A Arte da Omissao

Por trás da dívida Grega

Tradução do artigo Behind the Greek Debt  de Thierry Meyssan

O debate actual sobre a dívida grega deu origem a todos os tipos de ameaças, em primeiro lugar contra o governo de Tsipras e depois contra os eleitores gregos. Sem se envolver na discussão sobre o lado repugnante deste caso, Thierry Meyssan observa a campanha internacional para a Grécia deixar a zona do euro. Ele lança uma luz sobre o projecto histórico da União Europeia e do euro,  formulado em 1946 por Churchill e Truman, e conclui que, no final, a Grécia está aprisionada pelo ambiente geopolítico internacional e não pela sua situação económica.

| Damasco (Síria) | 7 de Julho de 2015

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Joseph Retinger,  ex-fascista polaco que se tornou num agente britânico. A pedido do MI6, fundou a Liga Europeia de Cooperação Económica, da qual se tornou secretário-geral. Nessa função, deve ser considerado o pai do Euro. Depois disso, dirigiu o Movimento Europeu e criou o Clube Bilderberg.
O referendo grego provocou alguns debates afiados na União Europeia, o que ilustra o estado predominante de ignorância das regras do jogo. Os participantes dividem-se em saber se os gregos foram responsáveis ​​pela  dívida, apesar de terem tido sempre o cuidado de evitar acusar os seus credores de usura. Mas eles o fizeram por ignorarem a história do Euro e as razões da sua criação.

O euro : um projecto anglo-saxónico da Guerra Fria

Desde o Tratado de Roma, há 64 anos, uma sucessão de organismos administrativos do «projecto europeu» (CECA, CEE, UE) gastaram somas colossais, somas de dinheiro sem precedentes para financiar a sua propaganda nos meios de comunicação. Diariamente, centenas de artigos, programas de rádio e televisão são financiados por Bruxelas, com o fim de nos encherem com uma versão falsa da sua história, e para nos fazerem crer que o actual «projecto europeu» é o mesmo projecto pensado entre as duas grandes guerras.

Os arquivos estão agora abertos a todos. Eles mostram que em 1946, Winston Churchill e Harry Truman decidiram dividir o continente europeu em dois: de um lado os seus vassalos e por outro, a URSS e os dela. Com o fim de garantir que nenhum Estado seria capaz de libertar-se da sua soberania, decidiram manipular os ideais do seu tempo.

O que era então conhecido como o «projecto europeu»  nunca foi destinado a defender valores comuns, mas criar uma ligação entre a exploração das matérias primas e as indústrias de defesa da França e Alemanha, a fim de garantir que esses países seriam incapazes de empreenderem novamente guerras  (teoria de Louis Loucheur e Comte Richard de Coudenhove-Kalergi [1]). Não se tratava de negar as suas profundas diferenças ideológicas, mas  garantir que eles nunca mais se confrontariam pela força.

MI6 britânico e a CIA foram, então, encarregados de organizar o primeiro «Congresso Europeu» em Haia no mês de Maio de 1948, onde estiveram presentes 750 personalidades de 16 países (incluindo François Mitterrand). Foi uma tentativa de ressuscitar o «Projecto da Federação Europeia» (elaborado por Walter Hallstein – futuro  Presidente da Comissão Europeia ) com base na retórica de Coudenhove-Kalergi.

Várias ideias falsas sobre este Congresso precisam de ser corrigidas.

- Primeiro de tudo, tem de ser colocado no seu verdadeiro âmbito. Os Estados Unidos e o Reino Unido tinham acabado de declarar guerra fria à URSS. Os soviéticos responderam com o apoio aos comunistas checos que conseguiram apreender legalmente o poder durante o «golpe de Praga» – («vitorioso Fevereiro» de acordo com a historiografia soviética. Washington e Londres, de seguida, organizaram o Tratado de Bruxelas que antecipou a criação da NATO. Todos os participantes eram pró-anglo-saxões e anti-soviéticos.

- Em segundo lugar, quando Winston Churchill fez seu discurso, empregou o termo «Europeu» para referir os habitantes do continente europeu que afirmavam ser anti-comunistas (mas não os do Reino Unido, que, segundo ele, não eram europeus). Estava fora de questão para Churchill, naqueles dias, aceitar que Londres aderisse à União Europeia, para além da sua supervisão.

- Em terceiro lugar, durante o congresso nasceram duas tendências  – os «unionistas», cujo único objectivo era o de combinar todos os meios para resistir à expansão do comunismo – e os «federalistas», que queriam  levar a cabo o projecto nazi de um Estado Federal colocado sob a autoridade de um governo não-eleito.

