A Arte da Omissao

exposto pacto secreto da Turquia com o Estado Islâmico

Tradução do artigo Turkey’s secret pact with Islamic State exposed by operative behind wave of ISIS attacks de Nafeez Ahmed

no INSURGE INTELLIGENCE

22 Julho 2016

O elefante está no quarto da NATO: patrocínio estatal do Daesh

Surgiram novas evidências sobre o governo turco sob o presidente Erdogan estar secretamente e directamente a fornecer  suporte militar, financeiro e logístico ao ISIS, mesmo quando reivindica  combater a rede terrorista.

A evidência surge  na forma de um depoimento de um terrorista do ISIS capturado por combatentes curdos, amplamente reconhecidos como a força mais eficaz que no terreno o enfrenta. O testemunho foi reportado por duas agências noticiosas curdas, a Agência Sírio-curdo Harwar News (ANHA) com base no Curdistão sírio, e a turco-curda Ajansa Nûçeyan em Firatê (Agência de Notícias Firat ou ANF News). A sede desta última é em Amesterdão.

Os sites das duas agências noticiosas estão bloqueados na Turquia.

As entrevistas ao combatente do ISIS, capturado pelas Kurdish People’s Protection Units (YPG) (Unidades  Curdas de Protecção Popular- Ndt),  revelam que as forças militares e de segurança turcas estão a facilitar as operações do ISIS dentro da Síria, bem como os seus ataques terroristas dentro da Turquia.

O novo testemunho corrobora as afirmações semelhantes feitas por outros ex-membros e membros activos do ISIS, bem como as fontes de inteligência ocidentais e do Oriente Médio.

No entanto, a Turquia é um membro principal da  NATO.  E, embora os membros ocidentais da NATO tenham reunido informações secretas que confirmam o patrocínio da Turquia ao ISIS, recusaram-se a agir com base nelas.

Espiões turcos bloqueiam policia turca

A fonte, Savas Yildiz, foi capturado pela YPG durante o ataque do ISIS à província curda de Gire Spi (Tel Abyad) na Síria. Não referenciado na imprensa turca e internacional, a captura de Yildiz pela YPG é um significativo sucesso contra o terrorismo.

Yildiz, cidadão turco que em 2014 se juntou a um grupo jihadista na Síria, era o principal suspeito pelos atentados gémeos à sede de um dos principais partidos da oposição na Turquia, Partido Democrático Popular pró-curdo (HDP). Os atentados ocorreram nos escritórios do HDP em Adana e Mersin em Maio de 2015.

Umas das tarefas de Yildiz era participar numa série de futuros ataques terroristas na Turquia. Mas era também  o principal suspeito do ataque  do  ISIS a Istambul em Março 2016, que matou quatro pessoas e feriu 39 civis.

As autoridades turcas inicialmente assumiram que Yildiz era a bombista suicida do ataque, mas a policia rapidamente identificou o bombista como sendo Mehmet Ozturk.

Yildiz e Ozturk estavam sinalizados pelas forças de segurança turcas, como terroristas do ISIS. As autoridades levaram a cabo uma operação de captura a Yildiz em Outubro de 2015, por acreditarem que ele, Ozturk e mais dois membros do ISIS – Haci Ali Durmaz e Yunus Durmaz – teriam reentrado na Turquia, vindos da Síria, para levarem a cabos atentados terroristas.

Depois do ataque bombista de Março de 2016 em Istambul, a policia turca divulgou os nomes de  Yildiz e dos seus cúmplices, descrevendo-os como os três suspeitos terroristas do ISIS e que planeavam mais atentados dentro da Turquia.

Mas, enquanto a policia turca andava à caça de Yildiz e dos seus cúmplices, era repetidamente bloqueada por agências turcas de inteligência. Fontes de agentes de segurança turcos disseram que, Savas Yildiz tinha sido anteriormente preso pelas autoridades turcas pela sua fidelidade ao ISIS, e que o seu nome já constava da lista de vigilância a terroristas.

Também Mehmet Ozturk, colega de Yildiz, constava da “lista negra” da inteligência turca, como sendo um “apoiante de um grupo terrorista”, mas, repetidamente pode viajar para/da Síria, porque não constava no sistema national judiciary informatics system (UYAP) – (sistema nacional de informação Judicial turco -Ndt).

Yildiz tinha ido para participar no ataque do ISIS a Gire Spi, mas foi forçado a render-se às forças do YPG depois de ter ficado preso sob um prédio que tinha colapsado.

