A Arte da Omissao

Locais secretos da CIA na Somália – 2ª parte

Em 2009, quando o Presidente Obama fez campanha, “prometeu” que iria fechar a prisão de Guantanamo Bay. O tempo passou, e a prisão ainda funciona.

Numa investigação tornada pública pelo The Nation Magazine, em Janeiro de 2014, o jornalista independente Jeremy Scahill e correspondente  da Democracy Now!, revelou que a CIA tem uma instalação secreta na Somália na luta “contra” o terrorismo, bem como uma prisão subterrânea na capital Somali de Mogadíscio. Scahill diz ainda que a CIA está a treinar uma nova força Somali, para conduzir operações em áreas controladas pelo grupo militante, Al Shabab em Mogadíscio. Enquanto um oficial do U.S.A disse à The Nation que a CIA não gere nenhuma prisão, no entanto reconhece que é ela quem paga os salários dos agentes na Somali.

Rendições, uma prisão subterrânea e uma nova base da CIA são elementos de uma intensificada guerra dos EUA, de acordo com uma investigação do The Nation em Mogadíscio.

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 1ª parte

2ª parte

3ª parte

Clara Gutteridge, investigadora veterana em direitos humanos e que trabalhou extensivamente no rastreio de desaparecimentos de suspeitos de terrorismo no Quénia, foi deportada do Quénia a 11 de Maio.

A prisão subterrânea onde Hassan presumivelmente tem sido mantido preso, está alojada no mesmo edifício, outrora ocupado pela agência do Serviço Nacional de Segurança da Somália (NSS), durante o regime militar de Siad Barre, que governou a Somália de 1969 a 1991. O ex-prisioneiro que conheceu Hassan disse ter visto o velho sinal do NSS. Durante o regime de Barre, o notório cárcere e centro de interrogatório, que fica atrás do palácio presidencial em Mogadíscio, era o elemento básico do aparato da repressão do Estado. Era o Godka, “O buraco”.

“O bunker está lá, e é aí que a agência dos serviços secretos interroga as pessoas”, diz Abdirahman “Aynte” Ali, um analista somali que pesquisou as forças de segurança Shabab e Somali.

“Quando a CIA e outras agências de serviços secretos – que estão hoje em Mogadíscio – querem interrogar essas pessoas, geralmente fazem-no.” Os oficiais somalis “começam o interrogatório, mas depois as agências de inteligência estrangeiras, americanas e francesas, eventualmente também fazem seu próprio interrogatório“. O oficial norte-americano disse que os “interrogatórios” que os agentes dos EUA faziam nas instalações “eram raros” e sempre em conjunto com agentes somalis.

Alguns prisioneiros, como Hassan, alegadamente foram presos em Nairobi, enquanto que em outros casos, segundo Aynte, “os EUA e outras agências de inteligência notificavam a agência de inteligência somali, que algumas pessoas, alguns suspeitos, pessoas que estiveram em contato com a liderança do Al Shabab, estavam a caminho de Mogadíscio num avião [comercial] e, que estivessem no aeroporto para os recolher. Peguem neles  e  interroguem-nos.”

Nos dezoito anos desde o infame incidente de “Black Hawk Down” em Mogadíscio, a política dos EUA na Somália foi marcada por negligência, erros de cálculo e tentativas fracassadas de usarrm senhores da guerra para construir uma capacidade antiterrorista indígena, muitas das quais com impacto dramático.

Em grande parte por causa dos abusos cometidos pelas milícias somalis que a CIA apoiou, da política dos EUA em fortalecer a mão dos próprios grupos que pretende opor-se e, inadvertidamente, ajudar o surgimento de grupos militantes, onde se inclui o Shabab. Muitos somalis encararam o movimento islâmico conhecido como Islamic Courts Unio (ICU), que derrotou os chefes da CIA em Mogadíscio em 2006, como uma força estabilizadora, embora implacável. (201- Ao reler este artigo, revejo o que se passa na Eurásia-Ndt)

A ICU foi desmantelada numa invasão etíope apoiada pelos EUA em 2007. Ao longo dos anos, uma série de administrações somalis fracas foram reconhecidas pelos Estados Unidos e outras potências como governos legítimos da Somália. Ironicamente, o seu atual presidente é um ex-líder da ICU.

Hoje, as forças do governo somali controlam cerca de trinta milhas quadradas do território em Mogadíscio, graças em grande parte à força AMISOM, financiada e equipada pelos EUA, com 9.000 membros. Grande parte do resto da cidade está sob o controle do Shabab ou dos senhores da guerra. Sem armas, o Shabab tem confiado cada vez mais nos cavilhas de roda das guerras assimétricas – atentados suicidas, bombas nas estradas e assassinatos direcionados. O grupo militante mostrou repetidamente que pode atacar profundamente o coração do território dos seus inimigos. A 9 de junho, num de seus atentados suicidas mais espectaculares, o Shabab assassinou o ministro de assuntos internos e da segurança nacional do governo somali, Abdishakur Sheikh Hassan Farah, atacado na sua residência pela sua sobrinha.

