A Arte da Omissao

Como o Mercado Comum do Sul e a União Eurasiana desafiam os Estados Unidos e a hegemonia do dólar

Tradução do artigo, How the Common Market of the South and the Eurasian Union defy the United States and the hegemony of the dollar, de Ariel Noyola Rodríguez
À luz da ofensiva que Washington lançou contra a Rússia e governos democraticamente eleitos na América Latina, a parceria estratégica entre o Mercado Comum do Sul e a União Eurasiana surge como um mecanismo crucial na defesa da soberania e do desenvolvimento de uma ordem mundial multipolar, que cada vez mais se distancia da órbita do dólar e menos se centra na economia americana.
| Cidade do México  (México) | 20 de Março de 2015
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As estratégias da contenção económica contra Moscovo e Caracas, estimuladas por Washington,  apressou a reconfiguração de alianças no sistema mundial. Embora a Rússia esteja geograficamente localizada no hemisfério norte, a sua agenda diplomática mostra mais conexão com as economias emergentes. O mesmo está a acontecer nos países latino-americanos. De acordo com o chanceler russo, Serguey Lavrov, a América Latina está a tornar-se  num pilar fundamental na construção de uma ordem mundial multipolar.

É fundamental esta complementaridade económica entre ambas as partes. As exportações russas para a América Latina concentram-se em mais de 50% em fertilizantes, minerais e combustível. Enquanto isso, Moscovo compra-lhes produtos agrícolas, carne e componentes electrónicos. De acordo com as projectos elaborados pelo Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, o comércio bilateral poderá chegar a 100 biliões de dólares em 2030, um aumento de 500%.

No entanto, existem vários desafios. A recessão da economia mundial, a tendência deflacionária (queda de preços) no mercado de mercadorias em particular no mercado do petróleo), a crise económica do continente asiático mais as sanções económicas impostas pelos Estados Unidos  e União Europeia revelaram a necessidade urgente da Rússia e países da América Latina aumentarem a sua relação diplomática.

Resultante da queda no comércio entre a Rússia e a União Europeia, a América Latina de alguma forma emergir como um mercado substituto e, ao mesmo tempo, ser o principal destinatário de investimentos em alta tecnologia. Neste sentido, os projectos de investimento do Consórcio Nacional de Petróleo (composto por Rosneft, Gazprom Neft LUKoil, TNK-BP e Surgutneftegas), envolvidos com empresas do Brasil, Argentina, Venezuela e Guiana Cuba, entre outros países, precisam de  destaque.

Além disso, existe uma ampla gama de possibilidades para o desenvolvimento de alianças científico-tecnológicas que, por um lado, estimularão o desenvolvimento industrial na América Latina, e, por outro lado, contribuirão para a diversificação das exportações a partir de Moscovo, que actualmente se concentram em hidrocarbonetos.

O longo período de estagnação da economia mundial, os conflitos inter-estatais sobre a garantia de fornecimento de matérias-primas fundamentais (petróleo, gás, metal, minerais, terras raras, etc.), estimulam o desenvolvimento de alianças estratégicas através de acordos comerciais preferenciais, de investimentos comuns no sector da energia, de  transferências tecnológicas, de cooperação técnico-militar, etc.

Sob essa mesma perspectiva, a parceria estratégica que a Rússia mantém com vários países da América Latina a nível bilateral (Argentina, Brasil, Cuba, Equador, Nicarágua, Venezuela, etc.) visa expandir-se na região sul-americana através da União Eurasiana (Rússia, Bielorússia, Cazaquistão, Arménia e Quirguistão) como um ponto de partida.

O presidente Vladimir Putin propôs em 2011 (num artigo publicado no jornal Izvestia”) converter a União Euroasiática num mecanismo de ponte entre a região da Ásia-Pacífico com a União Europeia, mas o cerco imposto contra a Federação da Rússia pelo Atlântico Norte Organização do Tratado (NATO),  retirou temporariamente essa possibilidade.

Consequentemente, a União Eurasiana rompeu os seus limites continentais através da criação de zonas de livre comércio com a China na Ásia, Egipto no norte da África e com o Mercado Comum do Sul (abreviado de Mercosul, formada pela Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela) na América Latina.

Ao longo dos últimos anos, a parceria estratégica entre a União da Eurásia com o Mercosul tem sido a maior aposta  da Rússia na América do Sul, relativa à integração regional: ambos os blocos têm um território de 33 milhões de metros quadrados, 450 milhões de habitantes, e um PIB combinado de 8,5 triliões de dólares (11,6% do PIB nominal mundial). A parceria estratégica visa dois objectivos. Em primeiro lugar, o seu objectivo é reduzir a presença dos Estados Unidos e da União Europeia dos fluxos de comércio e investimentos extra-regionais. Além disso, o relacionamento visa acelerar o processo mundial de mudança de moeda, de forma a serem usadas moedas nacionais como métodos de pagamento. (relembrar o novo banco, BRICS New Development Bank (NDB), o qual foi configurado para desafiar dois gigantes do ocidente, o banco mundial e FMI. Perspectivas nada do agrado dos Estados Unidos, que começam já a planear virar a sua “artilharia” para o extremo Oriente– NdT)

O desenvolvimento russo de um sistema de pagamento alternativo ao Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT), (China anunciou recentemente o lançamento do seu próprio sistema de pagamentos, o que poderá começar a trabalhar em Setembro), bem como a experiência latino-americana com o Sistema Único de Compensação Regional (SUCRE) para amortecer os choques externos na região como um todo, são evidências do papel crescente de ambas as partes no desenvolvimento de instituições e de novos mecanismos financeiros que saiam da órbita do dólar.

À luz do ataque económico e geopolítico norte-americano, as economias emergentes, sem dúvida, evitam o confronto directo através da regionalização. A União da Eurásia com o Mercosul terão de concentrar os seus esforços de forma sucinta numa maior cooperação financeira e, simultaneamente, coordenar uma frente comum em defesa da soberania nacional e dos princípios do direito internacional. (Direito esquecido, mas que urge relembrar e punir quem o viola -NdT).

Em conclusão, a parceria estratégica entre a União da Eurásia e o Mercosul,  cria uma enorme oportunidade para mostrar ao mundo, uma parte da resposta bem-sucedida de ambos os blocos ao aprofundamento da crise económica que está a acontecer e por isso, contribuir para o enfraquecimento do cimento da hegemonia do dólar.

 

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A União Europeia, boa cumpridora da ordem do embargo à Rússia e entretida com as “guerras” entre o Norte e Sul, nem o vê o comboio que começa a ganhar forma. Mas continua empenhada em perder a soberania, bem como a soberania dos seus Estados Membros, com o “cozinhar” secreto do acordo-de-parceria-transatlantica-de-comercio-e-investimento.

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