A Arte da Omissao

Simulacro de paz

Tradução do artigo Simulacre de paix de Thierry Meyssan

Ao mesmo tempo que o cessar-fogo na Síria, assinado pelo secretário de Estado Norte Americano e o seu homólogo russo, parecia estar assegurado – excepto a tentativa de Israel no primeiro dia -, o Pentágono ataca pela segunda vez o exército árabe sírio. Ele garante que foi um erro, mas a reacção do embaixador na ONU deixa pensar que se trata da execução de um plano. Que jogo está  Washington a jogar?

| Damasco (Síria) | 20 de Setembro de 2016

Stakeout by Ambassador Samantha Power, Permanent Representative of the United States of America and President of the Security Council for the month of September after briefing on the United Nations Mission in Liberia

Ao negociar um cessar-fogo com os Estados Unidos, a Rússia sabia que eles não iriam respeitar mais do que respeitaram os anteriores.  Mas Moscovo esperava avançar no sentido do reconhecimento de um mundo multipolar. Washington, por sua vez, colocou à frente o final da presidência de Obama para justificar o acordo de última hora.

Deixemos de lado a tentativa israelita de tirar proveito da trégua para atacar Damasco e os montes de Golã. Tel Aviv teve de enfrentar lançamentos de mísseis da nova geração, perdeu um avião e teve que reparar um segundo. Parece que a Síria está agora numa posição para desafiar o domínio aéreo de Israel na região.

Deixemos igualmente de lado os chefes de Estados e governos europeus que ao aplaudirem o acordo sem saber o seu conteúdo se expuseram ao ridículo. 

Vamos aos factos: o comboio humanitário da ONU estava cheio de armas e munições. Ele espera na fronteira com a Turquia, oficialmente porque a estrada não é segura, mas oficiosamente porque a Síria quer revistá-lo antes de o deixar avançar.

Esta forma de actuação das Nações Unidas corresponde às revelações do antigo chefe do Serviço de anti-terrorismo turco, Ahmet Sait Yayla: o Pentágono e a Turquia usam os comboios humanitários para armar os jihadistas.

De seguida, o Pentágono atacou uma posição estática síria em Deir ez-Zor. Pararam o ataque quando a Rússia o alertou para o seu “erro”. Permitiram assim que os jihadistas continuassem o ataque através da via que lhes abriram.

Estrategicamente, impedir que o exército Árabe Sírio libertasse a governação de Deir ez-Zor foi  permitir que o Daesh continuasse com o seu papel de obstáculo  na rota Damasco-Bagdad-Teeão. No passado, o Pentágono deixou que o  Daesh se instalasse em Palmira, a etapa  histórica da “Rota da Seda“. Hoje, a estrada continua cortada no lado iraquiano pelos jihadistas, mas poderia ser contornada através de Deir ez-Zor se os iraquianos libertassem Mossul.

Do ponto de vista dos EUA, o acordo foi apenas uma maneira de ganhar tempo, para financiar os jihadistas e  retomar a guerra. Revertendo a situação diplomaticamente, a Rússia convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança, o que causou pânico em Washington. Na verdade, este período não corresponde só ao fim do mandato de Obama, mas, também, à realização da sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Claramente preocupado, o embaixador dos EUA no Conselho de Segurança, Samantha Power, deixou a sala do Conselho em plena sessão para falar com repórteres. Ela esperava com isto, que os primeiros despachos das agências noticiosas abordassem apenas o ponto de vista dos EUA. Ela ironizou «a encenação» russa acerca do que não passaria de um simples «incidente» de ataque (62 mortos e uma centena de feridos!).  Depois, Samantha Power lançou uma critica severa sobre os crimes muito mais graves do regime de Damasco. Alertado da manipulação, o embaixador russo, Vitaly Churkin, abandona também a sala do Conselho para transmitir  os seus pontos de vista aos jornalistas. Cautelosos, os jornalistas, a quem a Câmara dos Comuns britânica tinha relembrado as mentiras da Srª Power  a propósito dos supostos crimes de Muammar Gaddafi, reportaram as duas intervenções.

Doravante, a Rússia vai empurrar a sua vantagem diplomática: os Estados Unidos foram apanhados em flagrante delito traiçoeiro. Moscovo poderia, portanto, usar a Assembleia Geral para anunciara  sua vontade de acabar com os jihadistas. A manipulação dos Estados Unidos  irá virar-se contra aqueles que a fabricaram. Washington só terá duas opções: ou se envolver num confronto aberto que não lhe interessa,  ou aceitar que os seus protegidos percam a partida.

 

Nota: Links desta cor são da minha responsabilidade

Continuamos a assistir ao genocídio do povo Sírio, e não há nem um pestanejar do Tribunal Internacional de Justiça, sobre os que estão na base do mesmo

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