não ter vergonha.

- A Turquia, cujos antepassados cometeram o crime. O Presidente Erdoğan teve a oportunidade de confessar essa história muito antiga, da qual ele não é responsável. Poderia deste modo, fazer do seu país um Estado normal. Mas não! Apegou-se às mentiras, negou a história, alegando que havia “apenas” 100 mil mortos e que foram mortos devido aos seus envolvimentos em acções terroristas.

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O Sultão Abdulhamid II quis criar uma Turquia islamita homogénea. Para o conseguir, precisava de fazer com que as populações não muçulmanas fugissem ou fossem mortas.

Hoje a Turquia manifesta não só o apoio aos massacres Hamidianos do Sultão Abdulhamid II (1894-1895) – os quais  fizeram entre 80.000 a 300.000 vitimas -,   como e em especial aos crimes cometidos pela «Organização especial», Comissão de União e Progresso, de 1915 a 1923 -,  que matou entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de pessoas e a continuidade ideológica com o regime de então.

O que todos vimos com horror em 2014, foi o exército turco a acompanhar a Frente Al-Nusra (isto é, a Al Qaeda na Síria) na perseguição da população arménia em Kessab. Ou ainda quando o exército turco ajudou o Daesh a dinamitar o Memorial Deir ez-Zor, comemorativo do extermínio de mais de 200 mil arménios no acampamento que os turcos haviam instalado em 1916.

 O Pan-islamismo (defende a unidade dos muçulmanos sob um estado islâmico), projecto do Sultão Abdulhamid II e dos então Jovens Turcos, tais como o AKP de hoje, significa ser o líder do mundo sunita, e para isso, é necessário criar um estado homogéneo sunita. Esse projecto necessitava de exterminar os cristãos (arménios, gregos ponticos e assírios-caldeus) bem como os Yezidi. Todos o foram. Assim como o Daesh extermina hoje os cristãos e os Yezidi.
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Ismail Enver diz Enver Pasha“, derrubou o Sultão Abdulhamid II mas continuou a sua política de genocídio.

A intervenção do exército turco na Síria, em Kessab e Deir ez-Zor, é consistente com esse projecto. Erdoğan esperava  anexar o norte da Síria, após a NATO derrubar o presidente Bashar al-Assad. É um facto, a ideologia pan-islâmica é agora suportada pela Irmandade Muçulmana (pelo AKP, que é controlado pela filial turca da Irmandade), pela Al Qaeda e pelo Daesh.

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Este é outro facto. Durante um século nesta região, apenas a Turquia e o Daesh cometeram crimes de genocídio. E hoje, a Turquia ajuda o Daesh a perpetuá-lo.

Não podemos ficar surpreendidos com o facto da Turquia e o Daesh estarem em guerra contra a República Árabe da Síria, porque ela encarna o projecto oposto. O país mais antigo do mundo sempre acolheu os povos perseguidos da região e dessa forma se tornou no actual “mosaico étnico”. Na década de 2000, o Ministro da Defesa de Assad, o general Hassan Tourekmani, elaborou uma doutrina de defesa”, baseada na conservação desta diversidade. [2]

 - Israel. Um Estado criado nem 1917, na sequência de um acordo entre Londres e Washington, mas que afirma  ter sido formado em resposta ao genocídio dos judeus europeus pelos nazis em 1942-1945. A sua ausência em Erevan, alegadamente para não ofender o seu aliado turco, demonstra que a sua retórica nada mais é do que uma justificação de propaganda para mascarar o seu próprio projecto colonial. É também o reconhecimento do papel dos Dönmehs dentro dos Jovens Turcos. Os Dönmehs formam uma seita Cabalista que se converteu ao Islão no século XVII, para escapar da perseguição, mas que manteve a sua fé judaica.

O apoio de Israel no genocídio de 1915 não é novidade, mas até hoje, nunca tinha sido expressa oficialmente. Todavia, lembramo-nos da posição do Professor Bernard Lewis, ex-assessor de Netanyahu, quando era embaixador na ONU e membro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, e sobretudo como o melhor historiador da Turquia contemporânea. O inventor da estratégia da “guerra de civilizações” disse no diário Le Monde,  que o massacre foi exagerado e nunca havia sido planeado, ainda que neste caso – ao contrario do genocídio dos judeus pelo nazis – existam documentos com a ordem de execução do crime e que mostram que os governos ocidentais foram informados com antecedência. Bernard Lewis foi condenado em França por ter prejudicado os interesses da comunidade arménia, ocultando de má-fé, elementos históricos que invalidam a sua apresentação dos factos. [3]

 

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O Professor Bernard Lewis negou sempre o genocídio perpetrado pelo governo turco no século XX.

