A Arte da Omissao

A sabotagem do acordo de cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos

Tradução do artigo, How Israel wants to restart the war in the Levant de Thierry Meyssan

Longe de admitir a derrota, Benjamin Netanyahu (primeiro ministro de Israel- NdT), planeia sabotar o acordo entre Washington e Teerão, cuja assinatura está agendada para 30 de Junho de 2015. Para o fazer, poderá reacender a guerra na Síria. A sua ideia é de continuar o trabalho já realizado pelo Emirado Islâmico no Iraque, Síria, Líbia e Iemen, através da aplicação do plano de Wright e criar um pseudo Curdistão independente, ocupando o Iraque e a Síria.

| Damasco (Síria) | 15 de Maio de 2015

1_-_1_2_-4e3ee-2-56064

O plano Wright, publicado em Setembro de 2013, modifica os projectos para a remodelação do Médio Oriente alargado. No que diz respeito à Síria e ao Iraque, está planeada a criação de um “Sunnistan” e de um “Curdistão”. O primeiro foi criado em 2014 pelo Isalmic Emirate (Daesh), enquanto o último ainda tem de ser realizado. No entanto, os curdos são minoria no Norte da Síria. O plano de Wright também menciona a Líbia, Iémen e Arábia Saudita. Parece estar  em andamento nos dois antigos estados, também graças ao Emirado Islâmico.

 

Visando sabotar o acordo que deverá ser assinado por Washington e Teerão a 30 de Junho, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu preparou um novo episódio da guerra contra a Síria.

Após as tentativas dos Estados Unidos, França o Reino Unido em entregarem o poder à Irmandade Muçulmana (desde Fevereiro de 2011 até à primeira Conferência de Genebra em Junho de 2012), das guerra dos mercenários (desde a Conferência de Paris dos Amigos da Síria em Julho 2012 até à segunda Conferência de Genebra, em Janeiro de 2014) e da tentativa do Emirado Islâmico em semear o caos (a partir de Junho de 2014 até hoje), Israel propõe agora lançar uma quarta parcela da guerra.

O objectivo é prosseguir com a aplicação do plano elaborado por Robin Wright para o Pentágono publicado em Setembro de 2013 pelo New York Times através da criação de um Curdistão independente “a cavalo”  do Iraque e ds Síria [1].

JPEG - 31.6 kb

O general David Petraeus (antigo comandante do CentCom e director da CIA) participou em Março de 2015 num colóquio em Erbil. Lá declarou que os crimes do Emirado Islâmico não ameaçavam nem os Estado-Unidos nem Israel, e apelou ao combate por todos os meios, da influência iraniana e o projecto de acordo Washington-Teerão.

Quem são os curdos?

O povo curdo está espalhado pela Turquia, Irão, Iraque e Síria, mas já não têm um estado desde os falhanços da República de Ararat (1927-1930) e da República da Mahabad (1946-1947). Hoje, encontram-se, principalmente na Turquia (13-20000000), Irão (5 a 6 milhões), Iraque (4 a 5 milhões) e, por fim, na Síria (3 milhões).

- Depois de alguns deles terem participado do genocídio dos cristãos e dos Yezidis, os curdos turcos foram perseguidos por sua vez, durante um século, em nome do «Panturquismo». Durante o período de 1984 a 2000, a repressão da insurreição do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão -NdT) causou pelo menos 40.000 mortes.

- Os curdos iranianos desfrutam de uma certa autonomia, mas estão abandonados economicamente por Teerão.

- Os curdos iraquianos estão ligados à NATO desde o início da Guerra Fria, em primeiro lugar, a ajudar Saddam Hussein na luta contra a revolução de Khomeini, depois a trabalhar contra ele quando a NATO decidiu matá-lo. Hoje gozam de autonomia regional e mantêm embaixadas no estrangeiro.

- Os curdos chegaram à Síria quando fugiram das perseguições turcas, em primeiro durante o reinado de Mustafa Kemal Atatürk, e, depois, há 30 anos atrás, durante a insurreição do PKK. Os que entre eles ainda não se tinham naturalizados, o Presidente Bachar el-Assad no início da guerra  deu-lhes a nacionalidade síria,  e oncluiram um acordo com Damasco, que lhes forneceu armas para defenderem a sua região.

Os curdos são um povo diversificado com fortes tensões internas. Não falam a mesma língua, têm diferentes religiões, mesmo que sejam principalmente sunitas, e todos eles com movimentos políticos opostos. Desde a Guerra Fria, dividem-se entre a facção pró-EUA (a família Barzani, que hoje controla parte do Iraque) e a facção  pró-soviética (Öcallan, que foi sequestrado pelos israelitas em 1999 em nome da Turquia e que está preso desde então).