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Walter Hallstein, ex-alto funcionário do governo alemão, elaborou o projecto de Hitler para a Europa Federal. Tratava-se de destruir os Estados europeus e da agrupar as populações, de acordo com a origem étnica, em torno do Reich ariano. O conjunto seria submetido a uma ditadura não-eleita, controlada por Berlim. Após a Libertação,  começou a organizar o seu projecto com a ajuda de anglo-saxões, e em 1958 tornou-se o primeiro Presidente da Comissão Europeia.

O Congresso especificou tudo o que tinha sido alcançado, sob os títulos sucessivos de CECA, CEE e UE.

O Congresso aprovou o princípio da moeda comum. Mas o MI6 e a CIA já tinham fundado a Liga Independente para a Cooperação Europeia (ILEC) [2] – que desde então se tornou na Liga Europeia de Cooperação Económica (ELEC). O objectivo era logo que as instituições da União se criassem, passar da moeda  comum (futura unidade de divisa  Europeia – ECU) para a moeda única (euro), de forma a que os países membros da União fossem incapazes de sair [3].

Este foi o projecto que François Mitterrand realizou em 1992. Considerando a História e a participação de François Mitterrand no Congresso de Haia, em 1948, seria absurdo pretender hoje que o euro tivesse qualquer outra função. É por isso que, logicamente, o actual Tratado não prevê a saída do Euro – o que obriga a Grécia, caso assim o deseje, a deixar em primeiro lugar a União e só depois abandonar o Euro.

A inclusão do «projecto europeu» no sistema de Estados Unidos

A União conheceu duas fases principais:

- No final da década de 1960, o Reino Unido recusou-se a participar na guerra do Vietname e trouxe as suas tropas de volta do Golfo Pérsico e Ásia. Os britânicos deixaram de pensar em si mesmos como o 51º estado dos EUA, e começaram a invocar a sua «relação especial» com Washington. Assim, decidiram aderir à União (1973).

- Com a dissolução da URSS, os Estados Unidos continuaram a ser os mestres incontestáveis ​​do jogo. O Reino Unido ajudou-os, e os outros Estados obedeceram-lhes. Como resultado, a União nunca pensou expandir-se para o leste, fazendo pouco mais do que validar uma decisão tomada por Washington e anunciada pelo secretário de Estado James Baker. Da mesma forma, também foi adoptada a estratégia militar dos EUA [4], bem como os seus modelos económicos e sociais, caracterizados por algumas desigualdades fundamentais.

O referendo grego revela uma linha divisória de águas – por um lado, as elites europeias, cuja vida é cada vez cada fácil e sem reservas apoiam o «projecto europeu» – e, por outro lado, as classes trabalhadoras, que estão a sofrer com o sistema e que o rejeitam – um fenómeno que já tinha sido referido em 1992, durante a ratificação do Tratado de Maastricht, mas apenas a nível nacional, pela Dinamarca e da França.

No início, os directores europeus questionaram a validade democrática do referendo. O Secretário-Geral do Conselho Europeu, Thorbjørn Jagland (o homem que saiu  do júri do Prémio Nobel por  corrupção [5]) declarou:

- que a duração da campanha foi muito curta (10 dias em vez de 14)
- que o referendo não pode ser supervisionado por organizações internacionais (muito tempo para organizar)
- e que a pergunta não era clara nem compreensível (embora a proposta da União, publicada no Journal Officiel, era muito mais curta e mais simples do que os Tratados europeus que foram submetidos a referendo.)

No entanto, a polémica fracassou depois que o Conselho de Estado grego, alarmado com certos aspectos particulares destes três pontos, validou a legalidade da consulta. Os meios de comunicação dominantes, em seguida, declararam que se a nação votasse “não”, a economia grega daria um salto para o desconhecido.

No entanto, o facto de pertencer à zona do euro não garante desempenho económico. Se nos basearmos na lista do Fundo Monetário Internacional para o Produto Interno Bruto (PIB) em Purchasing Power Parity (PPP), apenas um Estado-Membro da União está entre dez melhores do mundo: o paraíso fiscal de Luxemburgo. A França, só figura na 25ª posição dos 193.

O crescimento da União Europeia em 2014 foi de 1,2%, o que a coloca no lugar 173 – o que quer dizer um dos piores resultados do mundo (a média mundial é de 2,2%).

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Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, é ex-vice-presidente do Goldman-Sachs para a Europa. Ele escondeu do Parlamento Europeu o seu papel no desvio operado pelo banco nas contas do governo grego, embora os factos sejam atestados por documentos próprios do banco.