 Liberdade de circulação do ISIS sancionada pelo Estado turco

Na entrevista que deu à agência noticiosa Harwar News (ANHA), o confesso terrorista disse que líderes turcos do ISIS movem-se livremente entre a Turquia e a Síria, porque alguns até trabalham para a inteligência turca. Postos fronteiriços rotineiramente ficavam sem forças de segurança turcas a determinadas horas, de forma a permitir que grupos de 20-30 combatentes do ISIS passassem sem serem detectados. Yildiz disse:

“Existe um acordo entre a Turquia e o ISIS. A Turquia apoia o ISIS porque este representa uma ameaça para os  curdos e a Turquia pode assim usá-los contra eles.”

Yildiz confirmou que o exercito turco tinha linhas de comunicação abertas com o ISIS desde a invasão do grupo terrorista a Mosul, no Iraque a Junho de 2014:

”… Quando Mosul foi capturada pela 1ª vez, cerca de 50 pessoas foram mantidas por nós em cativeiro no consulado turco.  Eles abriram todas as estradas para nós, porque nós tínhamos os presos. Deram-nos todas os tipos de liberdade de movimento. Esses presos foram trocados por 100 amigos nossos que foram libertos pela autoridades turcas.”

De acordo com  Yildiz, o principal objectivo da Turquia ao apoiar o ISIS,  é usar o grupo como baluarte geopolítico contra o crescente poder político e militar dos grupos curdos:

O Estado turco e o presidente Recep Tayyip Erdoğan apoia-nos, apenas porque são contra os curdos. Não é porque sejam afectuosos connosco ou outra qualquer coisa. Porque ele não tem nenhuma relação com o Islão. Ele não nos apoiaria por um só dia se não lutássemos contra os curdos.”

O operacional do ISIS,  também explicou que a prioridade estratégica do Daesh é derrubar o regime de Bashar al-Assad na Síria – outros alvos na Turquia, nos EUA e no Iraque são prioridades secundárias:

O regime turco, os EUA, o regime iraquiano não são importantes para nós, mas o regime sírio é. Porque nós vemos a Síria como o centro para o Estado islâmico que iremos fundar.”

Yildiz também confirmou que o ISIS tem uma presença maciça por toda a Turquia, “em Istambul, Konya, Ancara e em todas as cidades curdas. Mas a cidade Antep foi escolhida como a base central para o uso eficaz da fronteira e por ter todas as rotas a passar por um ponto comum”.

Antep, segundo ele, é o ponto de passagem para o território ISIS, dos combatentes estrangeiros vindos de todo o mundo, incluindo os nacionais turcos. No entanto, eles fazem-no impunemente, bem debaixo do nariz das forças de segurança turcas.

Pessoas correndo de todo o mundo passam por uma passagem estreita aqui”, disse Yildiz. “Eles cruzam desde os distritos periféricos e vilas em Antep. É impossível que  as forças de segurança não os vejam.

Ele identificou vários pontos de passagem diferentes “ao redor de Antep e Kilis. Um deles era o Rai. Nós passamos via Rai e Çobanbey. E usamos o lado Elbeyli. Um dos locais mais utilizados foi Karkamış. É perto de Jarablus. Estes eram pontos de passagem sempre abertos para nós. “

As alegações de Savas Yildiz são surpreendentemente detalhadas, sugerindo que são realmente precisas. E  combinam com uma grande quantidade de crescente evidências.

A “profunda cumplicidade” de Erdogan

Ahmet Yayla, antigo chefe da divisão antiterrorista e prevenção da criminalidade da Polícia Nacional da Turquia entre 2010 e 2014, teve experiência directa das operações na fronteira turco-síria.

“O governo de Erdogan sempre fechou os olhos a dezenas de milhares de apoiantes do ISIS que usavam o aeroporto de Istambul e a fronteira turca porosa para atravessarem a Síria e juntarem-se ao ISIS”, disse ele.