JPEG - 21.3 kb

Da esquerda para a direita : Meir Amit (director da Mossad), Moshe Dayan (ministro israelita da Defesa) e o seu agente Molla Mustafa Barzani (pai do actual presidente, Massoud Barzani).

O Curdistão iraquiano : máfia e Mossad

Tendo em conta o papel de Israel no império anglo-saxão, a família Barzani originalmente socialista juntou-se à Mossad na década de 1960,  que os usou contra o partido iraquiano Baath [2]. O actual presidente do Curdistão iraquiano, Massoud Barzani, mal visto pelos curdos da Turquia, Irão e Síria, também é membro do Mossad. Ele conseguiu estabelecer uma certa prosperidade no Curdistão iraquiano, graças a investimentos israelitas, e instalou também um regime tipo clã.

O Presidente Barzani segura o poder apesar do seu mandato ter terminado há quase dois anos – uma situação não-democrática que parece não incomodar Washington. Seu governo chafurda em nepotismo e corrupção. Seu clã ocupa os principais cargos de importância, começando com o de primeiro-ministro, reservado ao seu sobrinho Nechervan Barzani, dispõe de 15 bilionários (em dólares) e milhares de milionários, sem ser capaz de explicar as origens das suas fortunas. Os advogados foram os primeiros a serem reprimidos, com a condenação de Me Kamal Qadir a 30 anos de prisão por ter criticado o presidente Barzani. A liberdade de Imprensa não existe desde 2010, após o sequestro e assassinato do jornalista curdo Sardasht Osman, culpado de ter caricaturado o presidente. O governo regional está falido, e não pagou a  muitos dos seus funcionários por vários meses.

JPEG - 41.3 kb

Filho do actual presidente Barzani, Masrour «Jomaa» Barzani continuou os seus estudos no Irão, Reino Unido e Estados Unidos. Voltou ao Iraque em 1998, sob a protecção anglo-saxónica, instalou-se na «no-fly zone», e assumiu responsabilidades na festa de família, o PDK (Partido Democrático do Curdistão Iraquiano-NdT). Rapidamente se tornou na ligação entre a sua família e a CIA. Em Outubro de 2010, comprou o Château Noble, a poucos quilómetros da sede da Agência, em Langley, por 10 milhões de dólares. Criou e dirigiu a «Bas News», o principal jornal curdo iraquiano, e supervisionou todas as actividades dos serviços secretos iraquianos curdos. É nesse papel que  participou nas reuniões secretas em Amã (Maio de 2014) e co-organizou a ofensiva conjunta do Emirado Islâmico e dos Peshmergas contra Bagadá.

O Curdistão iraquiano e o projecto de anexação do Norte da Síria

Em 2014, o Governo Regional do Curdistão participou na conspiração que visava reconfigurar o Iraque e a Síria, conforme descrito no plano de Wright. Participou também em várias reuniões em Amman com os serviços secretos da Jordânia, com os líderes do Emirado Islâmico, com os líderes de grupos armados da Síria e com os Naqchbandis iraquianos [3]. Acordaram que, sob a autoridade de Washington e Tele Avive, o Emirado Islâmico e o Governo Regional do Curdistão iriam lançar um ataque coordenado para assumir o controle de uma grande parte do Iraque. Enquanto a imprensa internacional denunciava as extorsões do Emirado Islâmico no Iraque, curdos do Barzami iriam apoderar-se dos campos de petróleo de Kirkuk e expandir seu território em 40%.

Depois disso, enquanto muitos Estados, que secretamente apoiaram a operação, denunciavam publicamente os crimes contra a humanidade e as pilhagens cometidas pelo Emirado Islâmico, o Governo Regional do Curdistão ofereceu o serviço do pipe-line que tinham acabado de roubar para os jihadista, de forma a que eles pudessem vender o combustível que tinham acabado de pilhar aos europeus.

Todas as condenações que recaem sobre a aliança entre o Governo Regional do Curdistão e o Emirado Islâmico são severamente reprimidas. É quando Hayder Shesho, o líder Yezidi que tinha falado contra ele, foi preso no dia 7 de Abril, embora ele tenha dupla nacionalidade com a Alemanha.