Somos obrigados a observar que pertencer à União e usar o Euro não são garantias de sucesso. Portanto, se as elites europeias apoiam este «projecto», é porque é lucrativo para elas. Com efeito, através da criação do mercado único, e de  seguida, da moeda única, os sindicalistas têm embaralhado o baralho. A partir de agora, as diferenças passam a não ser só entre os Estados membros, mas entre classes sociais, que se tornaram idênticas à escala europeia. É por isso que as classes mais ricas defendem a União, enquanto que as mais pobres esperam por um regresso aos seus Estados soberanos.

O absurdo da União e do euro

Por muitos anos, o debate proferido tem sido incompreensível pelo vocabulário oficial – os europeus não serão os portadores da cultura Europeia, mas simplesmente membros da União. Desde a guerra fria, afirmamos que o povo da Rússia não será europeu, e se deixar a União neste momento, a Grécia sai da cultura europeia da qual é berço.

Bem, «cães não fazem gatos». A União foi concebida por anglo-saxões, com alguns ex-nazis à mistura, contra a URSS. Ela hoje apoia o governo ucraniano, com alguns ex-nazis incluídos, e declarou guerra económica à Rússia, mascarando-a com o título de «sanções».

Como o seu nome não informa, a União não foi criada para unificar o continente europeu, mas para o dividir e para descartar definitivamente a Rússia. Isto foi o que Charles De Gaulle denunciou quando invocou uma Europa que se estenderia de «Brest a Vladivostok».

Os unionistas garantem que o “projecto europeu” tem permitido a paz na Europa durante 65 anos. Mas eles falam da pertença à União ou da  sua vassalagem aos EUA? Na realidade, é a vassalagem que garantiu a paz entre os Estados da Europa Ocidental, enquanto mantém sua rivalidade aos de fora da NATO.

Devemos lembrar, por exemplo, que os membros da União Europeia apoiaram lados diferentes na ex-Jugoslávia antes de se unificarem atrás NATO. E devemos considerar que, se eles se tornassem soberanos novamente, os membros da  União necessariamente começariam as brigas de novo?

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Jean-Claude Juncker expressou irritação sobre o referendo grego, que  qualificou de «traição». M. Juncker foi  obrigado a renunciar à  sua posição de primeiro-ministro do Luxemburgo depois de ter sido revelado que tinha pertencido à rede de espionagem da Aliança Atlântica Gladio. Um ano depois,  tornou-se Presidente da Comissão Europeia

 

Para retornar à situação grega, os especialistas têm demonstrado facilmente que essa dívida pode ser imputável aos problemas nacionais que permaneceram não-resolvidos desde o fim do Império Otomano, bem como às grandes fraudes dos grandes bancos privados e líderes políticos. Além disso, a dívida é insolvente, assim como as dívidas dos grandes países desenvolvidos [6]. Em qualquer caso, Atenas poderia facilmente resolver as coisas ao  recusar pagar a parte repugnante da sua dívida [7], deixando a União e aliando-se com a Rússia, que é para a Grécia um parceiro histórico e cultural muito mais sério que a burocracia de Bruxelas.

O desejo de Moscovo e de Pequim em investir na Grécia e criarem novas instituições internacionais não é um segredo aberto. No entanto, a situação grega é ainda mais complicada pelo facto de ser membro da NATO, tendo sido  esta a organizar o golpe militar em 1967, para impedir a Grécia de se aproximar da Rússia [8].

[1] « Histoire secrète de l’Union européenne », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 28 juin 2004.

[2] The French section takes the name of the Ligue Européenne de Co-operation Economique (LECE). It was presided by Edmond Giscard d’Estaing, father of the future President de la République and creator of the ECU.

[3] MI6: Inside the Covert World of Her Majesty’s Secret Intelligence Service, Stephen Dorril, The Free Press, 2000.

[4] « Stratégie européenne de sécurité », Réseau Voltaire, 12 décembre 2003.

[5] « Thorbjørn Jagland destitué de ses fonctions de président du Nobel de la Paix », Réseau Voltaire, 5 mars 2015.

[6] « Selon la BRI, la dette des États développés est insolvable », Réseau Voltaire, 13 avril 2010.

[7] Cf. the economic theory of Alexander Sack.

[8] « La guerre secrète en Grèce», Daniele Ganser ; «Grèce, le facteur Otan», Manlio Dinucci, Traduction Marie-Ange Patrizio, Il Manifesto (Italie), Réseau Voltaire, 24 août 2013 et 7 avril 2015.

Nota: Realces desta cor são da minha responsabilidade.
Artigos relacionados: A História secreta da União Europeia
 
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This entry was posted on 28 de Julho de 2015 by in União Europeia, zona euro and tagged , .

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