Quando o ministro passava pela universidade, a rapariga explodiu-se e feriu o seu tio, acabando por morrer horas depois no hospital. Farah foi o quinto ministro somali morto pelo Shabab nos últimos dois anos e o décimo sétimo oficial assassinado desde 2006. Entre os homens-bomba que o Shabab implantou estavam pelo menos três cidadãos americanos de origem somali; pelo menos outros sete americanos morreram ao lutar ao lado do Shabab, facto que não passou despercebido em Washington nem em Mogadíscio.

Em Junho, o vice-Almirante William McRaven, durante as audiências da confirmação para se tornar o chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA, disse para expandir os “ataques cinéticos” bem-sucedidos, os Estados Unidos terão que aumentar o uso de drones, bem como operações de inteligência, vigilância e reconhecimento no terreno. “Qualquer expansão de mão-de-obra terá de vir com uma expansão proporcional de capacitadores”. A expansão do programa contra o terrorismo dos EUA em Mogadíscio parece fazer parte desse esforço.

Abdulkadir Moallin Noor, ministro de Estado para a presidência, numa entrevista que deu à The Nation em Mogadíscio, confirmou que os agentes dos EUA “estão a trabalhar com os nossos serviços secretos” e “estão a treiná-los”. No que diz respeito ao esforço antiterrorismo dos EUA, Noor disse “precisamos de mais; caso contrário, os terroristas tomarão conta do país”.

Não está claro quanto ao controlo, se houver, do presidente  da Somália  internacionalmente reconhecido, o Xeque Sharif Sheikh Ahmed tem sobre essa força antiterrorismo ou se está totalmente informado sobre as suas operações. O pessoal da CIA e outros agentes da inteligência dos EUA “não se preocupam em estar em contacto com a liderança política do país. E isso diz muito sobre as intenções “, refere Aynte. “Essencialmente, a CIA parece estar a operar e a implementar a  política externa dos Estados Unidos. Deve ter havido pessoas do Departamento de Estado a fazer política externa, mas a CIA parece estar a fazê-lo em todo o país.

Enquanto os funcionários somalis entrevistados para este artigo, disseram que a CIA é a principal agência norte-americana no programa antiterrorista de Mogadíscio, também indicaram que os agentes da inteligência militar dos EUA também estão envolvidos. Quando questionados se  são do JSOC ou da Agência de Inteligência da Defesa, o alto funcionário da inteligência somali respondeu: “Nós não sabemos. Eles não nos dizem. “

Em Abril, Ahmed Abdulkadir Warsame, um homem somali que os Estados Unidos alegaram ter  ligações com o Shabab (grupo militante islâmico com base  na Somália alinhado com a Al-Qaeda-NdT), foi capturado pelas forças do JSOC no Golfo de Áden. Ele foi mantido incomunicável num navio da Marinha dos EUA por mais de dois meses; Em Julho foi transferido para Nova Iorque e acusado de terrorista. O caso de Warsame acendeu um debate legal sobre as políticas do governo Obama na captura e detenção de suspeitos de terrorismo, em particular à luz do alargamento das campanhas contra o terrorismo na Somália e no Iémen.

No dia 23 de Junho, os Estados Unidos levaram a cabo uma batida com drones contra supostos membros do Shabab perto de Kismayo, a 300 quilómetros da capital somali. Tal como na operação de Nabhan, uma equipe da JSOC usando helicópteros, supostamente apanharam os corpos dos mortos e feridos. Os homens foram levados para um local não revelado. A 6 de Julho, mais três ataques dos EUA apontaram para os campos de treino de Shabab na mesma área. Analistas somalis alertaram que, se os bombardeamentos americanos causassem mortes civis, como no passado, ocasionariam, um aumento ao apoio ao Shabab. Questionado na entrevista que deu ao The Nation  em Mogadishu,  se as batidas dos EUA com drones reforçarem ou enfraquecerem o seu governo, o presidente Sharif respondeu, “ambas e ao mesmo tempo. Para a nossa soberania, não é bom atacar um país soberano. Essa é a parte negativa. A parte positiva é que se visam indivíduos que são criminosos”.

Uma semana após o ataque de 23 de Junho, o conselheiro-chefe contra terrorismo do presidente Obama, John Brennan, descreveu uma estratégia emergente dos EUA que se concentraria não em “desdobrar grandes exércitos no exterior, mas no fornecimento de pressão cirúrgica direccionada aos grupos que nos ameaçam”. Em relação ao Shabab, destacou: “A partir do território que controla na Somália, Al Shabab continua fomentar ataques contra os Estados Unidos”, acrescentou ainda: “Não podemos e não vamos baixar a guarda. Continuaremos a bombardear a Al-Qaeda e os seus amigos “.

Nota: links e realces desta cor são da minha responsabilidade

Fonte: The CIA’s Secret Sites in Somalia

 

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This entry was posted on 29 de Novembro de 2016 by in A arte da Guerra, Somália, USA and tagged , , , , .

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