Nos anos após 2000, o Chefe do Estado-Maior israelita  planeava neutralizar a  capacidades de ataques com misseis  ao Egipto e Síria, colocando mísseis israelitas no sul do Sudão e no Curdistão iraquiano. Enquanto a primeira região alcançou a independência, a última ainda não. O plano de Wright oferece a ocasião para realizar este objectivo estratégico e espalhar a confusão sangrenta. Com o fim de sabotar o acordo entre Washington e Teerão, cuja assinatura está prevista para o dia 30 de Junho, Benjamin Netanyahu (Primeiro Ministro de Israel-NdT), tem planos para forçar os Peshmergas (por outras palavras, os soldados de Barzani) a assaltar o norte da Síria. E ainda, os curdos sírios são hostis à máfia Barzani e são uma minoria nesta região.

Durante vários meses, uma campanha da imprensa culpou os Pershmergas pelas acções dos curdos turcos do PKK contra o Emirado Islâmico, por exemplo, durante a batalha de Kobane. Os estados ocidentais, com a França a liderar, têm enviado armas directamente para Erbil (Capital do Curdistão iraquiano-NdT), sem passar por Bagadá, violando a soberania iraquiana. Estas armas não estão a ser usadas, mas estão armazenadas para o ataque planeado ao Norte da Síria.

No Congresso dos Estados Unidos, Edward Royce e Eliot Engel, dois representantes que tradicionalmente canalizam os interesses do Likud israelita (partido político de Israel, que congrega o centro-direita e a direita conservadora -NdT), apresentaram uma proposta de lei em Novembro 2014 [4], que visava autorizar a entrega de armas directamente para o Governo Regional do Curdistão iraquiano.

Uma vez que o texto não foi adoptado, estas disposições foram incluídas na lei sobre o orçamento de Defesa pelo presidente da Comissão das Forças Armadas, Mac Thornberry, juntamente com outras que visam reforçar simultaneamente a ajuda militar a grupos que lutam contra a República Árabe Síria. Se o texto for adoptado por ambas as câmaras, a proposta privará Bagadá de qualquer poder fora da área chiite do Iraque, e abrirá o caminho tanto para o desmantelamento do país como para uma quarta guerra na Síria. A maioria dos políticos iraquianos que falam publicamente têm alertado para os perigos de tal política. Quanto ao líder chiite Moqtada el-Sadr (excomandante do Exército Mahdi), declarou que, se a lei for adoptada, considerará mais uma vez  os Estados Unidos como inimigos da nação, e entrará numa guerra aberta com os  3.000 conselheiros militares no Iraque, bem como com os interesses externos dos americanos.

A 5 de Maio na Casa Branca,  Obama e o vice-presidente Biden,  advertiram directamente o presidente Barzani, que não iriam permitir que Israel sigam os seus planos, e que peçam que os curdos iraquianos se demitam. No entanto, no Curdistão iraquiano, a imprensa finge, pelo contrário, que o presidente Obama acolheu calorosamente a delegação e prometeu apoiar uma organização independente «Curdistão».

O novo governo de Israel, formado no 07 de Maio por Benjamin Netanyahu, tenta unificar os jihadistas do norte da Síria – o objectivo é coordenar a sua retirada de Damasco, quando os curdos iraquianos entrarem na Síria para massacrar os curdos do PYG (filial local do PKK turco, que apoia a República Árabe da Síria) e anexarem o seu território.

Presidente Erdoğan considera que a criação de um Estado independente «Curdistão» que ocupe o Iraque e a Síria, seria o reviver o conflito curdo no seu país, e denunciou o projecto como um passo para a destruição da Turquia. No caso de uma ofensiva Kurdo-iraquiana na Síria, ele poderia tomar imediatamente o lado de Damasco.

Não há dúvida de que o projeto israelita será debatido (juntamente com a criação de uma NATO árabe sob controle israelita) durante a próxima sessão do Conselho de Cooperação do Golfo que o presidente Obama – que não é membro   convocou Camp David.

[1] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013.

[2] ““Kurdistan” Israeli Style”, by Thierry Meyssan, Translation Roger Lagassé, Al-Watan (Syria), Voltaire Network, 14 July 2014.

[3] “PKK revelations on ISIL attack and creation of “Kurdistan””, Voltaire Network, 8 July 2014.

[4] H. R. 5747, “Bill to authorize the direct provision of defense articles, defense services, and related training to the Kurdistan Regional Government, and for other purposes”, House of Representatives, November 20, 2014.

Nota: links e realces desta cor são da minha responsabilidade.

ligne-rouge

O Ocidente e USA devem orgulhar-se da sua política  “de bons  samaritanos e defensores da liberdade” que infligiram nestes territórios.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: