A Arte da Omissao

A banca, os banqueiros e os administradores bancários

Sob suspeita.

Recordam-se de 2008? Da crise do subprime? Dos derivados tóxicos? Dos swaps? Dos produtos financeiros vendidos como depósitos a prazo que afinal eram participações em Fundos especulativos? Da “cartelização” da LIBOR entre 15 grandes bancos?

Banqueiros e administradores bancários assaltam o povo

E têm presentes as declarações dos Políticos, dos Reguladores, dos próprios banqueiros, assegurando que não “passava nada” e estava tudo na santa paz do Senhor? E das classificações triplo A+ atribuídas pelas três principais Agências de Notação Financeira a bancos, instituições de crédito e seguradoras que faliram no dia seguinte devido a carteiras de crédito incobráveis, frutos da imaginação delirante dos seus quadros?

Por fim, lembram-se do mega-esquema de Ponzi montado pela Banca e que teve como base a emissão indiscriminada de “moeda” – ficcional – chamada “crédito”? Crédito a empresas de obras públicas, crédito a estados para as parcerias público-privadas, crédito às empresas de construção civil para comprar terrenos e aí construir edifícios, para habitação ou escritórios, e crédito aos incautos que os compraram assim gerando enormes “bolhas” imobiliárias?

Recordam-se, decerto, que durante este processo, e em resultado dele, houve muitos que enriqueceram subitamente em consequência dos prémios e comissões recebidos por estes negócios leoninos e de legalidade duvidosa? Contabilidades forjadas, fictícias, serviram para justificar a distribuição de dividendos tipo “Barbie & Ken” a accionistas que não o eram de facto por administradores vestidos com collants de licra – típicos dos super-heróis da Marvel – que se atribuíram prémios, vencimentos e benesses a que de facto não teriam direito se tudo isto não se passasse no País de Lilliput?

Lucros privados, públicos prejuízos

Por fim, lembram-se de quem foi chamado a pagar os buracos financeiros, as rupturas de liquidez e, agora, o crédito mal-parado das carteiras dos incobráveis legados pelos senhores administradores? E de a que porta foram bater para manter os respectivos “El Dorado” pessoais, patrimoniais, não-raro colocados em paraísos fiscais off shore?

Este mega-embuste não se tratou de uma sucessão de acasos infelizes nem de má sorte ou sequer de erros aleatórios de gestão dos seus protagonistas. Houve efeitos económicos, jurídicos e políticos. E sociais. Sobretudo sociais, traduzidos nos números amargos do desemprego, das falências, da proliferação geométrica da miséria, dos suicídios, das mortes por desistência de viver, das provocadas pela falta de dinheiro para pagar os transportes até à assistência médica, das ocasionadas pela suspensão de terapêuticas crónicas devido ao confronto com a escolha entre morrer de fome ou da interrupção dos medicamentos.

Por causa destes cavalheiros o “elevador” social passou a servir apenas para “descer”. O “contrato social” foi unilateralmente quebrado. A Civilização regrediu alguns séculos em termos ideológicos. A paz social foi posta em causa pela enorme massa de indivíduos da classe média que foram alvo de um processo de empobrecimento acelerado. A marginalidade, o crime, os índices de violência, o stress permanente, produziram efeitos devastadores para muitas décadas. Como sabiamente disse Pacheco Pereira: “Passos Coelho e o seu Governo salgaram o país para muitos anos”. Num passe de mágica, plasmado na ganância, as “pessoas” deixaram de ser uma variável na equação das decisões políticas. As semelhanças com o ideário nazi são aterradoras.

Por razões que só alguns, poucos, saberão estes senhores estão todos em Liberdade, conservam o resultado do gigantesco esbulho que praticaram e no conforto dele vivem, mantêm os seus cargos, olimpicamente remunerados. Não obstante, a única dúvida que subsiste a seu respeito é entre uma putativa incompetência e a prática, reiterada e dolosa, de peculato, falsificação de contas e documentos, gestão danosa, fuga ao fisco e associação criminosa.

Bancos bons e bancos maus?

Não me parece. As más práticas são comuns, correntes e recorrentes em todos os Bancos. Foram antes e voltam a sê-lo agora que a tempestade amainou. O BPI apenas passou entre os pingos da chuva sem ir à “prova dos nove” devido à batalha pelo controle entre dois dos seus accionistas: Isabel dos Santos e La Caja.

O sr. Ulrich merece-me tanto crédito como o sr. Santos Ferreira, o sr. Espírito Santo, o sr. Roquete e “sus muchachas“, o sr. João Rendeiro ou mesmo o sr. Oliveira e Costa, acolitado pela “equipagem” cavaquista. Lembremos que também teve de recorrer ao capital público para sobreviver.

Em consequência, os administradores transferidos do BPI para a CGD não merecem qualquer crédito “chez moi”. Nada prova que sejam especialmente competentes ou dotados de uma probidade acima da dos seus pares dos falidos BPN, BPP, BES e BANIF.

Considerando o exposto acima não me ocorre outra coisa que não seja uma suspeita agravada pela recusa obstinada em apresentar as declarações de interesses, rendimentos e património ao Tribunal Constitucional. Até prova em contrário, do meu ponto de vista, são incompetentes ou gestores com más práticas visando ganhos pessoais.

Estão sob suspeita, sim senhor! Têm de provar primeiro? Também! Ou então esta nomeação será difícil de distinguir das anteriores, exclusivamente motivadas por razões políticas. Os administradores da CGD devem auferir uma remuneração competitiva, de mercado. De acordo. Há que reduzir, então, drasticamente as remunerações dos restantes que padecem das mesmas legítimas suspeições e não subir as da CGD. Arrestar alguns bens, à cautela, também não me pareceria deslocado. Just in case…

Tornado
Texto: João de Sousa
7 Novembro, 2016

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One comment on “A banca, os banqueiros e os administradores bancários

  1. Rafael
    21 de Novembro de 2016

    Muito bom texto!

    Gostar

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