A Arte da Omissao

Síria, retórica e verdade

Tradução do artigo Syrie, rhétorique et vérité, de Thierry Meyssan

Durante duas semanas, a imprensa internacional espalhou rumores sobre o início de uma operação militar dos Estados contra a Síria. Thierry Meyssan, que tinha denunciado a manipulação do general John Allen e seus amigos para sabotar o acordo EUA / Irão, explica aqui o absurdo dessa acusação. Ele explica o porquê do apoio estratégico da Rússia e China à Síria laica não ser negociável.

| Beirute (Líbano) | 10 de Agosto de 2015
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General John Allen, no Fórum de Segurança Aspen.

A 27 de Julho, o New York Times anunciou a criação de uma zona de segurança na Síria por Washington e Ancara, com o fim de acolher refugiados sírios actualmente estacionados na Turquia. [1] Logo depois, a Casa Branca desmentiu essa informação.

Eu expliquei num artigo anterior que o New York Times tinha sido intoxicado pelo General John Allen, enviado especial para a Coligação Internacional anti-Daesh e pelo governo interino turco. [2] Lembrei-me de que Allen tinha participado em outras duas tentativas para sabotar a paz na Síria, uma em Junho de 2012 e a outra em Dezembro de 2014, e que o presidente Obama em Setembro de 2012 tentou fazer com que fosse preso.

Numerosos comentadores relacionam esta informação com outra, segundo a qual o Pentágono agora autoriza a si mesmo o apoio aos “rebeldes moderados” se estes forem atacados, independentemente do seu agressor. Eles interpretaram esta informação como o lançamento da tão esperada campanha da NATO contra a República Árabe Síria. Esta interpretação é absurda, e os elementos devem ser interpretados de modo diferente.

Declarações contraditórias e a realidade no terreno

Acontece que a coligação se comprometeu em não atacar o Exército Árabe da Síria, mas só o estado islâmico (Daesh) e agora também a al-Qaïda. Além disso, a coligação transmite o plano de voo dos seus bombardeiros e as missões terrestres das suas tropas ao quartel-general do Exército Árabe Sírio, através dos seus aliados curdos do PYG. Desta forma, a Coligação garante com antecedência que os seus aviões não enfrentem a defesa aérea síria, mas que  contribuem para os mesmos objectivos que o Exército Árabe Sírio sem terem que entrar em mais detalhes.

Oficialmente, os britânicos e os franceses não estão envolvidos nas operações em território sírio. No entanto, sabemos que isso não é verdade. Aliás, há meses que estas duas nações bombardeiam o Daesh na Síria. Há alguns dias, o ministro das Relações Exteriores britânico foi forçado a admitir essa verdade na Câmara dos Comuns. [3]

O seu homólogo francês, que não está sujeito à mesma pressão política, continua a negar os factos. Além disso, os britânicos colocaram 120 SAS no terreno para guiar os ataques aéreos. [4] Como este trabalho é particularmente arriscado para estrangeiros que não conhecem o terreno, o Pentágono já treinou 60 “rebeldes sírios moderados” para obter ajuda. 54 entraram em território sírio e foram imediatamente atacados pela al-Qaeda.

É absurda a alegação de que o Pentágono tenha treinado esses 60 combatentes para derrotar as centenas de milhares de soldados do Exército Árabe Sírio e derrubar a República. A sua única função é a de participar na coligação anti-Daesh e sua única missão é identificar no terreno os alvos terrestres para os bombardeiros.

É verdade, como observou o ministro do Exterior russo Sergey Lavrov, que este anúncio foi mal formulado. O porta-voz da Casa Branca deveria saber que ela seria mal interpretada, tendo em conta a vontade de alguns  americanos e dirigentes franceses e turcos em entrarem em guerra aberta contra a Síria. Na prática, ela preferiu induzir os adversários do acordo EUA / Irão.

Além disso, o Pentágono referiu-se a uma situação que surgiu. Os seus 54 “rebeldes moderados” foram atacados por al-Qaeda mas foram defendidos. Mas nos últimos meses, França, Arábia Saudita e Turquia têm tentado reabilitar al-Qaeda na Síria (al-Nosra frontal) para terem uma alternativa aceitável ao DaeshContrariamente às conclusões de muitos comentaristas, ao bombardear em simultâneo o Daesh e a al-Qaeda, factos completamente novos, o Pentágono actuou realmente a favor da República Árabe da Síria, de acordo com o seu acordo com o Irão.

Princípios geoestratégicos

Agora vamos examinar toda a imagem. Esta linha de raciocínio habilmente fabricada pelo General Allen durante o fórum de segurança de Aspen e também pela Turquia visa operar uma mudança radical na política dos EUA. Washington, depois de ter hesitado lançar uma guerra contra a Síria, parece ter finalmente decidido a fazêlo. A Síria em breve será bombardeada como Líbia e será o fim do Presidente Bachar el-Assad. Se for isto,  podemos entrar numa guerra mundial.

Com efeito, a Rússia e China vetaram por 4 vezes no Conselho de segurança  as resoluções propostas que autorizavam ou preparavam um ataque à Síria. Ao vetarem, Moscovo e Pequim não recusaram só o apoio a estas resoluções. Eles entraram em conflito diplomático com os autores desses projectos e confirmaram estar preparados para travar uma guerra com eles se tomassem uma decisão unilateral para darem seguimento aos seus projectos.

O primeiro veto, a 4 de Outubro de 2011, surpreendeu Washington. O segundo a 4 de Fevereiro de 2012, convenceu-os a desistir, na Síria e na Líbia. A França, Catar e a Turquia decidiram relançar a guerra e apresentaram outros dois projectos de resolução, a 19 de Julho de 2012 e sobre a questão dos crimes contra a humanidade atribuídos à República, em 22 de Maio de 2014. Eles sofreram os mesmos vetos.