Além de testemunhar em primeira mão o funil do terror Turquia-Síria, Yayla entrevistou dezenas de desertores do ISIS escondidos na Turquia, na qualidade de vice-director do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização da Violência.  As descobertas desta pesquisa – conduzidas em colaboração com consultores de combate ao terrorismo da NATO e do Pentágono, a professora Anne Speckhard da Universidade de Georgetown, especialista em factores psicossociais na radicalização – foram publicadas no seu livro ISIS Defectors: Inside Stories of the Terrorist Caliphate (Desertores do ISIS: Histórias internas do califado terrorista – Ndt), bem como no seu artigo recente na revista Perspectives on Terrorism. Eles baseiam-se nessas entrevistas para explicar que o patrocínio directo da Turquia ao ISIS é um segredo aberto dentro da rede terrorista:

“Apesar das afirmações de Erdogan de que está a lutar contra o ISIS, as evidências indicam que ele foi, e continua a ser, cúmplice ao permitir que o ISIS transporte, não apenas recrutas via Turquia, mas também armas e suprimentos. Esses factos terríveis foram confirmados repetidamente durante as nossas entrevistas com os desertores do ISIS. Um ex-emir disse-nos que o ISIS tinha sido capaz de construir milhares de bombas de tanques de propano com base em suprimentos que trouxeram através da Turquia.”

Yayla e Speckhard argumentam que Erdogan “precisa do ISIS como ferramenta para reprimir o PKK, as forças rebeldes curdas que são anti-turcas, anti-Erdogan e anti-ISIS”.

Um colecção de documentos apreendidos pelas forças curdas aos combatentes da ISIS entre Dezembro de 2014 e Março de 2015, forneceu provas documentais de que os combatentes do ISIS moviam-se livremente pela fronteira turco-síria com a ajuda de “empresas privadas”.

No ano passado, um oficial sénior ocidental familiarizado com um grande volume de informação secreta obtido  numa grande incursão liderada pelos EUA a uma casa segura do ISIS, disse que “as negociações directas entre os funcionários turcos e os membros do ISIS são agora” inegáveis”.

O oficial confirmou que a Turquia também está a ajudar outros grupos jihadistas, incluindo Ahrar al-Sham e Jabhat al-Nusra, afiliado da Al-Qaeda na Síria.

“As distinções que eles desenham [com outros grupos da oposição] são de facto ténues”, disse o oficial. “Não há dúvida de que eles cooperam militarmente com ambos.”

Vários outros desertores do ISIS confirmaram que os capitães e comandantes de campo do ISIS na Síria estavam em contacto directo com “autoridades turcas”, pois havia “plena cooperação com os turcos”.

Jordânia, aliado da Turquia, acusa Erdogan de enviar o ISIS para a Europa

Mas talvez a avaliação mais condenatória tenha sido feita por um dos aliados de Erdogan, o rei Abdullah da Jordânia, que em Janeiro, disse numa reunião de altos representantes do Congresso em Washington, que a Turquia estava deliberadamente a encorajar o ISIS a enviar terroristas para a Europa.

O depoimento do Congresso contou com a participação dos presidentes e membros dos comités de Inteligência, Relações Exteriores e Serviços Armados do Senado, incluindo os senadores John McCain e Bob Corker, e os senadores Mitch McConnell e Harry Reid, respectivamente.

O rei Abdullah também confirmou que o estado turco era cúmplice nas vendas de petróleo da ISIS. O presidente Erdogan, disse ele, estava comprometido com a “solução islâmica radical na região” e com o conflito na Síria.

As declarações do rei  corroboram uma investigação anterior da INSURGE intelligence, expondo o papel do Estado turco na facilitação das vendas do petróleo do ISIS.

Os comentários do rei foram apoiados pelo ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Nasser Judeh, também na reunião do Congresso, o qual disse que, depois do bombardeamento russo ter impedido a Turquia de estabelecer zonas seguras no norte da Síria para impedir que os refugiados chegassem à Turquia, “a Turquia encaminhou os refugiados para a Europa”. 

Os comentários do rei Abdullah foram relatados pelo Middle East Eye (MEE), mas mal reconhecido na imprensa mais ampla, excepto por um punhado de pontos de venda.

Eles fornecem evidências impressionantes de que a crescente ameaça terrorista do ISIS na Europa foi deliberadamente aumentada por um dos membros mais poderosos da NATO.

As forças armadas e as agências de inteligência da Jordânia trabalham directamente com a Turquia, com outros Estados do Golfo e Ocidente, na coordenação do treino militar e assistência a rebeldes anti-Assad na Síria. Eles estão bem posicionados para detectar problemas com as políticas turcas na região em direcção ao ISIS.