- Os Estados Unidos. O Presidente Obama nomeou Samantha Power embaixadora na ONU. Samantha é autora do estudo “A Problem from Hell“: América e o Age of Genocide (Um problema do Inferno: A América e a Era do Genocídio).

Esse estudo, que parte do genocídio arménio e da resposta jurídica que Raphaël Lemkin tentou levar para a Liga das Nações, narra as reacções de Washington perante os crimes cometidos no Camboja, Iraque, Bósnia, Ruanda e Kosovo. Descaradamente manipula a verdade histórica, exonera o seu país das suas responsabilidades e apela que ele venha a ser uma autoridade moral na oposição a qualquer genocídio. Mas Power também esteve ausente em Erevan, bem como outro qualquer representante político do seu país.

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A Embaixadora Samantha Power, opôs-se no Conselho de Segurança a condenar a intervenção turca ao lado de Al Qaeda, contra os arménios de Kessab.

Para aqueles que acreditaram que os Estados Unidos tinham mudado e que hoje procuravam sinceramente proteger  as pessoas perseguidas por causa da sua pertença a uma fé ou a um grupo étnico, a falta de representação dos EUA em Erevan, mostrou que Washington não tem moral, apenas interesses. Com esta  ausência, Washington mostrou que está ao lado de crime, da Turquia e do Daesh.

 As declarações do Presidente Gauck

Reconhecendo “uma co-responsabilidade e até mesmo, potencialmente, uma cumplicidade” alemã nos massacres de 1915, o Presidente alemão Joachim Gauck levantou o tabu, o da continuidade do crime. E fê-lo com muita coragem quando existe na Alemanha uma forte presença turca  e nenhum eleitorado arménio.

Foi já há muito tempo que os historiadores estabeleceram o papel da delegação alemã no genocídio. Assim, as ordens de deportação assinadas pelo Vice-Chefe do Estado Otomano, o general alemão Fritz Bronsart von Schellendorf, foram publicadas. O Império alemão de Guillaume II já foi julgado de genocídio ao exterminar em 1905, os Hereros e os Namas no sudoeste da África (actual Namíbia). Os oficiais alemães que assistiram e ocasionalmente participaram no genocídio dos não-muçulmanos na Turquia usaram os seus conhecimentos adquiridos no regime nazista. Por exemplo, o caso de Rudolf Höß: o seu pai participou no genocídio do Herero em 1905, ele próprio no dos arménios em 1916. De seguida, foi comandante do campo de Auschwitz entre 1940 a 1943 onde matou judeus, ciganos e eslavos.

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Funcionário exemplar, Rudolf Höß adquiriu conhecimento em genocídios na Turquia durante o segundo Reich e, de seguida, ocupou o lugar de director do campo de Auschwitz durante o terceiro Reich.

Para compreender  e evitar o genocídio, nós devemos estudá-lo do ponto de vista das vítimas, mas incluindo os carrascos.

Até agora, consideramos erroneamente, que os Jovens Turcos e os nazis são os únicos responsáveis pelos genocídios  dos arménios e dos judeus. Mas a História mostra-nos que as ideologias que conduziram a eles, foram compartilhadas por outros, antes e depois, que tentaram igualmente perpetuá-los Ao contrário do que imaginamos, não há nenhum exemplo de genocídio que tenha sido feito apenas uma só vez, ou a uma única população. Esses crimes existem há muito tempo e estão relacionados com vários grupos étnicos. Assim, é essencial condenar os primeiros massacres e condenar as ideologias subjacentes para impedir que continuem.

 [1] La Convention de l’Onu de 1948 définit le génocide de manière plus large comme des « actes commis dans l’intention de détruire, en tout ou en partie, un groupe national, ethnique, racial ou religieux » (ainsi le génocide n’est pas nécessairement un meurtre : stériliser une population pour la faire disparaître suffit). Au cours des dernières années, le mot a prit des sens complètement différent selon les contextes. Pour les uns, il est purement quantitatif. Ils parlent ainsi de génocide pour traiter de massacres de masse (par exemple, l’extermination de population par la famine imputable au système économique). Pour d’autres, principalement des juristes anglo-saxons, il est exclusivement qualitatif. Il désigne alors n’importe quel meurtre de haine pourvu qu’il soit fondé sur la race ou la religion (assassiner une seule personne en raison de sa couleur de peau par exemple).

[2] Les ouvrages du général Tourekmani ne sont disponibles qu’en langue arabe, mais son fils Ali Tourekmani a récemment publié une étude sur son œuvre, Pourquoi la Syrie ?, actuellement en cours de traduction.

[3] « Condamnation judiciaire de Bernard Lewis », Réseau Voltaire, 8 juin 2004.

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Nota:

Links desta cor e realces desta são da minha responsabilidade.

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Carta dos arménios de Kessab ao mundo

 

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