As declarações francesas, turcas e do Catar que os diplomatas usaram para convencerem a Rússia  a abandonar Bashar Al-Assad são estúpidas e as recentes declarações de Barack Obama sobre uma evolução das posições da Rússia e Irão não são melhores. Além disso, o Presidente dos EUA visou adormecer os oponentes do acordo que ele negociou com o Irão.

Mas não falemos aqui do Irão. Apenas das duas potências permanentes do Conselho de segurança que são a Rússia e a China.

Os interesses russos e chineses

A posição de Moscovo e Pequim  não é uma demonstração de rebeldia anti-ocidental, nem um acto  de solidariedade entre ditadores, uma vez que é assim que os ocidentais descrevem os regimes desses Estados. Trata-se de uma questão geoestratégica que se encaixa em séculos de história. Definitivamente não é negociável.

A presença russa no mar Mediterrâneo e no Médio Oriente depende de um regime respeitador da diversidade religiosa em Damasco. Seria impossível no caso de uma tomada do poder pela irmandade muçulmana ou qualquer grupo muçulmano deste movimento. Foi assim o caso na época da Czarina Catherine II, que afirmava ver na Síria a chave do Médio Oriente para a Rússia e é agora o caso para a Presidência Poutine. Além disso, os russos, que são maioritariamente ortodoxos e por tal sofreram, sentem a solidariedade para com os cristãos sírios, na sua maioria ortodoxa.

A Rússia nem sempre foi capaz de defender os seus interesses. Assim, em 2005, recusou a proposta Síria para ocupar o porto de Tartous e mais 30 quilómetros de costa,  para a sua frota do mediterrânea – Damasco esperava assim prevenir a guerra que Washington tinha começado a preparar bem antes da primavera árabe. Hoje, restaurou a  sua potência marítima e efectivamente está a usar porto de Tartus.

Para se desenvolver, o comércio chinês necessita de assegurar as rotas continentais que ligam a China ao Mediterrâneo. Na idade média, os chineses construíram a “rota da seda” que ligou a capital de então, Xi’an  a Damasco. Os Omíadas, que fundaram a religião muçulmana, protegeram as outras religiões locais, judaísmo, Mandeísmo e Cristianismo. Quando estenderam o seu poder na Ásia Central, até o Qiang Xin, trabalharam de forma idêntica com as religiões do Extremo Oriente – eles estavam certamente bem longe do dogmatismo da actual corrente islâmica -. Ainda nos dias de hoje, grupos de todas as regiões, rezam diariamente na grande mesquita de Damasco, e num dos seus mosaicos, é prestada homenagem a um pagode chinês. Para se desenvolver, a China dos dias de hoje, tenta reconstruir as «Rotas da Seda». Para tal, acaba de fundar o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (BAII).

Que não existam duvidas, o apoio estratégico de Moscovo e Pequim em Damasco, não significa que vão enviar suas tropas para defender o país contra os jihadistas – não o fizeram nem o irão fazer -: simplesmente não vão permitir que as potências ocidentais usem a sua própria armada para destruir a República Árabe da Síria.

Por seu lado, os Estados Unidos são a potência mundial dominante porque restringem o comércio  que é feito principalmente por via marítima e, com a ajuda do Reino Unido, controlam e protegem todos os oceanos. É por isto, que Washington considerada essencial à manutenção do seu poder, sabotar as tentativas de estabelecimentos de rotas continentais [5].

O caos no Iraque e a queda de Palmira cortaram a via de comunicação pelo Sul, enquanto o caos na Ucrânia corta a via pelo norte.

Na guerra da Síria, os ocidentais e os poderes do Golfo suportam a irmandade muçulmana, enquanto a Rússia e a China oferecem apoio à  República laica.

As ilusões da França, Arábia Saudita e Turquia

O governo Turco, sem sensibilidade política, tentou forçar por duas vezes os Estados Unidos a entrar numa guerra aberta. A 11 de Maio de 2013, denunciou um amplo ataque ao Reyhanlı que atribuiu aos serviços secretos sírios. Recep Tayyip Erdoğan correu para o Presidente Obama para reclamar. Mas ele tinha sido avisado antecipadamente pela CIA que o ataque que custou a vida a 51 turcos e que fez 140 feridos era encenação da Milli İstihbarat Teşkilatı (MIT), uma operação de falsa bandeira dos serviços secretos turcos. Desde então, os responsáveis foram obrigados a demitir-se.

Sr. Erdoğan, 4  meses mais tarde, a 21 de Agosto de 2013, tentou de novo e organizou com a ajuda do Eliseu, o ataque químico em Ghoutta, em Damasco. Foram imediatamente desmascarados pelo MI6 britânico, que se apressou a avisar os seus aliados dos Estados Unidos. Após um espectáculo habilmente orquestrado na Câmara dos comuns, Londres e Washington deixaram Ancara e Paris com os seus crimes e com as suas arrogâncias.

Podemos questionar a capacidade da administração Obama em defender a sua nova estratégia de aliança com o clero xiita iraniano, ou a dos seus opositores norte-americanos em prosseguir a estratégia straussiana, de remodelagem do «Médio- Oriente Alargado» e do caos generalizado. Mas, seja como for, nunca, nem uns nem outros passarão de uma guerra por interpostos jiadistas para um conflito clássico. É absurdo imaginar que Washington lance uma Terceira Guerra mundial contra a Rússia e a China, com o único propósito de substituir o presidente Bashar el-Assad pelos Irmãos Muçulmanos.

 

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