Mas o mesmo acontece com outras agências de inteligência ocidentais. O silêncio ensurdecedor das autoridades ocidentais em face das revelações do rei Abdullah, levanta questões urgentes sobre a recusa em curso da NATO em tomar medidas para mandar a baixo o patrocínio ao ISIS por um de seus próprios membros.

NATO em férias enquanto um dos seus membros patrocina o ISIS

A INSURGE intelligence entrou em contacto com a NATO para solicitar algum comentário e foi informada por um porta-voz que a aliança responderia “em breve”.

Foram estas as minhas perguntas:

“Minha pergunta é, na esteira desta evidência crescente, o que a NATO vai fazer sobre a Turquia?

Dado que o combate ao ISIS é de alta prioridade, os membros da NATO estarão  a procurar acesso a Yildiz para o interrogar sobre informações secretas sobre os patrocinadores, redes financeiras e estruturas organizacionais do ISIS – das quais Yildiz parece estar intimamente familiarizado?

E será que a NATO começará a tomar medidas para fechar o patrocínio do Estado do ISIS que ocorre no seu próprio meio? “

Às 15h GMT, Daniel Arnaud, chefe da media operations da NATO, finalmente respondeu com um e-mail onde explicou, essencialmente, que a NATO está de férias:

Ontem foi feriado nacional e hoje muitas pessoas estão fora. Responderemos às suas pergunta na próxima semana.”

É assim que se luta a ‘guerra contra o Daesh’.

Após o relatório do MEE, o governo da Jordânia emitiu uma declaração oficial em que negou que o rei tenha acusado a Turquia de exportar o terror para a Europa. No entanto, o relato do MEE baseou-se numa fonte credível, directamente familiarizada com a reunião do Congresso.

Dois meses após os avisos do Rei Abdullah sobre as portas fechadas em Capitol Hill, vários tribunais turcos inexplicavelmente libertaram agentes de alto nível do ISIS que tinham sido presos e acusados. Entre eles estava Abu Hanzala, o nome de guerra de Halis Bayancuk, e seus associados.

Acredita-se que Hanzala seja o comandante sénior da ISIS na Turquia, e foi apanhado com armas e munição quando foi preso. Ele foi descrito pelo operacional do ISIS, Savas Yildiz, como uma importante figura clerical nas operações turcas do ISIS, responsável por promover suas doutrinas teológicas e recrutar centenas de combatentes.

Graças à decisão do Supremo Tribunal Penal de Istambul de 24 de Março, o próprio ‘Abu Bakr al-Baghdadi’  está agora livre para tramar mais terror. Não apenas ele, mas um total de 94 supostos agentes da ISIS que foram libertados.

Enquanto isso, a NATO faz uma pausa para um longo fim de semana, e pode ou não decidir responder-me.

Sob Erdogan, o Daesh está a metastatizar

O perigo para a Europa, da escalada do apoio da Turquia ao ISIS, foi destacado depois do fracasso do golpe militar contra a presidência de Erdogan. Este respondeu ao golpe com o lançamento do seu próprio contra-golpe contra as instituições democráticas da Turquia.

De acordo com uma declaração do Congresso Nacional Curdo (KNC), uma coligação de organizações curdas de toda a Europa composta por políticos, advogados e líderes exilados da sociedade civil curdos, as acções de Erdogan estão a alimentar uma forma de “nacionalismo sectário” que “criará um ISIS turco.”

O AKP, partido de Erdogan, “espera agora fortalecer a sua compreensão sobre o poder e seu sistema anti-curdo e antidemocrático”, alertou o KNC:

Assim como esta tentativa de golpe encorajou o AKP, os seus aliados e os nacionalistas, também radicalizaram os círculos sectários nacionalistas próximos ao AKP. Isto levará a uma nova raça de formações ISIS turcas, como o Osmanli Ocaklari, grupo paramilitar organizado pelo próprio Erdogan.”

O KNC também adverte que Osmanli Ocaklari está a chegar ao ISIS enquanto desenvolve conexões por toda a Europa: “Eles já estão a organizar-se em países europeus; os links entre eles e o ISIS já estão a ser discutidos. Estas tendências nacionalistas sectárias irão radicalizar e tornar-se forças repressivas contra qualquer oposição ao AKP.

O KNC adverte que sob o guarda-chuva ideológico e político do AKP, o nacionalismo sectário se tornará “na versão turca do ISIS … uma versão mais radical da Irmandade Muçulmana” usada para projectar poder em toda a região.

 

 

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