A Arte da Omissao

Os 28 bancos que controlam o dinheiro do mundo

150922-Crise3-485x278

Tradução da entrevista a François Morin

A transferência de dívida privada tóxica de 28 grandes bancos «sistémicos» para os estados durante a última crise financeira, explica as políticas de austeridade na Europa.

Franceses, Europeus ou americanos, todas as autoridades bancárias são claras: se o mundo tivesse uma nova crise financeira comparável à de 2007, nem os Estados, nem os contribuintes pagariam as consequências. Acredita nisso?

François Morin professor emérito de economia na Universidade de Toulouse, é categórico na sua resposta: não. No seu livro, “Hidra mundial”, publicado em Maio e no qual  faz menção a dados inéditos, mostra como 28 bancos que operam globalmente,  são um oligopólio nada próximo do interesse público.

Para colocar os cidadãos a salvo de futuros desastres financeiros, o autor considera que é necessário abater estes bancos que os compara a uma hidra, e recolocar a moeda na esfera publica.

Como é possível que um punhado de bancos se transforme numa hidra mundial?

O processo é claro. Após a liberalização da esfera financeira iniciada nos anos 70 (taxas de câmbio e de juros passaram a ser estabelecidas pelos mercados e não pelos estados,  e da liberalização dos movimentos de capitais), os mercados monetários e financeiros nos anos 90 tornaram-se globais. Os maiores bancos tiveram que adaptar as suas dimensões a esse novo espaço de intercâmbio, através de fusões e reestruturações. Estavam reunidas as condições para o aparecimento a nível global do oligopólio, que rapidamente se coordenou internacionalmente e se tornou gigantesco: em 2012, o balanço total desses 28 bancos do oligopólio (50,341 biliões)  era superior à dívida pública global (48,957 biliões)!

Depois de  2012, foi descoberto que desde meados de 2000, esses grandes bancos começaram a entender-se entre si fraudulentamente. A partir desse momento, o oligopólio transformou-se numa hidra devastadora para a economia mundial.

De que forma esses bancos são sistémicos ?

Em 2011, os 28 bancos foram declarados sistémicos” pelo G20. A análise das causas da crise financeira de 2007-2008 não deixaria qualquer dúvida sobre a responsabilidade desses bancos no desencadeamento da crise financeira. Em causa, os produtos financeiros derivados que prevaleciam na época e que ainda continuam populares em todo o mundo. Lembremos que estes derivados são produtos que cobrem riscos, sendo alguns altamente especulativos. Perante uma crise, a sua conversão pode ser catastrófica. No entanto, apenas 14 bancos sistémicos fabricam estes produtos cujo valor nocional (montante dos valores segurados) chegou aos 710.000 biliões, pouco mais de 10 vezes o PIB mundial!

Refere que eles praticam acordos fraudulentos?

Múltiplas análises demonstram  que estes bancos ocupam posições dominantes em vários mercados importantes (câmbio, títulos de dividas e derivados). É uma característica de um oligopólio. Mas desde 2012, autoridades judiciais americanas, britânicas e a Comissão Europeia aumentaram as investigações e as multas demonstram que muitos destes bancos – sobretudo onze (Bank of America, BNP-Paribas, Barclays, Citigroup, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland, UBS) – montaram sistematicamente «acordos de gangs organizados». Assim, a aplicação de multas de vários biliões de dólares contra a manipulação da taxa de câmbio do mercado ou Libor [taxa de referência para juros interbancários, estabelecida em Londres, nota do Editor], prova que a pratica existe.

O mundo está sentado sobre uma montanha de bombas-relógio financeiras feitas unicamente pelos trinta bancos?

Existem evidências de várias bolhas financeiras susceptíveis de entrarem em erupção a qualquer momento. A bolha do “mercado das acções” explica-se pelas enormes injecções de liquidez dos bancos centrais. Mas acima de tudo, temos a bolha da dívida pública que afecta todos os países grandes. Na última crise financeira, as dívidas privadas tóxicas de oligopólio foram transferidas maciçamente para os Estados-Membros. Esta dívida pública, relacionada exclusivamente com a crise e esses bancos, explica – na negação mais completa das causas da crise – as políticas de rigor e austeridade levadas a cabo por todo o lado. Este super endividamento é também a principal ameaça, como foi visto na Grécia.

A regulação dos derivados, luta contra o “sistema bancário sombra”, o enquadrando dos Credit default swap, reforço dos fundos próprios, a separação entre bancos de  investimentos e de depósitos … não podemos dizer que nada foi feito.

Vamos olhar mais de perto. O sistema bancário sombra, ou seja, o sistema financeiro não regulado, não para de crescer, em particular através do oligopólio bancário, para escapar às normas prudenciais e principalmente para negociar os produtos financeiros derivados. Quanto ao reforço de capital próprio dos maiores bancos, ele foi ridiculamente baixo. Por fim, em nenhuma legislação em vigor, encontramos uma verdadeira separação patrimonial” das actividades bancárias. Em suma, o lobby bancário, muito organizado internacionalmente, tem sido eficaz, e o oligopólio pode continuar na mesma lógica financeira deletéria que praticava antes da crise.

Como os Estados se tornam reféns deste oligopólio sistémico, que são os bancos?

Desde os anos 70, os Estados perderam a soberania monetária e são responsáveis por isso. A moeda agora é criada pelos bancos, na proporção de 90% e pelos bancos centrais (em alguns países, independentes dos Estados) para os restantes 10%. Além disso, a gestão da moeda através dos seus preços fundamentais (as taxas de câmbio e taxas de juros) está nas mãos do oligopólio,  que os manipula

Assim, os grandes bancos têm nas mãos as condições monetárias para o financiamento dos investimentos, mas sobretudo para o financiamento dos déficits públicos. Os Estados não são apenas disciplinados pelos mercados, mas sobretudo estão reféns da hidra mundial.

Portanto, há uma relação quase destrutiva desses bancos aos Estados?

Essa relação é, na verdade devastadora, porque as nossas democracias gradualmente esvaziam-se das seus substâncias, devido à redução (ou ausência) da margem de manobra que se tornou patente para a acção pública. Além disso, o oligopólio bancário deseja instrumentalizar os poderes dos Estados-Membros, para pesar possíveis regulamentos financeiros, ou limitar o peso das coimas que têm enfrentado ao serem apanhados com a boca na botija, evitando em especial os processos de repercussão pública.

Mas os bancos não permitem que os Estados financiem os déficits orçamentais?

Não devemos esperar que os bancos privados façam a gestão dos interesses gerais!
Os bancos vêm primeiro os seus lucros, alcançados através das suas actividades financeiras particulares,  e das suas actividades especulativas. Eles olham para os Estados como olham para qualquer outro actor económico emissor de dívida. Temos que pesar os riscos e a rentabilidade de um investimento financeiro. O Estado é visto pela primeira vez como um activo financeiro como qualquer outro, que nós compramos ou vendemos, e no qual também é permitido especular.

Na mitologia grega, Hércules tinha de  matar a Hidra. No nosso mundo, onde está  o Hércules que seja capaz de matar a hidra do Banco Mundial?

A resposta é clara. O nosso Hércules de amanhã será um actor colectivo, que só pode ser uma comunidade internacional, com legitimidade democrática incontestável, livre dos dogmas neoliberais, e suficientemente consciente dos seus interesses a longo prazo para organizar o financiamento da actividade económica global. Por outras palavras, ainda um ser imaginário! Um primeiro passo seria se um novo Bretton Woods fosse convocado para criar uma moeda comum a nível internacional, e não só no contexto das soberanias monetárias nacionais restauradas.
Você  aposta na  inteligência política?

Sim, absolutamente! Mas, primeiro, aposto na inteligência dos cidadãos do nosso planeta. As redes sociais podem ser instrumentos formidáveis para criar esta inteligência política, a qual hoje é extremamente necessária.
 
Será que estamos a caminhar para um desastre sem precedentes?

Ele está à nossa frente. Estão reunidas as condições para ocorrer um novo terremoto financeiro,  agora que os Estados estão exangues. Ele será ainda mais grave que o precedente. Ninguém o deve desejar, quando os seus efeitos económicos e financeiros serão desastrosos e as suas consequências políticas e sociais serão dramáticas. Vimo-lo na Grécia. O tempo de emergência e lucidez política democrática tornam-se imperativos!

Então os bancos estão todos podres  e as finanças pervertidas?

Quando um oligopólio super poderoso administra o dinheiro como um bem privado, não podemos ficar surpreendidos pela lógica financeira que daí resulta. Os bancos perseguem metas de lucro com as tentações recorrentes, para a maior deles,  de se entenderem. A hidra bancária nasceu cerca de dez anos, e já tomou conta de todo o planeta. Agora, o confronto de poderes parece inevitável entre os bancos super poderosos e os poderes políticos enfraquecidos. Um resultado positivo desta luta à priori desigual só pode ocorrer através da mobilização dos cidadãos que estão plenamente conscientes do que está em jogo.

Nota: Links e realces desta cor são da minha responsabilidade.

Anúncios

One comment on “Os 28 bancos que controlam o dinheiro do mundo

  1. voza0db
    5 de Novembro de 2015

    Boas 😉

    As Famílias não PERDOAM! Assim vai a “nossa civilização”!

    Be 😎

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: